Os dialectos romanicos ou neo-latinos na África, Ásia e América
Part 1
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Rita Farinha (Julho 2010)
SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA
OS
DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS
NA
AFRICA, ASIA E AMERICA
POR
F. ADOLPHO COELHO
Professor do Curso Superior de Lettras e socio effectivo da Sociedade de Geographia de Lisboa
LISBOA
CASA DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA
89, RUA DO ALECRIM, 89
1881
IMPRENSA NACIONAL
Extrahido do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa
OS
DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS
NA
AFRICA, ASIA E AMERICA
N'uma conferencia feita ante a Sociedade de Geographia em 16 de fevereiro de 1878 chamámos a attenção dos nossos consocios e do publico para as fórmas dialectaes particulares que algumas linguas europêas e particularmente o francez, o hespanhol e o portuguez, tinham tomado nas colonias e conquistas da Africa, Asia e America. Esses dialectos têem até hoje attrahido muito pouco a attenção dos linguistas, não existindo ainda nenhum trabalho geral sobre elles.
Era nosso desejo reunir os materiaes para um trabalho especial sobre os dialectos portuguezes, e um trabalho geral comparativo em que tentassemos determinar as leis de formação d'esses dialectos, formação que se póde por assim dizer estudar _no vivo_, porque um similhante estudo não poderia deixar de nos ministrar dados importantes sob os pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico.
Pedimos n'essa conferencia esclarecimentos, como já o tinhamos feito por outros meios, e os nossos pedidos não foram de todo inuteis. Um mancebo intelligente da ilha de Santo Antão, o sr. Cesar Augusto de Sá Nogueira, que assistíra á conferencia, deu-nos todos os materiaes para o estudo que publicâmos do dialecto creolo d'aquella ilha. O nosso amigo rev. R. H. Moreton continuou nos seus dedicados esforços para nos obter publicações no dialecto portuguez de Ceylão, e a elle devemos em grande parte poder dar hoje uma bibliographia já assás consideravel d'essas publicações e, o que é mais, possuil-as, estando assim habilitados para publicar em breve um estudo bastante completo sobre a _Grammatica e vocabulario do indo-portuguez_. No meio de outros trabalhos mais consideraveis nunca perdemos de vista os dialectos creolos, que havia muito nos interessavam, e fomos assim reunindo uma serie de noticias, em parte simplesmente bibliographicas, cujo conjuncto nos parece offerecer já doutrina sufficiente para constituir materia de um artigo de ensaio. Por mais incompleto que fique o nosso trabalho estamos certos que vem preencher uma lacuna no quadro da glottologia. Fr. Pott no quadro systematico-bibliographico da glottologia que serve de prefacio ao tomo II, 4 das suas _Etymologische Forschungen_ (1870) nem sequer menciona os dialetos creolos; nos livros geraes de Whitney, Max Müller e outros sobre a glottologia em vão se busca uma noticia d'esses tão interessantes productos; as opiniões expressas por alguns linguistas sobre o caracter d'esses dialectos, são, como veremos, indecisas ou erroneas, ou não apontam os lados por que esses dialectos são mais importantes para o observador. Comprehende-se este facto singular da historia da nossa sciencia quando se sabe que uma parte dos glottologos gastam o seu tempo á busca da solução de problemas ou insoluveis ou cuja chave não está ainda descoberta (etrusco, basco, acadiano, etc.), e outra anda absorvida pelos seus estudos especiaes, sem duvida interessantes e muitas vezes importantes, mas que fazem desviar a attenção de questões de muito maior momento, sendo poucos os que fazem progredir a sciencia de uma maneira sensivel.
O nosso ensaio seria muito mais completo se tivessemos maior numero de informações dos dialectos das nossas colonias e conquistas, e se tivessemos visto diversas publicações sobre os dialectos similhantes das outras linguas europêas, que por diversas causas não podémos examinar. Entre essas causas predominam a raridade de algumas d'essas publicações e miseravel dotação das nossas bibliothecas, que não lhes permitte comprar senão poucos livros que interessem a um pequeno numero de estudiosos.
