Os Lusíadas

Part 11

Chapter 11 4,205 words Public domain Markdown

75 "Assim que, ó Rei, se minha grã verdade Tens por qual é, sincera e não dobrada, Ajunta-me ao despacho brevidade, Não me impeças o gosto da tornada. E, se ainda te parece falsidade, Cuida bem na razão que está provada, Que com claro juízo pode ver-se, Que fácil é a verdade de entender-se."

76 A tento estava o Rei na segurança Com que provava o Gama o que dizia; Concebe dele certa confiança, Crédito firme em quanto proferia. Pondera das palavras a abastança, Julga na autoridade grão valia, Começa de julgar por enganados Os Catuais corruptos, mal julgados.

77 Juntamente a cobiça do proveito, Que espera do contrato Lusitano, O faz obedecer e ter respeito Com o Capitão, e não com o Mauro engano. Enfim ao Gama manda que direito As naus se vá, e, seguro de algum dano, Possa a terra mandar qualquer fazenda, Que pela especiaria troque e venda.

78 Que mande da fazenda, enfim, lhe manda, Que nos Reinos Gangéticos faleça; Se alguma traz idónea lá da banda Donde a terra se acaba e o mar começa. Já da real presença veneranda Se parte o Capitão, para onde peça Ao Catual, que dele tinha cargo, Embarcação, que a sua está de largo.

79 Embarcação que o leve às naus lhe pede; Mas o mau Regedor, que novos laços Lhe maquinava, nada lhe concede, Interpondo tardanças e embaraços. Com ele parte ao cais, por que o arrede Longe quanto puder dos régios paços, Onde, sem que seu Rei tenha notícia, Faça o que lhe ensinar sua malícia.

80 Lá bem longe lhe diz que lhe daria Embarcação bastante em que partisse, Ou que para a luz crástina do dia Futuro sua partida diferisse. Já com tantas tardanças entendia O Gama, que o Gentio consentisse Na má tenção dos Mouros, torpe e fera, O que dele atéli não entendera.

81 Era este Catual um dos que estavam Corruptos pela Maumetana gente, O principal por quem se governavam As cidades do Samorim potente. Dele somente os Mouros esperavam Efeito a seus enganos torpemente. Ele, que no conceito vil conspira, De suas esperanças não delira.

82 O Gama com instância lhe requere Que o mande pôr nas naus, e não lhe vai; E que assim lhe mandara, lhe refere, O nobre sucessor de Perimal. Por que razão lhe impede e lhe difere A fazenda trazer de Portugal? Pois aquilo que os Reis já têm mandado Não pode ser por outrem derrogado.

83 Pouco obedece o Catual corrupto A tais palavras; antes revolvendo Na fantasia algum subtil e astuto Engano diabólico e estupendo, Ou como banhar possa o ferro bruto No sangue avorrecido, estava vendo; Ou como as naus em fogo lhe abrasasse, Por que nenhuma à pátria mais tornasse.

84 Que nenhum torne à pátria só pretende O conselho infernal dos Maumetanos, Por que não saiba nunca onde se estende A terra Eoa o Rei dos Lusitanos. Não parte o Gama enfim, que lho defende O Regedor dos bárbaros profanos; Nem sem licença sua ir-se podia, Que as almadias todas lhe tolhia.

85 Aos brados o razões do Capitão Responde o Idolatra que mandasse-- Chegar à terra as naus, que longo estão, Por que melhor dali fosse e tornasse. "Sinal é de inimigo e de ladrão, Que lá tão longe a frota se alargasse, Lhe diz, porque do certo e fido amigo É não temer do seu nenhum perigo."

86 Nestas palavras o discreto Gama Enxerga bem que as naus deseja perto O Catual, por que com f erro e flama, Lhas assalte, por ódio descoberto. Em vários pensamentos se derrama; Fantasiando está remédio certo, Que desse a quanto mal se lhe ordenava; Tudo temia, tudo enfim cuidava.

87 Qual o reflexo lume do polido Espelho de aço, ou de cristal formoso, Que, do raio solar sendo ferido, Vai ferir noutra parte luminoso, E, sendo da ociosa mão movido Pela casa do moço curioso, Anda pelas paredes é telhado Trêmulo, aqui e ali, e dessossegado:

88 Tal o vago juízo flutuava Do Gama preso, quando lhe lembrara Coelho, se por caso o esperava Na praia com os batéis, como ordenara. Logo secretamente lhe mandava, "Que se tornasse à frota, que deixara; Não fosse salteado dos enganos, Que esperava dos feros Maumetanos."

