Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 6
Se as penas com que Amor tão mal me trata Permittirem que eu tanto viva dellas, Que veja escuro o lume das estrellas, Em cuja vista o meu se accende e mata; E se o tempo, que tudo desbarata, Seccar as frescas rosas, sem colhellas, Deixando a linda côr das tranças bellas Mudada de ouro fino em fina prata; Tambem, Senhora, então vereis mudado O pensamento e a aspereza vossa, Quando não sirva ja sua mudança. Ver-vos-heis suspirar por o passado, Em tempo quando executar-se possa No vosso arrepender minha vingança.
LIX.
Quem jaz no grão sepulchro, que descreve Tão illustres signaes no forte escudo? Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo: Mas foi quem tudo pôde e tudo teve. Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve: Poz na guerra e na paz devido estudo. Mas quão pezado foi ao Mouro rudo, Tanto lhe seja agora a terra leve. Alexandro será? Ninguem se engane: Mais que o adquirir, o sustentar estima. Será Hadriano grão Senhor do mundo? Mais observante foi da Lei de cima. He Numa? Numa não, mas he Joane. De Portugal Terceiro sem segundo.
LX.
Quem póde livre ser, gentil Senhora, Vendo-vos com juizo socegado, Se o menino, que de olhos he privado, Nas meninas dos vossos olhos mora? Alli manda, alli reina, alli namora, Alli vive das gentes venerado; Que o vivo lume, e o rosto delicado, Imagens são adonde Amor se adora. Quem vê que em branca neve nascem rosas Que crespos fios de ouro vão cercando, Se por entre esta luz a vista passa, Raios de ouro verá, que as duvidosas Almas estão no peito traspassando, Assi como hum crystal o sol traspassa.
LXI.
Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? Foi voluntaria, ou foi por innocencia? He que Amor fazer só quiz exp'riencia Se podia eu soffrer tirar-me a vida. E com teu proprio sangue te convida A que faças á morte resistencia? He que costume faço da paciencia, Porque o temor morrer me não impida. Pois porque estás comendo fogo ardente, Se a ferro te costumas? He que ordena Amor que morra, e pene juntamente. E t[~e]es a dor do ferro por pequena? Si; que a dor costumada não se sente; E não quero eu a morte sem a pena.
LXII.
De tão divino accento em voz humana, De elegancias que são tão peregrinas, Sei bem que minhas obras não são dinas; Que o rudo engenho meu me desengana. Porém da vossa penna illustre mana Licor que vence as águas Caballinas; E comvosco do Tejo as flores finas Farão inveja á cópia Mantuana. E pois, a vós de si não sendo avaras, As filhas de Mnemosine formosa Partes dadas vos t[~e]e ao mundo claras; A minha Musa, e a vossa tão famosa, Ambas se podem nelle chamar raras, A vossa de alta, a minha de invejosa.
LXIII.
Debaixo desta pedra está metido, Das sanguinosas armas descansado, O Capitão illustre e assinalado Dom Fernando de Castro esclarecido. Este por todo o Oriente tão temido, Este da propria inveja tão cantado, Este, em fim, raio de Mavorte irado, Aqui está agora em terra convertido. Alegra-te, ó guerreira Lusitania, Por est'outro Viriato que criaste, E chora a perda sua eternamente. Exemplo toma nisto de Dardania; Que se a Roma com elle anniquilaste, Nem por isso Carthago está contente.
LXIV.
Que vençais no Oriente tantos Reis, Que de novo nos deis da India o Estado, Que escureçais a fama que hão ganhado Aquelles, que a ganhárão de infieis; Que vencidas tenhais da morte as leis, E que vencesseis tudo, em fim, armado, Mais he vencer na patria, desarmado, Os monstros e as Chimeras que venceis. Sôbre vencerdes, pois, tanto inimigo, E por armas fazer que sem segundo No mundo o vosso nome ouvido seja; O que vos dá mais fama inda no mundo, He vencerdes, Senhor, no Reino amigo, Tantas ingratidões, tão grande inveja.
LXV.
Vossos olhos, Senhora, que competem Com o sol em belleza e claridade, Enchem os meus de tal suavidade, Que em lagrimas de vê-los se derretem. Meus sentidos prostrados se submetem Assi cegos a tanta magestade; E da triste prisão, da escuridade, Cheios de medo, por fugir, remetem. Porém se então me vêdes por acêrto, Esse aspero desprêzo com que olhais Me torna a animar a alma enfraquecida. Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto! Que dareis co'hum favor que vós não dais, Quando com hum desprêzo me dais vida?
LXVI.