I. DIALECTOS PORTUGUEZES
1. Creolo da ilha de Santo Antão (archipelago de Cabo Verde)
Este dialecto é fallado principalmente pela população de côr e pelas creanças que o aprendem com as creadas e amas negras. Distinguem-se duas fórmas: o creolo _rachado_, creolo _fundo_, creolo _vejo_, fallado principalmente no interior da ilha e de que as noticias e documentos que publicâmos dão conhecimento, e o creolo em que a grammatica portugueza é menos ignorada, distinguindo-se quasi unicamente pela pronuncia de algumas palavras ou sons e pelo accento geral.
As cartas seguintes foram escriptas por pessoas instruidas que fallam bem o portuguez, mas conhecem bem o creolo rachado. O unico documento verdadeiramente genuino do dialecto de Santo Antão acha-se na serie de adivinhações que o nosso amigo o sr. Sá Nogueira nos ministrou.
Carta 1.^a
Nha amigo.--Cu préssa en scrêbê | Meu amigo.--Com pressa escrevi ês dôs fója di papel, qui dentro | estas duas folhas de papel que dentro d'ês carta en tâ manda nhô. | d'esta carta lhe envio. | Talvêz algun cúsa, palabra, ou | Talvez alguma cousa, palavra ou móde nhù crê, stâ êrrado. Cuza | como quizer, esteja errada. O que qn'en câ tâ dubída; pamóde pâ | não duvido, porque por mais creolo más criôlo qui nós di Cabo Berde | que nós de Cabo Verde saibâmos, nú sabê, sénpre nu tâ ncontra | sempre encontrâmos difficuldade ou dificuldade ou enbaráço, quel'ora | embaraço logo que pegâmos na | qui nú pêga na péna pâ nu scrêbê na | penna para escrevermos na nossa nós lingua. | lingua. | Ês culpa ê câ di nós, ê di gobérno, | A culpa não é nossa, é do governo qui si al bê animaba nós na | que longe de animar-nos em qualquer calquér cuza, ê tâ oprimíno cú má | cousa, opprime-nos com a má scoja di sês empregado, qu'ê tâ | escolha dos seus empregados, que manda pâ Cabo Berde. | elle manda para Cabo Verde. | Ê tâ fazê bên mal, pamóde assi | Faz bem mal, porque assim perde ê tâ pêrdê tudo amor, tudo stima | todo o amor e toda a estima que qu'ê pôdê tên na pôbo di Cabo | póde ter no povo de Cabo Verde. Berde. Ês cuza ê câ só na Cabo | Isto não é só em Cabo Verde é por Berde, ê pâ tudo cábo, unde ê tên | toda a parte, onde elle tem um palmo un palmo di chôn. En podê flába | de terra. Eu podia dizer-lhe nhô cuzás chéo a ruspêto di nós | muitas cousas a respeito do nosso gobérno na Cabo Berde, ¿mas paquê? | governo em Cabo Verde, mas para Ês carta ê câ, sima português | que? Esta carta não é, como dizem tâ flâ, di politica, e pamóde | os portuguezes, de politica, e por ês en tâ bira pâ principio di nós | isso volto ao principio da nossa conbersa. Ê sima en staba tâ flâ | conversação. É como lhe estava dizendo, nhô, en câ sabê si algun cuza stâ | não sei se alguma cousa está tórto ou mál screbêdo nês dôs fójas | errada ou mal escripta n'essas duas di papel; mas câ m'inporta cú | folhas de papel; mas não nos importemos ês, e nhu ôubi cuss'ê qu'ent â flâ | com isso, e ouça o que nhô: Na fója un e na linha binte | lhe digo: Na folha 1 v. e linhas eu binte un, nhu tâ lé na banda | vinte e vinte um, na columna creola di criôlo «nha Dóna di nha Lucía» | «nha Dona nha Luzia», e no portuguez e na banda di português nhú câ tâ | não encontro nada que, acha nada qui, sima português tâ | como dizem os portuguezes, lhe flâ, tâ corrêspondêl. | corresponda. | Nhú sabê ê pamóde? Ê pamóde | Sabe a rasão? É porque Dona ês _Dóna_ ê un nóme qui na criôlo | n'aquelle logar é um nome que em tâ chomádo «nome di cassa», e ê | creolo se chama «nome de casa», tâ custuma pôdo n'algun minino | e usa-se nas meninas (creanças). fémea. Ê pâ ês nóme que ês minino | É por esse nome que ellas são chamadas tâ chomado tioqu'ê grande, | até á maioridade ou até á ou tioqu'ê mórré. Ês uso ê câ só di | morte. Este uso não é só de Cabo Cabo Berde, na Brazil tanbê ê tâ | Verde, no Brazil tambem se usa, usado, e assi mi conchê ghentes | e assim conhecemos muita gente chéo cú nome di Nené, Nhanhina, | com os nomes de Néné .......... Nhánha, Sinhârínha, Nhásinhára, | ............................... Júca, Jóca, sin sér sês nome di | ...... e Joca sem serem os seus batismo, ou _sês nome di greja_. | nomes de baptismo. | Agora si nhú crê sabê cuss'ê quí | Agora se quizer saber o que quer Dóna crê flâ, en tâ flâ nhô, no | dizer Dona, eu lhe digo, em portuguez portugués ê _avó_ e Dóno ê _avô_. | é avó e Dono avô. | A ruspêto di berbo, criôlo câ tên | Emquanto a verbos, o creolo não tudo qui português tâ choma _ténpo_.