Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 25

Chapter 253,344 wordsPublic domain

Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura, Que sempre na alma vejo? Ou me pinta o desejo O bem qu'em vão cad'hora m'assegura? Mal póde a noite escura, Amando a sombra fria, Mandar-me em sonho a luz formosa e bella, Que se não torne em dia, De seus luzentes raios inflammada. Oh vista desejada De graciosa Nympha e viva estrella! Que ha tanto que por este mar navego (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego. Nesses formosos olhos, d'enlevada, Minh'alma se escondeo, Quando ordenava o Ceo Que vivesse comigo desterrada. Vós a mais certa estrada De ver a summa alteza, Do efeito a causa abris a est'alma minha. Assi mortal belleza Só della nasce, e nella se resume; Assi celeste lume Lá dos ceos se deriva, e lá caminha. Pois, como a Deos unir-me a vista possa, Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa? Se me quereis prender a parte a parte, Cabello ondado e louro, Tecei-me a rede de ouro Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte. Des que com gentil arte Vestis de flores bellas A terra em que tocais co'a bella planta, Quantas vezes com vellas Quiz n'huma d'essas flores transformar-me? Porque, vendo pizar-me D'esse candido pé, que a neve espanta, Póde ser que na flor mudado fôra Que deo a Juno irada a linda Flora. Mas onde te acolheste (ó doce vida!) Mais leve e pressurosa, Do que na selva umbrosa Cerva d'aguda setta vai ferida? Se para tal partida, Meus olhos, vos abristes, Cerrára-vos o somno eternamente, Antes que ver-vos tristes, Perdendo tão suave e doce engano! Agora, com meu dano, Vêdes, para mor mágoa, claramente, Neste bem fugitivo e somno leve, Que mal não ha mais longo, que hum bem breve. Ditoso Endymião que a deosa chara, Que a noite vai guiando, Teve em braços sonhando! Ah quem de sonho tal nunca acordára! Tu só, Aurora avara, Quando os olhos feriste, Me mataste cruel d'inveja pura. Mas se d'esta alma triste A negra escuridão vencer quizeste, Sabe qu'em vão nasceste; Que para desfazer-se a nevoa escura De meus olhos, importa estar presente Outro sol, outra aurora, outro Oriente. Se a luz de meu Planeta, Não m'aviva, Canção, branda e quieta, Qual flor de chuva, em breve consumida, Verás desfeita em lagrimas a vida.

CANÇÃO XVI.

