Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 26
Póde hum desejo immenso Arder no peito tanto, Que á branda e á viva alma o fogo intenso Lhe gaste as nodoas do terreno manto; E purifique em tanta alteza o esprito Com olhos immortais, Que faz que leia mais do que vê'scrito. Que a flamma, que se accende Alto, tanto allumia, Que se o nobre desejo ao bem s'estende Que nunca vio, o sente claro dia; E lá vê do que busca o natural, A graça, a viva côr, N'outra especie melhor que a corporal. Pois vós, ó claro exemplo De viva formosura, Que de tão longe cá noto e contemplo N'alma, que este desejo sobe e apura; Não creais que não vejo aquella imagem Que as gentes nunca vem, Se de humanos não tem muita vantagem. Que se os olhos ausentes Não vem a compassada Proporção, que das côres excellentes De pureza e vergonha he variada; Da qual a Poesia, que cantou Atéqui só pinturas Com mortaes formosuras igualou; Se não vem os cabellos Que o vulgo chama de ouro; E se não vem os claros olhos bellos, De quem cantão que são de sol thesouro; E se não vem do rosto as excellencias, A quem dirão que deve Rosa, e crystal, e neve as apparencias; Vem logo a graça pura, A luz alta e severa, Que he raio da divina formosura, Que n'alma imprime e fóra reverbera; Assi como crystal do sol ferido, Que por fóra derrama A recebida flamma esclarecido. E vem a gravidade, Com a viva alegria Que misturada t[~e]e de qualidade, Que huma da outra nunca se desvia; Nem deixa de ser huma receada Por leda e por suave, Nem outra, por ser grave, muito amada. E vem do honesto siso Os altos resplandores Temperados co'o doce e ledo riso, A cujo abrir abrem no campo as flores; As palavras discretas e suaves, Das quaes o movimento Fara deter o vento e as altas aves: Dos olhos o virar Que torna tudo raso, Do qual não sabe o engenho divisar Se foi por artificio, ou feito acaso; Da presença os meneios e a postura, O andar e o mover-se, Donde póde aprender-se formosura. Aquelle não sei que, Que aspira não sei como, Qu'invisivel sahindo, a vista o vê, Mas para o comprender não lhe acha tomo; E que toda a Toscana Poesia, Que mais Phebo restaura, Em Beatriz, nem Laura nunca via: Em vós a nossa idade, Senhora, o póde ver, S'engenho, se sciencia e habilidade, Iguaes á vossa formosura der, Qual a vi no meu longo apartamento, Qual em ausencia a vejo. Taes azas dá o desejo ao pensamento! Pois se o desejo afina Hum'alma accesa tanto, Que por vós use as partes de divina; Por vós levantarei não visto canto, Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante: Que o nosso claro Tejo, Envolto hum pouco o vejo e dissonante. O campo não o esmaltão Flores, mas só abrolhos O fazem feio; e cuido que lhe faltão Ouvidos para mi, para vós olhos. Mas faça o que quizer o vil costume; Que o sol, qu'em vós está, Na escuridão dara mais claro lume.
ODE VII.
A quem darão de Pindo as moradoras, Tão doctas como bellas, Florecentes capellas De triumphante louro, ou myrto verde; Da gloriosa palma, que não perde A presumpção sublime, Nem por fôrça de pêzo algum se opprime? A quem trarão nas faldas delicadas, Rosas a roxa Cloris, Conchas a branca Doris; Estas, flores do mar; da terra aquellas, Argenteas, ruivas; brancas e amarellas, Com danças e corêas De formosas Nereidas e Napêas? A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos, Em Thebas Amphion, Em Lesbos Arion, Senão a vós, por quem restituida Se vê da Poesia ja perdida A honra e gloria igual, Senhor Dom Manoel de Portugal? Imitando os espritos ja passados, Gentis, altos, Reais, Honra benigna dais A meu tão baixo, quão zeloso engenho. Por Mecenas a vós celebro e tenho; E sacro o nome vosso Farei, se alguma cousa em verso posso. O rudo canto meu, que resuscita As honras sepultadas, As palmas ja passadas Dos bellicosos nossos Lusitanos Para thesouro dos futuros anos, Comvosco se defende Da lei Lethêa, á qual tudo se rende. Na vossa árvore ornada d'honra e glória Achou tronco excellente A hera florecente Para a minha atéqui de baixa estima: Nelle, para trepar, s'encosta e arrima; E nella subireis Tão alto, quanto os ramos estendeis. Sempre forão engenhos peregrinos Da Fortuna invejados; Que quanto levantados Por hum braço nas azas são da Fama, Tanto por outro aquella, que os desama, Co'o pêzo e gravidade Os opprime da vil necessidade. Mas altos corações dignos d'Imperio, Que vencem a Fortuna, Forão sempre coluna Da sciencia gentil: Octaviano, Scipião, Alexandre e Graciano, Que vemos immortais; E vós, que o nosso seculo dourais. Pois, logo, em quanto a cithara sonora S'estimar por o mundo, Com som docto e jucundo; E em quanto produzir o Tejo e o Douro Peitos de Marte e Phebo crespo e louro, Tereis glória immortal, Senhor Dom Manoel de Portugal.
ODE VIII.
Aquelle unico exemplo De fortaleza heroica e ousadia, Que mereceo no templo Da Fama eterna ter perpétuo dia; O grão filho de Thetis, que dez anos Flagello foi dos miseros Troianos; Não menos ensinado Foi nas hervas e Medica polícia, Que destro e costumado No soberbo exercicio da Milicia: Assi que as mãos que a tantos morte derão, Tambem a muitos vida dar puderão. E não se desprezou Aquelle fero e indomito mancebo Das Artes qu'ensinou Para o languido corpo o intonso Phebo; Que se o temido Heitor matar podia, Tambem chagas mortaes curar sabía. Taes Artes aprendeo Do semiviro Mestre e docto velho, Onde tanto cresceo Em virtude, e em sciencia e em conselho, Que Telepho, por elle vulnerado, Só delle pôde ser despois curado. Pois vós, ó excellente E illustrissimo Conde, do ceo dado Para fazer presente D'altos Heroes o seculo passado; E em quem bem trasladada está a memoria De vossos ascendentes, a honra e glória: Postoque o pensamento Occupado tenhais na guerra infesta, Ou co'o sanguinolento Taprobano, ou Achem, que o mar molesta, Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso, Que qualquer delles teme o nome vosso; Favorecei a antiga Sciencia que ja Achilles estimou; Olhae que vos obriga O ver qu'em vosso tempo rebentou O fructo daquell'Orta onde florecem Plantas novas, que os doctos não conhecem. Olhae qu'em vossos anos Huma Orta produze várias hervas Nos campos Indianos, As quaes aquellas doctas e protervas, Medêa e Circe, nunca conhecêrão, Postoque a lei da Magica excedêrão. E vêde carregado D'annos e traz a vária experiencia Hum velho, qu'ensinado Das Gangeticas Musas na sciencia Podaliria subtil, e arte sylvestre, Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre. O qual está pedindo Vosso favor e amparo ao grão volume, Qu'impresso á luz sahindo, Dara da Medicina hum vivo lume; E descobrir-nos-ha segredos certos, A todos os Antiguos encobertos. Assi que não podeis Negar a que vos pede benigna aura: Que se muito valeis Na sanguinosa guerra Turca e Maura, Ajudae quem ajuda contra a morte; E sereis semelhante ao Grego forte.
ODE IX.
