Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América

Part 6

Chapter 63,126 wordsPublic domain

Sa pantaro Furunando. Dize, rogo-te, fallai: Conhece tu que furtai? Porque tu nam bruguntando?

GONÇ. Perguntarei por meu pae.

NEG. Cal-te: Deoso cima sai, Que furtai ere oiai. Deoso nunca vai dormi, Sempre abre oio assi, Tamanha tu sapantai. Guarda mar esso mal, E senhora Prito santo. Nunca rirá homem branco Furunando furta real. Não sabe mi essa careira: Para que? para comê? Muto comê muto bebê Turo turo sa canseira. Vira mundo turo canseira: Senhor grande, canseira; Home prove, canseira; Muiere fermoso, canseira; Muiere feio, canseira; Negro cativo, canseira; Senhoro de negro, canseira; Vai missa, canseira; Prégação longo, canseira; Crerigo nam tem muiere, canseira; Crerigo tem muiere, canseira; Grande canseira: Firalgo sôlto, canseira; Chovere muto, canseira; Não póde chovere, canseira: Muito filho, canseira; Nunca pariro canseira; Papa na Roma canseira; Essa ratinho, canseira; Não vamo paraiso, grande canseira; Vira reza mundo turo turo he Canseira. Mi nam falla zombaria. Pos para que furtai? Que riabo sempreza! Abre oio turo ria. Mi busca mulato bai. Ficar abora, ratinho.

GONÇ. Eu aguardo meu padrinho, Que va comigo a meu pae. Eu vou ao rio perem, Porque hei sêde e beberei, E sicais que nadarei Emquanto o clerigo vem. Leixarei o chapeirão Mettido nesta mouteira, E o cinto e esmoleira, Porque lá logo o verão, Não me aqueça outra tal feira.

(_Espreita o negro como Gonçalo esconde o chapeirão e o al, e tanto que se vai entra dizendo:_)

NEG. A mi abre oio e ve Ratinho tira besiro: Ere dexa aqui condiro: Não sei onde elle mettê. Senhora Santo Francico, Santa Antonia, San Furunando! Pois mi ha d'andar buscando, E levare elle na bico O servo Santa Maria.

Sabe a regina Matho misercoroda nutra d'hum cego savel até que vamos. A oxulo filho d'egoa alto soso peamos ja mentes ja frentes vinagre qu'elle quebrárão em balde ja ergo a quante nossa ha ilhos tue busca cordas oculos nosso convento e geju com muito fruta ventre tu ja tremes ja pias. Seuro santa Maria dinhero me lá darão he ve esa carta da me mucho que furte cantara Furunando.

(_Acabada assim esta_ salve regina, _acha o Negro o que Gonçalo leixou escondido, e diz:_)

Ei-lo aqui sa! Deoso graça. Graça Deoso esse he capote; Nunca dexa aqui palote: Ratinho, quem te forcasse! Aramá que te ero villão! Que palote saba sam, Barete também bo era. Mi cansai e á deradera A mior fica sua mão. Vejamos bolsa que tem: Hum pente para que bo? Tres ceitil sa qui so: Ratinho nunca bitem. O riabo ladarão! Corpo re reos consabrado! Essa villão murgurado Sa masa prove que cão. Quando bolsa mi achase Fernão d'Alvaro, esse si; Nunca pente sa alli. Ah reos! quem te furtasse Bolsa, Nuna Ribeiro! Home bai busca rinheiro: A toro ere rise: Ja rinheiro feito he. Aramá que tu ero gaiteiro! Fernão d'Alvaro m'acontenta; Elle nunca risse nam. Logo chama ca crivam, --Crivaninhae esormenta; Toma rinheiro, vas embora. Boso, home de bem, que buscae? --Mi da cureiro agarba sae. --Boso que buscai corte agora? --Buscae a Rei jam João, Paga minha casaramento. --Dá ca, moso, trae esormento; Crivaninhae boso, crivão: Home, tomae hum dos quatro sete: Vas embora turo turo. Sua rinheiro sa segura, Mioro que elle promete. Marco Estevez moladeiro. Elle rise: Santa Maria! Rinheiro boso queria? Bai bai dormir paieiro.-- Boso que pedir, muieiro? --Tanta filho mi tem qui... --Quem manda boso pari, Boso grande parideiro? --Boso seria muito bô: Vaca ne Francico paia; Tenha seis filho e mi so Nam temo comere ni migaia. Elle rise: Que culpo tem a Rei jam João Boso parir como porco, Bai buscai sua pae torto, Que dai a sua fio pão. Velha, que boso querê? --Molla, que a mi pobre sai. Elle rise: Porque boso nan guardai Rinheiro que boso bebê?-- Jesu! Jesu! moladeiro Sa riabo aquella home: Quando a mi more da fome Nunca buscai sua rinheiro, Porém graça a Reos, a mi Nunca minga que furtá; Pouco ca, pouco relá, Pouco requi, pouco reli, Grão e grão gallo fartá, Quem furta, home sesuro: E louvar a Reos com turo E senhoro Prito Santo. A mi bai furta emtanto Camisa que sá na muro.