Por meio d'humas serras mui fragosas, Cercadas de sylvestres arvoredos, Retumbando por asperos penedos, Correm perennes ágoas deleitosas. Na ribeira de Buina, assi chamada, Celebrada, Porqu'em prados Esmaltados Com frescura De verdura, Assi se mostra amena, assi graciosa, Qu'excede a qualquer outra mais formosa; As correntes se vem, que acceleradas, As hervas regalando e as boninas, Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas, Por diversas ribeiras derivadas. Com mil brancas conchinhas a aurea areia Bem se arreia; Voão aves; Mil suaves Passarinhos Nos raminhos Acordemente estão sempre cantando, Com doce accento os ares abrandando. O doce rouxinol n'hum ramo canta, E d'outro o pintasirgo lhe responde; A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde, O caçador sentindo, se levanta: Voando vai ligeira mais que o vento; Outro assento Vai buscando; Porém quando Vai fugindo; Retinindo, Traz ella mais veloz a setta corre, De que ferida logo cahe e morre. Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo, Co'o peito ensanguentado anda voando, Cibato para o ninho indo buscando; A leda codorniz vem ao reclamo Do sagaz caçador, que a rede estende, E pretende Com engano Fazer dano Á coitada, Qu'enganada D'huns esparzidos grãos de louro trigo, Nas mãos vai a cahir de seu imigo. Aqui sôa a calhandra na parreira; A rôla geme; palra o estorninho; Sahe a candida pomba do seu ninho; O tordo pousa em cima da oliveira: Vão as doces abelhas susurrando, E apanhando O rocio Fresco e frio Por o prado D'herva ornado, Com que o aureo licor fazem, que deo Á humana gente a indústria d'Aristeo. Aqui as uvas luzidas, penduradas Das pampinosas vides, resplandecem; As frondiferas árvores se offrecem Com differentes fructos carregadas: Os peixes n'ágoa clara andão saltando, Levantando As pedrinhas, E as conchinhas Rubicundas, Que as jucundas Ondas comsigo trazem, crepitando Por a praia alva com ruido brando. Aqui por entre as serras se levantão Animaes Calidoneos, e os veados Na fugida inda mal assegurados, Porque do som dos proprios pés s'espantão. Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa Da frondosa Breve mata, Donde a cata Cão ligeiro. Mas primeiro Qu'ella ao contrário férvido s'entregue, Ás vezes deixa em branco a quem a segue. Luzem as brancas e purpúreas flores, Com que o brando Favonio a terra esmalta; O formoso jacintho alli não falta, Lembrado dos antiguos seus amores. Inda na flor se mostrão esculpidos Os gemidos: Aqui Flora Sempre mora; E com rosas Mais formosas, Com lirios e boninas mil fragrantes, Alegra os seus amores circumstantes. Aqui Narciso em líquido crystal Se namora de sua formosura: Nelle as pendentes ramas da'spessura Debuxando-se estão ao natural. Adonis, com que a linda Cytherêa Se recrêa, Bem florido, Convertido Na bonina, Qu'Erycina Por imagem deixou de qual sería Aquelle por quem ella se perdia. Lugar alegre, fresco, accommodado Para se deleitar qualquer amante, A quem com sua ponta penetrante O cego Amor tivesse derribado; E para memorar ao som das ágoas Suas mágoas Amorosas, As cheirosas Flores vendo, Escolhendo, Para fazer preciosas mil capellas, E dar por grão penhor a Nymphas bellas. Eu dellas, por penhor de meus amores, Huma capella á minha deosa dava: Que lhe queria bem, bem lhe mostrava O bem-mequeres entre tantas flores: Porém, como se fôra mal-mequeres, Os poderes Da crueldade Na beldade Bem mostrou; Desprezou A dadiva de flores; não por minha, Mas porque muitas mais ella em si tinha.

CANÇÃO XVII.

A vida ja passei assaz contente, Livre tinha a vontade e o pensamento, Sem receios d'Amor, nem da Ventura: Mas isto foi hum bem d'hum só momento; E á minha custa vejo claramente, Que a vida não dá algum de muita dura. No tempo em qu'eu vivia mais segura D'Amor e seu cuidado, Por me ver n'hum estado Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte; Não sinto por qual arte Me vejo entregue a elle de tal sorte, Qu'em quanto tarda a morte, A esperança do bem tenho perdida. Ai quão devagar passa a triste vida! Quantas vezes eu triste aqui ouvia O meu Felicio, e outros mil pastores, Queixar-se em vão de minha crueldade! E mais surda então eu a seus clamores, Que aspide surda, ou surda penedia, Julgava os seus amores por vaidade. Agora em pago disto a liberdade, A vontade e o desejo De todo entregue vejo A quem, inda que brade, não responde; Pois vejo que s'esconde Ja debaixo da terra este qu'eu chamo, Que he aquelle a quem amo, Aquelle a quem agora estou rendida. Ai quão devagar passa a triste vida! Que gloria, Amor cruel, com meu tormento, Que louvor a teu nome accrescentaste? Ou que te constrangeo a tal crueza, Que com tal pressa esta alma sujeitaste A hum mal, onde não basta o soffrimento? Mas se, Amor, es cruel de natureza, Bastava usar comigo da aspereza Que usas com outra gente: Mas tu como somente De ver-me estar morrendo te contentas, Quando mais me atormentas, Então desejas mais d'atormentar-me; E não queres matar-me Porque este mal de mi se não despida. Ai quão devagar passa a triste vida! Onde cousa acharei que alegre veja? A quem chamarei ja que me responda? Quem me dará remedio á dor presente? Não ha bem, que de mi ja não s'esconda; Nem algum verei ja, que a mi o seja, Porqu'está quem o foi da vida ausente. Eu alguma não vi tão descontente, Que Amor tão mal tratasse, Qu'inda não esperasse A seus males remedio achar vivendo: Eu só vivo soffrendo Hum mal tão grave e tão desesperado, Que tanto he mais pezado, Quanto a vida com elle he mais comprida. Ai quão devagar passa a triste vida! Suaves ágoas, dura penedia, Arvoredo sombrio, verde prado, Donde eu ja tive livre o pensamento; Frescas flores; e vós, meu manso gado, Que ja m'acompanhastes na alegria, Não me deixeis agora no tormento. Se do mal meu vos toca sentimento, Dae-me par'elle ajuda, Qu'eu tenho a lingua muda, O alento me vai ja desamparando. Mas quando (ai triste!) quando D'hum dia hum'hora me virá contente, Qu'eu te veja presente, Pastor meu, e comtigo est'alma unida? Ai quão devagar passa a triste vida! Mas não sei se he sobrado atrevimento Querer-se est'alma minha unir comtigo, Pois della foste ja tão desprezado. Amor me livrará deste perigo; Que despois que lá vires meu tormento, Creio que t'haverás por bem vingado. E s'inda em ti durar o amor passado, E aquella fé tão pura, Eu estou bem segura Que has lá de receber-me brandamente. Aprenda em mi a gente Quão cara huma isenção com Amor custa: A pena dá bem justa A hum'alma que lhe he pouco agradecida. Ai quão devagar passa a triste vida!

