Os Lusíadas

Part 5

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116 "Não matou a quarta parte o forte Mário Dos que morreram neste vencimento, Quando as águas co'o sangue do adversário Fez beber ao exército sedento; Nem o Peno asperíssimo contrário Do Romano poder, de nascimento, Quando tantos matou da ilustro Roma, Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

117 "E se tu tantas almas só pudeste Mandar ao Reino escuro de Cocito, Quando a santa Cidade desfizeste Do povo pertinaz no antigo rito: Permissão e vingança foi celeste, E não força de braço, ó nobre Tito, Que assim dos Vates foi profetizado, E depois por Jesu certificado.

118 "Passada esta tão próspera vitória, Tornando Afonso à Lusitana terra, A se lograr da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória, Que do sepulcro os homens desenterra, Aconteceu da mísera e mesquinha Que depois de ser morta foi Rainha.

119 "Tu só, tu, puro Amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga, É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano.

120 "Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.

121 "Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus fermosos se apartavam: De noite em doces sonhos, que mentiam, De dia em pensamentos, que voavam. E quanto enfim cuidava, e quanto via, Eram tudo memórias de alegria.

122 "De outras belas senhoras e Princesas Os desejados tálamos enjeita, Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza, Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas O velho pai sesudo, que respeita O murmurar do povo, e a fantasia Do filho, que casar-se não queria,

123 "Tirar Inês ao mundo determina, Por lhe tirar o filho que tem preso, Crendo co'o sangue só da morte indina Matar do firme amor o fogo aceso. Que furor consentiu que a espada fina, Que pôde sustentar o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada Contra uma fraca dama delicada?

124 "Traziam-na os horríficos algozes Ante o Rei, já movido a piedade: Mas o povo, com falsas e ferozes Razões, à morte crua o persuade. Ela com tristes o piedosas vozes, Saídas só da mágoa, e saudade Do seu Príncipe, e filhos que deixava, Que mais que a própria morte a magoava,

125 "Para o Céu cristalino alevantando Com lágrimas os olhos piedosos, Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Um dos duros ministros rigorosos; E depois nos meninos atentando, Que tão queridos tinha, e tão mimosos, Cuja orfandade como mãe temia, Para o avô cruel assim dizia:

126 --"Se já nas brutas feras, cuja mente Natura fez cruel de nascimento, E nas aves agrestes, que somente Nas rapinas aéreas têm o intento, Com pequenas crianças viu a gente Terem tão piedoso sentimento, Como coa mãe de Nino já mostraram, E colos irmãos que Roma edificaram;

127 --"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito (Se de humano é matar uma donzela Fraca e sem força, só por ter sujeito O coração a quem soube vencê-la) A estas criancinhas tem respeito, Pois o não tens à morte escura dela; Mova-te a piedade sua e minha, Pois te não move a culpa que não tinha.

128 --"E se, vencendo a Maura resistência, A morte sabes dar com fogo e ferro, Sabe também dar vicia com clemência A quem para perdê-la não fez erro. Mas se to assim merece esta inocência, Põe-me em perpétuo e mísero desterro, Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente, Onde em lágrimas viva eternamente.

129 "Põe-me onde se use toda a feridade, Entre leões e tigres, e verei Se neles achar posso a piedade Que entre peitos humanos não achei: Ali com o amor intrínseco e vontade Naquele por quem morro, criarei Estas relíquias suas que aqui viste, Que refrigério sejam da mãe triste."--

130 --Morte de Inês de Castro "Queria perdoar-lhe o Rei benino, Movido das palavras que o magoam; Mas o pertinaz povo, e seu destino (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. Arrancam das espadas de aço fino Os que por bom tal feito ali apregoam. Contra uma dama, ó peitos carniceiros, Feros vos amostrais, e cavaleiros?

131 "Qual contra a linda moça Policena, Consolação extrema da mãe velha, Porque a sombra de Aquiles a condena, Co'o ferro o duro Pirro se aparelha; Mas ela os olhos com que o ar serena (Bem como paciente e mansa ovelha) Na mísera mãe postos, que endoudece, Ao duro sacrifício se oferece:

132 "Tais contra Inês os brutos matadores No colo de alabastro, que sustinha As obras com que Amor matou de amores Aquele que depois a fez Rainha; As espadas banhando, e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha, Se encarniçavam, férvidos e irosos, No futuro castigo não cuidosos.

