Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América
Part 5
5 ¶ (E tambem) vos quando te ora (te roga com Deus) ne miste fica mesmo per os hypocritas porque elotros te dizer per ora ne os synagogas, e cantos de ruas, que elotros pode ser olhado de gente. Em verdade eu te falla per vosoutros que elotros te reçebe elotros su paga.
6 Mas vos, quando vos te ora, entra ne vossa cambre, e quando vos ja ficha porta, ora com vossa Pai quem tem ne segrade e elle quem te olha ne segrade ne publico lo paga par vos.
7 Mas vos outros quando te ora, naõ usa vaõ palavras, assi como os gentios te faze, porque elotros te lembra que elotros lo tem ovido per rezaõ de elotros su muito palavras.
8 Videaquel vosoutros ne miste fica mesmo per elotros, porque vossas Pai (celestial) enteiromente te sabe vosoutros que cousas te mista ansque vosoutros te pedie de elle.
9 Videaquel, ne iste modo vosoutros miste roga. Pai nossa quem tem ne ceo, sentificado seja tua nome.
10 Venho o tua reyno, seja feito a tua vontade asis ne terra como ne ceo.
11 O paõ nossa de cada dia nos da hoje,
12 E perdoa nos nossas dividas, assi como nos te perdoa per nossos dividores.
13 E nos naõ desse cahi ne tentaçaõ, mas livra nos de mal, porque teu tem o reyno e o poder, e o gloria, pera tudo sempre, Amen.
14 Porque, si vosoutros te perdoa per gente elotros su offenças, vossas Pai celestial tambem lo perdoa per vosoutros.
15 Mas si vosoutros per gente nunca perdoa elotros su offenças, vossas Pai celestial tambem nada perdoa (per vosoutros) vossas offenças.
16 ¶ Torna, vosoutros quando te jingua, noõ fica mesmo per o hypocritas, com hum rosto de tristeza, porque elotros te faze feu elotros su rostas, que pode parçe per gente que elotros te jingua. Em verdade eu te falla per vosoutros (que) elotros te reçebe elotros su paga.
17 Mas vos, quando vos te jingua, onta (com azete) vossa cabeça e lava vossa rosta.
18 Que per gente naõ pode parçe que vos te jingua, mas per vossas Pai, quem ne segrade te olha, e vossas Pai quem ne segrade te olha, ne publico lo paga par vos.
19 ¶ Vosoutros nemiste junta thesouros (riquezas) ne o terra, onde pouches e forea te dana, e onde ladraõs te entra e te furta.
20 Mas junta per vossa mesmos, thesouros ne ceo, onde nem pouche nem forea nunca dana, e onde ladraõs nunca entra e furta.
21 Porque vossas thêsouro onde tem, ne aquel lugar tambem vossas coraçaõs lo fica.
23 O lumi de o corpo tem o olho, videaquel si vossa olho tem puro (sinçero,) vossa inteiro corpo lo tem enchido de lumi.
23 Mas si vossa olho tem mal, vossa inteiro corpo lo tem enchido de escuridade, videaquel si o lumi que tem dentro de vos tem escuridade que grande tem aquel escuridade!
24 ¶ Nem hum homi nonpode servi per dous Senhors, porque elle lo abhoreçe per huma, e por outra hum lo ama, ou senaõ, elle lo tem firme per huma, e por outra hum lo disimporta, vosoutros nonpode servi per Deos, e tambem per Mammon (ou requezas).
25 Videaquel Eu te falla por vosoutros naõ toma nem hum cuidade toquando de vossas vida, vosoutros que lo comer, ou vosoutros que lo bebe, nem toquando de vossas corpo, vosoutros com que lo tem vestido, doque comer, nontem o vida de valia mais grande, e (tambem,) o corpo do que vestidos?
26 Olha os pastros de ar! porque aquelles nunca bruffa, nem nunca faze novidade, nem nunca junta ne celleiros, ainda, vossas Pai celestial te sustenta per aquelles, (e) doque aquelles nontem vosoutros muito mais bom?
27 Com muito lembranças quem de vosoutros pode faze sua mesmo hum covido mais alto?
28 E porque vosoutros te cuida toquando vestidos? considera os fules de o campo, (varze,) aquelles ne que modo te cresçenta, aquelles nunca servi, nem nunca travai.
29 E ainda, Eu te falla per vosoutros, que ate Salomão ne tudo sua gloria (grandeza) non tinhe vestido assi (bunito) como huma de istes (fules).
30 Videaquel si Deos assi te vesti os fules de o campo, que hoje te fica, e amiam tem lançado ne forno (ou fogo,) Nontem sua vontade muito mais pera vesti per vosoutros? O vosoutros de bem pouco fe!
31 Videaquel, non toma cuidade fallando, nos que lo comer, ou nos que lo bebe? ou nos com que lo tem vestido?
32 (Porque tudo de istes cousas os Gentios te busca,) porque vossas Pai celestial (bemfeito) te sabe que vosoutros tem necessidade de istes cousas.
33 Mas, primeiro vosoutros miste busca o reyno de Deos, e sua justiça e (aquelhora) tudo de istes cousas per vosoutras lo ser dado.
34 Videaquel naõ toma nem hum cuidade toquando de amiam, porque o amiam lo toma cuidade toquando os cousas que per aquel te compete. Per cada hum dia o mal tem baste, que te compete per aquel dia.
Capitulo VII
Nao julga, que vosoutros nunca ser julgado.
2 Porque com que julgaçaõ vosoutros te julga (per gente) vosoutros (tambem,) lo ser julgado (de Deos,) e com que medida vosoutros te medi, aquel mesmo per vosoutros lo ser medido torna.
3 E porque vos te olha o mote (piquinino erro) que tem ne olho de vossa irmão, e nunca considera a grande faltançe que tem ne vossa mesmo olho?
4 Ou quely vos lo falla per vossa irmaõ, Eu desse tira o mote fora de vossa olho; e Olha! hum grande faltançe tem ne vossa mesmo olho?
5 Vos hypocrita! primeiro, fora de vossa mesmo olho, pincha aquel grande faltançe e aquelhora, mais claromente vos lo olha per tira o mote fora de vossa irmão su olho:
6 ¶ Aquel que tem santo, naõ da per os cachors nem pincha vossas aljoffries diante os porcas, ou senão (istes bom cousas) aquelles (porcas e cachors) lo massa baixo de pe; e torna lo vira, e lo rompa per vosoutros.
7 Pedie (com Deos) e aquel lo ser dado per vosoutros, busca, e vosoutros lo asserta, bate, (per o porta de misericordia,) e per vosoutros aquel lo ser aberto.
8 Porque cada hum pessaõ quem te pedie (ne dreito modo,) te recebe, e elle quem te busca, te asserta, e per elle quem te bate o porta lo ser aberto.
9 Ou, entre de vosoutros, qui homi tem, quem per sua filho lo da hum pedra, elle quando te pedie pão?
10 Ou, si elle te pedie hum peixe, elle lo da hum serpente.
11 Antos, si vosoutros, tendo mal, te sabe perda per vossas filhos bom cousas, que tanto mais vossas Pai quem tem ne ceo lo da bom cousas per elotros quem te pedie de elle.
12 Videaquel tudos cousas que seja que vosoutros te querre que gente per vosoutros miste faze, o mesmo (cousas,) vosoutros miste faze per elotros, porque iste tem (o mandemento,) de o lei, e de o prophetas.
13 ¶ Entra vosoutros ne o porta estreito, porque largo tem o porta, e largo tem o caminho que te leva per destruição, e bastantos tem quem ne aquel te alcança.
14 Videque estreito tem o porta, e estreito o caminho que te leva per vida, e poucos namais, aquel te asserta.
15 Toma cuidade de falso prophetas, quem per vosoutros te vi, ne vestidos de ovelhas (de enganho,) mas dentro, elotrem tem bem maldito.
16 Vosoutros lo conheçe per elotros, de elotros su frute, gente te panha ouves de espinhos? ou bom fruite de mal albris?
17 Ate assi, cada hum bom albri te produçe bom fruite, mas hum mal albri mal fruite nenhum mal albri nonpode produçe fruite bom.
18 Hum bom albri non pode produçe mal fruite, nem, hum albri corrupto non pode produçe bom fruite.
19 Cada hum albri, que nunca produçe bom fruite tem cortado e pinchado ne o fogo.
20 Videaquel de elotros su fruite, vosoutros lo conhece per elotros.
21 Naõ cada um pessaõ quem par me te falla Senhor! Senhor! nada entra ne o reyno de ceo, mas elle (namais,) quem te faze o vontade de meu Pai quem tem ne ceo.