ODES.

ODE I.

Detem hum pouco, Musa, o largo pranto Que Amor te abre do peito; E vestida de rico e ledo manto, Demos honra e respeito Áquella, cujo objeito Todo o mundo allumia, Trocando a noite escura em claro dia. O Delia, que a pezar da nevoa grossa, Co'os teus raios de prata A noite escura fazes que não possa Encontrar o que trata, E o que n'alma retrata Amor por teu divino Raio, por qu'endoudeço e desatino: Tu, que de formosissimas estrellas Corôas e rodeias Tua candida fronte e faces bellas; E os campos formoseias Co'as rosas que semeias, Co'as boninas que gera O teu celeste humor na primavera: Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio Suas sombras formosas; Para ti o Erymantho e o lindo Pylio As mais purpureas rosas; E as drogas mais cheirosas Desse nosso Oriente Guarda a felice Arabia mais contente. De qual panthera, ou tigre, ou leopardo As asperas entranhas Não temêrão teu fero e agudo dardo, Quando por as montanhas Mais remotas e estranhas Ligeira atravessavas, Tão formosa que a Amor d'amor matavas? Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos Furtos de purídades, Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos, As conformes vontades, Humas por saudades, Outras por crus indicios Fazem das proprias vidas sacrificios: Ja veio Endymião por estes montes O ceo, suspenso, olhando, E teu nome, co'os olhos feitos fontes, Em vão sempre chamando, Pedindo (suspirando) Mercês á tua beldade, Sem que ache em ti hum'hora piedade. Por ti feito pastor de branco gado Nas selvas solitarias, Só de seu pensamento acompanhado, Conversa as alimarias, De todo Amor contrárias, Mas não como ti duras, Onde lamenta e chora desventuras. Das castas virgens sempre os altos gritos, Clara Lucina, ouviste, Renovando-lhe as fôrças e os espritos: Mas os daquelle triste, Ja nunca consentiste Ouvi-los hum momento, Para ser menos grave o seu tormento. Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas D'hum tão fiel amante! Ólha como suspirão estas ondas, E como o velho Atlante O seu collo arrogante Move piedosamente, Ouvindo a minha voz fraca e doente. Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me, Pois minhas queixas digo A quem ja ergueo a mão para matar-me, Como a cruel imigo? Mas eu meu fado sigo, Que a isto me destina, E qu'isto só pretende e só m'ensina. Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana! Mas eu sempre porfio Cada vez mais na minha teima insana. Tendo livre alvedrio, Não fujo o desvario; Porque este em que me vejo Engana co'a esperança o meu desejo. Oh quanto melhor fôra que dormissem Hum somno perennal Estes meus olhos tristes, e não vissem A causa de seu mal Fugir, a hum tempo tal, Mais que d'antes proterva, Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva! Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo, Com mil mortes ao lado; E quando morro mais, então mais vivo! Porque t[~e]e ordenado Meu infelice fado, Que quando me convida A morte, para a morte tenha vida. Secreta noite amiga, a que obedeço, Estas rosas (por quanto Meus queixumes me ouviste) te offereço, E este fresco amaranto, Humido ja do pranto, E lagrimas da esposa Do cioso Titão, branca e formosa.

ODE II.

Tão suave, tão fresca e tão formosa, Nunca no ceo sahio A Aurora no princípio do verão, Ás flores dando a graça costumada, Como a formosa mansa fera, quando Hum pensamento vivo m'inspirou, Por quem me desconheço. Bonina pudibunda, ou fresca rosa, Nunca no campo abrio, Quando os raios do sol no Touro estão, De côres differentes esmaltada, Como esta flor, que os olhos inclinando, O soffrimento triste costumou Á pena que padeço. Ligeira, bella Nympha, linda, irosa, Não creio que seguio Satyro, cujo brando coração D'amores commovesse fera irada, Qu'assi fosse fugindo e desprezando Este tormento, donde Amor mostrou Tão próspero comêço. Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa Natura produzio, Qu'iguale aquella fórma e condição, Que as dores em que vivo estima em nada. Mas com tão doce gesto, irado e brando, O sentimento, e a vida m'enlevou, Que a pena lhe agradeço. Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa, Aquillo que a alma vio Entre a doce dureza e mansidão, Primores de belleza desusada; Mas quando quiz voar ao ceo cantando, Entendimento e engenho me cegou Luz de tão alto preço. Naquella alta pureza deleitosa Que ao mundo s'encobrio; E nos olhos Angelicos, que são Senhores desta vida destinada; E naquelles cabellos, que soltando Ao manso vento, a vida me enredou, M'alegro e m'entristeço. Saudade e suspeita perigosa, Que Amor constituio Por castigo daquelles que se vão; Temores, penas d'alma desprezada, Fera esquivança, que me vai tirando O mantimento que me sustentou, A tudo me offereço. Amor isento a huns olhos m'entregou, Nos quaes a Deos conheço.

ODE III.

Se de meu pensamento Tanta razão tivera d'alegrar-me, Quanto de meu tormento A tenho de queixar-me, Puderas, triste lyra, consolar-me. E minha voz cansada, Qu'em outro tempo foi alegre e pura, Não fôra assi tornada, Com tanta desventura, Tão rouca, tão pezada, nem tão dura. A ser como sohia, Pudera levantar vossos louvores; Vós, minha Hierarchia, Ouvíreis meus amores, Qu'exemplo são ao mundo ja de dores. Alegres meus cuidados, Contentes dias, horas e momentos, Oh quanto bem lembrados Sois de meus pensamentos, Reinando agora em mi duros tormentos! Ai gostos fugitivos! Ai gloria ja acabada e consumida! Ai males tão esquivos! Qual me deixais a vida! Quão cheia de pezar! quão destruida! Mas como não he morta Ja esta vida? como tanto dura? Como não abre a porta A tanta desventura, Qu'em vão com seu poder o tempo cura? Mas para padecê-la S'esforça o meu sogeito e convalece; Que só para dizê-la, A fôrça me fallece, E de todo me cansa e m'enfraquece. Oh bem affortunado Tu, que alcançaste com lyra toante, Orphêo, ser escutado Do fero Rhadamante, E co'os teus olhos ver a doce amante! As infernaes figuras Moveste com teu canto docemente; As tres Furias escuras, Implacaveis á gente, Applacadas se vírão derepente. Ficou como pasmado Todo o Estygio Reino co'o teu canto; E quasi descansado De seu eterno pranto, Cessou de alçar Sisypho o grave canto. A ordem se mudava Das penas que regendo está Plutão; Em descanso se achava A roda de Ixião, E em glória quantas penas alli são. De todo ja admirada A Rainha infernal e commovida, Te deo a desejada Esposa, que perdida De tantos dias ja tivera a vida. Pois minha desventura, Como ja não abranda hum'alma humana, Qu'he contra mi mais dura, E inda mais deshumana, Que o furor de Callirrhoë profana? Oh crua, esquiva e fera, Duro peito, cruel e empedernido, D'alguma tigre fera Lá na Hircania nascido, Ou d'entre as duras rochas produzido! Mas que digo, coitado! E de quem fio em vão minhas querellas? Só vós, ó do salgado, Humido Reino bellas E claras Nymphas, condoei-vos dellas. E d'ouro guarnecidas Vossas louras cabeças levantando Sôbre as ondas erguidas, As tranças gottejando, Sahindo todas, vinde a ver qual ando. Sahi em companhia, E cantando e colhendo as lindas flores; Vereis minha agonia, Ouvireis meus amores, E sentireis meus prantos, meus clamores. Vereis o mais perdido E mais infeliz corpo qu'he gerado; Qu'está ja convertido Em chôro, e neste estado Somente vive nelle o seu cuidado.

ODE IV.

Formosa fera humana, Em cujo coração soberbo e rudo A fôrça soberana Do vingativo Amor, que vence tudo, As pontas amoladas De quantas settas tinha t[~e]e quebradas: Amada Circe minha, Postoque minha não, com tudo amada; A quem hum bem que tinha Da doce liberdade desejada, Pouco a pouco entreguei, E se mais tenho, mais entregarei; Pois natureza irosa Da razão te deo partes tão contrárias, Que sendo tão formosa, Folgues de te queimar em flammas várias, Sem arder em nenh[~u]a Mais qu'em quanto allumia o mundo a l[~u]a; Pois triumphando vás Com diversos despojos de perdidos, Que tu privando estás De razão, de juizo e de sentidos, E quasi a todos dando Aquelle bem que a todos vás negando; Pois tanto te contenta Ver o nocturno moço, em ferro envolto, Debaixo da tormenta De Jupiter em ágoa e vento sôlto, Á porta, que impedido Lhe t[~e]e seu bem, de mágoa adormecido; Porque não tens receio Que tantas insolencias e esquivanças A deosa, que põe freio A soberbas e doudas esperanças, Castigue com rigor, E contra ti se accenda o fero Amor? Ólha a formosa Flora; De despojos de mil suspiros rica, Por o Capitão chora, Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica, E foi sublime tanto, Que altares lhe deo Roma e nome santo. Ólha em Lesbos aquella No seu salteiro insigne conhecida; Dos muitos que por ella Se perdêrão, perdeo a chara vida Na rocha que se infama Com ser remedio extremo de quem ama. Por o moço escolhido, Onde mais se mostrárão as tres Graças; Que Venus escondido Para si teve hum tempo entre as alfaças, Pagou co'a morte fria A má vida que a muitos ja daria. E, vendo-se deixada Daquelle por quem tantos ja deixára, Se foi, desesperada, Precipitar da infame rocha chara: Que o mal de mal querida Sabe que vida lhe he perder a vida. Tomae-me, bravos mares; Vós me tomae, pois outrem me deixou. Disse: e dos altos ares Pendendo, com furor s'arremessou. Acude tu, suave, Acude, poderosa e divina ave. Toma-a nas azas tuas, Menino pio, illesa e sem perigo, Antes que nestas cruas Ágoas cahindo apague o fogo antigo. He digno amor tamanho De viver, e ser tido por estranho. Não: qu'he razão que seja Para as lobas isentas, que amor vendem, Exemplo onde se veja Que tambem ficão presas as que prendem. Assi o deo por sentença Nemesis, que Amor quiz que tudo vença.

ODE V.

Nunca manhãa suave Estendendo seus raios por o mundo, Despois de noite grave, Tempestuosa, negra, em mar profundo Alegrou tanto nao, que ja no fundo Se vio em mares grossos, Como a luz clara a mi dos olhos vossos. Aquella formosura, Que só no virar delles resplandece; E com que a sombra escura Clara se faz, e o campo reverdece; Quando o meu pensamento se entristece, Ella e sua viveza Me desfazem a nuvem da tristeza. O meu peito, onde estais, He para tanto bem pequeno vaso; Quando acaso virais Os olhos, que de mi não fazem caso, Todo, gentil Senhora, então me abraso Na luz que me consume, Bem como a borboleta faz no lume. Se mil almas tivera Que a tão formosos olhos entregára, Todas quantas pudera Por as pestanas delles pendurára; E, enlevadas na vista pura e clara, (Postoque disso indinas) Se andárão sempre vendo nas meninas. E vós, que descuidada Agora vivereis de taes querellas, D'almas minhas cercada, Não pudesseis tirar os olhos dellas; Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas A dor que lhe mostrassem, Tantas huma alma só não abrandassem. Mas, pois o peito ardente Huma só póde ter, formosa Dama, Basta que esta somente, Como se fossem mil e mil, vos ama, Para que a dor de sua ardente flama Comvosco tanto possa, Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.

ODE VI.