133 "Bem puderas, ó Sol, da vista destes Teus raios apartar aquele dia, Como da seva mesa de Tiestes, Quando os filhos por mão de Atreu comia. Vós, ó côncavos vales, que pudestes A voz extrema ouvir da boca fria, O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes, Por muito grande espaço repetisses!

134 "Assim como a bonina, que cortada Antes do tempo foi, cândida e bela, Sendo das mãos lascivas maltratada Da menina que a trouxe na capela, O cheiro traz perdido e a cor murchada: Tal está morta a pálida donzela, Secas do rosto as rosas, e perdida A branca e viva cor, coa doce vida.

135 "As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram, E, por memória eterna, em fonte pura As lágrimas choradas transformaram; O nome lhe puseram, que inda dura, Dos amores de Inês que ali passaram. Vede que fresca fonte rega as flores, Que lágrimas são a água, e o nome amores.

136 "Não correu muito tempo que a vingança Não visse Pedro das mortais feridas, Que, em tomando do Reino a governança, A tomou dos fugidos homicidas. Do outro Pedro cruíssimo os alcança, Que ambos, imigos das humanas vidas, O concerto fizeram, duro e injusto, Que com Lépido e António fez Augusto.

137 "Este, castigador foi rigoroso De latrocínios, mortes e adultérios: Fazer nos maus cruezas, fero e iroso, Eram os seus mais certos refrigérios. As cidades guardando justiçoso De todos os soberbos vitupérios, Mais ladrões castigando à morte deu, Que o vagabundo Aleides ou Teseu.

138 "Do justo e duro Pedro nasce o brando, (Vede da natureza o desconcerto!) Remisso, e sem cuidado algum, Fernando, Que todo o Reino pôs em muito aperto: Que, vindo o Castelhano devastando As terras sem defesa, esteve perto De destruir-se o Reino totalmente; Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.

139 "Ou foi castigo claro do pecado De tirar Lianor a seu marido, E casar-se com ela, de enlevado Num falso parecer mal entendido; Ou foi que o coração sujeito e dado Ao vício vil, de quem se viu rendido, Mole se fez e fraco; e bem parece, Que um baixo amor os fortes enfraquece.

140 "Do pecado tiveram sempre a pena Muitos, que Deus o quis, e permitiu: Os que foram roubar a bela Helena, E com Apio também Tarquilio o viu. Pois por quem David Santo se condena? Ou quem o Tribo ilustre destruiu De Benjamim? Bem claro no-lo ensina Por Sara Faraó, Siquém por Dina.

141 "E pois se os peitos fortes enfraquece Um inconcesso amor desatinado, Bem no filho de Alcmena se parece, Quando em Ônfale andava transformado. De Marco António a faina se escurece Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado. Tu também, Peno próspero, o sentiste Depois que uma moça vil na Apúlia viste.

142 "Mas quem pode livrar-se por ventura Dos laços que Amor arma brandamente Entre as rosas e a neve humana pura, O ouro e o alabastro transparente? Quem de uma peregrina formosura, De um vulto de Medusa propriamente, Que o coração converte, que tem preso, Em pedra não, mas em desejo aceso?

143 "Quem viu um olhar seguro, um gesto brando, Uma suave e angélica excelência, Que em si está sempre as almas transformando, Que tivesse contra ela resistência? Desculpado por certo está Fernando, Para quem tem de amor experiência; Mas antes, tendo livre a fantasia, Por muito mais culpado o julgaria.

Canto Quarto

1 "Depois de procelosa tempestade, Noturna sombra e sibilante vento, Traz a manhã serena claridade, Esperança de porto e salvamento; Aparta o sol a negra escuridade, Removendo o temor do pensamento: Assim no Reino forte aconteceu, Depois que o Rei Fernando faleceu.

2 "Porque, se muito os nossos desejaram Quem os danos e ofensas vá vingando Naqueles que tão bem se aproveitaram Do descuido remisso de Fernando, Depois de pouco tempo o alcançaram, Joane, sempre ilustre, alevantando Por Rei, como de Pedro único herdeiro, (Ainda que bastardo) verdadeiro.