89 Tal há de ser quem quer, com o dom de Marte, Imitar os ilustres e igualá-los: Voar com o pensamento a toda parte, Adivinhar perigos, e evitá-los: Com militar engenho e subtil arte Entender os inimigos, e enganá-los; Crer tudo, enfim, que nunca louvarei O Capitão que diga: "Não cuidei".

90 Insiste o Malabar em tê-lo preso, Se não manda chegar a terra a armada; Ele constante, e de ira nobre aceso, Os ameaços seus não teme nada; Que antes quer sobre si tomar o peso De quanto mal a vil malícia ousada Lhe andar armando, que pôr em ventura A frota de seu Rei, que tem segura.

91 Aquela noite esteve ali detido, E parte do outro dia, quando ordena De se tornar ao Rei; mas impedido Foi da guarda que tinha, não pequena. Comete-lhe o Gentio outro partido, Temendo de seu Rei castigo ou pena, Se sabe esta malícia, a qual asinha Saberá, se mais tempo ali o detinha.

92 Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda Vendível, que trazia, para a terra, Para que de vagar se troque e venda: Que quem não quer comércio, busca guerra. Posto que os maus propósitos entenda O Gama, que o danado peito encerra, Consente, porque sabe por verdade, Que compra com a fazenda a liberdade.

93 Concertam-se que o negro mande dar Embarcações idóneas com que venha; Que os seus batéis não quer aventurar Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha. Partem as almadias a buscar Mercadoria Hispana, que convenha. Escreve a seu irmão que lhe mandasse A fazenda com que se resgatasse.

94 Vem a fazenda a terra, aonde logo A agasalhou o infame Catual; Com ela ficam Álvaro e Diogo, Que a pudessem vender pelo que val. Se mais que obrigação, que mando e rogo No peito vil o prémio pode e val, Bem o mostra o Gentio a quem o entenda, Pois o Gama soltou pela fazenda.

95 Por ela o solta, crendo que ali tinha Penhor bastante, donde recebesse Interesse maior do que lhe vinha, Se o Capitão mais tempo detivesse. Ele, vendo que já lhe não convinha Tornar a terra, por que não pudesse Ser mais retido, sendo às naus chegado Nelas estar se deixa descansado.

96 Nas naus estar se deixa vagaroso, Até ver o que o tempo lhe descobre: Que não se fia já do cobiçoso Regedor corrompido e pouco nobre. Veja agora o juízo curioso Quanto no rico, assim como no pobre, Pode o vil interesse e sede inimiga Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97 A Polidoro mata o Ptei Treício, Só por ficar senhor do grão tesouro; Entra, pelo fortíssimo edifício, Com a filha de Acriso a chuva d'ouro; Pode tanto em Tarpeia avaro vício, Que, a troco do metal luzente e louro, Entrega aos inimigos a alta torre, Do qual quase afogada em pago morre.

98 Este rende munidas fortalezas, Faz tredores e falsos os amigos: Este a mais nobres faz fazer vilezas, E entrega Capitães aos inimigos; Este corrompe virginais purezas, Sem temer de honra ou fama alguns perigos: Este deprava às vezes as ciências, Os juízos cegando e as consciências;

99 Este interpreta mais que sutilmente. Os textos; este faz e desfaz leis; Este causa os perjúrios entre a gente, E mil vezes tiranos torna os Reis. Até os que só a Deus Onipotente Se dedicam, mil vezes ouvireis Que corrompe este encantador, e ilude; Mas não sem cor, contudo, de virtude.

Canto Nono

1 Tiveram longamente na cidade, Sem vender-se, a fazenda os dois feitores Que os infiéis, por manha e falsidade, Fazem que não lha comprem mercadores; Que todo seu propósito e vontade Era deter ali os descobridores Da Índia tanto tempo, que viessem De Meca as naus, que as suas desfizessem.

2 Lá no seio Eritreu, onde fundada Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu, Do nome da irmã sua assim chamada, Que depois em Suez se converteu, Não longe o porto jaz da nomeada Cidade Meca, que se engrandeceu Com a superstição falsa e profana Da religiosa água Maumetana.

3 Gidá se chama o porto, aonde o trato De todo o Roxo mar mais florescia, De que tinha proveito grande e grato O Soldão que esse Reino possuía. Daqui aos Malabares, por contrato Dos infiéis, formosa companhia De grandes naus, pelo Índico Oceano, Especiaria vem buscar cada ano.

