Os Lusíadas

Part 4

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32 "Ó Progne crua! ó mágica Medeia! Se em vossos próprios filhos vos vingais Da maldade dos pais, da culpa alheia, Olhai que inda Teresa peca mais: Incontinência má, cobiça feia, São as causas deste erro principais: Cila, por uma, mata o velho pai, Esta, por ambas, contra o filho vai.

33 "Mas já o Príncipe claro o vencimento Do padrasto e da iníqua mãe levava; Já lhe obedece a terra num momento, Que primeiro contra ele pelejava. Porém, vencido de ira o entendimento, A mãe em ferros ásperos atava; Mas de Deus foi vingada em tempo breve: Tanta veneração aos pais se deve!

34 "Eis se ajunta o soberbo Castelhano, Para vingar a injúria de Teresa, Contra o tão raro em gente Lusitano, A quem nenhum trabalho agrava ou pesa. Em batalha cruel o peito humano, Ajudado da angélica defesa, Não só contra tal fúria se sustenta, Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

35 "Não passa muito tempo, quando o forte Príncipe em Guimarães está cercado De infinito poder; que desta sorte Foi refazer-se o inimigo magoado; Mas, com se oferecer à dura morte O fiel Egas amo, foi livrado; Que de outra arte pudera ser perdido, Segundo estava mal apercebido.

36 "lulas o leal vassalo, conhecendo Que seu senhor não tinha resistência, Se vai ao Castelhano, prometendo Que ele faria dar-lhe obediência. Levanta o inimigo o cerco horrendo, Fiado na promessa e consciência De Egas Moniz; mas não consente o peito Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

37 "Chegado tinha o prazo prometido, Em que o Rei Castelhano já aguardava Que o Príncipe, a seu mando sometido, Lhe desse a obediência que esperava. Vendo Egas que ficava fementido, O que dele Castela não cuidava, Determina de dar a doce vida A troco da palavra mal cumprida.

38 "E com seus filhos e mulher se parte A alevantar com eles a fiança, Descalços e despidos, de tal arte, Que mais move a piedade que a vingança. --"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te De minha temerária confiança, Dizia, eis aqui venho oferecido A te pagar, coa vida, o prometido.

39 "Vês aqui trago as vidas inocentes Dos filhos sem pecado e da consorte; Se a peitos generosos e excelentes, Dos fracos satisfaz a fera morte. Vês aqui as mãos e a língua delinquentes: Nelas sós exprimenta toda a sorte De tormentos, de mortes, pelo estilo De Cínis e do touro de Perilo"!--

40 "Qual diante do algoz o condenado, Que já na vida a morte tem bebido, Põe no cepo a garganta, e já entregado Espera pelo golpe tão temido: Tal diante do Príncipe indinado, Egas estava a tudo oferecido. Mas o Rei, vendo a estranha lealdade, Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

41 "Ó grão fidelidade Portuguesa, De vassalo, que a tanto se obrigava! Que mais o Persa fez naquela empresa, Onde rosto e narizes se cortava? Do que ao grande Dario tanto pesa, Que mil vezes dizendo suspirava, Que mais o seu Zopiro são prezara, Que vinte Babilónias que tomara.

42 Mas já o Príncipe Afonso aparelhava O Lusitano exército ditoso, Contra o Mouro que as terras habitava D'além do claro Tejo deleitoso; Já no campo de Ourique se assentava O arraial soberbo e belicoso, Defronte do inimigo Sarraceno, Posto que em força e gente tão pequeno.

43 "Em nenhuma outra cousa confiado, Senão no sumo Deus, que o Céu regia, Que tão pouco era o povo batizado, Que para um só cem Mouros haveria. Julga qualquer juízo sossegado Por mais temeridade que ousadia, Cometer um tamanho ajuntamento, Que para um cavaleiro houvesse cento.

44 "Cinco Reis Mouros são os inimigos, Dos quais o principal Ismar se chama; Todos exprimentados nos perigos Da guerra, onde se alcança a ilustre fama. Seguem guerreiras damas seus amigos, Imitando a formosa e forte Dama, De quem tanto os Troianos se ajudaram, E as que o Termodonte já gostaram.

45 "A matutina luz serena e fria, As estrelas do Pólo já apartava, Quando na Cruz o Filho de Maria, Amostrando-se a Afonso, o animava. Ele, adorando quem lhe aparecia, Na Fé todo inflamado assim gritava: --"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis, E não a mim, que creio o que podeis!"

46 "Com tal milagre os ânimos da gente Portuguesa inflamados, levantavam Por seu Rei natural este excelente Príncipe, que do peito tanto amavam; E diante do exército potente Dos imigos, gritando o céu tocavam, Dizendo em alta voz:--"Real, real, Por Afonso alto Rei de Portugal."

47 "Qual co'os gritos e vozes incitado, Pela montanha o rábido Moloso, Contra o touro remete, que fiado Na força está do corno temeroso: Ora pega na orelha, ora no lado, Latindo mais ligeiro que forçoso, Até que enfim, rompendo-lhe a garganta, Do bravo a força horrenda se quebranta:

48 "Tal do Rei novo o estâmago acendido Por Deus e pelo povo juntamente, O Bárbaro comete apercebido, Co'o animoso exército rompente. Levantam nisto os perros o alarido Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente, As lanças e arcos tomam, tubas soam, Instrumentos de guerra tudo atroam.

49 "Bem como quando a flama, que ateada Foi nos áridos campos (assoprando O sibilante Bóreas) animada Co'o vento, o seco mato vai queimando; A pastoral companha, que deitada Co'o doce sono estava, despertando Ao estridor do fogo que se ateia, Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

50 "Desta arte o Mouro atónito e torvado, Toma sem tento as armas mui depressa; Não foge; mas espera confiado, E o ginete belígero arremessa. O Português o encontra denodado, Pelos peitos as lanças lhe atravessa: Uns caem meios mortos, e outros vão A ajuda convocando do Alcorão.

51 "Ali se vêem encontros temerosos, Para se desfazer uma alta serra, E os animais correndo furiosos Que Neptuno amostrou ferindo a terra. Golpes se dão medonhos e forçosos; Por toda a parte andava acesa a guerra: Mas o de Luso arnês, couraça e malha Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

52 "Cabeças pelo campo vão saltando Braços, pernas, sem dono e sem sentido; E doutros as entranhas palpitando, Pálida a cor, o gesto amortecido. Já perde o campo o exército nefando; Correm rios de sangue desparzido, Com que também do campo a cor se perde, Tornado carmesi de branco e verde.

53 "Já fica vencedor o Lusitano, Recolhendo os troféus e presa rica; Desbaratado e roto o Mauro Hispano, Três dias o grão Rei no campo fiei. Aqui pinta no branco escudo ufano, Que agora esta vitória certifica, Cinco escudos azuis esclarecidos, Em sinal destes cinco Reis vencidos,

54 "E nestes cinco escudos pinta os trinta Dinheiros por que Deus fora vendido, Escrevendo a memória em vária tinta, Daquele de quem foi favorecido. Em cada uni dos cinco, cinco pinta, Porque assim fica o número cumprido, Contando duas vezes o do meio, Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

55 "Passado já algum tempo que passada Era esta grão vitória, o Rei subido A tomar vai Leiria, que tomada Fora, mui pouco havia, do vencido. Com esta a forte Arronches sojugada Foi juntamente, e o sempre enobrecido Scalabicastro, cujo campo ameno, Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

56 "A estas nobres vilas sometidas, Ajunta também Mafra, em pouco espaço, E nas serras da Lua conhecidas, Sojuga a fria Sintra o duro braço; Sintra, onde as Naiades, escondidas Nas fontes, vão fugindo ao doce laço, Onde Amor as enreda brandamente, Nas águas acendendo fogo ardente.

57 "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo Facilmente das outras és princesa, Que edificada foste do facundo, Por cujo engano foi Dardânia acesa; Tu, a quem obedece o mar profundo, Obedeceste à força Portuguesa, Ajudada também da forte armada, Que das Boreais partes foi mandada.

58 "Lá do Germânico Albis, e do Rene, E da fria Bretanha conduzidos, A destruir o povo Sarraceno, Muitos com tensão santa eram partidos. Entrando a boca já do Tejo ameno, Co'o arraial do grande Afonso unidos, Cuja alta fama então subia aos Céus, Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

59 "Cinco vezes a Lua se escondera, E outras tantas mostrara cheio o rosto, Quando a cidade entrada se rendera Ao duro cerco, que lhe estava posto. Foi a batalha tão sanguina e fera, Quanto obrigava o firme pressuposto De vencedores ásperos e ousados, E de vencidos já desesperados.

60 "Desta arte enfim tomada se rendeu Aquela que, nos tempos já passados, A grande força nunca obedeceu Dos frios povos Cíticos ousados, Cujo poder a tanto se estendeu Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados; E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam Que à terra de Vandália nome deram.

61 "Que cidade tão forte por ventura Haverá que resista, se Lisboa Não pôde resistir à força dura Da gente, cuja fama tanto voa? Já lhe obedece toda a Estremadura, Óbidos, Alenquer, por onde soa O tom das frescas águas, entre as pedras, Que murmurando lava, e Torres Vedras.

62 "E vós também, ó terras Transtaganas, Afamadas co'o dom da flava Ceres, Obedeceis às forças mais que humanas, Entregando-lhe os muros e os poderes. E tu, lavrador Mouro, que te enganas, Se sustentar a fértil terra queres; Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas, E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

63 "Eis a nobre Cidade, certo assento Do rebelde Sertório antigamente, Onde ora as águas nítidas de argento Vem sustentar de longo a terra e a gente, Pelos arcos reais, que cento e cento Nos ares se alevantam nobremente, Obedeceu por meio e ousadia De Giraldo, que medos não temia.

64 "Já na cidade Beja vai tomar Vingança de Trancoso destruída Afonso, que não sabe sossegar, Por estender coa fama a curta vida. Não se lhe pode muito sustentar A cidade; mas sendo já rendida, Em toda a cousa viva a gente irada Provando os fios vai da dura espada.

65 "Com estas sojugada foi Palmela, E a piscosa Cezimbra, e juntamente, Sendo ajudado mais de sua estrela, Desbarata um exército potente: Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela, Que a socorrê-la vinha diligente Pela fralda da serra, descuidado Do temeroso encontro inopinado.

66 "O Rei de Badajoz era alto Mouro, Com quatro mil cavalos furiosos, Inúmeros peões, d'armas e de ouro Guarnecidos, guerreiros e lustrosos. Mas, qual no mês de Maio o bravo touro, Co'os ciúmes da vaca, arreceosos, Sentindo gente o bruto e cego amante Salteia o descuidado caminhante:

67 "Desta arte Afonso súbito mostrado Na gente dá, que passa bem segura, Fere, mata, derriba denodado; Foge o Rei Mouro, e só da vida cura. Dum pânico terror todo assombrado, Só de segui-lo o exército procura; Sendo estes que fizeram tanto abalo Não mais que só sessenta de cavalo.

68 "Logo segue a vitória sem tardança O grão Rei incansábil, ajuntando Gentes de todo o Reino, cuja usança Era andar sempre terras conquistando. Cercar vai Badajoz, e logo alcança O fim de seu desejo, pelejando Com tanto esforço, e arte, e valentia, Que a fez fazer às outras companhia.

69 "Mas o alto Deus, que para longe guarda O castigo daquele que o merece, Ou, para que se emende, às vezes tarda, Ou por segredos que homem não conhece, Se até que sempre o forte Rei resguarda Dos perigos a que ele se oferece; Agora lhe não deixa ter defesa Da maldição da mãe que estava presa.

70 "Que estando na cidade, que cercara, Cercado nela foi dos Lioneses, Porque a conquista dela lhe tomara, De Lião sendo, e não dos Portugueses. A pertinácia aqui lhe custa cara, Assim como acontece muitas vezes, Que em ferros quebra as pernas, indo aceso A batalha, onde foi vencido e preso.

71 "Ó famoso Pompeio, não te pene De teus feitos ilustres a ruína, Nem ver que a justa Némesis ordene Ter teu sogro de ti vitória dina, Posto que o frio Fásis, ou Siene, Que para nenhum cabo a sombra inclina, O Bootes gelado e a linha ardente, Temessem o teu nome geralmente.