3 "Ser isto ordenação dos céus divina, Por sinais muito claros se mostrou, Quando em Évora a voz de uma menina, Ante tempo falando o nomeou; E como cousa enfim que o Céu destina, No berço o corpo e a voz alevantou: --"Portugal! Portugal!" alçando a mão Disse "pelo Rei novo, Dom João."--

4 "Alteradas então do Reino as gentes Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha, Absolutas cruezas e evidentes Faz do povo o furor por onde vinha; Matando vão amigos e parentes Do adúltero Conde e da Rainha, Com quem sua incontinência desonesta Mais (depois de viúva) manifesta.

5 "Mas ele enfim, com causa desonrado, Diante dela a ferro frio morre, De outros muitos na morte acompanhado, Que tudo o fogo erguido queima e corre: Quem, como Astianás, precipitado, (Sem lhe valerem ordens) de alta torre, A quem ordens, nem aras, nem respeito; Quem nu por ruas, e em pedaços feito.

6 "Podem-se pôr em longo esquecimento As cruezas mortais que Roma viu Feitas do feroz Mário e do cruento Sila, quando o contrário lhe fugiu. Por isso Lianor, que o sentimento Do morto Conde ao mundo descobriu, Faz contra Lusitânia vir Castela, Dizendo ser sua filha herdeira dela.

7 "Beatriz era a filha, que casada Co'o Castelhano está, que o Reino pede, Por filha de Fernando reputada, Se a corrompida fama lhe concede. Com esta voz Castela alevantada, Dizendo que esta filha ao pai sucede, Suas forças ajunta para as guerras De várias regiões e várias terras.

8 Vem de toda a província que de um Brigo (Se foi) já teve o nome derivado; Das terras que Fernando e que Rodrigo Ganharam do tirano e Mauro estado. Não estimam das armas o perigo Os que cortando vão co'o duro arado Os campos Lioneses, cuja gente C'os Mouros foi nas armas excelente.

9 "Os Vândalos, na antiga valentia Ainda confiados, se ajuntavam Da cabeça de toda Andaluzia, Que do Guadalquibir as águas lavam. A nobre Ilha também se apercebia, Que antigamente os Tírios habitavam, Trazendo por insígnias verdadeiras As Hercúleas colunas nas bandeiras.

10 "Também vem lá do Reino de Toledo, Cidade nobre e antiga, a quem cercando O Tejo em torno vai suave e ledo Que das serras de Conca vem manando. A vós outros também não tolhe o medo, Ó sórdidos Galegos, duro bando, Que para resistirdes vos armastes, Aqueles, cujos golpes já provasses.

11 "Também movem da guerra as negras fúrias A gente Biscainha, que carece De polidas razões, e que as injúrias Muito mal dos estranhos compadece. A terra de Guipúscua e das Astúrias, Que com minas de ferro se enobrece, Armou dele os soberbos moradores, Para ajudar na guerra a seus senhores.

12 "Joane, a quem do peito o esforço cresce, Como a Sansão Hebréio da guedelha, Posto que tudo pouco lhe parece, Co'os poucos de seu Reino se aparelha; E não porque conselho lhe falece, Co'os principais senhores se aconselha, Mas só por ver das gentes as sentenças: Que sempre houve entre muitos diferenças.

13 "Não falta com razões quem desconcerte Da opinião de todos, na vontade, Em quem o esforço antigo se converte Em desusada e má deslealdade; Podendo o temor mais, gelado, inerte, Que a própria e natural fidelidade: Negam o Rei e a pátria, e, se convém, Negarão (como Pedro) o Deus que têm.

14 "Mas nunca foi que este erro se sentisse No forte Dom Nuno Alvares; mas antes, Posto que em seus irmãos tão claro o visse, Reprovando as vontades inconstantes, Aquelas duvidosas gentes disse, Com palavras mais duras que elegantes, A mão na espada, irado, e não facundo, Ameaçando a terra, o mar e o mundo:

15 --"Como! Da gente ilustre Portuguesa Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?, Como! Desta província, que princesa Foi das gentes na guerra em toda a parte, Há-de sair quem negue ter defesa? Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte De Português, e por nenhum respeito O próprio Reino queira ver sujeito?