4 Por estas naus os Mouros esperavam, Que, como fossem grandes e possantes, Aquelas, que o comércio lhe tomavam, Com flamas abrasassem crepitantes. Neste socorro tanto confiavam, Que já não querem mais dos navegantes, Senão que tanto tempo ali tardassem, Que da famosa Meca as naus chegassem.

5 Mas o Governador dos céus e gentes, Que, para quanto tem determinado, De longe os meios dá convenientes, Por onde vem a ef eito o fim fadado, Influiu piedosos acidentes De afeição em Monçaide, que guardado Estava para dar ao Gama aviso, E merecer por isso o Paraíso.

6 Este, de quem se os Mouros não guardavam, Por ser Mouro como eles, antes era Participante em quanto maquinavam, A tenção lhe descobre torpe e fera. Muitas vezes as naus que longe estavam Visita, o com piedade considera O dano, sem razão, que se lhe ordena Pela maligna gente Sarracena.

7 Informa o cauto Gama das armadas Que de Arábica Meca vêm cada ano, Que agora são dos seus tão desejadas, Para ser instrumento deste dano. Diz-lhe que vêm de gente carregadas, E dos trovões horrendos de Vulcano, E que pode ser delas oprimido, Segundo estava mal apercebido.

8 O Gama, que também considerava O tempo, que para a partida o chama, E que despacho já não esperava Melhor do Rei, que os Maumetanos ama, Aos feitores, que em terra estão, mandava Que se tornem às naus; e por que a fama Desta súbita vinda os não impeça, Lhe manda que a fizessem escondida.

9 Porém não tardou muito que, voando, Um rumor não soasse com verdade: Que foram presos os feitores, quando Foram sentidos vir-se da cidade. Esta fama as orelhas penetrando Do sábio Capitão, com brevidade Faz represaria nuns, que às naus vieram A vender a pedraria que trouxeram.

10 Eram estes antigos mercadores Ricos em Calecu, e conhecidos; Da falta deles, logo entre os melhores Sentido foi que estão no mar retidos. Mas já nas naus os bons trabalhadores Volvem o cabrestante, e repartidos Pelo trabalho, uns puxam pela amarra, Outros quebram com o peito duro a barra;

11 Outros pendem da verga, e já desatam A vela, que com grita se soltava, Quando com maior grita ao Rei relatam A pressa com que a armada se levava. As mulheres e filhos que se matam Daqueles que vão presos, onde estava O Samorim, se queixam que perdidos Uns têm os pais, as outras os maridos.

12 Manda logo os feitores Lusitanos Com toda sua fazenda livremente Apesar dos inimigos Maumetanos, Por que lhe torne a sua presa gente. Desculpas manda o Rei de seus enganos; Recebe o Capitão de melhor mente Os presos que as desculpas, e tornando Alguns negros, se parte as velas dando.

13 Parte-se costa abaixo, porque entende Que em vão com o Rei gentio trabalhava Em querer dele paz, a qual pretende Por firmar o comércio que tratava. Mas como aquela terra, que se estende Pela Aurora, sabida já deixava, Com estas novas torna à pátria cara, Certos sinais levando do que achara.

14 Leva alguns Malabares, que tomou Por força, dos que o Samorim mandara Quando os presos feitores lhe tornou; Leva pimenta ardente, que comprara; A seca flor de Banda não ficou, A noz, e o negro cravo, que faz clara A nova ilha Maluco, com a canela, Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

15 Isto tudo lhe houvera a diligência De Monçaide fiel, que também leva, Que, inspirado de angélica influência, Quer no livro de Cristo que se escreva. Ó ditoso Africano, que a clemência Divina assim tirou de escura treva, E tão longe da pátria achou maneira Para subir à pátria verdadeira!

16 Apartadas assim da ardente costa As venturosas naus, levando a proa Para onde a Natureza tinha posta A meta Austrina da esperança boa, Levando alegres novas e resposta Da parte Oriental para Lisboa, Outra vez cometendo os duros medos Do mar incerto, tímidos e ledos;

17 O prazer de chegar à pátria cara, A seus penates caros e parentes, Para contar a peregrina e rara Navegação, os vários céus e gentes; Vir a lograr o prémio, que ganhara Por tão longos trabalhos e acidentes, Cada um tem por gosto tão perfeito, Que o coração para ele é vaso estreito.

18 Porém a deusa Cípria, que ordenada Era para favor dos Lusitanos Do Padre eterno, e por bom génio dada, Que sempre os guia já de longos anos; A glória por trabalhos alcançada, Satisfação de bem sofridos danos, Lhe andava já ordenando, e pretendia Dar-lhe nos mares tristes alegria.

19 Depois de ter um pouco revolvido Na mente o largo mar que navegaram, Os trabalhos, que pelo Deus nascido Nas Anfióneas Tebas se causaram; Já trazia de longe no sentido, Para prémio de quanto mal passaram, Buscar-lhe algum deleite, algum descanso No Reino de cristal líquido e manso;

20 Algum repouso, enfim, com que pudesse Refocilar a lassa humanidade Dos navegantes seus, como interesse Do trabalho que encurta a breve idade. Parece-lhe razão que conta desse A seu filho, por cuja potestade Os Deuses faz descer ao vil terreno E os humanos subir ao céu sereno.

21 Isto bem revolvido, determina De ter-lhe aparelhada, lá no meio Das águas, alguma ínsula divina, Ornada de esmaltado e verde arreio; Que muitas tem no reino, que confina Da mãe primeira com o terreno seio, Afora as que possui soberanas Para dentro das portas Herculanas.

22 Ali quer que as aquáticas donzelas Esperem os fortíssimos barões, Todas as que têm título de belas, Glória dos olhos, dor dos corações, Com danças e coreias, porque nelas Influirá secretas afeições, Para com mais vontade trabalharem De contentar, a quem se afeiçoaram.

23 Tal manha buscou já, para que aquele Que de Anquises pariu, bem recebido Fosse no campo que a bovina pele Tomou de espaço, por subtil partido. Seu filho vai buscar, porque só nele Tem todo seu poder, fero Cupido, Que assim como naquela empresa antiga Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.

24 No carro ajunta as aves que na vida Vão da morte as exéquias celebrando, E aquelas em que já foi convertida Perístera, as boninas apanhando. Em derredor da Deusa já partida, No ar lascivos beijos se vão dando. Ela, por onde passa, o ar e o vento Sereno faz, com brando movimento.

25 Já sobre os Idálios montes pende, Onde o filho frecheiro estava então Ajuntando outros muitos, que pretende Fazer uma famosa expedição Contra o mundo rebelde, por que emende Erros grandes, que há dias nele estão, Amando coisas que nos foram dadas, Não para ser amadas, mas usadas.

26 Via Acteon na caça tão austero, De cego na alegria bruta, insana, Que por seguir um feio animal fero, Foge da gente e bela forma humana; E por castigo quer, doce e severo, Mostrar-lhe a formosura de Diana; E guarde-se não seja ainda comido Desses cães que agora ama, e consumido.

27 E vê do mundo todo os principais, Que nenhum no bem público imagina; Vê neles que não têm amor a mais Que a si somente, e a quem Filáucia ensina. Vê que esses que frequentam os reais Paços, por verdadeira e sã doutrina Vendem adulação, que mal consente Mondar-se o novo trigo florescente.

28 Vê que aqueles que devem à pobreza Amor divino e ao povo caridade, Amam somente mandos e riqueza, Simulando justiça e integridade. Da feia tirania e de aspereza Fazem direito e vã severidade: Leis em favor do Rei se estabelecem, As em favor do povo só perecem.

29 Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, Senão o que somente mal deseja; Não quer que tanto tempo se releve O castigo, que duro e justo seja. Seus ministros ajunta, por que leve Exércitos conformes à peleja, Que espera ter com a mal regida gente, Que lhe não for agora obediente.

30 Muitos destes meninos voadores Estão em várias obras trabalhando: Uns amolando ferros passadores, Outros ásteas de setas delgaçando; Trabalhando, cantando estão de amores, Vários casos em verso modulando, Melodia sonora e concertada, Suave a letra, angélica a soada.

31 Nas frágoas imortais, onde forjavam Para as setas as pontas penetrantes, Por lenha corações ardendo estavam, Vivas entranhas ainda palpitantes. As águas onde os ferros temperavam, Lágrimas são de míseros amantes; A viva f lama, o nunca morto lume, Desejo é só que queima, e não consume.

32 Alguns exercitando a mão andavam Nos duros corações da plebe rude; Crebros suspiros pelo ir soavam Dos que feridos vão da seta aguda. Formosas Ninfas são as que curavam As chagas recebidas cuja ajuda Não somente dá vida aos mal feridos, Mas põe em vida os ainda não nascidos.

33 Formosas são algumas e outras feias, Segundo a qualidade for das chagas; Que o veneno espalhado pelas veias Curam-no às vezes ásperas triagas. Alguns ficam ligados em cadeias, Por palavras subtis de sábias magas: Isto acontece às vezes, quando as setas Acertam de levar ervas secretas.

34 Destes tiros assim desordenados, Que estes moços mal destros vão tirando, Nascem amores mil desconcertados Entre o povo ferido miserando; E tamboril nos heróis de altos estados Exemplos mil se vêem de amor nefando, Qual o das moças Bíbli e Cinireia, Um mancebo de Assíria, um de Judeia.

35 E vós, ó poderosos, por pastoras Muitas vezes ferido o peito vedes; E por baixos e rudos, vós, senhoras, Também vos tomam nas Vulcâneas redes. Uns esperando andais noturnas horas, Outros subis telhados e paredes: Mas eu creio que deste amor indino É mais culpa a da mãe que a do menino.

36 Mas já no verde prado o carro leve Punham os brancos cisnes mansamente, E Dione, que as rosas entro a neve No rosto traz, descia diligente. O frecheiro, que contra o céu se atreve, A recebê-la vem, ledo e contente; Vêm todos os Cupidos servidores Beijar a mão à Deusa dos amores.

37 Ela, por que não gaste o tempo em vão, Nos braços tendo o filho, confiada Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão Toda minha potência está fundada; Filho, em quem minhas forças sempre estão; Tu, que as armas Tifeias tens em nada, A socorrer-me a tua potestade Me triz especial necessidade.

38 "Bem vês as Lusitânicas fadigas, Que eu já de muito longe favoreço, Porque das Parcas sei, minhas amigas, Que me hão de venerar e ter em preço. E, porque tanto imitam as antigas Obras de meus Romanos, me ofereço A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso, A quanto se estender o poder nosso.

39 "E porque das insídias do odioso Baco foram na Índia molestados, E das injúrias sós do mar undoso Puderam mais ser mortos que cansados, No mesmo mar, que sempre temeroso Lhe foi, quero que sejam repousados, Tomando aquele prémio e doce glória Do trabalho, que faz clara a memória.

40 "E para isso queria que, feridas As filhas de Nereu, no ponto fundo, De amor dos Lusitanos incendidas, Que vêm de descobrir o novo mundo, Todas numa ilha juntas e subidas, Ilha, que nas entranhas do profundo Oceano terei aparelhada, De dons de Flora e Zéfiro adornada;

41 "Ali, com mil refrescos e manjares, Com vinhos odoríferos e rosas, Em cristalinos paços singulares Formosos leitos, e elas mais formosas; Enfim, com mil deleites não vulgares, Os esperem as Ninfas amorosas, De amor feridas, para lhes entregarem Quanto delas os olhos cobiçarem.

42 "Quero que haja no reino Netunino, Onde eu nasci, progénie forte e bela, E tome exemplo o mundo vil, malino, Que contra tua potência se rebela, Por que entendam que muro adamantino, Nem triste hipocrisia val contra ela: Mal haverá na terra quem se guarde, Se teu fogo imortal nas águas arde."

43 Assim Vénus propôs, e o filho inieo, Para lhe obedecer, já se apercebe: Manda trazer o arco ebúrneo rico, Onde as setas de ponta de ouro embebe. Com gesto ledo a Cípria, e impudico, Dentro no carro o filho seu recebe; A rédea larga às aves, cujo canto A Factôntea morte chorou tanto.

44 Mas diz Cupido, que era necessária Uma famosa e célebre terceira, Que, posto que mil vezes lhe é contrária, Outras muitas a tem por companheira: A Deusa Giganteia, temerária, Jactante, mentirosa, e verdadeira, Que com cem olhos vê, e por onde voa, O que vê, com mil bocas apregoa.

45 Vão-a buscar, e mandam adiante, Que celebrando vá com tuba clara Os louvores da gente navegante, Mais do que nunca os d'outrem celebrara. Já murmurando a Fama penetrante Pelas fundas cavernas se espalhara: Fala verdade, havida por verdade, Que junto a Deusa traz Credulidade.

46 O louvor grande, o rumor excelente No coração dos Deuses, que indignados Foram por Baco contra a ilustre gente, Mudando, os fez um pouco afeiçoados. O peito feminil, que levemente Muda quaisquer propósitos tomados, Já julga por mau zelo e por crueza Desejar mal a tanta fortaleza.

47 Despede nisto o fero moço as setas Uma após outra: geme o mar com os tiros; Direitas pelas ondas inquietas Algumas vão, e algumas fazem giros; Caem as Ninfas, lançam das secretas Entranhas ardentíssimos suspiros; Cai qualquer, sem ver o vulto que ama: Que tanto, como a vista, pode a fama.

48 Os cornos ajuntou da ebúrnea lua Com força o moço indómito excessiva, Que Tethys quer ferir mais que nenhuma, Porque mais que nenhuma lhe era esquiva. Já não fica na aljava seta alguma, Nem nos equóreos campos Ninfa viva; E se feridas ainda estão vivendo, Será para sentir que vão morrendo.

49 Dai lugar, altas e cerúleas ondas, Que, vedes, Vénus traz a medicina, Mostrando as brancas velas e redondas, Que vêm por cima da água Netunina. Para que tu recíproco respondas, Ardente Amor, à flama feminina, É, forçado que a pudicícia honesta Faça quanto lhe Vénus amoesta.

50 Já todo o belo coro se aparelha Das Nereidas, e junto caminhava Em coreias gentis, usança velha, Para a ilha, a que Vénus as guiava. Ali a formosa Deusa lhe aconselha O que ela fez mil vezes, quando amava. Elas, que vão do doce amor vencidas, Estão a seu conselho oferecidas.

51 Cortando vão as naus a larga via Do mar ingente para a pátria amada, Desejando prover-se de água fria, Para a grande viagem prolongada, Quando juntas, com súbita alegria, Houveram vista da ilha namorada, Rompendo pelo céu a mãe formosa De Menónio, suave e deleitosa.

52 De longe a Ilha viram fresca e bela, Que Vénus pelas ondas lha levava (Bem como o vento leva branca vela) Para onde a forte armada se enxergava; Que, por que não passassem, sem que nela Tomassem porto, como desejava, Para onde as naus navegam a movia A Acidália, que tudo enfim podia.

53 Mas firme a fez e imóvel, como viu Que era dos Nautas vista e demandada; Qual ficou Delos, tanto que pariu Latona Febo e a Deusa à caça usada. Para lá logo a proa o mar abriu, Onde a costa fazia uma enseada Curva e quieta, cuja branca areia, Pintou de ruivas conchas Citereia.

54 Três formosos outeiros se mostravam Erguidos com soberba graciosa, Que de gramíneo esmalte se adornavam.. Na formosa ilha alegre e deleitosa; Claras fontes o límpidas manavam Do cume, que a verdura tem viçosa; Por entre pedras alvas se deriva A sonorosa Ninfa fugitiva.

55 Num vale ameno, que os outeiros fende, Vinham as claras águas ajuntar-se, Onde uma mesa fazem, que se estende Tão bela quanto pode imaginar-se; Arvoredo gentil sobre ela pende, Como que pronto está para afeitar-se, Vendo-se no cristal resplandecente, Que em si o está pintando propriamente.

56 Mil árvores estão ao céu subindo, Com pomos odoríferos e belos: A laranjeira tem no fruto lindo A cor que tinha Dafne nos cabelos; Encosta-se no chão, que está caindo, A cidreira com os pesos amarelos; Os formosos limões ali, cheirando, Estão virgíneas tetas imitando.

57 As árvores agrestes que os outeiros Têm com frondente coma enobrecidos, Alemos são de Alcides, e os loureiros Do louro Deus amados e queridos; Mirtos de Citereia, com os pinheiros De Cibele, por outro amor vencidos; Está apontando o agudo cipariso Para onde é posto o etéreo paraíso.

58 Os dons que dá Pomona, ali Natura Produz diferentes nos sabores, Sem ter necessidade de cultura, Que sem ela se dão muito melhores: As cerejas purpúreas na pintura, As amoras, que o nome têm de amores, O pomo que da pátria Pérsia veio, Melhor tornado no terreno alheio.

59 Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes; Entre os braços do ulmeiro está a jocunda Vide, com uns cachos roxos e outros verdes; E vós, se na vossa árvore fecunda, Peras piramidais, viver quiserdes, Entregai-vos ao dano, que, com os bicos, Em vós fazem os pássaros inicos.