Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 27
P. 184. V. 20. _Assim me está tornando o peito frio._] Todas as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz, tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de texto. Corrigimos:
Assim me está tornando, e o peito frio.
Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar: como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21:
Desta arte a gente força e esforça Nuno, Que com lh'ouvir as ultimas razões, Removem o temor frio, importuno Que gelados lhe tinha os corações.
e no Canto I, Estancia 89:
O temor grande, o sangue lhe resfria.
Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus effeitos se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38:
Que poz no coração um grande medo.
O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio, como se ve nos seguintes exemplos:
_Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra._ Eneida L. I, V. 96.
_Solvite corde metum, Teucri._ ibi V. 566.
_Diffugimus visu exangues._ ibi L. 2, V. 212.
_At sociis subitâ gelidus formidine sanguis Diriguit: cecidêre animi._ ibi L. III, V. 259.
_Gelidus Teucris per dura cucurrit Ossa tremor._ ibi L. VI, V. 54.
E além destes muitos e muitos outros puderamos citar.
Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no coração, como diz o nosso Camões e disserão antes, e tem dito depois todos os grandes poetas; com a autoridade do mesmo Camões se prova que, se no campo de Aljubarrota, quando a trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o sangue acudio ao coração dos Portuguezes, e por consequencia se lhes concentrou alli o calor, não foi porque o temor fosse maior, mas, sim, porque era muito menor, que o perigo. E portanto he viciosa a lição vulgar, e a nossa verdadeira.
P. 187. V. 30. _E vós, pastores deste rudo outeiro_] Faria e Sousa. _E vós, pastores rudos deste outeiro_] 3.ª ed. A lição do poeta he esta.
P. 188. V. 30. _No tronco de alguma árvore sombria_] Faria e Sousa. _E no tronco d'uma arvore sombria_] 3.ª ed. Esta he a lição verdadeira.
P. 190 V. 3. _Em vós deixou Minerva o que valia_] Faria e Sousa. _Em vós deixou Minerva sua valia_] 3.ª ed. Porque desprezaria Faria esta lição?
P. 198. V. 15. _Porque saibas o que he ser amada_] Faria e Sousa. _Porque saibas que cousa he ser amada_] 3.ª ed. Quem hesitará em seguir a lição antiga?
P. 199. V. 23. _Se humano parecer não se defende_] Faria e Sousa. _Que ao humano parecer não se defende_] 3.ª ed. Ambas estas lições são viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta, he esta:
Se ao humano parecer não se defende.
P. 200. V. 13. _Porque segues em vão esse cuidado?_] Faria e Sousa. _Não vés que teu fugir he escusado?_] 3.ª ed. A lição antiga he a do poeta.
P. 200. V. 14. _Pois nunca estás sem mim algum momento_] Faria e Sousa. _Que sem mim não estás um so momento_] 3.ª ed. Este verso he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do poeta.
P. 201. V. 21. _A vós se dão, a quem junto se ha dado_] Faria e Sousa. _A vós se dem, a quem junto se ha dado_] 3.ª ed. A lição verdadeira he esta.
P. 202. V. 23. _E o mais do roxo dia era passado_] Faria e Sousa. _E o mais do dia ja era passado_] 3.ª ed. O epiteto de _roxo_ aqui desnecessario parece introduzido por mão estranha.
P. 203. V. 14. _Que farão mais que mais endurecer-te?_] Faria e Sousa. _Que fazem senão mais endurecer-te?_] 3.ª ed. Este verso he muito mais natural e melhor que o outro.
P. 203. V. 23. _Um bronze ja abrandára que não sente_] Faria. _Ja um peito abrandára que não sente_] 3.ª ed. Esta segunda lição he sem duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso dizer do bronze que he insensivel, esta expressão de _peito que não sente_, he nelle tão frequente que não podemos deixar de a ter por sua.
P. 205. V. 6. _Em lugar de alegrar-se, se entristecem_] Faria. _Em vez de se alegrarem, se entristecem_] 3.ª ed. Este verso em harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor ser das primeiras edições. Pelo que lhe damos a preferencia.
P. 211. V. 2. _Com rosto baixo, e alto pensamento_] Faria e Sousa. _Co'o rosto baixo, e alto o pensamento_] 3.ª ed. Andando este verso assim nas primeiras ed., tão impossivel parece que Faria o não tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o primeiro.
P. 213. V. 1. _E vós, cujo valor em tanto excede_] Faria e Sousa. _E vós, cujo valor tão alto excede_] 3.ª ed. Preferimos a lição antiga, que he correcta, á emenda de Faria, que he viciosa.