16 --"Como! Não seis vós inda os descendentes Daqueles, que debaixo da bandeira Do grande Henriques, feros e valentes, Vencestes esta gente tão guerreira? Quando tantas bandeiras, tantas gentes Puseram em fugida, de maneira Que sete ilustres Condes lhe trouxeram Presos, afora a presa que tiveram?

17 --"Com quem foram contino sopeados Estes, de quem o estais agora vós, Por Dinis e seu filho, sublimados, Senão co'os vossos fortes pais, e avôs? Pois se com seus descuidos, ou pecados, Fernando em tal fraqueza assim vos pôs, Torne-vos vossas forças o Rei novo: Se é certo que co'o Rei se muda o povo.

18 --"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes Igual ao Rei que agora alevantastes, Desbaratareis tudo o que quiserdes, Quanto mais a quem já desbaratasses. E se com isto enfim vos não moverdes Do penetrante medo que tomastes, Atai as mãos a vosso vão receio, Que eu só resistirei ao jugo alheio.

19 --"Eu só com meus vassalos, e com esta (E dizendo isto arranca meia espada) Defenderei da força dura e infesta A terra nunca de outrem sojugada. Em virtude do Rei, da pátria mesta, Da lealdade já por vós negada, Vencerei (não só estes adversários) Mas quantos a meu Rei forem contrários."--

20 Bem como entre os mancebos recolhidos Em Canúsio, relíquias sós de Canas, Já para se entregar quase movidos A fortuna das forças Africanas, Cornélio moço os faz que, compelidos Da sua espada, jurem que as Romanas Armas não deixarão, enquanto a vida Os não deixar, ou nelas for perdida:

21 "Destarte a gente força e esforça Nuno, Que, com lhe ouvir as últimas razões, Removem o temor frio, importuno, Que gelados lhe tinha os corações. Nos animais cavalgam de Neptuno, Brandindo e volteando arremessões; Vão correndo e gritando a boca aberta: --"Viva o famoso Rei que nos liberta!"--

22 "Das gentes populares, uns aprovam A guerra com que a pátria se sustinha; Uns as armas alimpam e renovam, Que a ferrugem da paz gastadas tinha; Capacetes estofam, peitos provam, Arma-se cada um como convinha; Outros fazem vestidos de mil cores, Com letras e tenções de seus amores.

23 "Com toda esta lustrosa companhia Joane forte sai da fresca Abrantes, Abrantes, que também da fonte fria Do Tejo logra as águas abundantes. Os primeiros armígeros regia Quem para reger era os mui possantes Orientais exércitos, sem conto, Com que passava Xerxes o Helesponto.

24 "Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro Açoute de soberbos Castelhanos Como já o fero Huno o foi primeiro Para Franceses, para Italianos. Outro também famoso cavaleiro, Que a ala direita tem dos Lusitanos, Apto para mandá-los, e regê-los, Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.

25 "E da outra ala, que a esta corresponde, Antão Vasques de Almada é capitão, Que depois foi de Abranches nobre Conde, Das gentes vai regendo a sestra mão. Logo na retaguarda não se esconde Das quinas e castelos o pendão, Com Joane, Rei forte em toda parte, Que escurecendo o preço vai de Alarte.

26 "Estavam pelos muros, temerosas, E de um alegre medo quase frias, Rezando as mães, irmãs, damas e esposas, Prometendo jejuns e romarias. Já chegam as esquadras belicosas Defronte das amigas companhias, Que com grita grandíssima os recebem, E todas grande dúvida concebem.

27 "Respondem as trombetas mensageiras, Pífaros sibilantes e atambores; Alférezes volteam as bandeiras, Que variadas são de muitas cores. Era no seco tempo, que nas eiras Ceres o fruto deixa aos lavradores, Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto, Baco das uvas tira o doce mosto.

28 "Deu sinal a trombeta Castelhana, Horrendo, fero, ingente e temeroso; Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana Atrás tornou as ondas de medroso; Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana; Correu ao mar o Tejo duvidoso; E as mães, que o som terríbil escutaram, Aos peitos os filhinhos apertaram.