Fogem as neves frias Dos altos montes quando reverdecem As árvores sombrias; As verdes hervas crecem, E o prado ameno de mil côres tecem. Zephyro brando espíra; Suas settas Amor afia agora; Progne triste suspira, E Philomela chora: O ceo da fresca terra se namora. Ja a linda Cytherêa Vem, do côro das Nymphas rodeada; A branca Pasitêa Despida e delicada, Com as duas irmãas acompanhada. Em quanto as officinas Dos Cyclopas Vulcano está queimando, Vão colhendo boninas As Nymphas, e cantando, A terra co'o ligeiro pé tocando. Desce do aspero monte Diana, ja cansada da espessura, Buscando a clara fonte, Onde por sorte dura Perdeo Actêo a natural figura. Assi se vai passando A verde Primavera e o sêcco Estio; O Outono vem entrando; E logo o Inverno frio, Que tambem passará por certo fio. Ir-se-ha embranquecendo Com a frigida neve o sêcco monte; E Jupiter chovendo Turbará a clara fonte: Temerá o marinheiro a Orionte. Porque, emfim, tudo passa; Não sabe o Tempo ter firmeza em nada; E a nossa vida escassa Foge tão apressada, Que quando se começa he acabada. Que se fez dos Troianos Heitor temido, Enêas piedoso? Consumírão-te os anos, Ó Cresso tão famoso, Sem te valer teu ouro precioso. Todo o contentamento Crias qu'estava em ter thesouro ufano! Oh falso pensamento! Que á custa de teu dano Do sabio Solon crêste o desengano. O bem que aqui se alcança, Não dura por passante, nem por forte: Que a bem-aventurança Duravel, de outra sorte Se ha de alcançar na vida para a morte. Porque, emfim, nada basta Contra o terrivel fim da noite eterna; Nem póde a deosa casta Tornar á luz superna Hippolyto da escura sombra averna. Nem Thesêo esforçado, Ou com manha, ou com fôrça valerosa, Livrar póde o ousado Perithoo da espantosa Prisão Lethêa escura e tenebrosa.
ODE X.
Aquelle moço fero Nas Pelethronias covas doctrinado Do Centauro severo; Cujo peito esforçado Com tutanos de tigres foi criado. N'ágoa fatal menino O lava a mãe, presaga do futuro, Para que ferro fino Não passe o peito duro Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro. A carne lh'endurece, Porque não seja d'armas offendida. Cega! pois não conhece Que póde haver ferida N'alma, e que menos doe perder a vida. Que donde o braço irado Dos Troianos passava arnez e escudo, Alli se vio passado Daquelle ferro agudo Do menino qu'em todos póde tudo. Alli se vio captivo Da captiva gentil que serve e adora; Alli se vio que vivo Em vivo fogo mora, Porque de seu senhor a vê senhora. Ja toma a branda lyra Na mão que a dura Pelias meneára; Alli canta e suspira, Não como lh'ensinára O velho, mas o moço que o cegára. Pois, logo, quem culpado Será, se de pequeno offerecido Foi todo a seu cuidado; No berço instituido A não poder deixar de ser ferido? Quem logo fraco infante D'outro mais poderoso foi sujeito, E para cego amante Desd'o princípio feito, Com lagrimas banhando o tenro peito? Se agora foi ferido Da penetrante ponta e fôrça d'herva; E se Amor he servido Que sirva á linda serva, Para quem minha estrella me reserva? O gesto bem talhado; O airoso meneio e a postura; O rosto delicado, Que na vista figura Que s'ensina por arte a formosura, Como póde deixar De render a quem tenha entendimento? Que quem não penetrar Hum doce gesto, attento, Não lhe he nenhum louvor viver isento. Aquelles, cujos peitos Ornou d'altas sciencias o destino. Se vírão mais sujeitos Ao cego e vão menino, Arrebatados do furor divino. O Rei famoso Hebreio, Que mais que todos soube, mais amou; Tanto, que a deos alheio Falso sacrificou. Se muito soube e teve, muito errou. E o grão Sabio qu'ensina, Passeando, os segredos da Sophia, Á baixa concubina Do vil Eunuco Hermia Aras ergueo, que aos deoses só devia. Aras ergue a quem ama O Philosopho insigne namorado. Doe-se a perpétua fama, E grita qu'he culpado: Da lesa divindade he accusado. Ja foge donde habita; Ja paga a culpa enorme com destêrro. Mas, oh grande desdita! Bem mostra tamanho êrro Que doctos corações não são de ferro. Antes na altiva mente, No subtil sangue e engenho mais perfeito Ha mais conveniente E conforme sogeito, Onde s'imprima o brando e doce affeito.
