Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 23
Ja a roxa manhãa clara As portas do Oriente vinha abrindo; Os montes descobrindo A negra escuridão da luz avara. O sol, que nunca pára, Da sua alegre vista saudoso, Traz ella pressuroso Nos cavallos cansados do trabalho, Que respirão nas hervas fresco orvalho, S'estende claro, alegre e luminoso. Os passaros voando, De raminho em raminho vão saltando; E com suave e doce melodia O claro dia estão manifestando. A manhãa bella, amena, Seu rosto descobrindo, a espessura Se cobre de verdura Clara, suave, angelica, serena. Oh deleitosa pena! Oh effeito d'Amor alto e potente! Pois permitte e consente Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja, O seraphico gesto sempre veja, Por quem de viver triste sou contente. Mas tu, Aurora pura, De tanto bem dá graças á ventura, Pois as foi pôr em ti tão excellentes, Que representes tanta formosura. A luz suave e leda A meus olhos me mostra por quem mouro, Com os cabellos d'ouro, Que nenhum ouro iguala, se os remeda. Esta a luz he que arreda A negra escuridão do sentimento Ao doce pensamento; Os orvalhos das flores delicadas São nos meus olhos lagrimas cansadas, Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento; Os passaros que cantão, Meus espiritos são, que a voz levantão, Manifestando o gesto peregrino Com tão divino som, que o mundo espantão. Assi como acontece A quem a chara vida está perdendo, Qu'em quanto vai morrendo, Alguma visão santa lh'apparece; A mim em quem fallece A vida, que sois vós, minha Senhora, A est'alma, qu'em vós mora (Em quanto da prisão s'está apartando) Vos estais justamente apresentando Em fórma de formosa e roxa Aurora. Oh ditosa partida! Oh gloria soberana, alta e subida! Se me não impedir o meu desejo; Porque o que vejo, emfim, me torna a vida. Porém a natureza, Que nesta pura vista se mantinha, Me falta tão asinha, Como o sol faltar soe á redondeza. Se houverdes qu'he fraqueza Morrer em tão penoso e triste estado, Amor será culpado, Ou vós, ond'elle vive tão isento, Que causastes tão largo apartamento, Porque perdesse a vida co'o cuidado. Que se viver não posso, Homem formado só de carne e osso, Esta vida que perco, Amor ma deo; Que não sou meu: se morro, o damno he vosso. Canção de cysne, feita em hora extrema, Na dura pedra fria Da memoria te deixo em companhia Do letreiro da minha sepultura; Que a sombra escura ja m'impede o dia.
CANÇÃO IV.
Vão as serenas ágoas Do Mondego descendo, E mansamente até o mar não parão; Por onde as minhas mágoas Pouco a pouco crescendo, Para nunca acabar se começárão. Alli se me mostrárão Neste lugar ameno, Em qu'inda agora mouro, Testa de neve e d'ouro; Riso brando e suave; olhar sereno; Hum gesto delicado, Que sempre n'alma m'estará pintado. Nesta florída terra, Leda, fresca e serena, Ledo e contente para mi vivia; Em paz com minha guerra, Glorioso co'a pena Que de tão bellos olhos procedia. D'hum dia em outro dia, O esperar m'enganava: Tempo longo passei; Com a vida folguei, Só porqu'em bem tamanho s'empregava. Mas que me presta ja, Que tão formosos olhos não os ha? Oh quem me alli dissera Que d'Amor tão profundo O fim pudesse ver eu algum'hora! E quem cuidar pudera Que houvesse ahi no mundo Apartar-me eu de vós, minha Senhora! Para que desde agora, Ja perdida a esperança, Visse o vão pensamento Desfeito em hum momento, Sem me poder ficar mais que a lembrança; Que sempre estará firme Até no derradeiro despedir-me. Mas a mor alegria Que daqui levar posso, E com que defender-me triste espero, He que nunca sentia No tempo que fui vosso, Quererdes-me vós quanto vos eu quero. Porque o tormento fero De vosso apartamento, Não vos dará tal pena Como a que me condena; Que mais sentirei vosso sentimento, Que o que a minh'alma sente. Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. Tu, Canção, estarás Agora acompanhando Por estes campos estas claras ágoas; E por mi ficarás Com chôro suspirando; Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas, Como huma larga historia Minhas lagrimas fiquem por memoria.
CANÇÃO V.
S'este meu pensamento, Como he doce e suave, D'alma pudesse vir gritando fóra; Mostrando seu tormento Cruel, aspero e grave, Diante de vós só, minha Senhora; Pudera ser que agora O vosso peito duro Tornára manso e brando. E então eu, que sempre ando Passaro solitario, humilde e escuro, Tornado hum cysne puro, Brando e sonoro, por o ar voando, Com canto manifesto Pintára a minha pena, e o vosso gesto. Pintára os olhos bellos Que trazem nas meninas O menino que os seus nelles cegou; Os dourados cabellos Em tranças d'ouro finas, A quem o sol os raios seus baixou; A testa que ordenou Natura tão formosa; O bem proporcionado Nariz, lindo, afilado, Que cada parte t[~e]e da fresca rosa; A boca graciosa, Que o querê-la louvar he ja 'scusado. Emfim, he hum thesouro; Perolas dentes, e palavras ouro. Víra-se claramente, (Oh Dama delicada!) Qu'em vós s'esmerou mais a natureza. Mas eu, de gente em gente, Trouxera trasladada Em meu tormento vossa gentileza; E somente a aspereza De vossa condição, Senhora, não dissera, Porque se não soubera Qu'em vós podia haver algum senão. E se alguem, com razão, Porque morres? dissesse, respondêra: Morro, porque he tão bella, Qu'inda não sou para morrer por ella. E quando, por ventura, Dama, vos offendesse, Escrevendo de vós o que não sento, E vossa formosura Tanto á terra descesse, Que a alcançasse humano entendimento; Sería o fundamento De tudo o qu'eu cantasse, Todo de puro amor; Porque o vosso louvor Em figura de mágoas se mostrasse. E aonde se julgasse A causa por o effeito, a minha dor Diria alli sem medo: Quem me sentir verá de quem procedo. Logo então mostraria Os olhos saudosos, E o suspirar que traz a alma comsigo; A fingida alegria; Os passos vagarosos; O fallar e esquecer-me do que digo; Hum pelejar comigo, E logo desculpar-me; Hum recear ousando; Andar meu bem buscando, E de o poder achar acovardar-me; E, emfim, averiguar-me Que o fim de tudo quanto estou fallando, São lagrimas e amores; São vossas isenções e minhas dores. Mas quem terá, Senhora, Palavras com qu'iguale Com vossa formosura a minha pena; E em doce voz de fóra Aquella gloria falle Que dentro na minh'alma Amor ordena? Não póde tão pequena Fôrça d'engenho humano Com carga tão pezada, Se não for ajudada D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano, Que fazendo-me o dano Vão deleitoso e a dor tão moderada, Emfim se convertesse No gôsto dos louvores qu'escrevesse. Canção, não digas mais; e se teus versos Á pena vem pequenos, Não queirão de ti mais; que dirás menos.
CANÇÃO VI.
Com força desusada Aquenta o fogo eterno Huma Ilha nas partes do Oriente, D'estranhos habitada, Aonde o duro inverno Os campos reverdece alegremente. A Lusitana gente Por armas sanguinosas T[~e]e della o senhorio. Cercada está d'hum rio De maritimas ágoas saudosas. Das hervas qu'aqui nascem, Os gados juntamente e os olhos pascem. Aqui minha ventura Quiz que huma grande parte Da vida, qu'eu não tinha, se passasse; Para que a sepultura Nas mãos do fero Marte De sangue e de lembranças matizasse. Se Amor determinasse Que a trôco desta vida, De mi qualquer memoria Ficasse como historia, Que d'huns formosos olhos fosse lida; A vida e a alegria Por tão doce memoria trocaria. Mas este fingimento, Por minha dura sórte, Com falsas esperanças me convida. Não cuide o pensamento Que póde achar na morte O que não pôde achar tão longa vida. Está ja tão perdida A minha confiança, Que de desesperado, Em ver meu triste estado, Tambem da morte perco a esperança. Mas oh! que s'algum dia Desesperar pudesse, viveria. De quanto tenho visto Ja agora não m'espanto, Que até desesperar se me defende. Outrem foi causa disto, Pois eu nunca fui tanto Que causasse este fogo que m'encende. Se cuidão que m'offende Temor d'esquecimento, Oxalá meu perigo Me fôra tão amigo, Que algum temor deixára ao pensamento! Quem vio tamanho enleio, Que houvesse ahi'sperança sem receio? Quem t[~e]e que perder possa, Só póde recear. Mas triste quem não póde ja perder! Senhora, a culpa he vossa, Que para me matar Bastára hum'hora só de vos não ver. Puzestes-me em poder De falsas esperanças: E do que mais m'espanto, Que nunca vali tanto, Que visse tanto bem, como esquivanças. Valia tão pequena Não póde merecer tão doce pena. Houve-se Amor comigo Tão brando, ou pouco irado, Quanto agora em meus males se conhece. Que não ha mor castigo Para quem t[~e]e errado, Que negar-lhe o castigo que merece. Da sórte que acontece Ao misero doente, Da cura despedido, Que o Medico advertido Tudo quanto deseja lhe consente; O Amor me consentia Esperanças, desejos e ousadia. E agora venho a dar Conta do bem passado A esta triste vida e longa ausencia. Quem póde imaginar Qu'houvesse em mi peccado Digno d'huma tão grave penitencia? Olhae que he consciencia Por tão pequeno êrro, Senhora, tanta pena. Não vêdes que he onzena? Mas se tão longo e misero destêrro Vos dá contentamento, Nunca m'acabe nelle o meu tormento. Rio formoso e claro, E vós, ó arvoredos, Que os justos vencedores coroais, E ao cultor avaro, Continuamente ledos, D'hum tronco só diversos fructos dais; Assi nunca sintais Do tempo injúria alg[~u]a, Qu'em vós achem abrigo As mágoas que aqui digo, Em quanto der o sol virtude á l[~u]a; Porque de gente em gente Saibão que ja não mata a vida ausente. Canção, neste destêrro viverás, Voz nua e descoberta, Até que o tempo em ecco te converta.
CANÇÃO VII.
Manda-me Amor que cante docemente O qu'elle ja em minh'alma t[~e]e impresso, Com presupposto de desabafar-me; E porque com meu mal seja contente, Diz que o ser de tão lindos olhos preso, Cantá-lo bastaria a contentar-me. Este excellente modo d'enganar-me Tomára eu só d'Amor por interêsse, Se não s'arrependesse, Com a pena o engenho escurecendo. Porém a mais me atrevo, Em virtude do gesto de qu'escrevo. E s'he mais o que canto que o qu'entendo, Invoco o lindo aspeito, Que póde mais que Amor, em meu defeito. Sem conhecer a Amor viver sohia, Seu arco e seus enganos desprezando, Quando vivendo delles me mantinha. Hum Amor enganoso, que fingia, Mil vontades alheias enganando, Me fazia zombar de quem o tinha. No Touro entrava Phebo, e Progne vinha; O corno de Acheloo Flora entornava; Quando o Amor soltava Os fios d'ouro, as tranças encrespadas, Ao doce vento esquivas; Os olhos rutilando chammas vivas; E as rosas entre a neve semeadas; Co'o riso tão galante, Que hum peito desfizera de diamante. Hum não sei que suave respirando, Causava hum admiravel, novo espanto, Que as cousas insensiveis o sentião. Alli as garrulas aves, levantando Vozes não ordinarias em seu canto, Como eu no meu desejo, s'encendião. As fontes crystallinas não corrião, D'inflammadas na vista linda e pura; Florecia a verdura, Que andando co'os divinos pés tocava; Os ramos se baixavão, Ou d'inveja das hervas que pizavão, Ou porque tudo ant'ella se baixava. Não houve cousa, emfim, Que não pasmasse della, e eu de mim. Porque, quando vi dar entendimento Ás cousas que o não tinhão, o temor Me fez cuidar qu'effeito em mi faria. Conheci-me não ter conhecimento: Porém só nisto o tive, porque Amor Mo deixou para ver o que podia. Tanta vingança Amor de mi queria, Que mudava a humana natureza Nos montes, e a dureza Delles em mi por trôco traspassava. Oh que gentil partido, Trocar o ser do monte sem sentido, Por o qu'em hum juizo humano estava! Olhae que doce engano! Tirar commum proveito de meu dano. Assi qu'indo perdendo o sentimento A parte racional, m'entristecia Vê-la a hum appetite submettida. Mas dentro n'alma o fim do pensamento, Por tão sublime causa, me dizia Qu'era razão ser a razão vencida. Assi que quando a via ser perdida, A mesma perdição a restaurava: E em mansa paz estava Cada hum com seu contrário em hum sogeito. Oh grão concêrto este! Quem será que não julgue por celeste A causa donde vem tamanho effeito, Que faz n'hum coração Que venha o appetite a ser razão? Aqui senti d'Amor a mor fineza, Como foi ver sentir o insensivel, E o ver a mi de mi proprio perder-me: E, emfim, senti negar-se a natureza; Por onde cri que tudo era possivel Aos lindos olhos seus, senão querer-me. Despois que ja senti desfallecer-me, Em lugar do sentido que perdia, Não sei quem m'escrevia Dentro n'alma co'as letras da memoria O mais deste processo, Co'o claro gesto juntamente impresso, Que foi a causa de tão longa historia. Se bem a declarei, Eu não a escrevo, d'alma a trasladei. Canção, se quem te ler Não crer dos olhos lindos o que dizes, Por o que a si s'esconde; Os sentidos humanos (lhe responde) Não podem dos divinos ser juizes, Senão hum pensamento Que a falta suppra a fé do entendimento.
CANÇÃO VIII.[3]
Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente, Caso que nunca em verso foi cantado, Nem d'antes entre a gente acontecido. Assi me paga em parte o meu cuidado; Pois que quer que me louve e represente Quão bem soube no mundo ser perdido. Sou parte, e não serei da gente crido: Mas he tamanho o gôsto de louvar-me, E de manifestar-me Por captivo de gesto tão formoso, Que todo o impedimento Rompe e desfaz a gloria do tormento Peregrino, suave e deleitoso; Que bem sei que o que canto Ha d'achar menos credito qu'espanto. Em vivia do cego Amor isento, Porém tão inclinado a viver preso, Que me dava desgôsto a liberdade. Hum natural desejo tinha acceso D'algum ditoso e doce pensamento, Que m'illustrasse a insana mocidade. Tornava do anno ja a primeira idade; A revestida terra s'alegrava, Quando o Amor me mostrava De fios d'ouro as tranças desatadas Ao doce vento estivo; Os olhos rutilando lume vivo, As rosas entre a neve semeadas; O gesto grave e ledo, Que juntos move em mi desejo e medo. Hum não sei que suave respirando, Causava hum desusado e novo espanto, Que as cousas insensiveis o sentião. Porque as garrulas aves, entretanto Vozes desordenadas levantando, Como eu em meu desejo, s'encendião. As fontes crystallinas não corrião, Inflammadas na vista clara e pura; Florecia a verdura, Que, andando, co'os ditosos pés tocava; As ramas se baixavão, Ou d'inveja das hervas que pizavão, Ou porque tudo ant'elles se baixava: O ar, o vento, o dia, D'espiritos continuos influia. E quando vi que dava entendimento A cousas fóra delle, imaginei Que milagres faria em mi que o tinha: Vi que me desatou da minha lei, Privando-me de todo sentimento, E em outra transformando a vida minha. Com tamanhos poderes d'Amor vinha, Que o uso dos sentidos me tirava. E não sei como o dava Contra o poder e ordem da natura, Ás arvores, aos montes, Á rudeza das hervas e das fontes, Que conhecêrão logo a vista pura. Fiquei eu só tornado Quasi em hum rudo tronco d'admirado. Despois de ter perdido o sentimento, D'humano hum só desejo me ficava, Em que toda a razão se convertia. Mas não sei quem no peito m'affirmava Que por tão alto e doce pensamento, Com razão, a razão se me perdia. Assi que quando mais perdida a via, Na sua mesma perda se ganhava. Em doce paz estava Com seu contrário proprio em hum sogeito. Oh caso estranho e novo! Por alta e grande certamente approvo A causa, donde vem tamanho effeito, Que faz n'hum coração Que hum desejo, sem ser, seja razão. Despois d'entregue ja ao meu desejo, Ou quasi nelle todo convertido, Solitario, sylvestre e inhumano, Tão contente fiquei de ser perdido, Que me parece tudo quanto vejo Escusado, senão meu proprio dano. Bebendo este suave e doce engano, A trôco dos sentidos que perdia, Vi que Amor m'esculpia Dentro n'alma a figura illustre e bella, A gravidade, o siso, A mansidão, a graça, o doce riso. E porque não cabia dentro nella De bens tamanhos tanto, Sahe por a boca convertido em canto. Canção, se te não crerem Daquelle claro gesto quanto dizes, Por o que se lhe esconde; Os sentidos humanos (lhe responde) Não podem dos divinos ser juizes, Senão hum pensamento, Que a falta suppra a fé do entendimento.
CANÇÃO IX.
Tomei a triste pena Ja de desesperado De vos lembrar as muitas que padeço; Vendo que me condena A ficar eu culpado O mal que me tratais, e o que mereço. Confesso que conheço Qu'em parte a causa dei Ao mal em que me vejo, Pois sempre o meu desejo A tão largas promessas entreguei; Mas não tive suspeita Que seguisseis tenção tão imperfeita. S'em vosso esquecimento Tão condemnado estou, Como os sinaes demostrão, que mostrais; Neste vivo tormento, Lembranças mais não dou Que as que desta razão tomar queirais: Olhae que me tratais Assi de dia em dia Com vossas esquivanças; E as vossas esperanças, De que vãamente ja m'enriquecia, Renovão a memoria; Pois com a ter de vós só tenho gloria. E s'isto conhecesseis Ser verdade mais pura Do que d'Arabia o ouro reluzente; Inda que não quizesseis, Essa condição dura Em branda se mudára facilmente. Eu, vendo-me innocente, Senhora neste caso, Bem no arbitrio o puzera De quem sentença dera, Com que o que he justo se mostrasse raso; Se, emfim, não receára Que a vós por mi, e a mi por vós matára. Em vós escrita vi Vossa grande dureza, E n'alma escrita está, que de vós vive: Não que acabasse alli Sua grande firmeza O triste desengano qu'então tive; Porque antes que me prive A dor de meus sentidos, Ao penoso tormento Acode o entendimento Com dous fortes soldados guarnecidos De rica pedraria, Que ficão sendo minha luz e guia. Destes acompanhado Estou pôsto sem medo A tudo o que o fatal destino ordene: Póde ser que cansado, Ou seja tarde, ou cedo, Com pena de penar-me, me despene. E quando me condene (Qu'he o que mais espero) Inda a penas maiores; Perdidos os temores, Por mais que venhão, não direi, não quero. Estou, emfim, tão forte, Que não pode mudar-me a propria morte. Canção, se ja não queres Crer tanta crueldade, Lá vae onde verás minha verdade.
CANÇÃO X.