Gil Vicente, O Clerigo da Beira.

_O preto, e o bugio ambos no mato discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brazil._ Lisboa. Na officina patriarchal de Francisco Luiz Ameno 1789. 4.^o 21 pp.--Excerpto:

«Já non pore deixá de incricá os cabeça, e confessá, que vozo doutrina sá huns doutrina tão craro, e verdadeiro, que pla mim sá huns admiraçom non sé platicada per toro o mundo. O trabaio a que vozo obliga os pleto, e os blanco; sá huns trabaio a que ninguem se pore negá sem melecé huns cóssa bom; porque os genia, e os incrinaçom do natureza a toro gente move pala ere, e fóla de trabaio ninguem pore vivé em satisfaçom. Mim agola sem trabaiá nom pore conté, ainda que mim ter abominaçon a captiveiro cruere de blanco, de que sá forro; com turo non aglada a mim estar aqui sem nada fazé: evita vozo tanta plegiça, os excessa de plodigo, e dos varento, que nozo poderemo toro assi havé os oira, e triunfá dos indigencia; e de turo quanto pore infelicitá. Se aqui apalecera agola uns blanco, que pole escrevé os mavioso doutrina, que vozo platicá, e toro o gente ouvire cos oreia aberto, faria ere ao familia toro do mundo hum favoro, que meoro non pore imaginá.» p. 21.

II. DIALECTOS HESPANHOES

1. Creolo de Curaçáo

Esta ilha, cujo nome é lembrado por um licor bem conhecido, que d'ella tomou o seu, é uma das tres ilhas denominadas de «sotavento»; está situada em frente da costa de Venezuela entre a lat. 12° 3' e 12° 24' e long. 68° 47' e 69° 16' Gr.

Com as outras ilhas do grupo pertenceu á Hespanha depois de seu desenvolvimento até 1648 em que a Hollanda ficou de posse d'ella, e conservando-a até hoje, apenas com uma interrupção produzida pelo dominio de Inglaterra de 1807 até 1815. A primitiva colonisação hespanhola foi muito limitada. Hoje a população da ilha sobe a mais de 15:000 habitantes, de que apenas cêrca de um quinto são brancos. A população negra parece ter passado para lá em grande parte das colonias hespanholas; o dialecto creolo que ella falla tem por base o hespanhol e contém alguns elementos lexiologicos ministrados pelo hollandez. O sign. E. Teza consagrou a esse dialecto um artigo no _Politecnico_, vol. XXI, p. 342-352, tendo por base de investigação o livro: _Catecismo pa uso di catolicanan di Curaçao. Cathecismus ten gebruike der katholyken van Curaçao door Martinus Joannes Niewindt, bissehop van Cytrum, karmerheer van Z. H. en apostolisch vicarius van Curaçao. Gedrukt te Curaçao ter drukkery van zyne doorluchtige hoogwardigheid_. Segundo o illustre professor italiano esse catechismo não foi impresso muito antes de 1845.

