Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 22
SOLISO. De quanto alento e gôsto me causava A vista da manhãa resplandecente, Com que toda a tristeza s'alegrava; Que quando vinha o sol claro e luzente, Bem claro então em mi se conhecia Huma nova alegria differente; Tanto agora me offende o novo dia, Vendo que me não mostra a formosura, De que só me mantinha e só vivia. E não me quiz deixar triste ventura Esperanças de mais tornar a vella! Oh destino cruel! oh sorte dura! Oh querida Natercia! oh Nympha bella, Em quem, emfim, mostrou a natureza O mais que se podia esperar della! Se lá no assento da maior alteza Te lembras de quem viste cá na terra, Para te magoar sua tristeza; Lembre-te de contino a cruel guerra, Que contínua me faz tua lembrança, Esquecido do gado, valle e serra. Lembre-te que perdi a confiança De ver os olhos teus, e juntamente De todo o bem d'Amor toda a esperança. Lembre-te que por ti de mi ausente A crystallina fonte me he nojosa, Com que ja n'outro tempo fui contente. Que por ti a manhãa clara e formosa Males cada momento me accrescenta; Sendo-me em outros dias deleitosa. Por ti o puro sol me descontenta; Com seu canto m'offende a Philomella: Mas, porque nelle chora, me contenta. Por ti, Natercia pura, Nympha bella, Na verdura suave deste prado Os males multiplico só com vella. Por ti não curo ja do manso gado: Com o mesmo qu'então meu bem crescia, Agora vai crescendo o meu cuidado. Não sou ja, ja não sou quem ser sohia; Mudou-se-me a vontade co'a ventura; Mudou-se co'os tormentos a alegria; Trocou-se o claro dia em noite escura: Nem he muito que tudo se mudasse, Pois se mudou a tua formosura. Não via outro reparo, que cuidasse Poder aproveitar ao meu tormento, Nem outra gloria alguma em qu'esperasse, Senão em quanto o triste pensamento Se punha a contemplar tua beldade, Sem lhe lembrar tão longo apartamento. Agora que me falta a claridade, Que de ver-te a minha alma recebia, Ficando-me só della a saudade; Qual ficará hum'alma, que sabía Somente desta gloria contentar-se? Gloria de que gozar não merecia! Qual poderá ficar quem com lembrar-se Mortalmente do bem qu'he ja passado, Só t[~e]e por melhor vida á morte dar-se? E qual se póde ver quem hum cuidado Sostem, que he só da dor certa morada, E nelle vive só desesperado? Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada, Hum'alma que te via; e em te vendo O fio lhe cortou a Parca irada? A causa deste mal eu não a entendo: Só entendo que, perdida essa luz pura, Por perdida a não ver, vivo morrendo. Vejo que me roubou fortuna escura Hum bem por quem meu mal me contentava: Lembra-te tu de tanta desventura. Lembra-te tu, que só de ti'sperava Remedio aos males meus; e então verás Qual ficou quem em ti só confiava. Lembre-te adonde estou, adonde estás, E que tudo sem ti cá m'aborrece: Dest'arte o estado meu entenderás. SYLVANO. Não sei por que razão nos amanhece Este dia dos outros differente, Com que toda a alegria s'entristece. O manso gado vejo, que contente Buscando hia nos campos a verdura, E dos rios a limpida corrente: Agora triste errar pola espessura, Alheio d'herva verde e d'ágoa fria; Sinal d'alguma grande desventura. Suspensa está das aves a harmonia; E em certo modo mostra que lá chora A mesma sequidão da penedia. A candida, rosada, bella aurora, Que sempre os altos montes vem dourando, Com hum pallor mortal se mostra agora. Está-se nestas hervas enxergando Tão triste côr, que della se conhece Que algum mal se nos vai apparelhando. Emfim, vejo que tudo s'entristece; A causa ignoro. O ceo piedoso queira Que menos seja o mal, do que parece. Porque, desde que habíto esta ribeira, Não m'acórdo de a ver tão carregada, Nem de a ouvir murmurar desta maneira. Não m'acórdo que visse outra alvorada Tão confusa sahir, como esta vejo, De profunda tristeza acompanhada. Agora aqui tomára quem sem pejo A causa, se a soubesse, m'ensinasse, Para satisfazer a meu desejo. Porque não posso eu crer que resultasse D'alguma baixa causa hum tal effeito, Que até nos duros montes se enxergasse. O coração cá dentro no meu peito M'assegura, que tanta novidade Não traz a origem de commum respeito. Mas, por entre a confusa claridade, Lá vejo vir Soliso com seu gado: Delle espero entender toda a verdade. Mas não posso cuidar neste cuidado, Que nos olhos não mostre onde me chega A dor de o ver de dores traspassado. Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega, Não he muito que passe hum tal tormento; Porque todo mal dá, todo bem nega. Em quanto este pastor o pensamento Logrou, sem qu'em amores o empregasse, Senão só em buscar contentamento; Festa não se fazia em que faltasse A sua frauta, qu'elle assi tangia, Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse. Ja agora não he aquelle que sohia; Vejo-o na condição todo mudado; Mudada tambem delle está a alegria. Não cura ja do seu querido gado; Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores; Aborrece-lhe a gente e o povoado. Não lhe lembrão as festas dos pastores; Apartando se vai pola espessura, Enlevado somente em seus amores. Contenta-se da noite triste e escura; Odio t[~e]e com o sol puro e luzente. Quem vio nunca tamanha desventura? Com esta vai passando tão contente, Que diz que, quando o mal mais o atormenta, Se gôsto sentirp óde, então o sente. Neste bosque huma Nympha se aposenta, Por quem elle na vida anda morrendo; E he causa desta dor que lhe contenta. E segundo o que delle agora entendo, Se a vista não m'engana o pensamento, Ou de vãa phantasia estou pendendo; Quando fôra maior o grão tormento, Que Soliso padece, não pudera Igualar-se com seu merecimento. Quero chegar-me a elle, em quanto espera Que vá descendo o vagaroso gado: Saberei delle o que saber quizera. Venho, Soliso, a ti com hum cuidado, Que todo m'entristece; e com grão medo De grão mal sôbre nós inopinado. Vês tu como está agora este arvoredo Triste e pezado, lugubre e sombrio? Como o vento parece que está quedo? Vês a commum corrente deste rio Que ora tanto se pára, ora anda tanto, Deixando de seu curso o certo fio? Vês como a Philomella deixa o canto, Com que incita os pastores namorados, E multiplica Progne o triste pranto? E vês, emfim, por todos esses prados Desmaiadas as hervas, que sohião Viçoso pasto dar aos nossos gados? Todos estes sinaes, que não se vião Nas Auroras a esta antecedentes, Algum damno mortal nos annuncião. Eu não sinto o que seja: se o tu sentes, Não te seja o dizer-mo mui penoso; E entenderei por ti taes accidentes. SOLISO. N'outro tempo me fôra deleitoso Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te; Mas todo gôsto agora me he nojoso. Bem quizera poder communicar-te A causa deste horror; mas antes quero Anojar-me a mi proprio, que anojar-te. Porém ja sinto o fado tão severo, Que quanto mais me ponho a declará-lo, Mais então d'entendê-lo desespero. E se acaso o entender para contá-lo, Se quero começar, quer a ventura Á fôrça de soluços atalhá-lo. Que despois que me falta a formosura Daquella illustre Nympha, que contente Pudera bem fazer a noite escura, Foi-me faltando o esprito juntamente: Em suspirar só gasto a noite e dia, Sem me fartar de ver-me descontente. SYLVANO. Novidade maior em mi sería O espantar-me de ver-te estar queixando, Que o ver em ti desejos d'alegria. Responde-me ao que t'hia perguntando Da causa desta singular tristeza: Não gastes todo o tempo lamentando. SOLISO. Sempre em ti conheci huma dureza, E austera inclinação, que bem declara Quão conforme he teu nome á natureza. Porque se o meu tormento t'alcançára, O mor bem para ti o mor mal fôra; E todo o mal maior te contentára. Deixa que chore quem com gôsto chora: Deixa-me lamentar meu triste fado; Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora. Tu não trazes agora outro cuidado Mais que buscar no valle a sombra fria, Quando te offende o sol mais empinado. Coitado de quem passa a noite e dia Porfiando em morrer, e a sorte dura Em fugir-lhe co'a morte só porfia! Oh formosa Natercia! a excelsa altura Do glorioso Olympo andas pizando; E eu ausente da tua formosura! SYLVANO. Qu'he isso, que do ceo estás fallando? Parece-me que ja não es Soliso, Ou que de puro amar vás delirando. SOLISO. Quem ja perdeo aquelle doce riso, Que siso produzia e dava vida, Não he muito que perca a vida e siso. SYLVANO. Declara-me que cousa tens perdida, De que tanto te queixas; que ao que sento, Natercia destes valles he partida. SOLISO. Quão livre falla aquelle que o tormento Alheio vê de fóra, mas não sente Onde chega tamanho sentimento! A gloria qu'eu perdi não me consente Palavras naturaes, razões expertas, Que possão