22 Bastanto (pessaõs) lo falla par mi, ne aquel dia (de julgaçaõ,) Senhor, Senhor, nos nunca prophecia ne tua nome? e ne tua nome ja lança fora diabos? e ne tua nome ja faze bastantos obras espantoso?
23 E aquelhora, per elotros Eu lo declara, Eu nem hum tempo nunca conheçe, per vosoutros, sahi de mi, vosoutros quem te faze iniquidade!
24 ¶ Videaquel, quem seja te ovi istes meu ensinos, e aquelles te faze, Eu lo papia de elle assi como de hum homi sizo, quem je concerta sua caza riba de hum rocha (muito grande e força pedra).
25 E o chuve ja cahi, e os aguas, ja vi e os ventos ja abala, e ja bate sobre aquel caza, e aquel nunca cahi, per o causo que aquel tinhe fundado riba de um rocha.
26 E cada hum pessaõ quem te ovi istes meu ensinos e aquelles nunca faze, toquanto de elle eu lo papia assi como hum homi dodiçe, quem sua caza ja concerta riba do area.
27 E o chuve ja cahi, e os aguas ja vi, e os ventos ja abala, e ja bate sobre aquel caza, e aquel ja cahi e grande tinhe o ruido de aquel.
28 E aquel ja vi per suste, Jesus quando ja caba istes ensinos, que os gentes tinhe espantado com sua doutrino.
29 Porque Jesus ja ensina per elotros assi como huma quem tinhe com authoridade (poder) e não assi como os escribos.
7. O dialecto portuguez de Malaca
John Cameron, que viajou na India ha vinte e tantos annos, descrevendo na sua obra _Our tropical possessions in Malayan India_ (London, 1865, pag. 374[5]) os descendentes dos portuguezes estabelecidos em Malaca, os quaes são uma raça mixta de portuguezes e indigenas, nota que durante um periodo de cerca de dois seculos elles têem conservado a sua lingua original e continuam a fallar uma especie de portuguez corrupto (_broken portuguese_); que elles são grandes musicos, que são muito prolificos, e que ao caír da tarde os homens casados se assentam nas varandas de suas casas dando para a rua, tocando geralmente no violino alguma melancholica melodia para divertimento de suas mulheres e familias que estão reunidas em roda d'elles.
8. Dialecto macaista
D'este só conhecemos o que nos ministram as duas cartas que reproduzimos; a primeira foi publicada em 1865 no _Ta-Ssi-Yang-Kuo_, jornal de Macau, e reproduzida na _Gazeta de Portugal_; a segunda te-mol-a n'uma folha avulsa, tiragem á parte de um jornal provavelmente o mesmo _Ta-Ssi-Yang-Kuo_. As cartas foram forjadas por quem conhecia a lingua litteraria; um documento verdadeiramente popular falta-nos infelizmente.
Não ha n'esse dialecto distincção de generos; o _P. S._ da primeira carta indica que a influencia do jornalismo ía introduzindo as fórmas, da lingua mãe.
O plural é expresso pela repetição da palavra: _china china_, os chinas; _criança criança_, crianças; _sium sium_, senhores; _amigo amigo_, amigos.
As fórmas verbaes estão reduzidas a uma, que é o infinito geralmente, ou uma fórma do presente, a qual póde ser empregada como infinito; assim _calote de vae pescar_, tolice de ir pescar; _hora de vem_, hora de vir; _pôde tem_, póde ter. A mesma fórma serve para todas as pessoas.
O _r_ do infinito foi apocopado excepto no verbo _ser_: _tirá_, tirar; _mandá_, mandar; _fazê_, fazer; _coré_, correr; _subí_, subir.
O presente é expresso: 1) pelo infinito: _vosso tio gostá_, vosso tio gosta; 2) por uma fórma do presente: _china sam tolo_, o china é tolo; 3) por _tá_ (está) com o infinito: _tá fazê_, faço, fazes, faz, etc., _tá andá_, ando etc., _tá fallá_, fallo, etc.; 4) por _tá_ (está) com a fórma do presente que toma o logar do infinito: _tá vai_, vou vae, etc.
O futuro é expresso por _logo_ com o infinito: _logo ficá_, ficará; mas n'alguns casos esse processo serve para exprimir o presente.
O passado é expresso: 1) pela formula fundamental: _augmentá_, augmentou; 2) por _já_ com a fórma fundamental: _já principiá_, principiou; mas este processo parece tambem exprimir o presente.