| tem tudo quanto o portuguez chama tempo. | Prónóme ê sima ja'n esplicá nhô | O pronome é como já lhe expliquei na fója dôs. Na criôlo di Cabo Berde| na folha 2. No creolo de Cabo câ tên _bós_ ou _abós_ pâ _vós_ di | Verde só ha _bós_ ou _abós_ para o _vós_ português, e ês tâ flâ _nhô_, o | portuguez, e usam de _nhô_ quando qu'ês tâ papiâ cú alguên só, e | fallam a uma pessoa só, e de _nhôs_ _nhôs_, o qu'ês tâ papiâ cú más | quando fallam a mais de uma. d'un. | | Agora _En_, _min_, _amin_ ê quasi | Agora emquanto a _Eu_, _min_, _amin_ tudo ô mésmo, cú algun différença, | é quasi tudo o mesmo, com alguma cónfórme conbersa tâ corrê. Tanbê | differença conforme o seguimento criôlo tên _mi_. Ex.: | da conversação. Tambem o creolo | tem _mi_. Ex.: | En crê ês cuza. | Eu quero esta cousa. | Quênhê qui fazê ês cuza? Ê mi. | Quem fez isto? Fui eu. | Amin en sâ tâ bá enghênho, ou | Eu vou ao engenho.......... Amin sâ tâ bá enghênho, ou En | ............................ sâ tâ bá enghenho. | | Jâ bástâ. Nhú al stâ enfadado. | Basta. Deve de estar enfadado. Agóra tioque nu encontra na | Agora até quando nos encontrarmos biblióthéca. | na bibliotheca. | Nhú acreditan, cum'amigo (_ou_ | Acredite-me, como amigo, que sima'amigo) qui tâ respêta nhô chéo.| muito o respeita.
Carta 2.^a
_Césa._--Pan fartá-bo bontade en | Cesar.--Para vos fazer a vontade tâ scrêbê-bo na nós lingua, na | eu escrevo-vos na nossa lingua, criôlo rachado, qu'en câ sabê si bô | em creolo fundo, que eu não sei tâ entendê-le. | se vós o entendeis. | Flan: pâ que bô mestê pâ nû | Dizei-me: para que precisaes de scrêbêbo nês lingua? Bô tenê gána | que vos escrevamos n'esta lingua? di estudâ si orige, fazê algun | Tendes desejo de estudar a sua gramatica ou dicionare? S'ê pâ algun| origem, de fazer alguma grammatica dês cussa Deus juda-bos; mas dexam | ou diccionario? Se é para alguma fla-bo mê al fazê-bo suâ tioque | d'estas cousas, Deus vos ajude, bu câ podê más, tioque bi seinti... | mas sempre vos direi que isso | vos fará suar até não poderdes mais, | até que o sintaes.............. | N'ês ija quasi tudo alguên tenê | N'esta ilha quasi toda a gente médo di Duco. Duco bu conchê-le? | tem medo de Duco: Duco vós conheceil-o? Estan mâ náu. Duco era un préso | Estou que não. Duco era que staba na calabôs; ê entendê mê | um preso que estava no calabouço; câ stába lâ sábe, ê fugi êle cû dôs | e entendeu que não estava lá bem; companheros; ê stâ riba cháda; tâ | e fugiu com dois companheiros; está mátâ cábra, tâ forçâ mujéres, tâ | em cima da achada; mata cabras, fazê tudo casta di pouca borgonha. | força mulheres, faz toda a casta Flado mâ Duco manda flâ Henrique | de pouca vergonha. Diz-se (fallado) d'Olibéra, Puchim, Maia, Bencesláu | que Duco manda dizer a Henrique pâ ês tomâ seintido cú sês | de Oliveira, Puchim, Maia, Wenceslau bida, pâ ês câ bá fóra, pamóde se | para que estes tomem sentido encontra cu êles mê tâ matalos. | com a sua vida, para estes não Fazê idéa mó ês al tênê mêdo! | irem fóra, poisque se se encontra | com elles que os mata. Fazei idéa, | como estes terão medo! | P. si bida ê dentro cartore; ê | Paulo a sua vida é dentro do stâ magro sima alguên tisgo; ê flâ | cartorio, elle está magro assim como mâ só bo que sâ tâ fazê-le falta; | um tisico; diz que sois vós que ê mandá-bo mantenha chéo. | lhe tendes feito falta; elle manda-vos | muitas recommendações. | Ti outr'ora; en câ ten mâs tempo. | Até outra occasião; eu não tenho Bo armun, etc. | mais tempo. Vosso irmão, etc.