29 "Quantos rostos ali se vêem sem cor, Que ao coração acode o sangue amigo! Que, nos perigos grandes, o temor É maior muitas vezes que o perigo; E se o não é, parece-o; que o furor De ofender ou vencer o duro amigo Faz não sentir que é perda grande e rara, Dos membros corporais, da vida cara.

30 "Começa-se a travar a incerta guerra; De ambas partes se move a primeira ala; Uns leva a defensão da própria terra, Outros as esperanças de ganhá-la; Logo o grande Pereira, em quem se encerra Todo o valor, primeiro se assinala: Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

31 "Já pelo espesso ar os estridentes Farpões, setas e vários tiros voam; Debaixo dos pés duros dos ardentes Cavalos treme a terra, os vales soam; Espedaçam-se as lanças; e as frequentes Quedas coas duras armas, tudo atroam; Recrescem os amigos sobre a pouca Gente do fero Nuno, que os apouca.

32 "Eis ali seus irmãos contra ele vão, (Caso feio e cruel!) mas não se espanta, Que menos é querer matar o irmão, Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta: Destes arrenegados muitos são No primeiro esquadrão, que se adianta Contra irmãos e parentes (caso estranho!) Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.

33 "Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano, Catilina, e vós outros dos antigos, Que contra vossas pátrias, com profano Coração, vos fizestes inimigos, Se lá no reino escuro de Sumano Receberdes gravíssimos castigos, Dizei-lhe que também dos Portugueses Alguns tredores houve algumas vezes.

34 "Rompem-se aqui dos nossos os primeiros, Tantos dos inimigos a eles vão! Está ali Nuno, qual pelos outeiros De Ceita está o fortíssimo leão, Que cercado se vê dos cavaleiros Que os campos vão correr de Tetuão: Perseguem-no com as lanças, e ele iroso, Torvado um pouco está, mas não medroso.

35 "Com torva vista os vê, mas a natura Ferina e a ira não lhe compadecem Que as costas dê, mas antes na espessura Das lanças se arremessa, que recrescem. Tal está o cavaleiro, que a verdura Tinge co'o sangue alheio; ali perecem Alguns dos seus, que o ânimo valente Perde a virtude contra tanta gente.

36 "Sentiu Joane a afronta que passava Nuno, que, como sábio capitão, Tudo corria e via, e a todos dava, Com presença e palavras, coração. Qual parida leoa, fera e brava, Que os filhos que no ninho sós estão, Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara, O pastor de Massília lhos furtara;

37 "Corre raivosa, e freme, e com bramidos Os montes Sete Irmãos atroa e abala: Tal Joane, com outros escolhidos Dos seus, correndo acode à primeira ala: -"Ó fortes companheiros, ó subidos Cavaleiros, a quem nenhum se iguala, Defendei vossas terras, que a esperança Da liberdade está na vossa lança.

38 -"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro, Que entre as lanças, e setas, e os arneses Dos inimigos corro e vou primeiro: Pelejai, verdadeiros Portugueses!"-- Isto disse o magnânimo guerreiro, E, sopesando a lança quatro vezes, Com força tira; e, deste único tiro, Muitos lançaram o último suspiro.

39 "Porque eis os seus acesos novamente Duma nobre vergonha e honroso fogo, Sobre qual mais com ânimo valente Perigos vencerá do Márcio jogo, Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente; Rompem malhas primeiro, e peitos logo: Assim recebem junto e dão feridas, Como a quem já não dói perder as vidas.

40 "A muitos mandam ver o Estígio lago, Em cujo corpo a morte e o ferro entrava: O Mestre morre ali de Santiago, Que fortíssimamente pelejava; Morre também, fazendo grande estrago, Outro Mestre cruel de Calatrava; Os Pereiras também arrenegados Morrem, arrenegando o Céu e os fados.

41 "Muitos também do vulgo vil sem nome Vão, e também dos nobres, ao profundo, Onde o trifauce Cão perpétua fome Tem das almas que passam deste mundo. E porque mais aqui se amanse e dome A soberba do amigo furibundo, A sublime bandeira Castelhana Foi derribada aos pés da Lusitana.

