Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 3
Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que nos fundamos são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a seus contemporaneos, assim porque muitos havião sido testimunhas do mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa; prova evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a tivessem, não andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas que se davão deste desterro, o attribuio a esta; que tão innocente foi a vida de Camões, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pôde descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse um tal castigo. Mas além desta razão, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, começa Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e se dahí passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não apparece cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos inclinâmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia necessaria aquella recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra escritas na mesma occasião; porque só duas teve o poeta, de escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser desterrado: em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de lá vierão em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira occasião de certo não foi escrita, nem tambem depois do desterro, por ser em estilo jocoso e não fazer menção alguma destes acontecimentos, que tanto o magoárão. Acresce mais que na mesma carta parece alludir á enfatuação e soberba do governador, quando diz: _Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca_. Ora se o segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por causa desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em Goa o que tão secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de que se Luis de Camões quizesse publicamente satyrizar a Francisco Barreto, certo he que lhe assentára mais de rijo a espada do ridiculo, que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse algum outro crime de que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar conforme as leis; nem um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando tivesse merecido um tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em tantos lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81.
E ainda, Nymphas minhas, não bastava Que tamanhas miserias me cercassem, Senão que aquelles que eu cantando andava Tal premio de meus versos me tornassem! A trôco dos descansos que esperava, Das capellas de Louro que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventárão, Com que em tão duro estado me deitárão.
e na Canção XI:
Emfim, não houve trance de fortuna, Nem perigos nem casos duvidosos, Injustiças daquelles, que o confuso Regimento do mundo, antigo abuso, Faz sobre os outros homens poderosos, Que eu não passasse, atado á fiel columna Do soffrimento meu, que a importuna Perseguição de males em pedaços Mil vezes fez á força de seus braços.
e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136, compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no captiveiro de Babylonia:
A pena deste desterro, Que eu mais desejo esculpida Em pedra ou em duro ferro etc.
Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi mesmo:
No grão dia singular Que na lyra em douto som Hierusalem celebrar, Lembrai-vos de castigar Os ruins filhos de Edom. Aquelles que tintos vão No pobre sangue innocente, Soberbos co'o poder vão, Arrazá-los igualmente: Conheção que humanos são.
Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha duvida, porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as leis do Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79, fallando com as Tagides:
Olhai que ha tanto tempo que cantando O vosso Tejo e os vossos Lusitanos A fortuna me traz peregrinando, Novos trabalhos vendo e novos danos.
e Est. 80:
Agora com pobreza aborrecida Por hospicios alheios degradado.
Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se vê da Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque se assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer:
Aqui me achei gastando uns tristes dias, Tristes, forçados, maos e solitarios, De trabalho, de dor, e de ira cheios.
porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, serião _forçados_, porque a servia por gôsto, nem _solitarios_, porque não havia de ir só á guerra, nem _cheios de ira_, porque esta só póde nascer de alguma injúria ou violencia soffrida.
Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns annos e recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª
Aqui minha ventura Quiz qu'uma grande parte Da vida que não tinha se passasse, Para que a sepultura Nas mãos do fero Marte De sangue e de lembranças matizasse.
E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a duvida, não só porque isso mesmo consta do remate della
Canção, neste desterro viverás, Voz nua e descoberta, Até que o tempo em eco te converta.
mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia.
De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou, deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:
Trabalhos nunca usados me inventárão, Com que em tão duro estado me deitárão.
Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque, tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide, censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido?
Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal, fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz:
Agora da esperança ja adquirida De novo mais que nunca derribado.
Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est. 128, onde diz, fallando do rio Mecom:
Este receberá placido e brando No seu regaço os Cantos, que molhados Vem do naufragio triste e miserando, Dos procellosos baixos escapados, Das fomes, dos perigos grandes, quando Será o injusto mando executado[1] Naquelle, cuja lyra sonorosa Será mais affamada, que ditosa.
Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe dirigio a Epistola que começa: _Como nos vossos hombros tão constantes etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa) escreveo outra sobre o desconcerto do mundo.
Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!
O Valor e o Saber pedindo vão Ás portas da cubiça e da vileza!
Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão, que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no governo de Francisco Barreto, diz:
A piedade humana me faltava A gente amiga ja contraria via No perigo primeiro; e no segundo Terra em que pôr os pés me fallecia, Ar para respirar se me negava.
Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens, recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura.
Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus, como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados, que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida: do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos cruzados foi vendida.
Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso de Luis de Camões_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço, cheia de erudição e philosophia.
No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que ainda não podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Camões que nella encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle expressamente nos diz (Egloga XI):
Tinha lá para mim que a vida tinha Mais socegada cá e mais segura Entre os meus, que com gosto a buscar vinha. Foi de outro parecer minha ventura: Discordias sos achei, achei dureza Em lugar de socêgo e de brandura. Achei as boas leis da natureza Vencidas do interesse, e a gente cega Tanto, que mais que o sangue, o gado préza. Dizem que quando o mar bonança nega, Correndo vai aquella nao mor p'rigo. Que á desejada terra mais se chega. Assi me aconteceo a mi comigo: Seguro sempre ao longe, sempre ledo; Triste ao perto, e tratado como imigo.
E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama, poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de não louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78):
Mas oh cego! Eu que commetto insano e temerario Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego, Por caminho tão arduo longo e vario! Vosso favor invoco, que navego Por alto mar com vento tão contrario, Que, se não me ajudais, hei grande medo Que o meu fraco batel se alague cedo.
e depois (Estancia 83):
Pois logo em tantos males he forçado Que se vosso favor me não falleça, Principalmente aqui, que sou chegado Onde feitos diversos engrandeça. Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado Que não o empregue em quem o não mereça, Nem por lisonja louve algum subido, Sob pena de não ser agradecido.
Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria, cuidou em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque dous annos esteve sem sahir com elle á luz.
Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina, sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque, estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de 1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do poeta, ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte revelação: _Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas suas cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas._ E no mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vão impressas, as tinha elle emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe fizesse as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de toda a duvida que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys, e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82):
Porque eu, Saturno e Jano, Jupiter, Juno, somos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano;
a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias 108 e seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II, Estancia 12) são obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade não he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente!
Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572 sahio finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como queria o poeta, mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e póde ser que os muitos e notaveis erros de impressão que desfigurão as duas edições que nesse mesmo anno se fizerão, procedessem de que desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, não quizesse cansar-se com a revisão das provas.
Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita de tirar para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na Corte. Mas se assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que parece) com um exemplar do seu Poema, por occasião de uma setta que o Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se dignasse dar-lhe algum premio, se não por justiça, ao menos por caridade, como se vê dos seguintes versos:
Estes humildes versos, que pregão São destes vossos Reinos com verdade, Tenhão, se não merecem galardão, Favor sequer da Regia Magestade: Assim tenhais de quem ja tendes tanto, Com o nome e reliquia, favor santo.
E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os monstros[2] que se havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e pouco depois o arrastárão a sepultar comsigo a patria nos campos de Alcacerquivir, tão célebres por essa desgraça nossa, se enraivecêrão contra o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar áquelle Principe, tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades rezar no côro, e tiverão arte para inutilizar a mercê feita; de sorte que o infeliz, cansado de andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$ reis em 15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della. Por outra parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte, não obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte:
Oh inimigos maos da natureza, Que injuriais a propria geração! Degenerantes, baixos! Que fraqueza De esforço, de saber e de razão Vos fez que a clara estirpe, que se préza De leal, fido e limpo coração, Esqueçais dessa sorte? Mas respeito, Que este dos nobres he o menor defeito.
E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus eris._ E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza.