Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 5

Chapter 53,755 wordsPublic domain

Quem vê, Senhora, claro e manifesto O lindo ser de vossos olhos bellos, Se não perder a vista só com vellos, Ja não paga o que deve a vosso gesto. Este me parecia preço honesto; Mas eu, por de vantagem merecellos, Dei mais a vida e alma por querellos; Donde ja me não fica mais de resto. Assi que alma, que vida, que esperança, E que quanto for meu, he tudo vosso: Mas de tudo o interêsse eu só o levo. Porque he tamanha bem-aventurança O dar-vos quanto tenho, e quanto posso, Que quanto mais vos pago, mais vos devo.

XVII.

Quando da bella vista e doce riso Tomando estão meus olhos mantimento, Tão elevado sinto o pensamento, Que me faz ver na terra o Paraiso. Tanto do bem humano estou diviso, Que qualquer outro bem julgo por vento: Assi que em termo tal, segundo sento, Pouco vem a fazer quem perde o siso. Em louvar-vos, Senhora, não me fundo; Porque quem vossas graças claro sente, Sentirá que não póde conhecellas. Pois de tanta estranheza sois ao mundo, Que não he de estranhar, Dama excellente, Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas.

XVIII.

Doces lembranças da passada gloria, Que me tirou fortuna roubadora, Deixai-me descansar em paz hum'hora, Que comigo ganhais pouca victoria. Impressa tenho na alma larga historia Deste passado bem, que nunca fôra; Ou fôra, e não passára: mas ja agora Em mi não póde haver mais que a memoria. Vivo em lembranças, morro de esquecido De quem sempre devêra ser lembrado, Se lhe lembrára estado tão contente. Oh quem tornar pudéra a ser nascido! Soubera-me lograr do bem passado, Se conhecer soubera o mal presente.

XIX.

Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Ceo eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento Ethereo, onde subiste, Memoria desta vida se consente, Não te esqueças de aquelle amor ardente, Que ja nos olhos meus tão puro viste. E se vires que póde merecer-te Alg[~u]a cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remedio, de perder-te; Roga a Deos que teus annos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.

XX.

N'hum bosque, que das Nymphas se habitava, Sibella, Nympha linda, andava hum dia; E subida em huma árvore sombria, As amarellas flores apanhava. Cupido, que alli sempre costumava A vir passar a sésta á sombra fria, Em hum ramo arco e settas, que trazia, Antes que adormecesse, pendurava. A Nympha, como idoneo tempo víra Para tamanha empresa, não dilata; Mas com as armas foge ao moço esquivo. As settas traz nos olhos, com que tira. Ó Pastores! fugi, que a todos mata, Senão a mim, que de matar-me vivo.

XXI.

Os Reinos e os Imperios poderosos, Que em grandeza no mundo mais crescêrão; Ou por valor de esfôrço florecêrão, Ou por Barões nas letras espantosos. Teve Grecia Themistocles famosos; Os Scipiões a Roma engrandecêrão; Doze Pares a França gloria derão; Cides a Hespanha, e Laras bellicosos. Ao nosso Portugal, que agora vemos Tão differente de seu ser primeiro, Os vossos derão honra e liberdade. E em vós, grão successor e novo herdeiro Do Braganção Estado, ha mil extremos Iguaes ao sangue, e móres que a idade.

XXII.

De vós me parto, ó vida, e em tal mudança Sinto vivo da morte o sentimento. Não sei para que he ter contentamento, Se mais ha de perder quem mais alcança. Mas dou-vos esta firme segurança: Que postoque me mate o meu tormento, Por as aguas do eterno esquecimento Segura passará minha lembrança. Antes sem vós meus olhos se entristeção, Que com cousa outra alguma se contentem: Antes os esqueçais, que vos esqueção. Antes nesta lembrança se atormentem, Que com esquecimento desmereção A gloria que em soffrer tal pena sentem.

XXIII.

Chara minha inimiga, em cuja mão Poz meus contentamentos a ventura, Faltou-te a ti na terra sepultura, Porque me falte a mi consolação. Eternamente as águas lograrão A tua peregrina formosura: Mas em quanto me a mim a vida dura, Sempre viva em minha alma te acharão. E se meus rudos versos podem tanto, Que possão prometter-te longa historia De aquelle amor tão puro e verdadeiro; Celebrada serás sempre em meu canto: Porque em quanto no mundo houver memoria, Será a minha escriptura o teu letreiro.

XXIV.

Aquella triste e leda madrugada, Cheia toda de mágoa e de piedade, Em quanto houver no mundo saudade Quero que seja sempre celebrada. Ella só, quando amena e marchetada Sahia, dando á terra claridade, Vio apartar-se de huma outra vontade, Que nunca poderá ver-se apartada; Ella só vio as lagrimas em fio, Que de huns e de outros olhos derivadas, Juntando-se, formárão largo rio; Ella ouvio as palavras magoadas, Que puderão tornar o fogo frio, E dar descanço ás almas condemnadas.

XXV.

Se quando vos perdi, minha esperança, A memoria perdêra juntamente Do doce bem passado e mal presente, Pouco sentira a dor de tal mudança. Mas Amor, em quem tinha confiança, Me representa mui miudamente Quantas vezes me vi ledo e contente, Por me tirar a vida esta lembrança. De cousas de que apenas hum signal Havia, porque as dei ao esquecimento, Me vejo com memorias perseguido. Ah dura estrella minha! Ah grão tormento! Que mal póde ser mor, que no meu mal Ter lembranças do bem que he ja passado?

XXVI.

Em formosa Lethea se confia, Por onde vaidade tanta alcança, Que, tornada em soberba a confiança, Com os deoses celestes competia. Porque não fosse avante esta ousadia, (Que nascem muitos erros da tardança) Em effeito puzerão a vingança Que tamanha doudice merecia. Mas Oleno, perdido por Lethea, Não lhe soffrendo Amor que supportasse Duro castigo em tanta formosura, Quiz a pena tomar da culpa alhea: Mas, porque a Morte Amor não apartasse, Ambos tornados são em pedra dura.

XXVII.

Males, que contra mim vos conjurastes, Quanto ha de durar tão duro intento? Se dura, porque dure meu tormento, Baste-vos quanto ja me atormentastes. Mas se assi porfiais, porque cuidastes Derribar o meu alto pensamento, Mais póde a causa delle, em que o sustento, Que vós, que della mesma o ser tomastes. E pois vossa tenção com minha morte He de acabar o mal destes amores, Dai ja fim a tormento tão comprido. Assi de ambos contente será a sorte; Em vós por acabar-me, vencedores, Em mim porque acabei de vós vencido.

XXVIII.

Está-se a Primavera trasladando Em vossa vista deleitosa e honesta; Nas bellas faces, e na boca e testa, Cecens, rosas, e cravos debuxando. De sorte, vosso gesto matizando, Natura quanto póde manifesta, Que o monte, o campo, o rio, e a floresta, Se estão de vós, Senhora, namorando. Se agora não quereis que quem vos ama Possa colher o fructo destas flores, Perderão toda a graça os vossos olhos. Porque pouco aproveita, linda Dama, Que semeasse o Amor em vós amores, Se vossa condição produze abrolhos.

XXIX.

Sete annos de pastor Jacob servia Labão, pae de Raquel, serrana bella: Mas não servia ao pae, servia a ella, Que a ella só por premio pertendia. Os dias na esperança de hum só dia Passava, contentando-se com vella: Porém o pae, usando de cautella, Em lugar de Raquel lhe deo a Lia. Vendo o triste Pastor que com enganos Assi lhe era negada a sua Pastora, Como se a não tivera merecida; Começou a servir outros sete annos, Dizendo: Mais servíra, senão fôra Para tão longo amor tão curta a vida.

XXX.

Está o lascivo e doce passarinho Com o biquinho as pennas ordenando; O verso sem medida, alegre e brando, Despedindo no rustico raminho. O cruel caçador, que do caminho Se vem callado e manso desviando, Com prompta vista a setta endireitando, Lhe dá no Estygio Lago eterno ninho. Desta arte o coração, que livre andava, (Postoque ja de longe destinado) Onde menos temia, foi ferido. Porque o frecheiro cego me esperava, Para que me tomasse descuidado, Em vossos claros olhos escondido.

XXXI.

Pede o desejo, Dama, que vos veja: Não entende o que pede; está enganado. He este amor tão fino e tão delgado, Que quem o t[~e]e, não sabe o que deseja. Não ha cousa, a qüal natural seja, Que não queira perpétuo o seu estado. Não quer logo o desejo o desejado, Só porque nunca falte onde sobeja. Mas este puro affecto em mim se dana: Que, como a grave pedra t[~e]e por arte O centro desejar da natureza; Assi meu pensamento por a parte, Que vai tomar de mi, terreste e humana, Foi, Senhora, pedir esta baixeza.

XXXII.

Porque quereis, Senhora, que offereça A vida a tanto mal como padeço? Se vos nasce do pouco que eu mereço, Bem por nascer está quem vos mereça. Entendei que por muito que vos peça, Poderei merecer quanto vos peço; Pois não consente amor que em baixo preço Tão alto pensamento se conheça. Assi que a paga igual de minhas dores Com nada se restaura; mas devêsma Por ser capaz de tantos desfavores. E se o valor de vossos amadores Houver de ser igual comvosco mesma, Vós só comvosco mesma andai de amores.

XXXIII.

Se tanta pena tenho merecida Em pago de soffrer tantas durezas; Provai, Senhora, em mi vossas cruezas, Que aqui tendes huma alma offerecida. Nella experimentai, se sois servida, Desprezos, desfavores e asperezas; Que móres soffrimentos e firmezas Sustentarei na guerra desta vida. Mas contra vossos olhos quaes serão? He preciso que tudo se lhes renda; Mas porei por escudo o coração. Porque em tão dura e aspera contenda He bem que, pois não acho defensão, Com meter-me nas lanças me defenda.

XXXIV.

Quando o sol encoberto vai mostrando Ao mundo a luz quieta e duvidosa, Ao longo de huma praia deleitosa Vou na minha inimiga imaginando. Aqui a vi os cabellos concertando; Alli co'a mão na face, tão formosa; Aqui fallando alegre, alli cuidosa; Agora estando quêda, agora andando. Aqui esteve sentada, alli me vio, Erguendo aquelles olhos, tão isentos; Commovida aqui hum pouco, alli segura. Aqui se entristeceo, alli se rio: E, em fim, nestes cansados pensamentos Passo esta vida vãa, que sempre dura.

XXXV.

Hum mover de olhos, brando e piedoso, Sem ver de que; hum riso brando e honesto, Quasi forçado; hum doce e humilde gesto, De qualquer alegria duvidoso: Hum despejo quieto e vergonhoso; Hum repouso gravissimo e modesto; Huma pura bondade, manifesto Indicio da alma, limpo e gracioso: Hum encolhido ousar; huma brandura; Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno; Hum longo e obediente soffrimento: Esta foi a celeste formosura Da minha Circe, e o magico veneno Que pôde transformar meu pensamento.

XXXVI.

Tomou-me vossa vista soberana Adonde tinha as armas mais á mão, Por mostrar a quem busca defensão Contra esses bellos olhos, que se engana. Por ficar da victoria mais ufana, Deixou-me armar primeiro da razão. Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão, Que contra o Ceo não val defensa humana. Com tudo, se vos tinha promettido O vosso alto destino esta victoria, Ser-vos ella bem pouca está entendido. Pois, indaque eu me achasse apercebido, Não levais de vencer-me grande gloria, Eu a levo maior de ser vencido.

XXXVII.

Não passes, caminhante. Quem me chama? H[~u]a memoria nova e nunca ouvida, De hum que trocou finita e humana vida Por divina, infinita, e clara fama. Quem he, que tão gentil louvor derrama? Quem derramar seu sangue não duvida, Por seguir a bandeira esclarecida De hum capitão de Christo que mais ama. Ditoso fim, ditoso sacrificio, Que a Deos se fez e ao mundo juntamente! Pregoando direi tão alta sorte. Mais poderás contar a toda a gente Que sempre deo na vida claro indicio De vir a merecer tão santa morte.

XXXVIII.

Formosos olhos, que na idade nossa Mostrais do Ceo certissimos signais, Se quereis conhecer quanto possais, Olhai-me a mim, que sou feitura vossa. Vereis que do viver me desapossa Aquelle riso com que a vida dais: Vereis como de Amor não quero mais, Por mais que o tempo corra, o damno possa. E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes, Como em hum claro espelho, alli vereis Tambem a vossa angelica e serena. Mas eu cuido que, só por me não verdes, Ver-vos em mim, Senhora, não quereis: Tanto gôsto levais de minha pena!

XXXIX.

O fogo que na branda cera ardia, Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo, Se accendeo de outro fogo do desejo Por alcançar a luz que vence o dia. Como de dous ardores se encendia, Da grande impaciencia fez despejo, E remettendo com furor sobejo, Vos foi beijar na parte onde se via. Ditosa aquella flamma que se atreve A apagar seus adores e tormentos Na vista a quem o sol temores deve! Namorão-se, Senhora, os Elementos De vós, e queima o fogo aquella neve Que queima corações e pensamentos.

XL.

Alegres campos, verdes arvoredos, Claras e frescas águas de crystal, Que em vós os debuxais ao natural, Discorrendo da altura dos rochedos: Sylvestres montes, asperos penedos Compostos de concêrto desigual; Sabei que sem licença de meu mal Ja não podeis fazer meus olhos ledos. E pois ja me não vêdes como vistes, Não me alegrem verduras deleitosas, Nem águas que correndo alegres vem. Semearei em vós lembranças tristes, Regar-vos-hei com lagrimas saudosas, E nascerão saudades de meu bem.