42 "Aqui a fera batalha se encruece Com mortes, gritos, sangue e cutiladas; A multidão da gente que perece Tem as flores da própria cor mudadas; Já as costas dão e as vidas; já falece O furor e sobejam as lançadas; Já de Castela o Rei desbaratado Se vê, e de seu propósito mudado.

43 "O campo vai deixando ao vencedor, Contente de lhe não deixar a vida. Seguem-no os que ficaram, e o temor Lhe dá, não pés, mas asas à fugida. Encobrem no profundo peito a dor Da morte, da fazenda despendida, Da mágoa, da desonra, e triste nojo De ver outrem triunfar de seu despojo.

44 "Alguns vão maldizendo e blasfemando Do primeiro que guerra fez no mundo; Outros a sede dura vão culpando Do peito cobiçoso e sitibundo, Que, por tomar o alheio, o miserando Povo aventura às penas do profundo, Deixando tantas mães, tantas esposas Sem filhos, sem maridos, desditosas.

45 "O vencedor Joane esteve os dias Costumados no campo, em grande glória; Com ofertas depois, e romarias, As graças deu a quem lhe deu vitória. Mas Nuno, que não quer por outras vias Entre as gentes deixar de si memória Senão por armas sempre soberanas, Para as terras se passa Transtaganas.

46 "Ajuda-o seu destino de maneira Que fez igual o efeito ao pensamento, Porque a terra dos Vândalos fronteira Lhe concede o despojo e o vencimento. Já de Sevilha a Bética bandeira E de vários senhores num momento Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa Obrigados da força Portuguesa.

47 "Destas e outras vitórias longamente Eram os Castelhanos oprimidos, Quando a paz, desejada já da gente, Deram os vencedores aos vencidos, Depois que quis o Padre onipotente Dar os Reis inimigos por maridos As duas ilustríssimas Inglesas, Gentis, formosas, ínclitas princesas.

48 "Não sofre o peito forte, usado à guerra, Não ter amigo já a quem faça dano; E assim não tendo a quem vencer na terra, Vai cometer as ondas do Oceano. Este é o primeiro Rei que se desterra Da Pátria, por fazer que o Africano Conheça, pelas armas, quanto excede A lei de Cristo à lei de Mafamede.

49 "Eis mil nadantes aves pelo argento Da furiosa Tethys inquieta Abrindo as pandas asas vão ao vento, Para onde Alcides pôs a extrema meta. O monte Abila e o nobre fundamento De Ceita toma, e o torpe Mahometa Deita fora, e segura toda Espanha Da Juliana, má, e desleal manha.

50 "Não consentiu a morte tantos anos Que de Herói tão ditoso se lograsse Portugal, mas os coros soberanos Do Céu supremo quis que povoasse. Mas para defensão dos Lusitanos Deixou, quem o levou quem governasse, E aumentasse a terra mais que dantes, Inclita geração, altos Infantes.

51 "Não foi do Rei Duarte tão ditoso O tempo que ficou na suma alteza, Que assim vai alternando o tempo iroso O bem co'o mal, o gosto coa tristeza. Quem viu sempre um estado deleitoso? Ou quem viu em fortuna haver firmeza? Pois inda neste Reino e neste Rei Não ousou ela tanto desta lei.

52 "Viu ser cativo o santo irmão Fernando, Que a tão altas empresas aspirava, Que, por salvar o povo miserando Cercado, ao Sarraceno se entregava. Só por amor da pátria está passando A vida de senhora feita escrava, Por não se dar por ele a forte Ceita: Mais o público bem que o seu respeita.

53 "Codro, porque o inimigo não vencesse, Deixou antes vencer da morte a vida; Régulo, porque a pátria não perdesse, Quis mais a liberdade ver perdida. Este, porque se Espanha não temesse, Ao cativeiro eterno se convida: Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto, Nem os Décios leais fizeram tanto.

54 "Mas Afonso, do Reino único herdeiro, Nome em armas ditoso em nossa Hespéria, Que a soberba do bárbaro fronteira Tornou em baixa e humílima miséria, Fora por certo invicto cavaleiro, Se não quisera ir ver a terra Ibéria. Mas África dirá ser impossíbil Poder ninguém vencer o Rei terríbil.