declarar a dor presente. Mas nesse teu error vejo que acertas; Porque com nenhum mal deve turbar-se Quem só delle esperanças logra certas. SYLVANO. A quem, Soliso meu, de declarar-se Com outro em casos taes falta vontade, Nunca faltão razões para escusar-se. Não sei donde te vem tal novidade; Pois negando-me agora o que te peço, Suspeito que me negas a amizade. Se pola que te guardo te aborreço, Sabe que só hum cego entendimento Ás amizades faz perder o preço. Eu te deixarei só com teu tormento; Mas não sem dor de ver que tanto a peito Tomes hum tão damnoso pensamento. SOLISO. Outra he, certo, a razão, outro o respeito Que negar-te me fez o que pedias: Não creias que de ti tão mal suspeito. Bem sei que o meu descanso pretendias; E a mesma confiança faz negar-te O que destes sinaes saber querias. SYLVANO. Não queiras mais, Soliso, prolongar-te; Pois pende o gôsto meu da tua vida: Se corre risco, dá-me delle parte. SOLISO. De todo a sinto ja desfallecida Nas lembranças daquella breve historia, Que foi para meus males tão comprida. Ja me vence a tristissima memoria Da gloria que presente me animava. Quem pudera voar traz tanta gloria! Natercia qu'estes montes alegrava, E que á casta Diana fez inveja, E que com sua vista o sol cegava; Aquella a quem render-se só deseja Aquelle que de bella mãe presume, E a quem as armas dá com que peleja; Natercia, que no mundo foi hum lume, Onde a belleza de maior estado Incendios aprendia por costume; Natercia, por quem ando acompanhado De mágoa tal, que só da morte dura Espero o feliz fim de meu cuidado; Ao ceo se foi co'aquella formosura, Qu'era mostra do ceo, gloria da terra; Qu'era o sogeito mor da mor ventura. Ja não fara no prado ás almas guerra Com a vista, senão com a lembrança; Guerra em que o damno mais cruel s'encerra. Ja de vê-la não tenhas esperança; Qu'esta vida trocou de mal cercada Por outra, em que do bem não ha mudança. E a causa vês aqui de que a alvorada Visses desta manhãa tão differente De outra qualquer, de ti mais ponderada. Dizer-te o mais não posso, porque sente Est'alma no que disse tal tormento, Qu'esta memoria apenas me consente. O espirito ja debil, sem alento, No pouco que te tenho referido, Nas azas se sostem do pensamento. Oh mundo! qual he aquelle tão perdido, Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano, Vendo-te todo em damno instituido? Deixas passar hum gôsto d'anno em ano, Porque, com nosso opprobrio e tua gloria, Nos faças mais patente o teu engano. Sempre assi vai comtigo a mor victoria, Deixando-nos somente por herança D'hum possuido bem triste memoria. Quem faz de ti alguma confiança, Sabendo ja que quem de ti confia, D'hum engano penoso emfim se alcança? Aquelle da belleza novo dia Cegaste, quando mais resplandecente Triumphos mil d'Amor nos promettia. De qual tigre cruel peito inclemente Não se rompe de mágoa, morta aquella, Que a tristeza mil vezes fez contente? Quem, que vê eclipsada a vista bella, Despois de visto haver sua beldade, E não sabe morrer por hir traz ella? Como não te applacou tão tenra idade Ao cortar do seu fio, ó Parca dura, Que agora o mundo matas de saudade? Deixae, deixae, pastores, a verdura; As frautas deixae ja, e os mansos gados; E chorae todos vossa desventura. E vós, sylvestres Faunos namorados, Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão O objecto mais gentil vossos cuidados. Nymphas, a quem os deoses concedêrão Destes sagrados bosques a morada, E em quem tamanhas graças escondêrão; Se aquella piedade costumada, De que mais vos prezais, não esquecestes, Que sempre foi de vós tão venerada; Se ja d'alheio damno vos doestes, Do vosso proprio vos doei agora, Pois com Natercia todo o bem perdestes. Oh Naiades! das ágoas sahi fóra; E de vós ágoa saia em mal tão forte, Pois de vê-lo tambem o monte chora. Oh Napêas! chorae a triste sorte Dos miseros pastores, a quem nega O fado por mais pena o mortal córte. Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega, Tomae todo o cuidado deste pranto, Pois sabeis onde a causa delle chega. Deixae, ó Amadryas, entretanto As plantas que guardais, por ajudar-me, Pois deixa a Philomella o doce canto. E vós, ó vida minha, pois curar-me Ja não podeis, deixae-me juntamente, Porque lembranças taes possão deixar-me. Mas se dellas morreis, morro contente.
CANÇÕES.
CANÇÃO I.
Formosa e gentil Dama, quando vejo A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito, A boca graciosa, o riso honesto, O collo de crystal, o branco peito, De meu não quero mais que meu desejo, Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto. Alli me manifesto Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo Nas lagrimas que chóro; E de mi que vos amo, Em ver que soube amar-vos me namóro; E fico por mi só perdido de arte, Qu'hei ciumes de mi por vossa parte. Se por ventura vivo descontente Por fraqueza d'esprito, padecendo A doce pena qu'entender não sei, Fujo de mi, e acolho-me correndo Á vossa vista; e fico tão contente, Que zombo dos tormentos que passei. De quem me queixarei, Se vós me dais a vida deste geito Nos males que padeço, Senão de meu sogeito, Que não cabe com bem de tanto preço? Mas inda isto de mi cuidar não posso, D'estar muito soberbo com ser vosso. Se por algum acêrto Amor vos erra Por parte do desejo, commettendo Algum nefando e torpe desatino; E s'inda mais que ver, emfim, pretendo; Fraquezas são do corpo, qu'he de terra, Mas não do pensamento, qu'he divino. Se tão alto imagino Que de vista me perco, ou pecco nisto, Desculpa-me o que vejo. Porém como resisto Contra hum tão atrevido e vão desejo, Faço-me forte em vossa vista pura, Armando-me da vossa formosura. Das delicadas sobrancelhas pretas Os arcos com que fere Amor tomou, E fez a linda corda dos cabellos: E porque de vós tudo lhe quadrou, Dos raios desses olhos fez as settas Com que fere quem alça os seus a vellos. Olhos que são tão bellos Dão armas de vantajem ao Amor, Com que as almas destrue. Porém se he grande a dor Com a alteza do mal a restitue; E as armas com que mata são de sorte, Que ainda lhe ficais devendo a morte. Lagrimas, e suspiros, pensamentos, Quem delles se queixar, formosa Dama, Mimoso está do mal que por vós sente. Qual bem maior deseja quem vos ama, Qu'estar desabafando seus tormentos, Chorando, imaginando docemente? Quem vive descontente Não ha de dar allívio a seu desgôsto, Porque se lhe agradeça; Mas com alegre rôsto Soffra seus males, para que os mereça: Que quem do mal se queixa, que padece, O faz porqu'esta gloria não conhece. De modo que se cahe o pensamento Em alguma fraqueza, de contente, He porqu'este segredo não conheço. Assi que com razões não tãosomente Desculpo ao Amor de meu tormento, Mas inda a culpa sua lh'agradeço. Por esta fé mereço A graça qu'esses olhos acompanha, E o bem do doce riso. Mas ah! que não se ganha Co'hum paraiso, outro paraiso. E d'enleada assi minha esperança Se satisfaz co'o bem que não alcança. Se com razões escuso meu remedio, Sabe, Canção, que só porque o não vejo, Engano com palavras o desejo.
CANÇÃO II.
A instabilidade da fortuna, Os enganos suaves d'Amor cego, (Suaves se durárão longamente) Direi, por dar á vida algum socêgo; Que pois a grave pena m'importuna, Importune meu canto a toda gente. E se o passado bem co'o mal presente M'endurecer a voz no peito frio; O grande desvario Dara de minha pena sinal certo; Que hum êrro em tantos erros he concêrto. E pois nesta verdade me confio, (Se verdade se achar no mal que digo) Saiba o mundo d'Amor o desengano, Que ja com a razão se fez amigo, Só por não deixar culpa sem castigo. Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma; Ja se tornou de cego razoado, Só por usar comigo semrazões. E se em alguma cousa o tenho errado, Com siso grande dor não vi nenhuma: Nem elle deo sem erros affeições. Mas, por usar de suas isenções, Buscou fingidas causas de matar-me: Que para derribar-me A este abysmo infernal de meu tormento, Nunca soberbo foi meu pensamento, Nem pretendeo mais alto levantar-me D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena Qu'eu pague seu ousado atrevimento, Saibão que o mesmo Amor, que me condena, Me fez cahir na culpa e mais na pena. Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia Que descêrão ao baixo pensamento, N'alma os aposentei suavemente; E pretendendo mais, como avarento, O coração lhe dei por iguaria, Que a meu mandado tinha obediente. Mas, como lhes esteve alli presente, E entendêrão o fim do meu desejo, Ou por outro despejo, Que a lingua descobrio por desvario, Morto de sêde estou pôsto em hum rio, Onde de meu servir o fructo vejo; Mas logo se alça se a colhê-lo venho, E foge-me a ágoa s'em beber porfio. Assi qu'em fome e sêde me mantenho: Não t[~e]e Tantalo a pena qu'eu sostenho. Despois que aquella, em quem minh'alma vive, Quiz alcançar o baixo atrevimento, Debaixo d'este engano a alcancei: A nuvem do contino pensamento Ma figurou nos braços, e assi tive Sonhando, o que acordado desejei. E porque a meu desejo me gabei De conseguir hum bem de tanto preço; Além do que padeço, Atado em huma roda estou penando, Qu'em mil mudanças me anda rodeando; Onde, se a algum bem subo, logo deço. E assi ganho, e assi perco a confiança; E assi de mi fugindo traz mim ando; E assi me t[~e]e atado huma vingança, Como Ixião, tão firme na mudança. Quando a vista suave e inhumana Meu humano desejo, de atrevido, Commetteo, sem saber o que fazia, (Que da sua belleza foi nascido O cego moço, que com setta insana O peccado vingou desta ousadia) Afora este penar, qu'eu merecia, Me deo outra maneira de tormento: Que nunca o pensamento, Voando sempre d'huma a outra parte, Destas entranhas tristes bem se farte, Imaginando como o famulento, Que come mais e a fome vai crescendo, Porque de atormentar-me não se aparte. Assi que para a pena estou vivendo: Sou outro novo Ticio, e não m'entendo. De vontades alheias, qu'eu roubava, E que enganosamente recolhia Em meu fingido peito, me mantinha. O engano de maneira lhes fingia, Que despois que a meu mando as sobjugava, Com amor as matava, qu'eu não tinha. Porém logo o castigo que convinha O vingativo Amor me fez sentir, Fazendo-me subir Ao monte da aspereza qu'em vós vejo, Co'o pezado penedo do desejo, Que do cume do bem me vai cahir: Tórno a subi-lo ao desejado assento; Torna a cahir-me: em vão, emfim pelejo. Sisypho, não t'espantes deste alento, Que ás costas o subi do soffrimento. Dest'arte o summo bem se m'offerece Ao faminto desejo, porque sinta A perda de perdê-lo mais penosa. Bem como o avaro, a quem o sonho pinta O achado d'hum thesouro, onde enriquece, E farta a sua sêde cobiçosa; E acordando, com furia pressurosa Vai o sítio cavar com que sonhava; Mas tudo o que buscava Lhe converte em carvão a desventura; Alli sua cobiça mais se apura, Por lhe faltar aquillo qu'esperava: O Amor assi me faz perder o siso. Porque aquelles qu'estão na noite escura Não sentirião tanto o triste abisso, Se ignorassem o bem do Paraisso. Canção, não mais; que ja não sei que diga: Mas, porque a dor me seja menos forte, Diga o pregão a causa desta morte.
CANÇÃO III.