Conservam-se os participios passivos: _impurado_, _costumado_, etc.
Notem-se, entre outras, as seguintes fórmas: _mestê_, ser preciso, de ver; _promódi_, por amor de, porque; _pastro_, passaro; _assilai_, tal.
*Carta de Siára Pancha a Nhim Miquela*
Macáo _3 de janero de 1865_.
«Minha querida Miquéla.
Tanto tempo eu já querê respondê vosso carta, mas sempre sentî doente, porisso tanto tardá este resposta. Vôs minha Miquéla nadi ficá reva cô eu; vôs sabe qui eu mutu querê pra vôs, e se nunca escrevê mas ásinha san prómódi já tá múto véla. Otro dia acun-ha mofina di ama abri janella, eu irguí cedo, sai fóra, apanhã vento, ficá constipada. Priméro toma sincap, misinha de vento, raspá mordicim, mas nunca pôde ficá bom, cada dia sintí corpo más fraco, perna azedo. Dôtôr falá sam doença d'idade, mas eu nunca sintí assim, chomá mêstre Ahoi, qui tudu gente falá sam capaz, elle já curá. Agora sentí um poco forte, mas mêstre nômquêro que eu fazê mutu força, e mandá tomá ninho di pastro.
Nosso Macáo, minha Miquéla tem grande novidade. Governo nôvo sam capaz e já virá tudo. Mas um pôco tempo tudo lôgo ficá virado. Rua agora já nomtêm pedra pedra, sam otro lai môdo, fazê duro cô téra. Fazê gosto olá di bonito. Pra vanda de mar, na praia grandi, já botá qui tanto arvi; tudo gente cioso e intrimittido falá numpresta, qui sabe qui foi, mas eu nunca sintí assim. Campo de Sam Francisco já fichá, fazê jardim, escada grande já nomtêm, fazê ali muro; ali riba, aquelle calvario tamêm tá vai iá pra fazê quartel di soldado, qui já principiá, logo ficá grandi. Porta di Campo e di Santo Antone já nomtêm tamêm, agora sam rua largu, tudo aquelle arvi fronte di Gularte sua casa já cortá, china china falá corê sangui, mas eu sentí china sam tôlo. Aquelle porcaria di fonti perto di cano real tamêm já tapá, abri poço alá vanda. Tudu poço agora tem sua cobertor bem fêto, e bomba di novo invençám.
Si minha Miquéla agora pôde ólá tudo aquelle lugar, certo nadi crê qui sam Macáo.
Santo Antone qui bem fêto! Aquelle bariga di adro já vai dentro, ficá bonito, e rua mas um pôco grandi. Padri nunca contente, mas qui cuza logo fazê! A nôte já nômtem aquelle escuridám costumado, hoze candía tem tres bico, e china china si querê furtá azète vai cartá mati. Genti di Senado sempre durmido, nomtêm aquelle genio di Governo, que tem ôlo vivo, e nadi iscapá nada. Cêdo, cêdo, já tem na rua, tirá telhêro di botica, rancá pagôde di porta di china china, cortá rua fazê drêto, qui fazê gosto ólá.
Otro dia Voluntario inglez d'Hongkong já vem Macáo! Qui lai di bonito! eu já vai ólá tamêm. Macáo parêce França, tudo gente fallá. Tem tifin, rivista di tropa, salva di vinte un-ha tiro, balsa á note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancia tres mil fóra pataca. Algum gente qui nunca gostá assilai cuza, já vai ólá cova de Sam Francisco Xavier eu tamêm muto quere pra santo, mas nunca vai.
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá un-ha buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra qui vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista, porisso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita interá, eu achá graça: pôde crê? Padri padri qui cusa pôde tem? coitado! Eu sintí sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di téra? Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, qui cusa fazê di lugar pra escondê?
Minha Miquéla nomêstê esquecê di mandá nova di tudu qui ólá ali; si marido tem vagar mandá tamêm escrevê. Gente tá fallá qui moda di balám já cavá pra nhonhonha, eu sintí qui si sam assim sam fortuna.
Eu tamêm nompôde gostá di assilai cusa; quando vento grandi sam mutu pirigoso, e quando incustá na janéla, ou ficá capido, impurado pra traz, frôvê sangui ólá.