Carta 3.^a
Nha estimado armun. En rêcêbê | Meu estimado irmão. Eu recebi carta di nhô, qu'in fica munto | carta do senhor, que eu fico muito contente con êl, e pan fazê nhô | contente com ella, e para fazer ao bontade en tâ cumçâ screbê nhô na | senhor vontade eu começo a escrever criôlo. Primêro nobidade qu'in tâ | ao senhor em creolo. Primeira dâ nhô ê cumâ C. mâ tâ recitâ quês | novidade que eu dou ao senhor é berços di dôda de Albano na criôlo | que C. recita aquelles versos da doida e ê ta cunçal sin: | de Albano em creolo, e começa | assim: | Benca li nha fijo sucuta: | Vem cá meu filho escuta: | Bê ê amigo di bu mái? | És amigo de tua mãe? | Bé! nha mái, e que pergunta ê | Bem, minha mãe, e que pergunta ês? | é essa? | Pôs bên, sima bu ojá ês carnuja | Pois bem, assim como tu vês este carnugado, ferucho feruchado ê | ferro enferrujado é sangue de teu sangue di bu pai; i bu tâ juran cumâ| pae, e tu juras-me como o vingas? bu ta bingal? | | En tâ jura! | Eu juro! | Ampôz ê Ricardo pai di Maria, | Pois é Ricardo, pae de Maria, qui matâ bu pai! | que matou teu pae! | Bé! mamái! Pai di Maria en câ | Bé! mamã! Pae de Maria eu não podê matal, pamóde Maria stan | posso matal-o, porque Maria está dente nha côraçon. | dentro de meu coração. | E assim cú munto cuza, mas | E assim com muita cousa, mas qu'in câ sabê, e por isso en câ tâ | que eu não sei, e por isso eu não pon. Quen qui costumá tanbê recital | ponho. Quem aqui tambem costuma ê Brito e mas Quinquim. | recital-os é Brito e mais Joaquim. | En pidi nhô di fabôr pá nhú mandan | Eu pedi ao senhor o favor de quêl dicionare; en pedi té na | mandar-me aquelle diccionario; eu português, gora en tâ biral na | pedi em portuguez, agora eu traduzo criôlo. Quê pâ fabur câ nhú | (viro) em creolo. Queira por desquecê. En tâ, cába ês carta pan | favor não se esquecer. Eu acabo porgunta nhô s'ê pêrciso escrêbê nhô| esta carta por perguntar ao senhor en criôlo na tudo bapor, ou náo. | se é preciso escrever ao senhor em | creolo por todos os vapores ou não. | Nhu adés, nhú dán tudo alguen | mantênha chéo. Tudo ghentes di | casa tâ mandâ nhô mantenha chéo. |
Phrases diversas
Mâ nhu stâ? ou Mâ nhu pássâ? | Como está? ou como passa? | Cômmôdádo, nhô mâ nhu sa ta | Bom, e o sr. como tem passado? pássâ? | | Mâ ba ghentes tudo dinhô? _ou_ | Como estão todos os seus? Móde ghentes tudo di nhô stâ? | | Tudo stâ bon, graças a Déus. | Todos estão bons, graças a Deus. | Jâ dura qui en ca ôjâ nhô; Unde | Ha muito tempo que o não vejo, nhu staba? _ou_ Unde nhu tên stado? | onde tem estado? | Mi en stába la na Orgôn, _ou_ En | Eu estava nos Orgãos, ou eu tenho tên stâdo la na Orgôn. | estado nos Orgãos. | Cuz'é _ou_ Cuss'ê nhu bá fazêba lâ? | O que foi lá fazer? | En bába oja (_ou_ en bá ojába) un | Fui ver uma parenta minha que nhâ parente, qui stába doente. | estava doente. | ¿Quênhê, tia di nhô, nhâ Maria? | Quem? a sua tia, a sr.