Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 21

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DELIO. Agora, Alcido, em quanto o nosso gado Pasce diante nós manso e seguro, Sentemos-nos aqui neste abrigado. Logremos este sol sereno e puro, Que livre se nos dá, antes que venha A noite fria com seu manto escuro. O rico com seu ouro lá se avenha; Não se farta a cobiça co'a riqueza: Mais arde o fogo quando t[~e]e mais lenha. Com pouco se contenta a natureza. Quem isto bem olhasse, certifico Que não fugisse tanto da pobreza. O sol tambem m'aquenta, como ao rico; A fonte ágoa me dá, fructos a terra: Com pouco mantimento farto fico. Ah! que a má vaidade nos faz guerra! (Para que gasto tempo em mais palabras?) Os olhos da razão esta nos cerra. Alcido, tens ovelhas, e tens cabras, De que tiras da lãa, tiras do leite; E não te faltão campos em que labras. Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te De fallar claro e sem lisongerias: Não hajas medo tu, qu'eu as affeite) Tu cantavas amor, amor tangias; Faltava a tua frauta; agora he muda: Que mal te mudou tanto em poucos dias? ALCIDO. Muda-se a idade, Delio; e se se muda Com ella a condição, nada m'espanto; O gôsto m'ajudou, ja não m'ajuda. Se ja cantei amor, se amor não canto, Culpas do tempo são, que vai mudando O meu cantar alegre em triste pranto. O tempo, que tão leve vai voando, Delio, não torna mais; e assi fugindo, Mil claros desenganos nos vai dando. Pouco a pouco se veio descobrindo O mal d'huma esperança vãa e incerta, Que me deixou chorando, e foi-se rindo. Quem nasce sem ventura, ou quem acerta De fazer fundamento em peito alheio, De mil contas que faz nenhuma he certa. DELIO. Pois se isso entendes tu, donde te veio Sentir tão de verdade as sem-razões, Não sendo d'outra cousa o mundo cheio? ALCIDO. Não queres tu que sintão corações Obrigados com dor a sentimento, Vendo a razão vencida d'affeições? DELIO. Emfim, todas as cousas querem tento: Encobre a dor, e guarda-te d'extremos; Que sempre trazem arrependimento. Ao nosso doce canto nos tornemos: Das nossas Nymphas, bellas inimigas, Crueza e formosura celebremos. ALCIDO. Como cantarei eu novas cantigas Em terra tão esteril, cheia d'ira, Que nega flores, e que nega espigas? Pendurei n'hum salgeiro a minha lira: Ouvi-la ao som do vento he h[~u]a mágoa: Em lugar de tanger, geme e suspira. A Amarilia pintei, pintada trago-a Aqui neste meu seio, e tambem chora: Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe ágoa. Mas vejo vir Galasio. DELIO. Venha embora. Galasio, queres tu cantar comigo? GALASIO. Eu nunca me roguei: menos agora. DELIO. Cantaremos d'Amor cruel imigo, Ou brando e amoroso, em razão pôsto, Tyranno e cego, e cego até comsigo? GALASIO. Cada qual cante do que for seu gôsto; Quer mimos, quer rigores d'Amor fero; Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto. ALCIDO. Em quanto vós cantais, recolher quero O gado; que são horas de ordenhar: Á noite na malhada vos espero. GALASIO. Isso não: has d'ouvir para julgar Qual de nós melhor canta e melhor sente. DELIO. Eu ja não cantarei, sem apostar. Aposto o meu rafeiro, que Valente Se chama, e com razão; que o lobo affasta, Se não cantar mais branda e docemente. GALASIO. Hum cervo manso aposto. DELIO. Isso não basta: Põe mais hum par da cabras. GALASIO. Deos me guarde; Porque, Delio, este gado he da madrasta. ALCIDO. Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde? Ora cantae sem preço e sem inveja; E seja logo, porque ja he tarde. DELIO. Learda minha, branca mais que a neve, E muito mais corada que a grãa fina; S'inda Amor a vencer-te não se atreve, Que fara quem d'Amor por ti se fina? Eu morro; e tu meu mal julgas por leve? Não vês tu como ja me desatina? Ai triste! que me vem valles e montes, Regados de meus olhos feitos fontes. GALASIO. Marfida, branca mais que o branco leite; Vermelha muito mais que a rosa pura; Assi descuido em ti nunca suspeite, Assi me trates inda com brandura; Que a cabana, que a vida e a alma engeite Por ti, quando tu mais que marmor dura. Testimunhas serão montes e valles, A quem dou larga conta de meus males. DELIO. Quando a minha Learda desencolhe Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado, O sol, de pura inveja, se recolhe, Corrido de se ver menos dourado. Livre pastor não ha, que bem os olhe, Sem se achar logo nelles enlaçado. Ai! não soltes, Learda, os teus cabellos, Pois tanto prendem quantos ousão vellos. GALASIO. Os tristes corações se tornão ledos, Ouvindo de Marfida o doce canto; Os furiosos ventos estão quedos; Não guia o claro sol seu carro em tanto. Converte-se a dureza dos penedos Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto, Vencido dessa voz, doce Marfida; Mas tu nunca d'Amor foste vencida. DELIO. O campo de verdura vejo pobre; O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio; Da sua leve folha a terra cobre O bosque, que foi ja verde e sombrio. Mas se Learda o rosto seu descobre, Logo desapparece o tempo frio: Comsigo a primavera traz Learda. Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda! GALASIO. A triste Progne ja despareceo; A toda flor o frio foi imigo; A doce Philomela emmudeceo, Rouca de lamentar seu mal antigo. Mas venha por aqui quem me venceo Com hum só volver d'olhos; qu'eu m'obrigo, Que as aves tornem logo a seus amores, E os campos se matizem de mil flores. DELIO. A viva chamma, aquelle vivo ardor, Que brando sinto ja pelo costume, De noite dá de si tal resplandor, Que os pastores vem delle a tomar lume. Pasmados ficão, vendo em mi d'amor O fogo, que me queima e não consume: E tu, por quem eu ardo noite e dia, Quando vês tal ardor ficas mais fria! GALASIO. Eu sempre chóro, e tanto ja chorei, Vencido da grã dor que n'alma tinha, Que mil vezes de lagrimas fartei Meu gado, quando a fonte a buscar vinha. Chorando as duras pedras abrandei; Mas nunca a ti, cruel imiga minha, Que, vendo que por ti m'estillo em ágoa, Nenh[~u]a mágoa tens de minha mágoa. DELIO. Quando vires, Learda, o nosso Lima, Que lá vai de meu chôro acompanhado, Tornar com suas ágoas para cima, De seu curso esquecido, costumado; Então embora julga, então estima Que tenho n'outra parte o meu cuidado. Mas deixarão os rios de correr, Primeiro que deixe eu de te querer. GALASIO. Estas serras, Marfida, por certeza De minha firme fé só quero dar-te: Quando com espantosa ligeireza Daqui correr as vires a outra parte, Então cuida que falta em mi firmeza, Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te. Mas mudar-se daqui bem podem ellas, E eu não mudar de mi graças tão bellas. ALCIDO. Se esta vontade minha não deseja A vossos versos dar justos louvores, Hora nunca na vida alegre veja. Acceitae meu desejo, meus pastores: Mais vos não póde dar quem traz o esprito De todo entregue a damnos, mágoas, dores. Mas porque dê de vós público grito A leve fama, como vêdes, deixo O vosso canto e o meu juizo escrito No liso tronco deste verde freixo. Delio neste lugar doce cantou Com Galasio, que doce respondia: Hum Learda, Marfida outro louvou, Com inveja de qual melhor diria. Alcido, que o seu canto bem notou Por ver quem a victoria levaria, Como livre juiz, deo por sentença, Que não havia entr'elles differença.

ECLOGA XIII.

_Phyllis._

Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto Aquelle passarinho canta ou chora, Chamarei Corydon com triste pranto. Se entre vós, bellas plantas, amor mora (Plantas, ja vós amastes) tende mágoa De mi, pois que m'ouvis queixar agora. Ai cruel Corydon! cruel a frágoa Em que vivo por ti! Não tens piedade Dever meu peito fogo, os olhos ágoa? Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade! Ai triste! E que farei? Em poucos dias Mudaste tu de mi tua vontade. A Phyllis ja deixaste, a quem trazias No formoso verão formosas fruitas, Sinal do grande bem que me querias? Sabes, cruel, que tenho causas muitas Para te convencer, de que queixar-me; Por isso vás fugindo e não me escuitas. Puderão os teus rogos abrandar-me: Os meus (triste de mi!) mais te endurecem. Ja não acho em que possa confiar-me. Aquelles doces versos ja t'esquecem, Que tu nos lisos álamos cortavas, Onde com teus enganos inda crescem? Arder por meu amor nelles mostravas: Eu, crendo que era assi, não entendia Quanto fingiste amar, quão pouco amavas. Tristes meus fados forão, triste o dia Em que nasci: coitada de mi triste, Qu'em mágoa se tornou minha alegria! Logo que a tua Galatêa viste, Vi eu deste meu mal grandes agouros; E tu da parte esquerda hum corvo ouviste. E não t[~e]e Galatêa mais thesouros, Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros. Á negra violeta t[~e]e inveja O branco lirio, porque tal não tem O cheiro, que vencido não se veja. Tityro arde por mi; Tityro, a quem Mil Nymphas dão capellas de mil flores; Mas elle a mi só chama, a mi quer bem. Eu desprézo por ti muitos pastores, E tu por Galatêa me desprezas! Tal pago dás, cruel, a meus amores? Em que te mereci tantas cruezas, Quantas usas comigo? Por ventura Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas? Prouvera a Deos que tão isenta e dura Me víras para ti, que nunca víras Em mi sinal d'amor, ou de brandura! S'eu fugíra de ti, tu me seguiras; Por mi ardêras, não por huma ingrata, Por quem choras em vão, em vão suspiras. Bem me vinga de ti, pois te maltrata: Mas eu te quero tanto, que desamo (Por mais que tu me mates) quem te mata. Respondem-me estes montes, quando chamo Por ti com triste voz; Ecco responde Das lagrimas, movida, que derramo. E tu não me respondes, nem sei onde Te leva esse desejo; mas bem sei Que amor e desamor de mi t'esconde. Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei Remedio a tanto mal? O fogo puro Em que m'abrazo, com que abrandarei? Ja fugíra daqui por mais que duro Fosse o deixar o ninho em que nasci: Mas não ha contra Amor lugar seguro. A morte só (mil vezes isto ouvi Á nossa Celia) por remedio espere Aquelle que a Amor fez senhor de si. Então, porque de todo desespere, Este cego, a quem cegos nós seguimos, A mi por ti, e a ti por outra fere. S'eu morrêra no ponto em que nos vimos, Não víra tanto mal. Mas que da sua Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos. Eu me queixo de ti, e tu da tua Galatêa te queixas; e não vês Que mais piedosa te he, quando mais crua. Sendo tu tão cruel, (tão cego es!) Queres achar piedade? Como queres Que te creião teu mal, se o meu não crês? Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres, Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes, Ou ledos ambos, si: mais não esperes. Selvas, que n'outro tempo nos cobristes Com frescas sombras lá do ardor de cima, Dizei, se a Corydon dizer ouvistes: Primeiro ha de tornar o brando Lima As ágoas de crystal á fonte clara, Que no meu peito novo amor s'imprima. Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara, Me ha de deixar a mi a propria vida. Mas quem, por não deixar-te, a não deixára! Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida A tenho a teu querer; tu della ordena Como, doce amor meu, fores servida. Por ti me será branda a dura pena; Por ti suave a dor, leve o tormento, A que m'inclina o fado, ou me condena. Ah falso Corydon! teu pensamento Era enganar-me: dada a fé me tinhas; E a fé co'as palavras leva o vento. Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas O vento vai levando. O sol he pôsto. Porque, ligeira luz, te não detinhas, Em quanto em meu queixume achava gôsto?

ECLOGA XIV.

INTERLOCUTORES.

ERGASTO, DELIO, LAURENO.