_The Bible of Every Land_, p. 270, dá-nos a seguinte noticia: «Uma traducção de parte do Novo Testamento n'esta lingua foi feita pelo rev. Mr. Conradi; e uma pequena edição do evangelho de S. Matheus foi impressa em 1846, a expensas da Sociedade biblica neerlandeza». O sign. Teza não soube da existencia d'essa traducção, de que a obra ingleza citada nos dá um specimen em orthographia hollandeza, que vamos reproduzir enterlinhando-o com as palavras hespanholas correspondentes, tanto quanto conseguimos determinal-as.

*S. Matheus, cap. V v. t. 12*

1. _Anto ora koe Hezoes a mira toer e heende nan eel a soebi_ Entonces hora que Jeus ha mirar todo el hombre--el a subir

_o en seroe; deespues eel a sienta i soe desipel nan a bini_ a un sierra; despues el a sentado y su discipulo--ha venido

_seka dje._ cerca del.

2. _I eel a koemisa di papia i di sienja nan di ees manera._ Y el ha comenzar de papiar y de enseñar -- de esta manera.

3. _Bieenabeentoera ta e pober nan na spiritoe, pasoba reina_ Bienaventurado está el pobre -- spíritu, por-este-obra reino

_di Dioos ta di nan._ de Dios está de--

4. _Bieenabeentoera ta ees nan, koe ta jora pasoba lo_ Bienaventurado está este --, que está llorar, por-este-obra--

_nan bira konsolaa._ -- consolado.

5. _Bieenabeentoera pasifiko nan, pasoba lo nan erf tera._ Bienaventurado pacifico --, por-este-obra -- -- tierra.

6. _Bieenabeentoera ees nan, koe tien hamber i sedoe di hoestisij,_ Bienaventurado este --, que tiene hambre y sed de justicia,

_passoba lo nan no tiene hamber i sedoe mas._ por-este-obra -- -- no tiene hambre y sed mas.

7. _Bieenabeentoera ees nan, koe tien mizerikoordia, pasoba_ Bienaventurado este --, que tiene misericordia, por-este-obra

_lo heende tien mizerikoordia koe nan,_ -- hombre tiene misericordia con --

8. _Bieenabeentoera ees nan, koe ta liempi di koerasoon, pasoba_ Bienaventurado este -- que está limpio di coraçon, por-este-obra

_lo nan mira Dios._ -- -- mira Dios,

9. _Bieenabeentoera ees nan, koe ta perkoera paas, pasoba_ Bienaventurado este --, que está procurar paz, por-este-obra

_lo nan ta jama joe di Dioos._ -- -- está llamado hijo de Dios.

10. _Bieenabeentoera ees nan, koe ta persigido pa motiboe di_ Bienaventurado este --, que está persiguido por motivo de

_hoestisji, pasoba reina di Dioos ta di nan._ justicia, por-este-obra reino de Dios está de --.

11. _Bosonam lo ta bieenabeentoerado koe ta koos nan zoendra_ Vosotro-_nan_ -- está bienaventurado que está -- -- --

_i persigi bosonan, i koe ta koos pa mi kausa nan ganja_ y persiguido vosotro-_nan_, y que está -- por mi causa -- gañar

_toer soorto di maloe ariba bosonan._ todo suerte de malo arriba vosotro-_nan_.

12. _Legra bosonan i salta di legria, pasoba bosonan_ Alegrar vosotro-_nan_ y saltar de alegria por-este-obra vosotro-_nan_

_rekompeensa ta grandi deen di Ciëloe; pasoba nan a persigi_ recompensa está grande dentro de Cielo; por-este-obra -- ha perseguido

_di ees manera e profeet nan, koe tabata promee koe bosonan._ de este manera el profeta --, que estaba primero que vosotro-_nan_.