Dá bença pra criança criança e nomêstê esquecê de tudu aquelle receta qui eu já mandá quando apanhá saván. Nomêstê lembrá sam brinco, eu fallá cô experiencia: tudu gente ri, qui foi eu pilá costa a note intêro, mas eu inda tá vivo, elôtro tudu qui fazê cusa de moda tá morê mas ásinha.
Eu já mandá dos amchôm di achar di gamên, un-ha balsa di sucri pedra, dos jara di jagra para vós e criança criança, mas nunca achá resposta, porisso eu ficá cô pençám.
Já intrá anno novo; mutu bom anno, filicidade, vida, saude para vôs, vosso marido e tudo criança criança. Nosso senhôr deçá criá. Eu tá muto lembrá pra vós, querê mandá um pôco de alúa mas nômpôde, paciencia. Masqui nompôde acetá bom vontade d'este vella chacha qui mutu querê pra vôs.
Dá lembrança pra Pepe, falá cô elle múto contente eu já ficá, ouvi falá, elle já ficá bom de espinhéla. Vosso tio padri tamêm mandá lembrança, elle coitado nunca sam nada já. Nhum Quimquim já vai viazi, imbarcá de piloto na navio que levá chuchai, ganhá tanto pataca.
Vosso chacha
_Pancha._
P. S.--Vós lôgo sintí grandi differença na minha modo di escrevê. Eu já aperfeçoá bastante neste um pôco tempo. Tudu este escóla novo de machu e femia, e aquelle gazetta _Ta-ssi-yang-kuo_ já fazê indretá bastante nosso lingu.
*Carta de tia Paschoela á sua sobrinha Florencia*
Macáo, 5 de otubro de 1869.
Minha Querida Chencha.
Como vôs lôgo querê sabe tudo novidade de Macáo, porisso que eu já pedi com tudo sium sium, parecero de jogo, pra trazê tudo novidade de fóra pra eu pôde escrevê pra vôs.
Macáo agora já tá muto mudado; já nontêm inveja de Éropa. Pra tudo rua são careta, são cavalo; de tanto que já tem, que já nontêm lugar pra guardá; maior parte ficá pinchado na meu de rua de S. Lorenço. Agora tá fazè ung-a casa qui lai de grande na horta de governador, tamem pra guardá careta e cavalo. Olá um pôco, minha Chencha, fazê palacio na cidade pra cavalo, tudo pobre pobre vae pará pra casinha de campo!
Agora tá com força de prepará pra recebe principe de Inglaterra. Já pedi com sium Carlito pra dá moda pra fazê ung-a cadera pra cartá principe. Querê cadera que tem quatro pinga pra oito cule; mas como vosso tio gostá muto de figurá, já lembrá de pedí pra convidá oito comendador pra cartá aquelle bemaventurado principe, pra vosso tio tamem pôde entrá na meu.
Nosso governador lôgo vae ficá na casa vasio de sium Lorenço pra dá palacio pra principe.
Nosso juiz tá perto vae já pra Goa. Coitado de vêlo, já soffrê ung-a molestia bem de grande que escapá morê. Agora tá andá côtê; assim mesmo este um pôco de farizêo nunca perdoá de desesperá aquelle pobre vêlo, que se nunca são cuidado de Padre Maximo, com sua misinha cazera, já vae já pra otro mundo!
Já cavá lua de batê páu, mas lua de batê costa de china china inda nompôde cavá, porisso que este um pôco desabrogunhado rabo de porco cada vez tá mas atrevido.
Otro dia eu já assistí festa de Senhora Rozario. Sentí na greza ung-a chêro bem desagradavel. Vem casa a note, tá contá com tio João, elle então que dá conta, que já levantá um pôco alto parte trazero de capela-môr; já fazê ali ung-a lugar pra botá imundicia. Quando vem chua, tudo agu de aquelle porcaria porcaria, contaminá pra pê de parede, vem pra dentro de capela-môr. Vôs inda lôgo ovi, minha Chencha, que algum dia inda lôgo mudá tudo cavalo de policia pra dentro de greza, pra tem mas cham pra fazê palacio grande grande pra official. Agora já nunca contentá cada ung-a com dos cela. Cada official querê sete cela, qui lai môdo pôde chegá?
Padre Rondina já livrá de ung-a desgraça qui lai de grande! Que sabe qualo mapeçoso aquelle que já vae tirá de sua lugar ung-a botle de enxarope, bota ung-a botle de verniz. Coitado de padre, sem sabe de nada, virá muto socegado na sua botle pra copo de agu; quando bebê primero pucado, então que sentí que são verniz! Nunçám obra de maliçombrado! querê vernizá tripa de gente como vernizá cadera, canapé?!
Vosso tio tá muto triste. Este anno já perdê quanto mil pataca com laia laia de condenação de historia. Se o menos pôde tem agora grande negocio de cule, tamem são bom; pôde chubi um pochinho de aqui, um pochinho de ali, discontá o que já perdê. Jogo este anno já nompôde tirá muto. Dispeza cada vez mas grande. Familia augmentá. Divida nompôde cobrá; maior parte são gente grande grande que tá devê. Assim mesmo, minha Querida Chencha, inda nompôde quexá de falta que comê; perna de presunto que china china mandá de presente, armado de ung-a ponta pra otro ponta de cusinha; mas vosso tio nompôde comê ôtro cusa mas que pece fino, chilimeçô de casa algum vez lamci di Cantão.
N'otro tempo pescaria são na agu salgado; agora são na agu doce. Que sabe qualo bragero aquelle que já inventá que na Praia Grande tem pescaria de pece pedra, aquelle rapaz de botica de Neves já cae na calote de vae pescá anote fronte de sua botica. Pinchá linha cae na sêco; em quanto tá safá linha, senti comedura; quando puça, apanhá ung-a casta de susto qui laia de grande! era que são ung-a cuzaçuso de rato, como ung-a letão, ganchado na anzol. Aquelle tentação de animal principiá côrê pra tudo Praia Grande com linha na boca, e pobre de rapaz a côrê traz de tal rato pra salvá sua linha; de sorte que já fazê ri tudo aquelle gente na Praia Grande com tal pescaria de pece pedra, que ramatá, largá sarangong.
Manjor Julio já tem quanto mez já de morto. Aquelle tolo de Boletim parte que dá peza sua viuva, vae dá pra tudo sua amigo amigo. Que sabe se na Éropa são costumado assim?
Tudo vez que eu sae na janella intopá com ung-a official de vapor que casta de-chistoso, mas historero, sevandizio que más nompôde ser. Tem ung-a nome que laia de galante; eu já nompôde lembra se são Homecaco o Monocaco, mas são ung-a cusa assim de caco. Máu genio, lingustero, intremetido, até querê intremetê com emprego de sium Miguel Simões, e tá fazê conta já de intrá naquelle lugar. Pra tudo gente são meçá chavoqueada, tirá dente, tira lingu; mas medrozo como cachoro china.
Como já são hora de vem tudo parecero de jogo, eu já nompôde escrevê mas novidade. Amestê olá fazê chá, tirá sucre, mandá fazê torada, comprá manteguilha na botica de barbero.
Adeus, Minha Querida Chencha, Deus conservá saude pra vos e pro vosso Abelardo, Eu, vosso tio, tia tia, tio João, tudo mandá muto lembrança.
Vai ung-a botle de achar laia laia e ung-a flandi de bolo batê-pau torado.
Vosso tia e amiga
_Pascoela._
9. Appendix:
O portuguez alterado como o fallam os negros e os estrangeiros que possuem mal a lingua tem sido muitas vezes imitado, principalmente no theatro e na litteratura de cordel. Apesar do interesse secundario d'essas imitações damos, alguns specimens.
(_Indo Gonçalo seu caminho, apartando-se do Clerigo, topa hum Negro grande ladrão, e entra cantando buscando hum mulato: e diz Gonçalo, depois de cantar o Negro:_)
GONÇ. Dize, negro, es da côrte?
NEG. Qu'esso?
GONÇ. S'es da côrte?
NEG. Ja a mi forro, nam sa cativo. Boso conhece Maracote? Corregidor Tibão he, Elle comprai mi primeiro; Quando já paga a rinheiro, Daita a mi fero na pé. He masa tredora aquelle, Aramá que te ero Maracote.
GONÇ. Mais tredor era o rascote Que m'a mim furtou a lebre.
NEG. Qu'he quesso que te furtai?
GONÇ. H[~u]a lebre de meu pae, De meu cunhado huns capões, E marmelos e limões; Abonda tudo lá vai.
NEG. Jesu, Jesu, Deoso consabrado! Aramá tanta ladrão! Jesu! Jesu! hum caralasão: Furunando sá sapantado. Jesu! cralasam.
Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego, salva tera pão nosso quanto dão dá noves caro he debrite noses ja libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.