ERGASTO. Agora, ja que o Tejo nos redeia, Neste penedo, donde mansamente Murmurando se quebra a branda veia, Espera, Delio, até que do Occidente D'azul deixe a ribeira matizada O sol, levando o dia a outra gente. Entretanto daqui verás pintada A praia de conchinhas d'ouro e prata, E a ágoa dos mansos sopros encrespada. Verás como do monte se desata A vagarosa fonte por penedos, Que pouco a pouco cava e desbarata; E como move os frescos arvoredos Favonio, que de flores pinta o prado; E como s'estão rindo os campos ledos. Ditoso o que do Ceo foi tão amado, Que no campo alcançou passar a vida, Livre de pena, livre de cuidado. O rouxinol na vara, que vestida De verdes folhas, sombra faz ao rio, Lhe canta o doce verso sem medida. Agora ao pé d'hum alamo sombrio Vê como dous carneiros s'offerecem, Os cornos inclinando, a desafio. Como ao que vence todos obedecem E folgão de o ver fóra de perigo; E outros com face esquiva o aborrecem. Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo Lavra os campos do pae, e se contenta, Nos seus mólhos atando o louro trigo! Este a furia do mar não exprimenta, Nem corre, por achar a pedra rica, A estranha praia, que outro sol aquenta. Onde, quando a esperança o fortifica Em adquirir mais ouro e mais riqueza, Ouro, esperança, e vida a muitos fica. Este vive quieto na pobreza; E deste confiarei que a anteponha A quanto o mundo mais procura e préza. Comendo em mesa vil, não s'envergonha: Antes bebe nas mãos a fonte pura, Qu'em precioso metal cruel peçonha. Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura, Inda conversa aqui com os humanos A Justiça, fugindo á gente impura! Quem visse bem tão claros desenganos, E quanto mal nos vicios se apparelha, No campo gastaria bem os anos. Ao dia a nossa vida se assemelha, Porque quando no mar o sol se banha Se costuma tingir de côr vermelha. Assi, se olharmos bem, sempre se ganha Lá no occaso da mal gastada vida Rubicunda vergonha em mágoa estranha. DELIO. A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida, Nunca sabe de nós ser tida em preço: Só despois que se perde he conhecida. E desta vida os bens, qu'eu não mereço, Quando os perco e o mal da outra ja m'espera, Com grandes mágoas d'alma os reconheço. Oh se em ditosa sorte me coubera Por favor ou destino das estrellas, Qu'entre pastores, eu pastor vivêra! Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas Cantar da linda Nise, nas quaes arde Teu peito, sempre ufano d'arder nellas. Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde; Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte, E despois vos recolha, sôbre a tarde. Nãovos verei saltar junto da fonte, Cabras minhas, ja meu querido gado, Nem da rocha pender no verde monte. ERGASTO. Consente agora, ó Delio, que chorado Em triste verso seja apartamento, Que assi me deixa triste e magoado. DELIO. Não: que se dobrará meu sentimento. Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça Partida, que lembrada he só tormento, Canta aquelle Soneto, que começa: _Quantas vezes do fuso s'esquecia_. Que digas hum dos teus, não sei se o peça. ERGASTO. Se com m'ouvir, a dor se te allivia, Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno, Que a cantar vezes mil me desafia. Cantando venceo ja Tityro e Almeno: E eu, inda que sei certo ser vencido, Apostar a cantar com elle ordeno. LAURENO. Ergasto, pois o tempo se ha offrecido, Celebremos amor e formosura, Emquanto o gado á sombra está acolhido. ERGASTO. Postoque ja a victoria tens segura, Não cantarei sem preço, porque saia Mais ledo quem cantar com mais brandura. LAURENO. Eu hum vaso porei de lisa faia, Divina obra de Alceo, que celebrado Será sempre por claro nesta praia. A vide, de que em roda está cercado, Os roxos cachos cobre; e primor teve Em pôr no meio a Dama e Pan cansado. Parece que a beija-la o deos se atreve, E que ainda dos beijos mal soffridos Inclinado lhe foge o tronco leve. ERGASTO. Outro vaso porei d'hera cingido, No qual Orpheo das aves esquecidas E dos suspensos bosques he seguido. Não cuido que de faia são sahidas De tal arte, lavor de tal maneira: Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas. Esta, das que me deo, foi a primeira; Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda, Ouvindo-me cantar nesta ribeira. Ouvio-m'então, estando desta banda; E dando-ma, dizia-me: Este seja O premio, Ergasto, dessa Musa branda. LAURENO. Delio o nosso cantar pondere, e veja Qual dos dous a voz dá mais docemente; Que huma tal causa tal juiz deseja. DELIO. Se o meu juizo cada qual consente, Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço; Tu responde, Laureno, juntamente: E eu fico que nenhum perca o seu preço. ERGASTO. Alcida, que na côr o leite puro, E a rosa da manhãa deixas vencida, Culpa he dos olhos teus, nelles o juro, Est'amor de qu'estás tão offendida. Castiga-os com me verem; qu'eu seguro Que a vingança será delles sentida: Nem temas tu d'os meus alegres serem, Vendo tristes taes olhos por me verem. LAURENO. Violante minha, cuja côr iguala, Mas antes vence os cravos, vence a neve; Desta dor, que atéqui minha alma cala, Teu amoroso riso a culpa teve. Se só por viver della e por amá-la, Julgas que algum castigo se me deve, A ver-te sempre rindo me condena, Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena. ERGASTO. Com a mãe, que maçãas colhendo andava, Inda pequena, a bella Alcida vinha: Eu os ramos da terra ja tocava, Ja facil para amar o tempo tinha. Não sei que fogo ou neve se passava Daquelles olhos seus a est'alma minha, Que me deixárão pôsto em tal extremo, Que até de cuidar nelles ardo e tremo. LAURENO. No bosque a Violante vi hum dia, Doce princípio destas doces dores; A flor cahia nella, e parecia Dizer cahindo: Aqui reinão amores. Humilde em tanta gloria ella se ria, E errando hião sôbre ella as várias flores: Eu, que vencido fui d'hum error cego, Áquelle honesto riso est'alma entrego. ERGASTO. Pastores deste bosque, que buscais, Anoitecendo, o lume por costume; Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais, Que destes meus suspiros leveis lume. Accesos sahem d'alma os doces ais No ardor, que pouco a pouco me consume; Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito, Accendérão jamais hum frio peito. LAURENO. Pastores, que buscais na sombra amada A fonte, por fugir o ardor do estio, Vinde a mi, porque d'ágoa destillada Por meus olhos, se sólta hum largo rio; Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada, Fartá-la ja de lagrimas confio. Mas com chôro de tanta quantidade Não movo aquelles olhos a piedade. ERGASTO. Se quando a minha Alcida est'alma visse Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada; Se quando a grave dor fóra sahisse Entre suspiros mil rôta e quebrada, Sequer com brandos olhos m'admittisse, Ficando de vergonha mais córada; Ditoso fôra, vendo-a, juntamente Com ser mais bella, deste amor contente. LAURENO. Se á vista de Violante derramadas As lagrimas d'amor, que vive nellas, Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas Lhe ficassem de dor ambas estrellas, E as rosas entre a neve semeadas, Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas; Ditoso me fizera. Hora ditosa, Se a víra ser mais bella e ser piedosa! ERGASTO. Claros olhos, que ao sol fazeis inveja, Que brandos vos mostreis ja vos não peço; Mas que poder-vos ver paga me seja, Se por tamanho amor tanto mereço: Armados d'esquivança então vos veja Cheios d'hum não sei que, com que pereço; Que doce me será tal esquivança. Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança! LAURENO. Olhos, que vos moveis tão docemente, Que traz vós todo o mundo ides levando, Eu não sei se tomais do ceo luzente O movimento seu, se lho estais dando: Sei certo (e não m'engano,) sei somente Que a vós de mi minh'alma ides passando: Mas não posso entender como deixais Ao descuido o que vós em vós levais. ERGASTO. Por mais que a minha soberana Alcida (Minha não, porque só sua belleza Vem a ser minha em ser de mi querida) Me trate vezes mil com aspereza; Huma só vez que della acho admittida Minha pequena vista na grandeza Da luz do rosto seu, sinto tal gloria, Que de todo o penar perco a memoria. LAURENO. Quando a minha mais que unica Violante (Se minha póde ser a que he tão sua) Aquella santa luz hum breve instante Me deixa ver, por mais que a veja crua; A vista tanto em mi vejo a diante, Que não he muito, não, que m'attribua A soberba de ser hum'aguia nova, Que do ceo no ôlho claro a vista prova. DELIO. Pastores, que alcançar pudestes tanto Com vossa branda Musa, que ja nesta Idade renovais o antigo canto; Para vosso louvor, que verso presta? Qu'hera digna será? que louro dino Qu'em premio a cada qual adorne a testa? Em parte paga Amor, se de contino Por dentro a cada hum gasta os espritos, Pois co'o divino canto o faz divino. Nós veremos por annos infinitos Nos altos troncos destas faias bellas Os nomes vossos por memoria escritos. De unicas flores mereceis capellas: T[~e]e Alcida e Violante sós taes flores; E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas. Os vossos premios recolhei, pastores: Cada qual igualmente o seu merece; E ambos d'Apollo os mereceis maiores. Recolhamos o gado; que anoitece.

ECLOGA XV.

INTERLOCUTORES.

SOLISO e SYLVANO.