ODE XI.
Naquelle tempo brando Em que se vê do mundo a formosura, Que Thetis descansando De seu trabalho está, formosa e pura, Cansava Amor o peito Do mancebo Peleo d'hum duro affeito. Com impeto forçoso Lhe havia ja fugido a bella Nympha, Quando no tempo aquoso Noto irado revolve a clara lympha, Serras no mar erguendo, Que os cumes das da terra vão lambendo. Esperava o mancebo, Com a profunda dor que n'alma sente, Hum dia em que ja Phebo Começava a mostrar-se ao mundo ardente, Soltando as tranças d'ouro, Em que Clicie d'amor faz seu thesouro. Era no mez que Apolo Entre os irmãos celestes passa o tempo: O vento enfreia Eolo, Para que o deleitoso passatempo Seja quieto e mudo; Que a tudo Amor obriga, e vence tudo. O luminoso dia Os amorosos corpos despertava Á cega idolatria, Que ao peito mais contenta e mais aggrava; Onde o cego menino Faz que os humanos crêão que he divino: Quando a formosa Nympha, Com todo o ajuntamento venerando, Na crystallina lympha O corpo crystallino está lavando; O qual nas ágoas vendo, Nelle, alegre de o ver, s'está revendo: O peito diamantino, Em cuja branca teta Amor se cria; O gesto peregrino, Cuja presença torna a noite em dia; A graciosa boca Que a Amor com seus amores mais provoca; Os rubins graciosos; As pérolas qu'escondem vivas rosas Dos jardins deleitosos, Que o ceo plantou em faces tão formosas; O transparente collo, Que ciumes a Daphne faz d'Apollo; O subtil mantimento Dos olhos, cuja vista a Amor cegou; A Amor que, com tormento Glorioso, nunca delles se apartou, Pois elles de contino Nas meninas o trazem por menino; Os fios derramados Daquelle ouro que o peito mais cobiça, Donde Amor enredados Os corações humanos traz e atiça, E donde com desejo Mais ardente começa a ser sobejo. O mancebo Peleo, Que de Neptuno estava aconselhado, Vendo na terra o ceo Em tão bella figura trasladado, Mudo hum pouco ficou, Porque Amor logo a falla lhe tirou. Emfim, querendo ver Quem tanto mal de longe lhe fazia, A vista foi perder, Porque de puro amor, Amor não via: Vio-se assi cego e mudo Por a fôrça d'Amor que póde tudo. Agora s'apparelha Para a batalha; agora remettendo; Agora s'aconselha; Agora vai; agora está tremendo; Quando ja de Cupido Com nova setta o peito vio ferido. Remette o moço logo Para ond'estava a chamma sem socêgo; E co'o sobejo fogo Quanto mais perto estava, então mais cego: E cego, e co'hum suspiro, Na formosa donzella emprega o tiro. Vingado assi Peleo, Nasceo deste amoroso ajuntamento O forte Larisseo, Destruição do Phrygio pensamento; Que, por não ser ferido, Foi nas ágoas Estygias submergido.
ODE XII.
Ja a calma nos deixou Sem flores as ribeiras deleitosas; Ja de todo seccou Candidos lirios, rubicundas rosas: Fogem do grave ardor os passarinhos Para o sombrio amparo de seus ninhos. Meneia os altos freixos A branda viração de quando em quando; E d'entre vários seixos O liquido crystal sahe murmurando: As gottas, que das alvas pedras sáltão, O prado, como pérolas, esmaltão. Da caça ja cansada Busca a casta Titanica a espessura, Onde á sombra inclinada Logre o doce repouso da verdura, E sôbre o seu cabello ondado e louro Deixe cahir o bosque o seu thesouro. O ceo desimpedido Mostrava o lume eterno das estrellas; E de flores vestido O campo, brancas, roxas e amarellas, Alegre o bosque tinha, alegre o monte, O prado, o arvoredo, o rio, a fonte. Porém como o menino, Que a Jupiter por a aguia foi levado, No cêrco crystallino For do amante de Clicie visitado; O bosque chorará, chorará a fonte, O rio, o arvoredo, o prado, o monte. O mar, que agora brando He das Nereidas candidas cortado, Logo se irá mostrando Todo em crespas escumas empolado: O soberbo furor de negro vento Fara por toda parte movimento. Lei he da natureza Mudar-se desta sorte o tempo leve: Succeder á belleza Da Primavera o fructo; a elle a neve; E tornar outra vez por certo fio Outono, Inverno, Primavera, Estio. Tudo, emfim, faz mudança Quanto o claro sol vê, quanto allumia; Não se acha segurança Em tudo quanto alegra o bello dia: Mudão-se as condições, muda-se a idade, A bonança, os estados e a vontade. Somente a minha imiga A dura condição nunca mudou; Para que o mundo diga Que nella lei tão certa se quebrou: Em não ver-me ella só sempre está firme, Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me. Mas ja soffrivel fôra Qu'em matar-me ella só mostre firmeza, Se não achára agora Tambem em mi mudada a natureza; Pois sempre o coração tenho turbado, Sempre d'escuras nuvens rodeado. Sempre exprimento os fios Qu'em contino receio Amor me manda; Sempre os dous caudaes rios, Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda, Correm, sem chegar nunca o Verão brando, Que tamanha aspereza vá mudando. O sol sereno e puro, Que no formoso rosto resplandece, Envolto em manto escuro Do triste esquecimento, não parece; Deixando em triste noite a triste vida Que nunca de luz nova he soccorrida. Porém seja o que for: Mude-se por meu damno a natureza; Perca a inconstancia Amor; A Fortuna inconstante ache firmeza; Tudo mudável seja contra mi, Mas eu firme estarei no qu'emprendi.
NOTAS.
NOTAS.
Pag. 4. V. 4. _Que rompesse os Mahometicos arnezes_] Faria e Sousa. _Rompessem os Mahometicos arnezes_] 3.ª ed. A primeira lição he viciosa, a segunda correcta; e por isso e por ser mais antiga a adoptámos.
P. 14. V. 24. _Ha de acabar o mal destes amores_.] Todas as ed. Mas o vício he manifesto, porque a tenção, desacompanhada da obra, nada póde acabar. Corrigimos:
Mas se vossa tenção com minha morte He de acabar o mal destes amores etc.
P. 29. V. 13. _Mas em vão não vereis, porque vereis_] Faria e Sousa. _Mas em vão não vireis, porque achareis_] 3.ª ed. Adoptámos esta lição, que he a do poeta.
P. 30. V. 10. _O pensamento da aspereza vossa_] Faria e Sousa. _O pensamento e a aspereza vossa_] 3.ª ed. Porque rejeitaria Faria e Sousa esta lição? ou que entenderia elle por _pensamento da aspereza_? Seguimos a lição antiga, que he a verdadeira.
P. 34. V. 7. _Pois a parte maior do entendimento_] Faria e Sousa. _Pois a parte melhor do entendimento_] 3.ª ed. Adoptámos a lição antiga, porque por _parte maior_, se entende a maior porção.
P. 34. V. 9. _Se em teu valor contemplo a melhor parte_] Faria, e 3.ª ed. Mas he vício, porque o poeta acaba dizer que a melhor parte do entendimento se vê perdida no menos que ha na sua amada, e não he possivel que não quizesse continuar no mesmo encarecimento. Corrigimos:
Se em teu valor contemplo a menor parte.
P. 34. V. 25. _Em feras mora, em aves, pedras ágoas_] Faria e Sousa. _Em feras, plantas, aves, pedras, ágoas_] 3.ª ed. Só quem for destituido de gosto poderá preferir aquella a esta lição.
P. 40. V. 19. _A mão tenho mettida no teu seio_] Faria e Sousa, e 3.ª ed. He êrro: corrigimos:
A mão tenho mettida no meu seio.
P. 69. V. 5. _Nunca do vento e ira, que arrancando_] Faria e Sousa. He êrro; corrigimos:
Nunca do vento a ira, que arrancando.
P. 70. V. 24. _Com que a morte forçada e gloriosa, Faz o vencido etc._] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:
Com que a morte forçada gloriosa Faz o vencido etc.
P. 86. V. 24. _Pois se a fortuna o fez por descontar-me Esse desgosto etc._] Faria e Sousa. He lição viciosa, porque o poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que era tal, que era de razão, tivesse este desconto, porque se não dissesse que no mundo podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora desgosto ao que pouco antes chamou summa alegria. Corrigimos:
Mas se a fortuna o fez por descontar-me Aquelle gosto etc.
P. 108. V. 15. _Ayúdame, Señora, á ser vingança_] Faria e Sousa. He êrro. Corrigimos:
Ayúdame, Señora, á hacer vinganza.
P. 111. V. 7. _Nem todos para um gôsto são iguaes_] Faria e Sousa. He êrro, porque o poeta diz: Vós, ó annos, estes que passais tão ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse _são_, era absurdo. Corrigimos:
Nem todos para um gôsto sois iguaes.
P. 113. V. 25. _Aunque en esta se llega al natural_] Faria e Sousa. He êrro. Corrigimos:
Aunque en esto se llega al natural.
Porque o sentido do poeta he que só n'uma cousa se aproxima ao natural o retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o seu pranto como se fôra o proprio original.
P. 114. V. 11. _En tanto bien no quieras olvidarte_] Faria e Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja _olvidarme_.
P. 114. V. 21. _Cesse vosso louvor, Nymphas formosas_] Faria e Sousa. He vicio, porque o poeta não diz ás Nymphas que deixem o seu proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que estavão lavrando. Corrigimos:
Cesse vosso lavor etc.
P. 115. V. 22. _Fizeres que se mova a piedade_] Faria e Sousa. _Fazeres que se mova a piedade_] 3.ª ed. Seguimos esta lição, que he a verdadeira.
P. 120. V. 15. _Em Babylonia sôbre os rios_] Faria e Sousa. Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve ler:
De Babylonia sobre os rios etc.
P. 128. V. 13. _Ah! que falta mais vezes a ventura_] Faria e Sousa; mas a lição do poeta he esta:
Ah! que falte mais vezes a ventura.
P. 133. V. 28. _Que não póde nenhum impedimento Fugir do que lhe ordena sua Estrella._] Lição vulgar. Mas o fugir está aqui por evitar: corrigimos:
Fugir o que lhe ordena etc.
P. 134. V. 7. _Tão potente será vossa mudança_.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:
Tão patente será etc.
P. 136. V. 28. _Não o quizera tanto á vossa custa_.] Lição vulgar. He vicio, porque se entende a vingança. Corrigimos:
Não a quizera tanto á vossa custa.
P. 138. V. 11. _Eu quanto mais te vejo, mais te escondes_.] Lição vulgar. He absurda: corrigimos:
Eu quanto mais te busco, mais te escondes.
P. 139. V. 20. _Que mágoas para ouvir! e que figura_.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:
Que mágoas para ouvir! Que tal figura.
P. 144. V. 11. _Mas eu acostumado ao veneno, E uso de soffrer meu mal presente_.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:
Assim de acostumado co'o veneno, O uso de soffrer etc.
P. 159. V. 3. _Ni dejarán, por mas que el tiempo huya_.] Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. Corrigimos:
Ni dejará, por mas que el tiempo huya.
P. 165. V. 12. _Seus cabellos_] Tod. as ed. Mas quem espalha os cabellos, não são as Nymphas; he a manhãa. Nem as Nymphas podião ter tantos e tão longos cabellos, que os espalhassem pelos montes. Corrigimos: _Teus cabellos_.
P. 167. V. 9. _Gaitas, que bem se ouvião_] Faria e Sousa. _As gaitas que trazião_] 3.ª ed. Adoptamos esta lição, que he a do poeta.
P. 175. V. 5. _Com palavras mimosas e forjadas Da solta liberdade e livre peito._] Todas as ed. Mas he vicio, porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e enganadas. Corrigimos:
Com palavras mimosas e forjadas, De solta liberdade e livre peito etc.