P. 213. V. 17. _Contra o indomito Pãe de toda Hespanha._ Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim este lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda España, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los sustentó contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razões que oppor, a primeira he, que não era possivel que um poeta como Camões, para exprimir cousa tão simples fizesse tal geringonça; a segunda he appresentar o texto como o poeta o escreveo:
_Se não sabem as frautas pastoris Pintar de Toro os campos semeados D'armas e corpos fortes e gentis,
Por um moço animoso sustentados Contra o indomito Rei de toda Hespanha, Contra a Fortuna vãa, e injustos Fados._
Faria devia saber, e por certo não ignorava que ElRei Dom Fernando de Castella foi feliz nas armas, razão por que o poeta lhe dá o epiteto de indomito; e que reunio em si varias corôas, que d'antes erão separadas e independentes, razão por que o poeta lhe chama rei de toda Hespanha. E se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra _pae_, aqui visivelmente introduzida por mão estranha, teria restabelecido no texto a palavra _Rei_, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupára o trabalho de o fazer agora.
P. 214. V. 13. _De si ja, não ja só do pobre fato_] Faria e Sousa. _De si, e do seu gado e pobre fato_] 3.ª ed. Assim andava este verso nas primeiras edições; e a verdade he mais antiga, que a mentira. Restituimos a lição antiga. Porque por gado se entende bois etc., e por fato, cabras.
P. 217. V. 11. _Do som que no Parnaso se deseja_] Faria e Sousa. _Do som, que pelo mundo se deseja_] 3.ª ed. A lição de Faria nos he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; e he de lá que os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a desprezamos, restituindo o verso como se lia nas primeiras edições; que he como o poeta o escreveo.
P. 220. V. 1. _D'altas nuvens vestido_.] Todas as ed. Mas he êrro das copias: deve ler-se:
D'átras nuvens vestido etc.
P. 224. V. 31. _Quiz descansar á sombra da espessura_] Faria. He êrro, porque espessura não rima com _manifesta_ e _sesta_. Restituimos o verso, como andava nas primeiras edições:
Quiz descansar á sombra da floresta.
P. 226. V. 1. _Sirene e Nyse que das mãos fugirão De Tegeo Pan_] Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque não consta que Sirene fugisse nunca das mãos de Pan. Restituimos:
Syrinx e Nyse.
P. 234. V. 21. _Ja no indignado monte se lançava_] Faria e Sousa. _Ja no indigno monte se lançava_] 3.ª ed. Uma e outra lição he viciosa; a do poeta he:
Ja indignado no monte se lançava.
P. 236. V. 3. _Ainda agora em herva as folhas viras_] Todas as ed. Mas he êrro, porque o gira-sol, que he a flor em que foi convertida Clycie, não víra as folhas contra o sol, nem tal disse o poeta: o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada em planta, segue com os olhos o seu amante; mas a ignorancia ou descuido dos copiadores a _olhos_ substituio _folhas_. Restituimos:
Ainda agora em herva os olhos viras.
P. 284. P. 4. _Com as mãos que maçãas colhendo andava._] Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que nas obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como elle o escreveo he:
Com a mãe que maçãas colhendo andava.
P. 289. V. 15. _Como o mesmo que então meu mal crescia._] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:
Com o mesmo etc.
P. 302. V. 28. _Sabe, Canção, que só porque não vejo._] Todas as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente assim:
Sabe, Canção, que só porque o não vejo.
P. 304. V. 26. _Ma figurou nos braços, e assim a tive_] Todas as ed. Mas aquelle _a_ está aqui de mais para o sentido e para o verso. Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou ter acordado. Corrigimos:
Ma figurou nos braços, e assi tive.
P. 307. V. 3. _Dos montes descobrindo._] Todas as ed. Mas he vicio de cópia; porque descobrir dos montes a escuridão he avistá-la de lá; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manhãa, e a escuridão ia descobrindo os montes. Corrigimos:
Os montes descobrindo.
P. 308. V. 27. _Se mo não impedir o meu desejo._] Todas as ed. Mas he êrro. O poeta está gozando a doce visão da sua amada, e deseja morrer antes que se lhe desvaneça; mas ao mesmo tempo teme, que esta gloria que está gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu desejo, tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama: Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana alta e subida! (a da visão que está gozando) se esta lhe não impedir aquella. E a lição neste lugar he:
Se me não impedir o meu desejo.
P. 314. V. 25. _Á pena vem pequenos._] Todas as ed. O P. Thomaz d'Aquino corrigio _penna_. Mal, porque estava bem o texto; e se deve lêr _pena_.
P. 321. V. 24. _Pelo que em si se esconde._] Assim se lê este verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio _em ti_. Mal, porque o vicio inda ficou. A verdadeira emenda he:
Pelo que a si se esconde.
P. 325. V. 21. Este verso diz Faria e Sousa se lia no manuscripto:
_Pelo que em si lhe esconde._
Mas foi êrro de quem o copiou: deve ler-se
Pelo que se lhe esconde.
P. 329. V. 19. _Não tendo, não, somente por contrarios_] Faria e Sousa. _Não tendo tãosomente por contrarios_] 3.ª ed. A lição antiga he a verdadeira.
P. 331. V. 26. _Com que a fronte tornada mais serena Torna os tormentos graves._] Todas as ed. Mas he vicio das copias; porque a fronte, por mais serena que esteja não pode serenar as agitações do animo. Corrigimos:
Com que, a fronta tornada mais serena, Tórno os tormentos graves &c.
P. 336. V. 1. _Pouco a pouco invenciveis me sahião._] Todas as ed. Mas he êrro grosseiro dos copiadores.
Corrigimos:
Pouco a pouco invisiveis me sahião.
P. 339. V. 19. _Os olhos na que corre, e não alcança._] Todas as ed. Mas he êrro palpavel das cópias. Sobre este lugar diz Faria: _Mirese lo que me viene á embarazar sobre irme desembarazando de tantas difficuldades destes poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que corre. Qué es la que corre? Arriba queda providencia, y luego consolacion, y despues flaqueza humana; y no hallo que ninguna destas corre, si no es la flaqueza humana á la muerte; y ni asi lo entiendo bien_. Mas não tem muito que entender: este lugar está corrompido, como tantos outros que temos visto: a lição do poeta era _No que corre_: quem copiou poz _Na que corre_. E o sentido he: Mas a fraqueza humana, quando lança os olhos no que corre; isto he, no muito que corre com os olhos d'alma, e não alcança, senão &c.
P. 360. Ode I.ª A primeira cousa que temos a observar nesta Ode he: que a Estancia, que principia: _Para ti guarda o sitio fresco d'Ilio_, e a outra logo seguinte que principia: _De qual panthera ou tigre ou leopardo_, se achão em todas as edições depois da que começa: _Por ti feito pastor de branco gado_, onde são absolutamente estranhas; e procurando nós outro lugar onde pudessem caber, não achamos outro mais proprio, que depois da 3.ª Estancia que começa: _Tu que de formosissimas estrellas_: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que, omittidas inteiramente, fica a Ode mais perfeita.
P. 361. V. 2. _Para ti no Erymantho o lindo Epilio_.] Assim anda este verso nas primeiras edições. Faria e Sousa julga, com razão, que está viciado, porque não ha no Erymantho lugar que se chame Epilio: faz diversas conjecturas, e não sabe determinar-se. Nós julgamos que deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos chamavão Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo que lhe dá aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim
Para ti o Erymantho e o lindo Pylio
P. 361. V. 5. _Deste nosso oriente._] Todas as ed. Mas he vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e não na India, como se infere desta mesma Ode, onde diz:
_Olha como suspirão estas ondas,_ E como o velho Atlante O seu collo arrogante Move piedosamente Ouvindo a minha voz fraca e doente._
E portanto deve ler-se
Desse nosso Oriente
como Faria diz que vira em um manuscripto.
P. 363. V. 12. _Meu infelice estado._] Todas as ed. Mas he êrro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, propriamente fallando: e a verdadeira lição está saltando aos olhos:
Porque tem ordenado Meu infelice Fado &c.
P. 363. V. 19. _Humido inda do pranto._] Todas as ed. Mas he vicio, porque os sacrificios e offrendas á Noute de noute devem ser feitos; e este _humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso Titão_ denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lição he a que Faria diz encontrára n'um manuscripto:
_Humido ja do pranto,_
o que dá a entender que era sobre manhãa.
P. 368. V. 13. _E assentareis meus prantos, meus clamores._] Todas as ed. Mas a verdadeira lição deste lugar he a que nos dá o P. Thomaz d'Aquino.
E sentireis meus prantos, meus clamores.
Porque o poeta não chama as Nymphas para que venhão applacar os seus prantos e clamores (que esse poder só tinha aquella, que os motivava); chama-as para que os venhão ouvir, e para que vejão a que estado o tem reduzido o seu amor, e a esquivança da sua amada.
P. 380. V. 19. _Ajuda quem ajuda contra a morte._] Todas as ed. He vicio: corrigimos
Ajudai quem ajuda &c.
P. 385. V. 17. _E grita que culpado._] Todas as ed. Mas deve ler-se
E grita qu'he culpado,
porque do modo que está, não faz sentido.
P. 388. V. 21. _Remette o moço logo Para onde estava a chaga sem socêgo._] Todas as ed. Mas que he vicio, não ha duvida, porque a chaga devia elle ter no corpo, e não podia correr para ella: correo para a chamma, isto he, para a Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos
Para onde estava a chamma sem socêgo.
INDEX.
Pag. PREFAÇÃO VII VIDA DE LUIS DE CAMÕES XXXII
SONETOS.