XLI.

Quantas vezes do fuso se esquecia Daliana, banhando o lindo seio, Outras tantas de hum aspero receio Salteado Laurenio a côr perdia. Ella, que a Sylvio mais que a si queria, Para podê-lo ver não tinha meio. Ora como curára o mal alheio Quem o seu mal tão mal curar podia? Elle, que vio tão clara esta verdade, Com soluços dizia (que a espessura Inclinavão, de mágoa, a piedade): Como póde a desordem da natura Fazer tão differentes na vontade Aos que fez tão conformes na ventura?

XLII.

Lindo e subtil trançado, que ficaste Em penhor do remedio que mereço, Se só comtigo, vendo-te, endoudeço, Que fôra co'os cabellos que apertaste? Aquellas tranças de ouro que ligaste, Que os raios do sol t[~e]e em pouco preço, Não sei se ou para engano do que peço, Ou para me matar as desataste. Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, E por satisfação de minhas dores, Como quem não t[~e]e outra, hei de tomar-te. E se não for contente o meu desejo, Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores Por o todo tambem se toma a parte.

XLIII.

O cysne quando sente ser chegada A hora que põe termo á sua vida, Harmonia maior, com voz sentida, Levanta por a praia inhabitada. Deseja lograr vida prolongada, E della está chorando a despedida: Com grande saudade da partida, Celebra o triste fim desta jornada. Assi, Senhora minha, quando eu via O triste fim que davão meus amores, Estando posto ja no extremo fio; Com mais suave accento de harmonia Descantei por os vossos desfavores _La vuestra falsa fe, y el amor mio._

XLIV.

Por os raros extremos que mostrou Em sábia Pallas, Venus em formosa, Diana em casta, Juno em animosa, Africa, Europa e Asia as adorou. Aquelle saber grande que juntou Esprito e corpo em liga generosa, Esta mundana máchina lustrosa, De sós quatro elementos fabricou. Mas fez maior milagre a natureza Em vós, Senhoras, pondo em cada h[~u]a O que por todas quatro repartio. A vós seu resplandor deo sol e l[~u]a: A vós com viva luz, graça e pureza, Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio.

XLV.

Tomava Daliana por vingança Da culpa do pastor que tanto amava, Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava O êrro alheio, e perfida esquivança. A discrição segura, a confiança Das rosas que o seu rosto debuxava, O descontentamento lhas mudava; Que tudo muda huma aspera mudança. Gentil planta disposta em sêcca terra; Lindo fructo de dura mão colhido; Lembranças de outro amor, e fé perjura, Tornárão verde prado em serra dura; Interêsse enganoso, amor fingido, Fizerão desditosa a formosura.

XLVI.

Grão tempo ha ja que soube da Ventura A vida que me tinha destinada; Que a longa experiencia da passada Me dava claro indicio da futura. Amor fero e cruel, Fortuna escura, Bem tendes vossa fôrça exprimentada: Assolai, destrui, não fique nada; Vingai-vos desta vida, que inda dura. Soube Amor da Ventura, que a não tinha, E porque mais sentisse a falta della, De imagens impossiveis me mantinha. Mas vós, Senhora, pois que minha estrella Não foi melhor, vivei nesta alma minha; Que não t[~e]e a Fortuna poder nella.

XLVII.

Se somente hora alguma em vós piedade De tão longo tormento se sentíra, Amor sofrêra mal que eu me partíra De vossos olhos, minha Saudade. Apartei-me de vós, mas a vontade, Que por o natural na alma vos tira, Me faz crer que esta ausencia he de mentira; Porém venho a provar que he de verdade. Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento Lagrimas tristes tomarão vingança Nos olhos de quem fostes mantimento. Desta arte darei vida a meu tormento; Que, em fim, cá me achará minha lembrança Sepultado no vosso esquecimento.

XLVIII.

Oh como se me alonga de anno em ano A peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha Este meu breve e vão discurso humano! Mingoando a idade vai, crescendo o dano; Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha: Se por experiencia se adivinha, Qualquer grande esperança he grande engano. Corro apoz este bem que não se alcança; No meio do caminho me fallece; Mil vezes caio, e perco a confiança. Quando elle foge, eu tardo; e na tardança, Se os olhos ergo a ver se inda apparece, Da vista se me perde, e da esperança.

XLIX.