^a Maria? ¿Cuss'ê qu'ê tênba? | O que tinha ella? | E tênba dór na péto, _ou_, ê ta | Tinha dores no peito, ou queixava-se quexaba di dór na péto. | de dores no peito. | Ê jâ stâ milhor? | Já está melhor? | En dêxal um pouco milhor, _ou_, | Deixei-a um pouco melhor. En dêxal más cômôdádo un pouco. | | Púndo nhu sâ tâ bai? (_gossi-n_). | Para onde vae agora? | En sâ tâ bai Praia. | Vou á Praia. | I mi en sâ tâ bai (_ou_ bá) Tarrafal| E eu vou para o Tarrafal. _ou_ Tarfal. | | Anton nhu tên qui anda chêo | Então tem de andar ainda muito. inda. | | Qui horas ê gossin? _ou_ Canto | Quantas horas são? hora jâ dâ? | | Já stâ pâ dôs hora. | Devem ser duas horas. | Dêxam bai, tioque nu torna ojá. | Deixe-me ir, até quando nos tornarmos | a ver. | Nhu adés. (_adés_). | Adeus. | F. En tâ pidi bo pâ bo escrêbên | F. Peço-te que me escrevas uma um carta na criôlo, mas num criôlo | carta em creolo, mas em um creolo bêrdadêro. | verdadeiro (puro). Has de achar Bu al acha galante ês pidido; | exquisito (extravagante) este pedido, mas oc bu sabê ê pâ cuzé, bu al | mas quando souberes para que ficá conténte. Gossin en câ podê | é, ficarás satisfeito. Agora (n'esta flábo ê pâ que fin, pamóde en câ | occasião) não posso dizer-te para tên ténpo. | que fim é, porque não tenho tempo. | Câ bu squêcê, ¿já bu oubí? | Não te esqueças, ouviste? | Bo armun amigo. | Teu irmão, amigo. | Jâ bu râcêbê nha carta qui en | Já recebeste a minha carta que scrêbê-bo na criôlo? Respondên e | te escrevi em crioulo? Responde-me e mandâ flan mode ghentes tudo | e manda dizer-me como estão todos. stâ. | | Titia jâ stâ mijór di si dismaios? | A tia já está melhor dos seus Nha Dóna di nha Lucía inda câ | desmaios? A nha Dona da Luzia cômôda? | ainda não está boa? | Logo qui[1] bu rêcêbê ês carta, | Logo que receberes esta carta bu ta manda chôma Roque, e bu | mandarás chamar o Roque, e lhe ta flal cumâ en rêcêbê si carta, e | dirás que recebi a carta d'elle, e su xinti chêo di más, di máo tratos,| senti bastante dos maus tratos, que qui scribons sâ tâ dal. | os escrivães lhe têem dado. | Comâ gossin en câ podê fazel | Que agora nada lhe posso fazer, náda, e pâ ê spêra tioque en boltâ | e que espere até (quando) eu voltar C. Berde; e anton en tâ oja, si | a Cabo Verde, e verei então se algun cuza en tâ podê alcança na si | alguma cousa posso alcançar em fabôr. | seu favor.
Adivinhações
«Os creolos em Cabo Verde, diz-nos o sr. Nogueira, pelo menos em Sant'Iago, têem por costume contarem historias, isto é, lendas ou contos.
«Quasi sempre essas historias são contadas á noite, assentando-se as pessoas que tomam parte n'esse passatempo de caracter verdadeiramente familiar, á porta da rua ou então dentro de casa, fazendo d'esse passatempo um serão. Precedem a essas historias as adivinhações, sendo algumas d'estas bem obscenas.»
Eis uma pequena serie d'essas adivinhas que o nosso collaborador nos ministrou: