Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 24
Junto d'hum sêcco, duro, esteril monte, Inutil e despido, calvo e informe, Da natureza em tudo aborrecido; Onde nem ave vôa, ou fera dorme, Nem corre claro rio, ou ferve fonte, Nem verde ramo faz doce ruido; Cujo nome, do vulgo introduzido, He Feliz, por antiphrasi infelice; O qual a natureza Situou junto á parte, Aonde hum braço d'alto mar reparte A Abassia da Arabica aspereza, Em que fundada ja foi Berenice, Ficando á parte, donde O sol, que nella ferve, se lh'esconde; O cabo se descobre, com que a costa Africana, que do Austro vem correndo, Limite faz, Arómata chamado: Arómata outro tempo; que volvendo A roda, a ruda lingua mal composta Dos proprios outro nome lhe t[~e]e dado. Aqui, no mar, que quer apressurado Entrar por a garganta deste braço, Me trouxe hum tempo e teve Minha fera ventura. Aqui nesta remota, aspera e dura Parte do mundo, quiz que a vida breve Tambem de si deixasse hum breve espaço; Porque ficasse a vida Por o mundo em pedaços repartida. Aqui me achei gastando huns tristes dias, Tristes, forçados, maos e solitarios, De trabalho, de dor, e d'ira cheios: Não tendo tãosomente por contrarios A vida, o sol ardente, as ágoas frias, Os ares grossos, férvidos e feios, Mas os meus pensamentos, que são meios Para enganar a propria natureza, Tambem vi contra mi; Trazendo-me á memoria Alguma ja passada e breve gloria, Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi; Por me dobrar dos males a aspereza; Por mostrar-me que havia No mundo muitas horas d'alegria. Aqui'stive eu com estes pensamentos Gastando tempo e vida; os quaes tão alto Me subião nas asas, que cahia (Oh vêde se seria leve o salto!) De sonhados e vãos contentamentos Em desesperação de ver hum dia. O imaginar aqui se convertia Em improvisos choros e em suspiros, Que rompião os ares. Aqui a alma captiva, Chagada toda, estava em carne viva, De dores rodeada e de pezares, Desamparada e descoberta aos tiros Da soberba Fortuna; Soberba, inexoravel e importuna. Não tinha parte donde se deitasse, Nem esperança alguma, onde a cabeça Hum pouco reclinasse, por descanso: Tudo dor lhe era e causa que padeça, Mas que pereça não; porque passasse O que quiz o destino nunca manso. Oh qu'este irado mar gemendo amanso! Estes ventos, da voz importunados, Parece que se enfreião: Somente o Ceo severo, As estrellas e o fado sempre fero, Com meu perpétuo damno se recreião; Mostrando-se potentes e indignados Contra hum corpo terreno, Bicho da terra vil e tão pequeno. Se de tantos trabalhos só tirasse Saber inda por certo que algum'hora Lembrava a huns claros olhos que ja vi; E s'esta triste voz, rompendo fóra, As orelhas angelicas tocasse Daquella em cuja vista ja vivi; A qual, tornando hum pouco sôbre si, Revolvendo na mente pressurosa Os tempos ja passados De meus doces errores, De meus suaves males e furores, Por ella padecidos e buscados, E (pôsto que ja tarde) piedosa, Hum pouco lhe pezasse, E lá entre si por dura se julgasse: Isto só que soubesse me seria Descanso para a vida que me fica; Com isto affagaria o soffrimento. Ah Senhora! Ah Senhora! E que tão rica Estais, que cá tão longe d'alegria Me sustentais com doce fingimento! Logo que vos figura o pensamento, Foge todo o trabalho e toda a pena. Só com vossas lembranças Me acho seguro e forte Contra o rosto feroz da fera morte; E logo se me juntão esperanças Com que, a fronte tornada mais serena, Torno os tormentos graves Em saudades brandas e suaves. Aqui com ellas fico perguntando Aos ventos amorosos, que respirão Da parte donde estais, por vós Senhora; Ás aves qu'alli voão, se vos virão, Que fazieis, qu'estaveis praticando; Onde, como, com quem, que dia e que hora. Alli a vida cansada se melhora, Toma espiritos novos, com que vença A fortuna e trabalho, Só por tornar a ver-vos, Só por ir a servir-vos e querer-vos. Diz-me o tempo que a tudo dará talho: Mas o desejo ardente, que detença Nunca soffreo, sem tento Me abre as chagas de novo ao soffrimento. Assi vivo; e s'alguem te perguntasse, Canção, porque não mouro; Podes-lhe responder; que porque mouro.
CANÇÃO XI.
Vinde cá meu tão certo Secretario Dos queixumes que sempre ando fazendo, Papel, com quem a pena desaffógo. As semrazões digamos, que vivendo Me faz o inexoravel e contrário Destino, surdo a lagrimas e a rôgo. Lancemos ágoa pouca em muito fogo, Accenda-se com gritos hum tormento, Que a todas as memorias seja estranho. Digamos mal tamanho A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento, A quem ja muitas vezes o contei, Tanto debalde como o conto agora. Mas ja que para errores fui nascido, Vir este a ser hum delles não duvido. E, pois ja d'acertar estou tão fóra, Não me culpem tambem se nisto errei. Se quer este refúgio só terei, Fallar e errar, sem culpa, livremente. Triste quem de tão pouco está contente! Ja me desenganei que de queixar-me Não s'alcança remedio; mas quem pena, Forçado lh'he gritar, se a dor he grande. Gritarei; mas he debil e pequena A voz para poder desabafar-me; Porque nem com gritar a dor se abrande. Quem me dará se quer que fóra mande Lagrimas e suspiros infinitos, Iguaes ao mal que dentro na alma mora? Mas quem pôde algum'hora Medir o mal com lagrimas, ou gritos? Direi, emfim, aquillo que m'ensinão A ira, e mágoa, e dellas a lembrança, Que outra dor he por si mais dura e firme. Chegae, desesperados, para ouvir-me; E fujão os que vivem d'esperança, Ou aquelles que nella se imaginão; Porque Amor e Fortuna determinão De lhes deixar poder para entenderem Á medida dos males que tiverem. Quando vim da materna sepultura De novo ao mundo, logo me fizerão Estrellas infelices obrigado: Com ter livre alvedrio, mo não derão; Qu'eu conheci mil vezes na ventura O melhor, e o peor segui forçado. E para que o tormento conformado Me dessem com a idade, quando abrisse Inda menino os olhos brandamente, Mândão que diligente Hum menino sem olhos me ferisse. As lagrimas da infancia ja manavão Com huma saudade namorada; O som dos gritos, que no berço dava, Ja como de suspiros me soava. Co'a idade e fado estava concertado: Porque quando por caso m'embalavão, Se d'Amor tristes versos me cantavão, Logo m'adormecia a natureza; Que tão conforme estava co'a tristeza! Foi minh'ama huma fera; que o destino Não quiz que mulher fosse a que tivesse Tal nome para mi; nem a haveria. Assi criado fui, porque bebesse O veneno amoroso de menino, Que na maior idade beberia, E por costume não me mataria. Logo então vi a image e semelhança Daquella humana fera tão formosa, Suave e venenosa, Que me criou aos peitos da esperança; De quem eu vi despois o original, Que de todos os grandes desatinos Faz a culpa soberba e soberana. Parece-me que tinha fórma humana, Mas scintilava espiritos divinos. Hum meneio, e presença tinha tal, Que se vangloriava todo o mal Na vista della: a sombra co'a viveza Excedia o poder da natureza. Que genero tão novo de tormento Teve Amor, sem que fosse não somente Provado em mi, mas todo executado? Implacaveis durezas, que ao fervente Desejo, que dá fôrça ao pensamento, Tinhão de seu proposito abalado, E corrido de ver-se e injuriado: Aqui sombras phantasticas, trazidas D'algumas temerarias esperanças; As bem-aventuranças Tambem nellas pintadas e fingidas. Mas a dor do desprêzo recebido, Que todo o phantasiar desatinava, Estes enganos punha em desconcêrto. Aqui o adivinhar, e o ter por certo Qu'era verdade quanto adivinhava, E logo o desdizer-me de corrido; Dar ás cousas que via outro sentido; E para tudo, emfim, buscar razões: Mas erão muitas mais as semrazões. Não sei como sabía estar roubando Co'os raios as entranhas, que fugião Par'ella por os olhos subtilmente! Pouco a pouco invisiveis me sahião; Bem como do véo humido exhalando Está o subtil humor o sol ardente. O gesto puro, emfim, e transparente, Para quem fica baixo e sem valia Este nome de bello e de formoso; O doce e piedoso Mover d'olhos, que as almas suspendia, Forão as hervas magicas, que o Ceo Me fez beber: as quaes por longos anos N'outro ser me tiverão transformado, E tão contente de me ver trocado, Que as mágoas enganava co'os enganos; E diante dos olhos punha o véo, Que m'encobrisse o mal que assi cresceo: Como quem com affagos se criava Daquella para quem crescido estava. Pois quem póde pintar a vida ausente, Com hum descontentar-me quanto via, E aquell'estar tão longe donde estava; O fallar sem saber o que dizia; Andar sem ver por onde, e juntamente Suspirar sem saber que suspirava? Pois quando aquelle mal m'atormentava, E aquella dor, que das Tartareas ágoas Sahio ao mundo, e mais que todas doe, Que tantas vezes soe Duras íras tornar em brandas mágoas? Agora co'o furor da mágoa irado, Querer, e não querer deixar de amar; E mudar n'outra parte, por vingança, O desejo privado d'esperança, Que tão mal se podia ja mudar? Agora a saudade do passado, Tormento puro, doce e magoado, Que converter fazia estes furores Em magoadas lagrimas d'amores? Que desculpas comigo só buscava, Quando o suave Amor me não soffria Culpa na cousa amada, e tão amada! Erão, emfim, remedios que fingia O medo do tormento, qu'ensinava A vida a sustentar-se d'enganada. Nisto huma parte della foi passada; Na qual se tive algum contentamento Breve, imperfeito, timido, indecente, Não foi senão semente D'hum cumprido, amarissimo tormento. Este curso contino de tristeza, Estes passos vãamente derramados, Me forão apagando o ardente gôsto, Que tão de siso n'alma tinha pôsto, Daquelles pensamentos namorados Com que criei a tenra natureza, Que do longo costume da aspereza, Contra quem fôrça humana não resiste, Se converteo no gôsto de ser triste. Dest'arte a vida em outra fui trocando; Eu não, mas o destino fero, irado; Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára. Fez-me deixar o patrio ninho amado, Passando o longo mar, que ameaçando Tantas vezes m'esteve a vida chara. Agora exprimentando a furia rara De Marte, que nos olhos quiz que logo Visse, e tocasse o acerbo fructo seu. E neste escudo meu A pintura verão do infesto fogo. Agora peregrino, vago, errante, Vendo nações, linguagens e costumes, Ceos varios, qualidades differentes, Só por seguir com passos diligentes A ti, Fortuna injusta, que consumes As idades, levando-lhes diante Huma esperança em vista de diamante: Mas quando das mãos cahe se conhece Que he fragil vidro aquillo que apparece. A piedade humana me faltava, A gente amiga ja contrária via, No perigo primeiro; e no segundo, Terra em que pôr os pés me fallecia, Ar para respirar se me negava, E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo. Que segredo tão arduo e tão profundo, Nascer para viver e para a vida, Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella! E não poder perdella, Estando tantas vezes ja perdida! Emfim, não houve trance de fortuna, Nem perigos, nem casos duvidosos, Injustiças daquelles que o confuso Regimento do mundo, antigo abuso, Faz sôbre os outros homens poderosos, Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna Do soffrimento meu, que a importuna Perseguição de males em pedaços Mil vezes fez á fôrça de seus braços. Não conto tantos males, como aquelle Que despois da tormenta procellosa, Os casos della conta em porto ledo; Qu'inda agora a fortuna fluctuosa A tamanhas miserias me compelle, Que de dar hum só passo tenho medo. Ja de mal que me venha não m'arredo, Nem bem que me falleça ja pretendo; Que para mi não val astucia humana, De fôrça soberana, Da Providencia, emfim, Divina pendo. Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo Para consolação de tantos danos. Mas a fraqueza humana quando lança Os olhos no que corre, e não alcança Senão memoria dos passados anos; As ágoas qu'então bebo, e o pão que como, Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo, Senão com fabricar na phantasia Phantasticas pinturas d'alegria. Que se possivel fosse que tornasse O tempo para traz, como a memoria, Por os vestigios da primeira idade; E de novo tecendo a antigua historia De meus doces errores, me levasse Por as flores que vi da mocidade; E a lembrança da longa saudade Então fosse maior contentamento, Vendo a conversação leda e suave, Onde huma e outra chave Esteve de meu novo pensamento, Os campos, as passadas, os sinais, A vista, a neve, a rosa, a formosura, A graça, a mansidão, a cortezia, A singela amizade, que desvia Toda a baixa tenção, terrena, impura, Como a qual outra alguma não vi mais... Ah vãas memorias! onde me levais O debil coração, qu'inda não posso Domar bem este vão desejo vosso? Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando, Sem o sentir, mil annos; e se acaso Te culparem de larga e de pezada; Não póde ser (lhe dize) limitada A ágoa do mar em tão pequeno vaso. Nem eu delicadezas vou cantando Co'o gôsto do louvor, mas explicando Puras verdades ja por mi passadas. Oxalá forão fábulas sonhadas!
CANÇÃO XII.
Nem roxa flor de Abril, Pintor do campo ameno e da verdura, Colhida entre outras mil, Foi nunca assi agradavel á donzella Cortez, alegre e bella, De sua mãe cuidado e glória pura, Como a mi foi a inculta formosura Natural, que pudera A Saturno render na sua Esphera. Natural fonte agreste, Não lavrada d'Artifice excellente, Mas por arte celeste Derivada de rustico penedo, Não fez ja mais tão ledo Cansado caçador por sesta ardente, Quanto o cuidado a mi me fez contente Do ver tão descuidado, Que faz sereno a Jupiter irado. Fructa, que sem concêrto Naturalmente em ramos se pendura, Achada por acêrto; A quem pintada a vê de sangue e leite, Não lhe dara o deleite, Qu'essa graça me dá sem compostura, Ornamento da mesma formosura, E o toucado sem arte, Que tornára pastor ao bravo Marte. A manhãa graciosa, Que derramando sahe d'entre os cabellos A flor, o lirio, a rosa, Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio, Não faz o beneficio, Que faz a luz dos vossos olhos bellos A quem os vê tão puros e singelos; E esse innocente riso, Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso. Outeiros coroados Das árvores que fazem a espessura Com os ramos copados Alegre, que mão destra os não cultiva, Graça tão excessiva Não t[~e]e na sua natural verdura, Quanta na d'esses olhos, clara e pura, Deposita a esperança, Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança. Dos simples passarinhos A musica sem arte concertada, D'entre os verdes raminhos, Tão suave não he, tão deleitosa A quem na selva umbrosa Com mente ouvindo-a está toda enlevada, Quanto a mi essa falla doce agrada, E o natural aviso, Que roubão a Mercurio sceptro e siso. De frescos rios ágoa, Que clara entre arvoredos se deriva, Cahindo d'alta fragoa, Esmaltando de perolas no prado O verde delicado, Com brando som aos olhos fugitiva, Não nos alegra quanto a graça esquiva D'essa luz soberana, Que faz cortez a rustica Diana. A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!) Vendo estás ja prostrado Saturno triste, Jupiter irado, Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella, E Mercurio, e Diana, e toda estrella.
CANÇÃO XIII.
Oh pomar venturoso, Onde co'a natureza A subtil arte t[~e]e demanda incerta; Qu'em sítio tão formoso A maior subtileza D'engenho em ti nos mostras descoberta! Nenhum juizo acerta, De cego e d'enlevado, Se t[~e]e em ti mais parte A natureza, ou arte; Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado, Pois em feliz terreno Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno. De teu formoso pêzo Se mostra o monte ledo, E o caudaloso Zezere t'estranha, Porque ólhas com desprêzo Seu crystal puro e quedo, Que com Pera os teus pés rodeia e banha. Em ti pintura estranha, A que Apelles cedêra, Enigmas intricados, E myrtos animados Vemos, que o proprio Escopas não fizera; Em ti, co'a paz interna, T[~e]e o santo prazer morada eterna. Os jardins da famosa Babel, tão nomeados, Por maravilha o mundo não levante, Inda que com gloriosa Voz, qu'estão pendurados Do instavel ar, a fama antigua cante: Nem haja quem s'espante Dos famosos d'Alcino; Nem as mais doutas pennas Cantem os de Mecenas, Cultor de todo engenho peregrino; Mas onde quer que vôe, De ti só falle a Fama, e te pregôe. Que s'era antiguamente De pomos d'ouro bellos O jardim das Hesperidas ornado; E, a pezar da serpente Que os guardou, só colhellos Pôde o famoso Alcides, d'esforçado; Tu, mais avantajado, Mostras a hum'alma casta Seguir o que deseja, Fugir da torpe inveja (Pomos d'ouro que o tempo não contrasta): Emfim, co'a caridade Vencer o Inferno, abrir a Eternidade. Por tanto da ventura, Para ti reservada, Te deixe o Ceo gozar perpetuamente; Porque sejas figura Da gloria avantajada Delle mesmo, e qu'em ti se represente; Porqu'em quanto sustente O ceo, o mar e a terra, Seus feitos milagrosos, Mysterios mais gloriosos, Com que a morte das almas nos desterra, Por onde em nossas almas Com mais pompas triumpha e com mais palmas, ....................... Goza, pois, longamente Teu venturoso fado, Da mãe do teu autor bem possuido: Qu'em ti, sempre contente De seu sublime estado, A alma dos seus alegra e o sentido. Cada qual preferido Nas grandes qualidades Ao sabio Nestor seja, Para que o mundo os veja Exceder as longuissimas idades; E com a longa vida Seja sua memoria ennobrecida. Canção, pois mais famosas Por ti não podem ser Deste monte as estancias deleitosas; Bem póde succeder Que aquelle que os teus numeros governa, Por querê-las cantar te faça eterna.
CANÇÃO XIV.
Quem com sólido intento Os segredos buscar da natureza, Quanto d'Athenas préza, Entregue ao mar irado, ao leve vento: Em forjar meu tormento, Nova Philosophia, D'experiencias feita, Amor m'ensina. Das Leis do antigo tempo bem declina; Que Amor a natureza em mi varía; Donde escola de Sabios nunca vio Em natural sogeito Quanto Amor em meu peito descobrio. As aves no ar sereno, O gado de Proteo nas ágoas pasce; Vive o homem e nasce Neste mundo, qual mundo mais pequeno: Eu tudo desordeno, Em todos dividido; A boca no ar, na terra o entendimento: Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento; O coração no fogo he consumido: Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce, T[~e]e effeito tão vário, Qu'em hum humor contrário o fogo cresce. Da vista Amor sohia Abrir ao coração segura entrada: Lei he ja profanada; Que quando a luz d'huns olhos me fería, Amando o que não via, Qual d'escopeta o lume, Primeiro o querer vi, que a causa visse. Quem o desejo co'a esperança unisse, Cego iria apos cego e vil costume; Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta, Morta a esperança vejo, Onde sempre o desejo se sustenta. Em vão se considera Que hum semelhante a outro busca e ama, E que foge e desama Todo mortal a morte esquiva e fera: Sigo huma linda fera, Qu'esconde em vista humana Coração de diamante e peito d'aço, De meu sangue faminta; e satisfaço Com cruel morte a sêde deshumana. Assi que, sendo em tudo differente, Corro apos minha sorte, E se m'entrego á morte, estou contente. Cahe em maior defeito Quem cuida ser sciencia clara e certa, Que a causa descoberta Sempre produz a si conforme o effeito: Rendeo-me hum lindo objeito, Que, sendo neve pura, Vivo me abraza, e o fogo interno aviva; Qu'esta formosa fera fugitiva, Com ser neve, do fogo s'assegura: Donde infiro por certo (e cesse a fama Vãa, mentirosa e leve) Que não desfaz a neve ardente chama. Bem no effeito se sente Cessar, cessando a causa donde pende; Que o fogo mais se accende, Estando á vista, donde mais ausente; Mas n'alma vivamente A trazem debuxada, De noite Amor, de dia o pensamento: E quando Apollo deixa o claro assento, Por entre sombras vejo a Nympha amada. Pois se sem luz Amor os olhos ceva, Cego, se não concede Qu'em nada a Amor impede a escura treva. Erra quem atrevido Pregôa ser maior que a parte o todo: Amor me t[~e]e de modo, Qu'estou n'hum'alma minha convertido: Desta gloria ha nascido O temor de perdê-la: E, postoque o receio a muitos finge Lá na imaginação Chimera e Sfinge De mal futuro, que urde imiga estrella, Vejo em mi, por incognito segredo, Quando estou mais contente, Que só do bem presente nasce o medo. T[~e]e-se por manifesto Parecer-se ao sogeito o accidente; Mas inda em mi se sente O pensamento, a côr, o riso, o gesto; E, tendo todo o resto Da vida ja perdido Neste tormento meu tão duro e esquivo, A gostos morto estou, a penas vivo. E, sendo morto ja, vive o sentido, Porque sinta que n'alma despedida Póde em meu mal unir-se O ficar e o partir-se, a morte e a vida. Destas razões, Canção, infiro e creio, Que ou se mudou em tudo a fórma usada Da natural firmeza, Ou tenho a natureza em mi mudada.
CANÇÃO XV.