Ja he tempo, ja, que minha confiança Se desça de huma falsa opinião: Mas Amor não se rege por razão; Não posso perder, logo, a esperança. A vida si; que huma aspera mudança Não deixa viver tanto hum coração, E eu só na morte tenho a salvação: Si: mas quem a deseja não a alcança. Forçado he logo que eu espere e viva. Ali dura lei de Amor, que não consente Quietação n'hum'alma que he captiva! Se hei de viver, em fim, forçadamente, Para que quero a gloria fugitiva De huma esperança vãa que me atormente?

L.

Amor, com a esperança ja perdida Teu soberano templo visitei: Por signal do naufragio que passei, Em lugar dos vestidos, puz a vida. Que mais queres de mi, pois destruida Me t[~e]es a gloria toda que alcancei? Não cuides de render-me; que não sei Tornar a entrar-me onde não ha sahida. Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança, Doces despojos de meu bem passado, Em quanto o quiz aquella que eu adoro. Nellas podes tomar de mi vingança: E se te queres inda mais vingado, Contenta-te co'as lagrimas que chóro.

LI.

Apollo e as nove Musas, descantando Com a dourada lyra, me influião Na suave harmonia que fazião, Quando tomei a penna, começando: Ditoso seja o dia e hora, quando Tão delicados olhos me ferião! Ditosos os sentidos que sentião Estar-se em seu desejo traspassando! Assi cantava, quando Amor virou A roda á esperança, que corria Tão ligeira, que quasi era invisibil. Converteo-se-me em noite o claro dia; E se alguma esperança me ficou, Será de maior mal, se for possibil.

LII.

Lembranças saudosas, se cuidais De me acabar a vida neste estado, Não vivo com meu mal tão enganado, Que não espere delle muito mais. De longo tempo ja me costumais A viver de algum bem desesperado: Ja tenho co'a Fortuna concertado De soffrer os tormentos que me dais. Atada ao remo tenho a paciencia Para quantos desgostos der a vida; Cuide quanto quizer o pensamento. Que pois não posso ter mais resistencia Para tão dura quéda, de subida, Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento.

LIII.

Apartava-se Nise de Montano, Em cuja alma, partindo-se, ficava; Que o pastor na memoria a debuxava, Por poder sustentar-se deste engano. Por huma praia do Indico Oceano Sôbre o curvo cajado se encostava, E os olhos por as águas alongava, Que pouco se doião de seu dano. Pois com tamanha mágoa e saudade, (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro, Por testimunhas tómo ceo e estrellas. Mas se em vós, ondas, mora piedade, Levai tambem as lagrimas que chóro, Pois assi me levais a causa dellas.

LIV.

Quando vejo que meu destino ordena Que, por me exprimentar, de vós me aparte, Deixando de meu bem tão grande parte, Que a mesma culpa fica grave pena; O duro desfavor, que me condena, Quando por a memoria se reparte, Endurece os sentidos de tal arte Que a dor da ausencia fica mais pequena. Mas como póde ser que na mudança D'aquillo que mais quero, estê tão fóra De me não apartar tambem da vida? Eu refrearei tão aspera esquivança: Porque mais sentirei partir, Senhora, Sem sentir muito a pena da partida.

LV.

Despois de tantos dias mal gastados, Despois de tantas noites mal dormidas, Despois de tantas lagrimas vertidas, Tantos suspiros vãos vãamente dados, Como não sois vós ja desenganados, Desejos, que de cousas esquecidas Quereis remediar mortaes feridas. Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados? Se não tivereis ja longa exp'riencia Das semrazões de Amor a quem servistes, Fraqueza fôra em vós a resistencia. Mas pois por vosso mal seus males vistes, Que o tempo não curou, nem larga ausencia, Qual bem delle esperais, desejos tristes?

LVI.

Naiades, vós que os rios habitais, Que os saudosos campos vão regando, De meus olhos vereis estar manando Outros que quasi aos vossos são iguais. Dryades, que com setta sempre andais Os fugitivos cervos derribando, Outros olhos vereis, que triumphando Derribão corações, que valem mais. Deixai logo as aljavas e águas frias, E vinde, Nymphas bellas, se quereis, A ver como de huns olhos nascem mágoas. Notareis como em vão passão os dias; Mas em vão não vireis, porque achareis Nos seus as settas, e nos meus as ágoas.

LVII.

Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança: Todo o mundo he composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Differentes em tudo da esperança: Do mal ficão as mágoas na lembrança, E do bem (se algum houve) as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que ja coberto foi de neve fria, E em mi converte em chôro o doce canto. E afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda ja como sohia.

LVIII.