Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 4

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Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis. _Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar_. Sabía este Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma esmola.

Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não convertesse o canto em chôro.

Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa casa, ahi achão mortalha e sepultura.

Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia, cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas, conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:

_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico ornamento de la Academia Española en este genero de Letras._

Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este grande homem e todos os que o ousárão louvar:

_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á entender su engaño..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista._

_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á una mano publican la excelencia de sus obras._

Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta, cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V:

Quando uma noute estando descuidados Na cortadora prôa vigiando.

Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia! Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes não se devem perder) ter sempre de noute vigias de prôa. E quem assim sabia a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões?

Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação, e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para que os cidadãos que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel (Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de _nação barbara e inculta_, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse.

Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros, que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer, que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males, pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della, como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira aquellas palavras: _Ingrata patria, não possuirás meus ossos_. Porque julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento, vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma carta onde se lião estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de morrer nella, quiz tambem morrer com ella._

Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em que Dom Gonçalo Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e nella gravar este letreiro:

AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES, PRINCIPE DOS POETAS DE SEU TEMPO. VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE, E ASSI MORREO ANNO DE MDLXXIX. ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA.

Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da Camara o seguinte Epitaphio:

_Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus, Hic jacet heroe carmine Virgilius. Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam. Unam nobilitant Mars et Apollo manum. Castalium fontem traxit modulamine: at Indo Et Gangi telis obstupefecit aquas. India mirata est, quando aurea carmina, lucrum Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit. Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense: At plus, dum calamo bellicosa facta refert. Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam: Quaelibet hunc vellet terra vocare suum. Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._

Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e quando a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta, talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de tão insigne varão.

RIMAS.

RIMAS.

SONETOS.

I.

Em quanto quiz fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento, O gosto de hum suave pensamento Me fez que seus effeitos escrevesse. Porém temendo Amor que aviso désse Minha escriptura a algum juizo isento, Escureceo-me o engenho co'o tormento, Para que seus enganos não dissesse. Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos A diversas vontades! quando lerdes N'hum breve livro casos tão diversos; (Verdades puras são, e não defeitos) Entendei que segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos.

II.

Eu cantarei de amor tão docemente, Por huns termos em si tão concertados, Que dous mil accidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente. Farei que Amor a todos avivente, Pintando mil segredos delicados, Brandas iras, suspiros magoados, Temerosa ousadia, e pena, ausente. Tambem, Senhora, do desprêzo honesto De vossa vista branda e rigorosa, Contentar-me-hei dizendo a menor parte. Porém para cantar de vosso gesto A composição alta e milagrosa, Aqui falta saber, engenho, e arte.

III.

Com grandes esperanças ja cantei, Com que os deoses no Olympo conquistára; Depois vim a chorar porque cantára, E agora chóro ja porque chorei. Se cuido nas passadas que ja dei, Custa-me esta lembrança só tão cara, Que a dor de ver as mágoas que passára, Tenho por a mór mágoa que passei. Pois logo, se está claro que hum tormento Dá causa que outro na alma se accrescente, Ja nunca posso ter contentamento. Mas esta phantasia se me mente? Oh ocioso e cego pensamento! Ainda eu imagino em ser contente?

IV.

Despois que quiz Amor que eu só passasse Quanto mal ja por muitos repartio, Entregou-me á Fortuna, porque vio Que não tinha mais mal que em mi mostrasse. Ella, porque do Amor se avantajasse Na pena a que elle só me reduzio, O que para ninguem se consentio, Para mim consentio que se inventasse. Eis-me aqui vou com vário som gritando. Copioso exemplario para a gente Que destes dous tyrannos he sujeita; Desvarios em versos concertando. Triste quem seu descanso tanto estreita, Que deste tão pequeno está contente!

V.

Em prisões baixas fui hum tempo atado; Vergonhoso castigo de meus erros: Inda agora arrojando levo os ferros, Que a morte, a meu pezar, t[~e]e ja quebrado. Sacrifiquei a vida a meu cuidado, Que Amor não quer cordeiros nem bezerros; Vi mágoas, vi miserias, vi desterros: Parece-me que estava assi ordenado. Contentei-me com pouco, conhecendo Que era o contentamento vergonhoso, Só por ver que cousa era viver ledo. Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo, A Morte cega, e o Caso duvidoso Me fizerão de gostos haver medo.

VI.

Illustre e digno ramo dos Menezes, Aos quaes o providente e largo Ceo (Que errar não sabe) em dote concedeo, Rompessem os Maometicos arnezes; Desprezando a Fortuna e seus revezes, Ide para onde o Fado vos moveo; Erguei flammas no mar alto Erythreo, E sereis nova luz aos Portuguezes. Opprimi com tão firme e forte peito O Pirata insolente, que se espante E trema Taprobana e Gedrosia. Dai nova causa á côr do Arabo Estreito; Assi que o Roxo mar, daqui em diante O seja só com sangue de Turquia.

VII.

No tempo que de amor viver sohia, Nem sempre andava ao remo ferrolhado; Antes agora livre, agora atado, Em várias flammas variamente ardia. Que ardesse n'hum só fogo não queria O Ceo porque tivesse exprimentado Que nem mudar as causas ao cuidado Mudança na ventura me faria. E se algum pouco tempo andava isento, Foi como quem co'o pêzo descansou Por tornar a cansar com mais alento. Louvado seja Amor em meu tormento, Pois para passatempo seu tomou Este meu tão cansado soffrimento!

VIII.

Amor, que o gesto humano na alma escreve, Vivas faiscas me mostrou hum dia, Donde hum puro crystal se derretia Por entre vivas rosas e alva neve. A vista, que em si mesma não se atreve, Por se certificar do que alli via, Foi convertida em fonte, que fazia A dor ao soffrimento doce e leve. Jura Amor, que brandura de vontade Causa o primeiro effeito; o pensamento Endoudece, se cuida que he verdade. Olhai como Amor gera, em hum momento, De lagrimas de honesta piedade Lagrimas de immortal contentamento.

IX.

Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa juntamente chóro e rio; O mundo todo abarco, e nada apérto. He tudo quanto sinto hum desconcêrto: Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio; Agora espero, agora desconfio; Agora desvarío, agora acérto. Estando em terra, chego ao ceo voando; N'hum'hora acho mil annos, e he de geito Que em mil annos não posso achar hum'hora. Se me pergunta alguem, porque assi ando, Respondo, que não sei: porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora.

X.

Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar: Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nella está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente póde descansar, Pois com elle tal alma está liada. Mas esta linda e pura semidea, Que como o accidente em seu sojeito, Assi com a alma minha se confórma; Está no pensamento como idea; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a materia simples busca a fórma.

XI.

Passo por meus trabalhos tão isento De sentimento grande nem pequeno, Que só por a vontade com que peno Me fica Amor devendo mais tormento. Mas vai-me Amor matando tanto a tento, Temperando a triaga co'o veneno, Que do penar a ordem desordeno, Porque não mo consente o soffrimento. Porém se esta fineza o Amor sente E pagar-me meu mal com mal pretende, Torna-me com prazer como ao sol neve. Mas se me vê co'os males tão contente, Faz-se avaro da pena, porque entende Que quanto mais me paga, mais me deve.

XII.

Em flor vos arrancou, de então crescida, (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte Donde fazendo andava o braço forte A fama dos antiguos esquecida. Huma só razão tenho conhecida Com que tamanha mágoa se conforte: Que se no Mundo havia honrada morte, Não podieis vós ter mais larga vida. Se meus humildes versos podem tanto Que co'o desejo meu se iguale a arte, Especial materia me sereis. E celebrado em triste e longo canto, Se morrestes nas mãos do fero Marte, Na memoria das gentes vivireis.

XIII.

N'hum jardim adornado de verdura, Que esmaltavão por cima várias flores, Entrou hum dia a deosa dos amores, Com a deosa da caça e da espessura. Diana tomou logo h[~u]a rosa pura, Venus hum roxo lyrio, dos melhores; Mas excedião muito ás outras flores As violas na graça e formosura. Perguntão a Cupido, que alli estava, Qual de aquellas tres flores tomaria Por mais suave e pura, e mais formosa. Sorrindo-se o menino lhes tornava: Todas formosas são; mas eu queria Viola antes que lyrio, nem que rosa.

XIV.

Todo animal da calma repousava, Só Liso o ardor della não sentia; Que o repouso do fogo, em que elle ardia, Consistia na Nympha que buscava. Os montes parecia que abalava O triste som das mágoas que dizia: Mas nada o duro peito commovia, Que na vontade de outro posto estava. Cansado ja de andar por a espessura, No tronco de huma faia, por lembrança, Escreve estas palavras de tristeza: Nunca ponha ninguem sua esperança Em peito feminil, que de natura Somente em ser mudavel t[~e]e firmeza.

XV.

Busque Amor novas artes, novo engenho Para matar-me, e novas esquivanças; Que não póde tirar-me as esperanças, Pois mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vêde que perigosas seguranças! Pois não temo contrastes nem mudanças, Andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas com quanto não póde haver desgôsto Onde esperança falta, lá me esconde Amor hum mal, que mata e não se vê. Que dias ha que na alma me t[~e]e posto Hum não sei que, que nasce não sei onde; Vem não sei como; e doe não sei porque.

XVI.