Para auxiliar a comprehensão d'esse excerpto damos a versão hespanhola dos doze versiculos de S. Matheus.

1. Mas viendo Jesus este gentío, se subio á un monte, donde habiéndose sentado, se le acercaron sus discípulos;

2. Y abriendo su boca, los adoctrinaba diciendo:

3. Bienaventurados los pobres de espíritu, porque de ellos es el reino de los cielos.

4. Bienaventurados los que lloran, porque ellos serán consolados.

5. Bienaventurados los mansos, porque elles poseerán la tierra.

6. Bienaventurados los que tienen hambre y sed de justicia, porque ellos serán saciados.

7. Bienaventurados los misericordiosos, porque ellos alcanzarán misericordia.

8. Bienaventurados los limpios de corazon, porque ellos verán á Dios.

9. Bienaventurados los pacificadores, porque ellos serán llamados hijos de Dios.

10. Bienaventurados los que padecen persecucion por la justicia, porque de ellos es el reino de los cielos.

11. Bienaventurados sereis cuando los hombres per mi causa os maldijeren, y os persiguieren; y dijeren con mentira toda suerte de mal contra vosotros.

12. Alegráos y regocijáos, porque es muy grande vuestra recompensa en los cielos: del mismo modo persiguieron á los profetas que ha habido antes de vosotros.

Como se vê, n'este dialecto não ha nenhuma distincção formal de genero nem de numero: a pluralidade exprime-se pela adjuncção de _nan_, que é o pronome da terceira pessoa plural: _ees nan_, estes ou aquelles; _pober_, pobre; _pober nan_, pobres. Quando um substantivo é precedido de adjectivos só se segue o signal do plural depois do substantivo: _toer el heende nan_, todos os (aquelles) homens. O presente é geralmente expresso pela fórma _ta_ (==está) e o infinito, tendo todos os infinitos perdido o _r_ final.

O futuro é expresso por _lo_ (==luego?).

2. Hespanhol fallado nos campos de Buenos-Ayres e Montevideu

M. Maspero publicou em _Mémoires de la Société de Linguistigue de Paris_, t. II, p. 51-65 (Paris, 1875), um artigo sobre as alterações experimentadas pelo hespanhol no Rio da Prata. Essas alterações são sufficientes para lhe dar uma feição dialectal assás bem caracterisada; mas são muito differentes das que determinam os dialectos creolos, como o de Curaçáo, etc.; são principalmente lexiologicas e phoneticas. A vida nova dos europeus n'essas regiões deu principalmente logar á creação de palavras novas do velho fundo do idioma nacional e á introducção de termos das linguas indigenas, por exemplo, de _pié_ fez-se _pialar_, pear um cavallo, de _manco mancarron_, um cavallo máo, que não serve para nada. Alguns dos termos das linguas indigenas adoptados encontram-se tambem no portuguez do Brazil e parte vieram até ás linguas europêas, como _jacaré_, _yacaré_ (termo guarani). As alterações phoneticas encontram-se sobretudo na linguagem do camponio oriental ou _Porteño_.

III. DIALECTOS FRANCESES

1. Creolo da ilha Mauricio

A este dialecto pertencem algumas poesias da collecção intitulada: _Les essais d'un bobre africain_, seconde édition, augmentée de près du double, et dédiée à madame Borel jeune, par F. Chrestien. Ile Maurice, G. Deroullede et C^{ie}, 1831, pet. in-4. Achámos a indicação d'esta obra no catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets e n'um artigo de M. P. Meyer: _Revue critique_, 1872, artigo 50. A ilha Mauricio, depois do dominio do portuguez e hollandez (1598-1715) esteve em poder dos francezes de 1715 a 1810, em que se tornou possessão ingleza.

O dr. A. Bos publicou na _Romania_ muito recentemente (vol. IX, p. 571-578) uma nota sobre o dialecto creolo d'essa ilha, a qual pudémos ler ainda á ultima hora. Resumimos o seu conteúdo.

«Esse creolo, diz o auctor, formado para o uso commum, laço de communicação entre as differentes raças que habitam a ilha, é muito desprezado; não se escreve e não é empregado pelos brancos senão para se fazerem comprehender dos seus creados de côr. O plantador de Mauricio não falla creolo senão a seus servos ou trabalhadores, negros ou indios, e ainda a seus cães de caça, repellindo para longe de si a idéa que esse _patois_ informe possa jamais converter-se n'uma lingua. E, todavia, o creolo de Mauricio, como diremos mais abaixo, cresce e prospera de dia em dia; encaminha-se para a fortuna de uma lingua.»

Com relação á phonetica notaremos o seguinte:

1. O accento tonico não se desloca.

2. Ha alongamento frequente de _a_: _[-a]-ccent_, _p[-a]-rent_. Esse alongamento é de lei quando ha quéda de consoante: _p[-a]-ti==partir_ (alongamento por compensação).

3. _E_ medial atono muda-se em _i_: _vini_ (venir) ou cae; _e_ final atono cae sempre.

4. _Ui_ muda-se em _i_; _oi_ ás vezes em _o_.

5. _Ch_, _g_ (e, i), _j_ mudam-se respectivamente em _ç_, _z_.

6. _R_ final cae sempre, até nas ligações como _tre_, _bre_; p. ex. _cambe==chambre_. _R_ medial entre vogal e consoante cae igualmente: _Zoze==Georges_.

7. _X_ é pronunciado como _s_ (ç): _éçélan==excellent_.

Com relação ás fórmas eis o mais interessante:

1. Não ha distincção de generos: permanecendo a fórma masculina para o masculino e feminino, _mon fame_, _ton lakaze_, ma femme, ta maison.

2. A distincção do numero tende igualmente a desapparecer. Os pronomes pessoaes que são palavras differentes para o singular e plural conservam-se: _moa_, eu; _nou_, nós; _toa_, tu; _vou_, vós.

3. A suppressão do artigo é quasi completa. Como no dialecto da Trinidad o artigo e ainda a preposição partitiva coalescem com varias palavras: _lacaze_, casa (maison); _dilo_, _dipin_, _divin_ (_de l'eau_, _du pain_, _du vin_). Como no dialecto da Trinidad se diz _zoreis_==oreilles (o _s_ é o resto do artigo _les_), assim n'este temos, p. ex,: _zozo_, oiseaux. O _z_ apparece tambem no singular: _ène zozo_, un oiseau, _li zozo_, les oiseaux.

4. Pronomes: _moi_, _toa_, _li_ (lui); _nous_, _vous_, _li_. Os pronomes sujeitos do singular _je_, _tu_, _il_ do francez desappareceram pois; o pronome da terceira pessoa do plural é identico ao do singular.

5. Uma unica fórma verbal--o infinito, é empregada no creolo da ilha Mauricio. O passado é expresso pelo infinito do verbo principal com o infinito auxiliar _fini_: _moi fini travaïé_, j'ai travaillé; _mon fini broçe chambre_, j'ai fait (_brosser_) la chambre. Para a expressão do futuro empregam-se com o infinito diversas locuções adverbiaes. Para alguns verbos, segundo o dr. Bos, essa fórma unica que substitue todas as outras não saíu do infinito, mas sim do presente: _koné_==connais, connaît; _voulé_==voulez. A explicação verdadeira d'essas fórmas está n'outro principio que o artigo que analysâmos nos ministra. Os infinitos em _oir_ e _re_ foram substituidos por infinitos analogicos pelos typos em _e_ (_er_) e _i_ (_ir_); assim _éteindre_ por _éteignir_, _tezi_ por _taire_. Estas fórmas assentam sobre as do plural _éteignons_, _éteignez_, _éteignent_, _taisons_, _taiser_, _taisent_, ou antes sobre os substractos _éteign-_, _tais-_ com a desinencia do infinito _i_. O dr. Bos, tendo primeiro explicado _voulé_ por _voulez_, apresenta-o depois como exemplo d'este processo.