Formosura do Ceo a nós descida, Que nenhum coração deixas isento, Satisfazendo a todo pensamento, Sem que sejas de algum bem entendida; Qual lingoa póde haver tão atrevida, Que tenha de louvar-te atrevimento, Pois a parte melhor do entendimento, No menos que em ti ha se vê perdida? Se em teu valor contemplo a menor parte, Vendo que abre na terra hum paraiso, Logo o engenho me falta, o esprito míngoa. Mas o que mais me impede inda louvar-te, He que quando te vejo perco a lingoa, E quando não te vejo perco o siso.
LXVII.
Pois meus olhos não cansão de chorar Tristezas não cansadas de cansar-me; Pois não se abranda o fogo em que abrazar-me Pôde quem eu jamais pude abrandar; Não canse o cego Amor de me guiar Onde nunca de lá possa tornar-me; Nem deixe o mundo todo de escutar-me, Em quanto a fraca voz me não deixar. E se em montes, se em prados, e se em valles Piedade mora alguma, algum amor Em feras, plantas, aves, pedras, agoas; Oução a longa historia de meus males, E curem sua dor com minha dor; Que grandes mágoas podem curar mágoas.
LXVIII.
Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos, Porque a guarde sobpena de enojar-vos; Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos Fara que fique em lei de obedecer-vos. Tudo me defendei, senão só ver-vos E dentro na minha alma contemplar-vos; Que se assi não chegar a contentar-vos, Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos. E se essa condição cruel e esquiva Que me deis lei de vida não consente, Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte. Se nem essa me dais, he bem que viva, Sem saber como vivo, tristemente; Mas contente estarei com minha sorte.
LXIX.
Ferido sem ter cura perecia O forte e duro Télepho temido Por aquelle que na agua foi metido, E a quem ferro nenhum cortar podia. Quando a Apollineo Oraculo pedia Conselho para ser restituido, Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido Por quem o ja ferira, e sararia. Assi, Senhora, quer minha ventura; Que ferido de ver-vos claramente, Com tornar-vos a ver Amor me cura. Mas he tão doce vossa formosura, Que fico como o hydropico doente, Que bebendo lhe cresce mór seccura.
LXX.
Na metade do ceo subido ardia O claro, almo Pastor, quando deixavão O verde pasto as cabras, e buscavão A frescura suave da agua fria. Com a folha das árvores, sombria, Do raio ardente as aves se amparavão: O módulo cantar, de que cessavão, Só nas roucas cigarras se sentia. Quando Liso pastor n'hum campo verde Natercia, crua Nympha, só buscava Com mil suspiros tristes que derrama. Porque te vás de quem por ti se perde, Para quem pouco te ama? (suspirava) E o eco lhe responde: Pouco te ama.
LXXI.
Ja a roxa e branca Aurora destoucava Os seus cabellos de ouro delicados, E das flores os campos esmaltados Com crystallino orvalho borrifava; Quando o formoso gado se espalhava De Sylvio e de Laurente por os prados; Pastores ambos, e ambos apartados, De quem o mesmo amor não se apartava. Com verdadeiras lagrimas Laurente, Não sei, (dizia) ó Nympha delicada, Porque não morre ja quem vive ausente; Pois a vida sem ti não presta nada. Responde Sylvio: Amor não o consente: Que offende as esperanças da tornada.
LXXII.
Quando de minhas mágoas a comprida Maginação os olhos me adormece, Em sonhos aquella alma me apparece, Que para mi foi sonho nesta vida. Lá n'huma soidade, onde estendida A vista por o campo desfallece, Corro apoz ella; e ella então parece Que mais de mi se alonga, compellida. Brado: Não me fujais, sombra benina. Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo, Como quem diz, que ja não póde ser) Torna a fugir-me: torno a bradar: _Dina_... E antes que diga _mene_, acórdo, e vejo Que nem hum breve engano posso ter.
LXXIII.
Suspiros inflammados que cantais A tristeza com que eu vivi tão ledo, Eu morro e não vos levo, porque hei medo Que ao passar do Letheio vos percais. Escriptos para sempre ja ficais Onde vos mostrarão todos co'o dedo, Como exemplo de males; e eu concedo Que para aviso de outros estejais. Em quem, pois, virdes largas esperanças De Amor e da Fortuna, (cujos danos Alguns terão por bem-aventuranças) Dizei-lhe, que os servistes muitos anos, E que em Fortuna tudo são mudanças, E que em Amor não ha senão enganos.
LXXIV.
Aquella fera humana que enriquece A sua presunçosa tyrannia Destas minhas entranhas, onde cria Amor hum mal, que falta quando crece; Se nella o Ceo mostrou (como parece) Quanto mostrar ao mundo pretendia, Porque de minha vida se injuria? Porque de minha morte se ennobrece? Ora, em fim, sublimai vossa victoria, Senhora, com vencer-me e captivar-me: Fazei della no mundo larga historia. Pois, por mais que vos veja atormentar-me, Ja me fico logrando desta gloria De ver que tendes tanta de matar-me.
LXXV.
Ditoso seja aquelle que somente Se queixa de amorosas esquivanças; Pois por ellas não perde as esperanças De poder n'algum tempo ser contente. Ditoso seja quem estando ausente Não sente mais que a pena das lembranças; Porqu'inda que se tema de mudanças, Menos se teme a dor quando se sente. Ditoso seja, em fim, qualquer estado, Onde enganos, desprezos e isenção Trazem hum coração atormentado. Mas triste quem se sente magoado De erros em que não póde haver perdão Sem ficar na alma a mágoa do peccado.
LXXVI.
Quem fosse acompanhando juntamente Por esses verdes campos a avezinha, Que despois de perder hum bem que tinha, Não sabe mais que cousa he ser contente! E quem fosse apartando-se da gente. Ella por companheira e por vizinha, Me ajudasse a chorar a pena minha, E eu a ella tambem a que ella sente! Ditosa ave! que ao menos, se a natura A seu primeiro bem não dá segundo, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. Mas triste quem de longe quiz ventura Que para respirar lhe falte o vento, E para tudo, em fim, lhe falte o mundo!
LXXVII.
O culto divinal se celebrava No templo donde toda criatura Louva o Feitor divino, que a feitura Com seu sagrado sangue restaurava. Amor alli, que o tempo me aguardava Onde a vontade tinha mais segura, Com huma rara e angelica figura A vista da razão me salteava. Eu crendo que o lugar me defendia De seu livre costume, não sabendo Que nenhum confiado lhe fugia; Deixei-me captivar: mas hoje vendo, Senhora, que por vosso me queria, Do tempo que fui livre me arrependo.
LXXVIII.
Leda serenidade deleitosa, Que representa em terra hum paraiso; Entre rubis e perlas doce riso, Debaixo de ouro e neve côr de rosa; Presença moderada e graciosa, Onde ensinando estão despejo e siso Que se póde por arte e por aviso, Como por natureza, ser formosa; Falla de que ou ja vida, ou morte pende. Rara e suave, em fim, Senhora, vossa, Repouso na alegria comedido; Estas as armas são com que me rende E me captiva Amor; mas não que possa Despojar-me da gloria de rendido.
LXXIX.
Bem sei, Amor, que he certo o que receio; Mas tu, porque com isso mais te apuras, De manhoso mo negas, e mo juras Nesse teu arco de ouro; e eu te creio. A mão tenho metida no meu seio, E não vejo os meus damnos ás escuras: Porém porfias tanto e me asseguras, Que me digo que minto, e que me enleio. Nem somente consinto neste engano, Mas inda to agradeço, e a mi me nego Tudo o que vejo e sinto de meu dano. Oh poderoso mal a que me entrego! Que no meio do justo desengano Me possa inda cegar hum moço cego?
LXXX.
Como quando do mar tempestuoso O marinheiro todo trabalhado, De hum naufragio cruel sahindo a nado, Só de ouvir fallar nelle está medroso: Firme jura que o vê-lo bonançoso Do seu lar o não tire socegado; Mas esquecido ja do horror passado, Delle a fiar se torna cobiçoso: Assi, Senhora, eu que da tormenta De vossa vista fujo, por salvar-me, Jurando de não mais em outra ver-me; Com a alma que de vós nunca se ausenta, Me tórno, por cobiça de ganhar-me, Onde estive tão perto de perder-me.
LXXXI.
Amor he hum fogo que arde sem se ver; He ferida que doe e não se sente; He hum contentamento descontente; He dor que desatina sem doer; He hum não querer mais que bem querer; He solitario andar por entre a gente; He hum não contentar-se de contente; He cuidar que se ganha em se perder; He hum estar-se preso por vontade; He servir a quem vence o vencedor; He hum ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar póde o seu favor Nos mortaes corações conformidade, Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?
LXXXII.
Se pena por amar-vos se merece, Quem della estará livre? quem isento? E que alma, que razão, que entendimento No instante em que vos vê não obedece? Qual mor gloria na vida ja se offrece, Que a de occupar-se em vós o pensamento? Não só todo rigor, todo tormento Com ver-vos não magôa, mas se esquece. Porém se heis de matar a quem amando, Ser vosso de amor tanto só pretende, O mundo matareis, que todo he vosso. Em mi podeis, Senhora, ir começando, Pois bem claro se mostra e bem se entende Amar-vos quanto devo e quanto posso.
LXXXIII.
Que levas, cruel Morte? Hum claro dia. A que horas o tomaste? Amanhecendo. E entendes o que levas? Não o entendo. Pois quem to faz levar? Quem o entendia. Seu corpo quem o goza? A terra fria. Como ficou sua luz? Anoitecendo. Lusitania que diz? Fica dizendo... Que diz? Não mereci a grã Maria. Mataste a quem a vio? Ja morto estava. Que discorre o Amor? Fallar não ousa. E quem o faz callar? Minha vontade. Na Corte que ficou? Saudade brava. Que fica lá que ver? Nenhuma cousa. Que gloria lhe faltou? Esta beldade.
LXXXIV.
Ondados fios de ouro reluzente, Que agora da mão bella recolhidos, Agora sôbre as rosas esparzidos Fazeis que a sua graça se accrescente; Olhos, que vos moveis tão docemente, Em mil divinos raios incendidos, Se de cá me levais a alma e sentidos, Que fôra, se eu de vós não fôra ausente? Honesto riso, que entre a mór fineza De perlas e coraes nasce e apparece; Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse! Se imaginando só tanta belleza, De si com nova gloria a alma se esquece, Que será quando a vir? Ah quem a visse!
LXXXV.
Foi ja n'hum tempo doce cousa amar, Em quanto me enganou huma esperança: O coração com esta confiança Todo se desfazia em desejar. Oh vão, caduco e debil esperar! Como, em fim, desengana huma mudança! Que quanto he mor a bem-aventurança, Tanto menos se crê que ha de durar. Quem ja se vio com gostos prosperado, Vendo-se brevemente em pena tanta, Razão t[~e]e de viver bem magoado. Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado, Não o magôa a pena, nem o espanta; Que mal se estranhára o costumado.
LXXXVI.
Dos antigos Illustres, que deixárão Hum nome digno de immortal memoria, Ficou por luz do tempo a larga historia Dos feitos em que mais se avantajárão. Se com suas acções se cotejárão Mil vossas, cada huma tão notoria, Vencêra a menor dellas a mor gloria Que elles em tantos annos alcançárão. A gloria sua foi: ninguem lha tome: Seguindo cada qual varios caminhos Estatuas mereceo no heroico Templo. Vós honra Portugueza e dos Coutinhos, Clarissimo Dom João, com melhor nome A vós encheis de gloria, a nós de exemplo.
LXXXVII.
Conversação doméstica affeiçoa, Ora em fórma de limpa e sãa vontade, Ora de huma amorosa piedade, Sem olhar qualidade de pessoa. Se despois, por ventura, vos magôa Com desamor e pouca lealdade, Logo vos faz mentira da verdade O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa, Não são isto que fallo conjecturas Que o pensamento julga na apparencia, Por fazer delicadas escripturas. Metida tenho a mão na consciencia, E não fallo senão verdades puras Que me ensinou a viva experiencia.
LXXXVIII.
Esfôrço grande, igual ao pensamento, Pensamentos em obras divulgados, E não em peito timido encerrados, E desfeitos despois em chuva e vento; Ánimo da cobiça baixa isento, Digno por isto só de altos estados, Fero açoute dos nunca bem domados Povos do Malabar sanguinolento; Gentileza de membros corporaes Ornados de pudica continencia, Obra por certo da celeste altura: Estas virtudes raras e outras mais, Dignas todas da Homerica eloquencia, Jazem debaixo desta sepultura.
LXXXIX.
No mundo quiz o Tempo que se achasse O bem que por acêrto, ou sorte vinha; E por exprimentar que dita tinha, Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse. Mas porque o meu destino me mostrasse Que nem ter esperanças me convinha, Nunca nesta tão longa vida minha Cousa me deixou ver que desejasse. Mudando andei costume, terra, estado, Por ver se se mudava a sorte dura; A vida puz nas mãos de hum leve lenho. Mas, segundo o que o Ceo me t[~e]e mostrado, Ja sei que deste meu buscar ventura Achado tenho ja que não a tenho.
XC.
A perfeição, a graça, o doce geito, A Primavera cheia de frescura, Que sempre em vós florece; a que a ventura, E a razão entregárão este peito; Aquelle crystallino e puro aspeito, Que em si comprehende toda a formosura; O resplandor dos olhos e a brandura, Donde Amor a ninguem quiz ter respeito; S'isto que em vós se vê, ver desejais, Como digno de ver-se claramente, Por muito que de Amor vos isentais; Traduzido o vereis tão fielmente No meio deste espirito onde estais, Que vendo-vos sintais o que elle sente.
XCI.
Vós, que de olhos suaves e serenos, Com justa causa a vida captivais, E que os outros cuidados condemnais Por indevidos, baixos e pequenos; Se de Amor os domesticos venenos Nunca provastes, quero que sintais Que he tanto mais o amor despois que amais, Quanto são mais as causas de ser menos. E não presuma alguem que algum defeito, Quando na cousa amada se apresenta, Possa diminuir o amor perfeito: Antes o dobra mais; e se atormenta, Pouco a pouco desculpa o brando peito; Que Amor com seus contrarios se accrescenta.
XCII.
Que poderei do mundo ja querer, Pois no mesmo em que puz tamanho amor, Não vi senão desgôsto e desfavor, E morte, em fim; que mais não póde ser? Pois me não farta a vida de viver, Pois ja sei que não mata grande dor, Se houver cousa que mágoa dê maior, Eu a verei; que tudo posso ver. A Morte, a meu pezar, me assegurou De quanto mal me vinha: ja perdi O que a perder o medo me ensinou. Na vida desamor somente vi, Na morte a grande dor que me ficou: Parece que para isto só nasci.
XCIII.
Pensamentos, que agora novamente Cuidados vãos em mi resuscitais, Dizei-me: E ainda não vos contentais De ter a quem vos t[~e]e tão descontente? Que phantasia he esta, que presente Cad'hora ante os meus olhos me mostrais? Com huns sonhos tão vãos inda tentais Quem nem por sonhos póde ser contente? Vejo-vos, pensamentos, alterados, E não quereis, de esquivos, declarar-me Que he isto que vos traz tão enleados? Não mo negueis, se andais para negar-me; Porque se contra mi 'stais levantados, Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.
XCIV.
Se tomo a minha pena em penitencia Do error em que cahio o pensamento, Não abrando, mas dóbro meu tormento, Que a tanto, e mais, obriga a paciencia. E se huma côr de morto na apparencia, Hum espalhar suspiros vãos ao vento Não faz em vós, Senhora, movimento, Fique o meu mal em vossa consciencia. Mas se de qualquer aspera mudança Toda vontade isenta Amor castiga, (Como eu vejo no mal que me condena) E se em vós não se entende haver vingança, Será forçado (pois Amor me obriga) Que eu só da culpa vossa pague a pena.
XCV.
Aquella que, de pura castidade, De si mesma tomou cruel vingança Por huma breve e subita mudança Contrária á sua honra e qualidade; Venceo á formosura a honestidade, Venceo no fim da vida a esperança, Porque ficasse viva tal lembrança, Tal amor, tanta fé, tanta verdade. De si, da gente e do mundo esquecida, Ferio com duro ferro o brando peito, Banhando em sangue a fôrça do tyrano. Oh ousadia estranha! estranho feito! Que dando breve morte ao corpo humano, Tenha sua memoria larga vida!
XCVI.
Os vestidos Elisa revolvia, Que Eneas lhe deixára por memoria; Doces despojos da passada gloria; Doces quando seu fado o consentia. Entre elles a formosa espada via, Que instrumento, em fim, foi da triste historia; E como quem de si tinha a victoria, Fallando só com ella, assi dizia: Formosa e nova espada, se ficaste Só porque executasses os enganos De quem te quiz deixar, em minha vida; Sabe que tu comigo te enganaste; Que para me tirar de tantos danos Sobeja-me a tristeza da partida.
XCVII.
Oh quão caro me custa o entender-te, Molesto Amor que, só por alcançar-te, De dor em dor me tens trazido a parte Donde em ti odio e íra se converte! Cuidei que para em tudo conhecer-te Me não faltava experiencia e arte; Mas na alma vejo agora accrescentar-te Aquillo que era causa de perder-te. Estavas tão secreto no meu peito, Que eu mesmo, que te tinha, não sabia Que me senhoreavas deste geito. Descubriste-te agora; e foi por via Que teu descobrimento e meu defeito, Hum me envergonha e outro me injuria.
XCVIII.
Se despois de esperança tão perdida, Amor por causa alguma consentisse Que inda algum'hora breve alegre visse De quantas tristes vio tão longa vida; Hum'alma ja tão fraca e tão cahida (Quando a sorte mais alto me subisse) Não tenho para mi que consentisse Alegria tão tarde consentida. Nem tamsomente o Amor me não mostrou Hum'hora em que vivesse alegremente, De quantas nesta vida me negou; Mas inda tanta pena me consente, Que co'o contentamento me tirou O gôsto de algum'hora ser contente.
XCIX.