72 "Posto que a rica Arábia e que os ferozes Eníocos e Colcos, cuja fama O Véu dourado estende, e os Capadoces, E Judeia, que um Deus adora e ama, E que os moles Sofenos, e os atroces Cilícios, com a Arménia, que derrama As águas dos dous rios, cuja fonte Está noutro mais alto e santo monte;

73 "E posto enfim que desde o mar de Atlante Até o Cítico Tauro monte erguido, Já vencedor te vissem, não te espanto Se o campo Emátio só te viu vencido, Porque Afonso verás, soberbo e ovante, Tudo render-se ser depois rendido. Assim o quis o conselho alto e celeste, Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

74 "Tornado o Rei sublime finalmente, Do divino Juízo castigado, Depois que em Santarém soberbamente Em vão dos Sarracenos foi cercado, E depois que do mártire Vicente O santíssimo corpo venerado Do Sacro Promontório conhecido A cidade Ulisseia foi trazido;

75 "Porque levasse avante seu desejo, Ao forte filho manda o lasso velho Que às terras se passasse d'Alentejo, Com gente e co'o belígero aparelho. Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo, Avante passa, e faz correr vermelho O rio que Sevilha vai regando, Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

76 "E com esta vitória cobiçoso, Já não descansa o moço até que veja Outro estrago como este, temeroso, No Bárbaro que tem cercado Beja. Não tarda muito o Príncipe ditoso Sem ver o fim daquilo que deseja. Assim estragado o Mouro, na vingança De tantas perdas põe sua esperança.

77 "Já se ajuntam do monte a quem Medusa O corpo fez perder, que teve o Céu; Já vem do promontório de Ampelusa E do Tinge, que assento foi de Anteu. O morador de Abila não se escusa, Que também com suas armas se moveu, Ao som da Mauritana e ronca tuba, Todo o Reino que foi do nobre Juba.

78 "Entrava com toda esta companhia O Miralmomini em Portugal; Treze Reis mouros leva de valia, Entre os quais tem o ceptro imperial; E assim fazendo quanto mal podia, O que em partes podia fazer mal, Dom Sancho vai cercar em Santarém; Porém não lhe sucede muito bem.

79 "Dá-lhe combates ásperos, fazendo Ardis de guerra mil o Mouro iroso; Não lhe aproveita já trabuco horrendo, Mina secreta, aríete forçoso: Porque o filho de Afonso não perdendo Nada do esforço e acordo generoso, Tudo provê com ânimo e prudência; Que em toda a parte há esforço e resistência.

80 "Mas o velho, a quem tinham já obrigado Os trabalhosos anos ao sossego, Estando na cidade, cujo prado Enverdecem as águas do Mondego, Sabendo como o filho está cercado Em Santarém do Mauro povo cego, Se parte diligente da cidade; Que não perde a presteza coa idade.

81 "E coa famosa gente à guerra usada Vai socorrer o filho; e assim ajuntados, A Portuguesa fúria costumada Em breve os Mouros tem desbaratados. A campina, que toda está coalhada De marlotas, capuzes variados, De cavalos, jaezes, presa rica, De seus senhores mortos cheia fica.

82 "Logo todo o restante se partiu De Lusitânia, postos em fugida; O Miralmomini só não fugiu, Porque, antes de fugir, lhe foge a vida. A quem lhe esta vitória permitiu Dão louvores e graças sem medida: Que em casos tão estranhos claramente Mais peleja o favor de Deus que a gente.

83 "De tamanhas vitórias triunfava O velho Afonso, Príncipe subido, Quando, quem tudo enfim vencendo andava, Da larga e muita idade foi vencido. A pálida doença lhe tocava Com fria mão o corpo enfraquecido; E pagaram seus anos deste jeito A triste Libitina seu direito.

84 "Os altos promontórios o choraram, E dos rios as águas saudosas Os semeados campos alagaram Com lágrimas correndo piedosas. Mas tanto pelo mundo se alargaram Com faina suas obras valerosas, Que sempre no seu Reino chamarão "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

85 "Sancho, forte mancebo, que ficara Imitando seu pai na valentia, E que em sua vida já se exprimentara, Quando o Bétis de sangue se tingia, E o bárbaro poder desbaratara Do Ismaelita Rei de Andaluzia; E mais quando os que Beja em vão cercaram, Os golpes de seu braço em si provaram;

86 "Depois que foi por Rei alevantado, Havendo poucos anos que reinava, A cidade de Silves tem cercado, Cujos campos o bárbaro lavrava. Foi das valentes gentes ajudado Da Germânica armada que passava, De armas fortes e gente apercebida, A recobrar Judeia já perdida.

87 "Passavam a ajudar na santa empresa O roxo Federico, que moveu O poderoso exército em defesa Da cidade onde Cristo padeceu, Quando Guido, coa gente em sede acesa, Ao grande Saladino se rendeu, No lugar onde aos Mouros sobejavam As águas que os de Guido desejavam.

88 "Mas a formosa armada, que viera Por contraste de vento àquela parte, Sancho quis ajudar na guerra fera, Já que em serviço vai do santo Marte. Assim como a seu pai acontecera Quando tomou Lisboa, da mesma arte Do Germano ajudado Silves toma, E o bravo morador destrue e doma.

89 "E se tantos troféus do Mahometa Alevantando vai, também do forte Lionês não consente estar quieta A terra, usada aos casos de Mavorte, Até que na cerviz seu jugo meta Da soberba Tui, que a mesma sorte Viu ter a muitas vilas suas vizinhas, Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

90 "Mas entre tantas palmas salteado Da temerosa morte, fica herdeiro Um filho seu, de todos estimado, Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro. No tempo deste, aos Mouros foi tomado Alcácere-do-Sal por derradeiro; Porque dantes os Mouros o tomaram, Mas agora estruídos o pagaram.

91 "Morto depois Afonso, lhe sucede Sancho segundo, manso e descuidado, Que tanto em seus descuidos se desmede, Que de outrem, quem mandava, era mandado. De governar o Reino, que outro pede, Por causa dos privados foi privado, Porque, como por eles se regia, Em todos os seus vícios consentia.

92 "Não era Sancho, não, tão desonesto Como Nero, que um moço recebia Por mulher, e depois horrendo incesto Com a mãe Agripina cometia; Nem tão cruel às gentes e molesto, Que a cidade queimasse onde vivia, Nem tão mau como foi Heliogabalo, Nem como o mole Rei Sardanapalo.

93 "Nem era o povo seu tiranizado, Como Sicília foi de seus tiranos; Nem tinha como Fálaris achado Gênero de tormentos inumanos; Mas o Reino, de altivo e costumado A senhores em tudo soberanos, A Rei não obedece, nem consente, Que não for mais que todos excelente.

94 "Por esta causa o Reino governou O Conde Bolonhês, depois alçado Por Rei, quando da vida se apartou Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado. Este, que Afonso o bravo, se chamou, Depois de ter o Reino segurado, Em dilatá-lo cuida, que em terreno Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

95 "Da terra dos Algarves, que lhe fora Em casamento dada, grande parte Recupera co'o braço, e deita fora O Mouro, mal querido já de Marte. Este de todo fez livre e senhora Lusitânia, com força e bélica arte; E acabou de oprimir a nação forte, Na terra que aos de Luso coube em sorte.

96 "Eis depois vem Dinis, que bem parece Do bravo Afonso estirpe nobre e dina, Com quem a fama grande se escurece Da liberalidade Alexandrina. Com este o Reino próspero florece (Alcançada já a paz áurea divina) Em constituições, leis e costumes, Na terra já tranquila claros lumes.

97 "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se O valeroso ofício de Minerva; E de Helicona as Musas fez passar-se A pisar do Monde-o a fértil erva. Quanto pode de Atenas desejar-se, Tudo o soberbo Apolo aqui reserva. Aqui as capelas dá tecidas de ouro, Do bácaro e do sempre verde louro.

98 "Nobres vilas de novo edificou Fortalezas, castelos mui seguros, E quase o Reino todo reformou Com edifícios grandes, e altos muros. Mas depois que a dura Átropos cortou O fio de seus dias já maduros, Ficou-lhe o filho pouco obediente, Quarto Afonso, mas forte e excelente.

99 "Este sempre as soberbas Castelhanas Co'o peito desprezou firme e sereno, Porque não é das forças Lusitanas, Temer poder maior, por mais pequeno. Mas porém, quando as gentes Mauritanas, A possuir o Hespérico terreno Entraram pelas terras de Castela, Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

100 "Nunca com Semirâmis gente tanta Veio os campos idáspicos enchendo, Nem Atila, que Itália toda espanta, Chamando-se de Deus açoute horrendo, Gótica gente trouxe tanta, quanta Do Sarraceno bárbaro estupendo, Co'o poder excessivo de Granada, Foi nos campos Tartésios ajuntada.

101 "E vendo o Rei sublime Castelhano A força inexpugnábil, grande e forte, Temendo mais o fim do povo hispano, Já perdido uma vez, que a própria morte, Pedindo ajuda ao forte Lusitano, Lhe mandava a caríssima consorte, Mulher de quem a manda, e filha amada Daquele a cujo Reino foi mandada.

102 "Entrava a formosíssima Maria Pelos paternais paços sublimados, Lindo o gesto, mas fora de alegria, E seus olhos em lágrimas banhados; Os cabelos angélicos trazia Pelos ebúrneos ombros espalhados: Diante do pai ledo, que a agasalha, Estas palavras tais, chorando, espalha:

103 --"Quantos povos a terra produziu De África toda, gente fera e estranha, O grão Rei de Marrocos conduziu Para vir possuir a nobre Espanha: Poder tamanho junto não se viu, Depois que o salso mar a terra banha. Trazem ferocidade, e furor tanto, Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

104 --"Aquele que me deste por marido, Por defender sua terra amedrontada, Co'o pequeno poder, oferecido Ao duro golpe está da Maura espada; E se não for contigo socorrido, Ver-me-ás dele e do Reino ser privada, Viúva e triste, e posta em vida escura, Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

105 "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo O corrente Muluca se congela, Rompe toda a tardança, acude cedo A miseranda gente de Castela. Se esse gesto, que mostras claro e ledo, De pai o verdadeiro amor assela, Acude e corre, pai, que se não corres, Pode ser que não aches quem socorres."--

106 "Não de outra sorte a tímida Maria Falando está, que a triste Vénus, quando A Júpiter, seu pai, favor pedia Para Eneias, seu filho, navegando; Que a tanta piedade o comovia Que, caído das mãos o raio infando, Tudo o clemente Padre lhe concede, Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

107 "Mas já co'os esquadrões da gente armada Os Eborenses campos vão coalhados: Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada; Vão rinchando os cavalos jaezados. A canora trombeta embandeirada, Os corações à paz acostumados Vai às fulgentes armas incitando, Pelas concavidades retumbando.

108 "Entre todos no meio se sublima, Das insígnias Reais acompanhado, O valeroso Afonso, que por cima De todos leva o colo alevantado; E somente co'o gesto esforça e anima A qualquer coração amedrontado. Assim entra nas terras de Castela Com a filha gentil, Rainha dela.

109 "Juntos os dous Afonsos finalmente Nos campos de Tarifa estão defronte Da grande multidão da cega gente, Para quem são pequenos campo e monte. Não há peito tão alto e tão potente, Que de desconfiança não se afronte, Enquanto não conheça e claro veja Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

110 "Estão de Agar os netos quase rindo Do poder dos Cristãos fraco e pequeno, As terras como suas repartindo Antemão, entre o exército Agareno, Que com título falso possuindo Está o famoso nome Sarraceno. Assim também com falsa conta e nua, À nobre terra alheia chamam sua.

111 "Qual o membrudo e bárbaro Gigante, Do rei Saul, com causa, tão temido, Vendo o pastor inerme estar diante, Só de pedras e esforço apercebido, Com palavras soberbas o arrogante Despreza o fraco moço mal vestido, Que, rodeando a funda, o desengana Quanto mais pode a Fé que a força humana:

112 "Desta arte o Mouro pérfido despreza O poder dos Cristãos, e não entende Que está ajudado da Alta Fortaleza, A quem o inferno horrífico se rende. Co ela o Castelhano, e com destreza De Marrocos o Rei comete e ofende. O Português, que tudo estima em nada, Se faz temer ao Reino de Granada.

113 "Eis as lanças e espadas retiniam Por cima dos arneses: bravo estrago! Chamam (segundo as leis que ali seguiam) Uns Mafamede, e os outros Santiago. Os feridos com grita o Céu feriam, Fazendo de seu sangue bruto lago, Onde outros meios mortos se afogavam, Quando do ferro as vidas escapavam.

114 "Com esforço tamanho estrui e mata O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço, Totalmente o poder lhe desbarata, Sem lhe valer defesa ou peito de aço. De alcançar tal vitória tão barata Inda não bem contente o forte braço, Vai ajudar ao bravo Castelhano, Que pelejando está co'o Mauritano.

115 "Já se ia o Sol ardente recolhendo Para a casa de Tethys, e inclinado Para o Ponente, o Véspero trazendo, Estava o claro dia memorado, Quando o poder do Mauro grande e horrendo Foi pelos fortes Reis desbaratado, Com tanta mortandade, que a memória Nunca no mundo viu tão grã vitória.