6. O verbo _avoir_ foi substituido por _gagner_ (como na Luisiana).

7. Não se usam conjuncções; as proposições são raras. A construcção approxima-se do typo chinez: _moa kosé vou alé baza_, je vous dis (cause) d'aller au marché (bazar); _toa guété çival pa pati_, tu regarderas (guetter) á ce que le cheval ne parte pas; _mamzèle kosé kóme ça mamzèle pa vini mamzèle faï_, mademoiselle m'envoie vous dire précisément qu'elle ne peut pas venir, parce qu'elle est malade; _vou kontan moa alé promené_, êtes-vous satisfait, aimez-vous que j'aille me promener?

Com relação ao vocabulario diz-nos o nosso auctor: «O creolo apenas conservou do francez poucas palavras, as palavras que bastam para exprimir as primeiras necessidades da vida, as relações mais ordinarias. Evidentemente seria difficil e mesmo impossivel tratar um assumpto de philosophia em creolo; o mesmo succedeu provavelmente com o francez nos seus primeiros começos. A essas poucas palavras francezas que formam quasi em totalidade o seu vocabulario, o creolo ajuntou algumas recebidas dos paizes vizinhos: _baza_, mercado, _salam_, bons dias; _tiffin_ (pronuncia-se _toffin_), o paladar, d'onde _tiffiner_, provar, palavras que pela maior parte se acham no francez em uso em Mauricio.»

«Esse creolo de Mauricio, apesar de ser tão grosseiro, está longe de querer desapparecer deante das linguas muito mais perfeitas, o francez e o inglez. A maior parte da população de Mauricio é hoje india; póde prever-se que ella augmentará cada dia mais, graças ás immigrações continuas da India. Deante d'essa onda que sobe, a antiga população creola, brancos, negros e mulatos, diminue proporcionalmente. Ora entre indios, chinezes, malgaches, creolos, mulatos e brancos o laço commum é o creolo. Um indio, um chinez, um arabe, um branco (europeu?) tratarão uns com os outros os seus negocios em creolo, e esse neo-francez tomará maior extensão ao passo que a população variegada da ilha for augmentando. É possivel até que n'uma epocha, muito afastada é verdade, o francez desappareça, como a população que o falla tende a diminuir. O creolo, ganhando ao contrario terreno, poderá tornar-se a lingua usual, commum, e até a lingua geral, como elle é já a lingua do povo, a _rustica vulgaris_.» O auctor pensa que o inglez permanecerá exclusivamente como lingua de administração sem influencia sobre o creolo.

No francez da ilha Mauricio algumas palavras indicam a proveniencia dos primeiros colonos, porque se acham lá como na Bretanha, de onde elles emigraram; além d'isso esses colonos eram marinheiros. Achando coincidencia de termos entre o creolo d'essa ilha e o de outras possessões europeas no vocabulario em contraposição com o do francez litterario, deve admittir-se que ella tem a causa em que esses colonos levam no seu vocabulario termos do francez de Bretanha e do vocabulario nautico que se encontram nas outras linguas romanicas. No francez de Mauricio diz-se, por exemplo, _amarrer_ não _attacher_, _espérer_, não _attendre_, _larguer_ não _lâcher_, como em portuguez.

2. Creolo da Luisiana

Na _Mélusine_ I, col. 495-497, acha-se reproduzido um conto em francez-creolo da Luisiana com traducção franceza. É talvez ocioso recordar aos nossos leitores que os francezes descobriram em 1699 a foz do Mississipi e fundaram em 1717 Nova Orleans, e que tendo a Luisiana feito parte dos dominios de Hespanha desde 1762 até 1800, passou n'esse ultimo anno de novo para o dominio da França, que a cedeu aos Estados Unidos em 1803 por 60 milhões de francos. Esses factos explicam a existencia da colonisação franceza e do dialecto francez-creolo n'aquelle estado da republica norte americana. Eis um excerpto do conto: