Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 20

Chapter 202,892 wordsPublic domain

Parece-me, pastor, se mal não vejo, Que ja te vi mais ledo andar outr'hora Nos largos campos do famoso Tejo. LIMIANO. Podia ser; que muito tempo fóra Andei desta ribeira, patria minha, Onde triste me vez andar agora. Tinha lá para mi, que a vida tinha Mais socegada cá e mais segura, Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha. Foi d'outro parecer minha ventura: Discordias sós achei, e achei dureza, Em lugar de socêgo, e de brandura. Achei as boas leis da natureza Vencidas do interesse; e a gente cega, Tanto, que mais que o sangue, o gado préza. Dizem que quando o mar bonança nega, Correndo vai aquella não mor prigo, Que á desejada terra mais se chega. Assi m'aconteceo a mi comigo; Seguro sempre ao longe, sempre ledo; Triste ao perto, e tratado como imigo. ANZINO. Sempre (podes-me crer este segredo) Desejei de te ver; mas com desgôsto, Inda te não quizera ver tão cedo. Prestando para cousas de teu gôsto, Como camaleão não mudo côres; Qual he meu coração, tal he meu rosto. LIMIANO. Não são logo assi, não, outros pastores, Que de promessas vãas te fazem rico, E nunca fructo dão: tudo são flores. Mas desejo saber com quem pratíco, Porque não caia em falta, e porque entenda A quem tamanho amor devendo fico. ANZINO. Antes que tempo nisso se dispenda, Busquemos hum lugar mais fresco e frio, Que da calma, que cahe, bem nos defenda. LIMIANO. Vamos alli, que alli bosque sombrio Nos dara fresco abrigo, assento o prado, Formosa vista o valle, o monte, o rio: O rio, que verás tão socegado, Que te parecerá que se arrepende De levar ágoa doce ao mar salgado. Nem cabra, nem ovelha alli offende Herva, folha, nem flor, ou ferro duro: A planta polo ar livre se estende. Verás cahindo em gottas crystal puro No vão d'huma caverna carcomida, Por entre o musgo molle, verde-escuro. ANZINO. Quem traz á saudade a alma rendida, A saudade busca, onde descansa; Maso descanso della encurta a vida. Com tudo, quem do ceo na terra alcansa Poder gozar-se desta liberdade, Que mais deseja ter? que mais o cansa? Affirmo-te de mi esta verdade, Que muitos valles vi, muitas ribeiras; Mas esta me dobrou a saudade. Oh que viçosas murtas! que oliveiras! Que freixos! como estão d'hera cingidos! Quantas voltas lhes dá de mil maneiras! Os lirios junto d'ágoa bem nascidos Quanta graça que t[~e]e entre as boninas, Sem ordem, com mais graça, entremetidos! Vem encrespando as ágoas crystallinas A branda viração; a fôlha treme; O movimento apenas determinas. A rôla seu amor suspira e geme; Escondida se queixa Philomella: Parece que do campo inda se teme. Espanta a quem se atreve, ver aquella Rocha por cima d'ágoa pendurada Como ja se não deixa cahir nella. Ó ribeira do Lima, celebrada De mil brandos espritos sempre sejas, Sempre de brandas Nymphas povoada. Fujão longe de ti duras invejas; Peçonha de pastores, morte sua: Tudo sintas amor, tudo amor vejas. De dia o claro sol, de noite a lua, Em teu favor inspirem de maneira, Que sempre fertil seja a praia tua. Tornando, emfim, á prática primeira, Por dar-te, como queres, de mi conta, Larga ta quero dar e verdadeira. Apartar-te do gado leva em conta; Que, pois com elle fica o pegureiro, Que te detenha hum pouco, pouco monta. O meu nome he Anzino: fui vaqueiro Na grã serra da Estrella, que não tive; Não sei se natural, ou se estrangeiro. Hum pastor me criou, que ja não vive; De todos por seu filho era julgado; E eu tambem neste engano hum tempo estive. Até que delle soube ser achado Em huma anzina envolto em pobres panos; E daqui veio, que Anzino fui chamado. Neste meu desengano outros enganos Fundou de novo a pouca dita minha, Com que o vim a servir mais de sete annos. Tinha muito de seu, e mais não tinha De filhos, que huma filha bem formosa, Á qual por morte delle tudo vinha. Conversação doméstica e damnosa, Na livre formosura e tenra idade, Em ambos accendeu chamma amorosa. Como ella de mi soube esta verdade, Com outro amor, com outros exercicios, Nella ganhei de novo outra vontade. Amor mestre me fez de mil officios Para meio do fim que desejava; E delle sinal davão mil indicios. Tecia alvos cestinhos, quando andava Com as vaccas no prado: á noite hum cheio De fructa, outro de flores lhe levava. Nas mangas muitas vezes e no seio As nozes lhe levei com as castanhas, Quer do souto do pae, quer d'outro alheio. Nos intricados bosques, nas montanhas, Por seu amor as feras perseguia, Fôrças agora usando, agora manhas. Vivos os mansos cervos lhe trazia; Vivas medrosas lebres fugitivas: Ligeireza de pés não lhes valia. Mas, se lhe dava as mansas feras vivas, Mortas lhe dava as que por natureza, Sem domar-se, são bravas, ou esquivas. Certo dia achei eu n'huma aspereza, Sem mãe, hum cervo branco e pequenino; Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza. Ou ja criação seja, ou ja destino, Tanto que não o vê, geme e suspira. Como menos fara o triste Anzino? Tangia mal na frauta, mal na lira; Despois tão bem tangia, qu'era espanto A quem antes d'amor tanger m'ouvíra. Ouvia celebrar sempre em meu canto Ulina a sua rara formosura: (Tal nome t[~e]e aquella, a que amo tanto.) Contava-lhe meus males por figura: Ficava eu, de medroso, frio e mudo; Ficava ella suspensa; a historia escura. Assi com tal temor, com tal estudo, Amor fui grangeando longamente, Á conta deste amor perdendo tudo. Ella, dos meus desejos innocente, O mesmo amor me tinha, tanto, digo; Que no ser era todo differente. Praticava seus gostos só comigo; Seus desgostos tambem, seus pensamentos, Com rara graça e com saber antigo. Outras vezes, confusa nos intentos, Os modos me notava, e me dizia: Entre irmãos de que servem comprimentos? Eu quizera, Senhora, (respondia) Que soubesses de mi, qu'irmão não sendo, Não com menos amor te serviria. Tornou-me: Essa resposta não entendo: O que não quiz o ceo, queres que seja? Que castellos no vento andas fazendo? Se me queres ver leda, não te veja Soltar essas palavras ociosas: Materia mais honesta nos sobeja. Dizendo assi, nascião-lhe outras rosas Naquellas proprias suas, sôbre a neve Das suas faces mais que o sol formosas. Destas quebras comigo algumas teve; Cujas fôrças amor quebrava logo N'outra conversação mais branda e leve. Cresceo desta maneira o vivo fogo, Que ardendo dentro na alma encurta a vida; Cujo principio foi hum brinco, ou jôgo. Mas ella neste tempo era pedida De muitos a seu pae em casamento; Nova dor para mi, mortal ferida! Elle lhe nomeava mais de cento: Delles paternamente lhe rogava Hum escolhesse a seu contentamento. Com mil razões fingidas s'escusava, Sendo só a razão, não ser contente; Com que desgôsto ao pae, gôsto a mi dava. Estando nós por huma sesta ardente Á sombra d'huns madronhos repousando, Affastados da casa e mais da gente, Ja d'huma e d'outra cousa praticando; Soltou com hum suspiro estas palabras: Desde hontem para cá em mi não ando. Logo que nosso pae tornou das labras, Me disse que assentára de casar-me Com Tityro, pastor de muitas cabras. Que não buscasse causas d'escusar-me, Como por muitas vezes ja fizera, Pois tinha muitas mais de contentar-me. Que afóra esta tenção, que a sua era, O mesmo seus parentes lhe dizião, A quem de seus intentos conta dera. As ágoas, que dos olhos me corrião, Em quanto elle me disse o que te digo, Por mi, que fiquei muda, respondião. Com seu chôro abrandou ao pae amigo; Qu'emfim, deixando-a menos magoada, Lhe disse que fallasse isto comigo. Assi me disse; e que determinada Estava a qualquer mal que lhe viesse. Antes que ser com Tityro casada. Que por mais de mil cabras que tivesse, Jamais esta vontade mudaria; Que buscava saber, não interesse. E que de melhor mente casaria Com hum qualquer pastor, pobre de gado, Se nelle as partes visse, que em mi via. Por extremo de mi lhe foi louvado O pensamento seu; e sem detença Tal resposta lhe dei acautelado: Se a dar meu parecer me dás licença, Hum pastor te darei de qualidade, Que em nada de mi tenha differença; Nem de menos saber, nem mais idade; Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto: Da fazenda não sei a quantidade. Se esse me fazes bom, daqui protesto De não receber outro por marido: Me respondia com sembrante honesto. Pois sabe (respondi) que ja admittido Me tens com gôsto teu por teu esposo; Que com dar-te-me dou o promettido. Não pude dizer mais, de vergonhoso, Nem ella me deixou com ouvir tal, Suspeitando de mi amor vicioso. Logo me respondeo: Ah desleal! Ah deshonesto irmão! isso pretendes? Mas não irmão, imigo capital. O ceo, que com injusto amor offendes, Tome, cruel, de ti justa vingança, Antes que de tamanho error t'emendes. Andavas-me enganando na esperança Com esses falsos e indevidos meios Ao sangue nosso e minha confiança? Fizeste verdadeiros os receios, A que confusamente me levavas De sombras enganosas com rodeios. Desejo no teu peito agasalhavas Tão torpe, tão infame, tão alheio Do puro amor, a que obrigado estavas? Não te desculpes, não; que ja não creio Lagrimas, nem palavras, nem desculpas De quem imaginou caso tão feio. Timido respondi: De que me culpas? Se ouvido me não dás, não tens razão; Acaba de me ouvir o fim das culpas. T[~e]e-me, Ulina, por teu, não por irmão: Se me não queres crer esta verdade, De teu pae saberás se minto, ou não. Por filho me criou: a flor da idade Gastei em o servir por teu respeito: Ólha o que te merece esta vontade. Se com ser isto assi tenho êrro feito Em grangear-te; que a ti só desejo; Eis este ferro aqui, eis este peito. Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo, Pondo os olhos no chão, formosa e branda; E cuido qu'inda assi nos meus a vejo. Disse-me: Em que revoltas o amor anda! No bem, como no mal, tambem me enleia: Inda agora o senti, ja reina e manda. Como queres, Anzino, qu'eu te creia Cousa que nem sonhada foi tégora? Não sabes de quem ama, o que receia? Fallarei com meu pae: fica-t'embora: No desengano seu teu bem consiste; Da palavra que dei não estou fóra. Com isto me deixou alegre e triste. O comêço ja ouviste de meu dano, Amigo Limiano: o fim amargo, Em que não serei largo, escuita agora. Fulgencia, outra pastora, que vizinha Era d'amada minha e grande amiga, (Não sei como isto diga que não moura) Pastora branca e loura, que na serra Era a segunda guerra dos pastores, Por mal dos meus amores me quiz bem. Fundava-se porém em casamento; E deste fundamento lhe nascia, Que, como me não via, o valle, o monte, O bosque, o rio, a fonte rodeava. Em busca minha andava aquella sesta; Entrou pola floresta, onde nos vio; E tudo nos ouvio quanto fallámos, Entre huns espessos ramos escondida. Cruelmente ferida dos ciumes, Foi-se a fazer queixumes (descobrindo Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina. Eis logo desatina o triste velho; Eis que sem mais conselho a filha entrega, Que com chôro se nega e com palabras, Ao simple guarda cabras, por esposa. Ah hora desditosa! ah sorte dura! Daquella formosura desusada, De tantos desejada, e de mi tanto Servida com espanto e puro amor, Quizeste, por mais dor, enriquecer Quem não sabe entender o preço della? Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste, Como te não abriste; e no teu centro Me não cerraste dentro, estando vivo, Porque mal tão esquivo não sentíra? Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido! Para me ver perdido me criaste? Porque me não deixaste no deserto? Menos crueza, certo, então usáras, Inda que me deixáras (não te aggraves) Ás cruas feras e aves da montanha. Não vês que o ceo estranha isso que tratas? Não vês que a ti te matas cobiçoso? Na porta o novo esposo tropeçou; Na casa não entrou co'o pé direito: Gritou sobolo teito a noite inteira A ave, qu'he mensageira de fins tristes. O mesmo vós sentistes, cães da aldeia, Quando por má estreia, juntos todos, Com differentes modos huiviastes. Serranas, qu'esperastes nestas vodas Cantar alegres todas Hymeneos, Dos vossos alvos seios, alvas flores, Em lugar dos licores mais custosos, Por cima dos esposos derramando; Ou vendo estar bailando, estando quedas, Ao som das gaitas ledas no terreiro O moço tão ligeiro á maravilha, Que quasi o pé não trilha o junco mole; Qual será que console a triste amiga, A quem a fôrça obriga do pae duro, A quem o Amor puro obriga tanto, Que n'hum contino pranto se consume? Assi do grande cume da esperança Com subita mudança derribado, Me poz em tal estado a triste nova, Como sabe por prova quem bem ama. Levou a leve fama a minha dor A Sincero pastor, meu grande amigo, Que com rogos comsigo me levou, Do monte, onde me achou, ja noite escura, Chorando a desventura em que me via. As vaccas, vindo o dia, derramadas, De mi desamparadas, vem bramando, Sinal n'aldeia dando em seu bramido De qu'era ja perdido o pastor seu. Tamanha pena deo á bella Ulina (Bella, porém mofina) a pena minha, Sôbre quantas ja tinha no seu peito, Que mais do triste leito não s'ergueo. Seu pae adoeceo tambem de nojo: Da morte foi despojo ao dia quinto. A dor que daqui sinto he sem medida. Pois m'apartou da vida, a vida acabe, Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa. Fulgencia, que foi causa destes males, Des que montes e valles descobrio, Despois que me não vio em toda a serra, Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais, Que della nunca mais novas souberão. Emfim, tal fim tiverão meus amores. Chorárão os pastores juntamente D'Ulina descontente a triste sorte, Do pae a breve morte, e de Fulgencia A vingadoura ausencia de seu êrro; De mi este destêrro em que me pôs. Mas mais chorastes vós, meus olhos tristes, Quando de vossa luz, sem a do dia, Por terras tão estranhas vos partistes. Cuido que meia noite então seria; Cantando os gallos ja na triste aldeia, Chorava só quem della se partia. Casa de meus suspiros sempre cheia, (Disse eu, quando passei pela de Ulina) Tal fructo colhe quem amor semeia! Fortuna, a mi cruel, sempre benina Em tudo seja áquella, que em ti mora, Indaqu'em outros braços se reclina. Fica-te aqui, minha alma, fica embora, Que, pois assi o quiz fado inimigo, Jamais te não verei dia nem hora. Dalli nos ricos campos dei comigo, Que das ágoas do Tejo são regados; Onde te vi mais ledo, como digo. Por ver se posso agora a meus cuidados Achar algum repouso, algum socêgo, Atravessando vou montes e prados. Passei as claras ágoas do Mondego, Das Lusitanas Musas charo ninho; As do Douro despois em turvo pégo. Daqui continuando meu caminho, Espero ver a casa aos ceos acceita, Na terra que da nossa aparta o Minho. Onde vou visitar na urna estreita Os santos ossos do Varão divino, Que pretendeo do Mestre o mão direita. Assi, d'hum lugar n'outro de contino, O bem que ja cantei, chorando venho; Tornei-me de vaqueiro, peregrino: Tal hábito me vês, tal vida tenho. LIMIANO. Anzino, he breve o dia Para poder contar O que sinto de tua desventura. E sei bem qu'erraria, Se quizesse louvar O grave estylo teu, tua brandura. Aquella formosura, Por quem alegre fôras; Que tu ledo cantaste, E que despois choraste Tão triste, qu'ind'agora triste choras; Vivendo eterna nella, Será mágoa commum, e louvor della. As mágoas deixo enfim; Tambem louvores deixo, Por grandes ellas, elles por pequenos. Tu, por amor de mim, (Dir-te-hei de que me queixo) Repousa hoje comigo, quando menos: Assi vejas serenos Esses teus tristes lumes. Abranda a dura mágoa, Que tira fontes de ágoa Do fogo em que chorando te consumes; Dar-te-hei conta mais larga Da vida que aqui passo tão amarga. E mais saber desejo Se a fama nos engana, Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos, Com todos os do Tejo, E com fato e cabana, Reside ja nos campos Africanos; Onde mil soberanos Triumphos, delle dinos, Lh'ordena a fatal sorte, Com grande estrago e morte Dos brutos mal nascidos Sarracinos, Que de si despejados Os curraes deixão ja cheios de gados. Que sendo assi, te digo Que não espero mais Nesta para mi sempre ingrata terra. Quem traz guerra comsigo Entre seus naturais, Não deve d'estranhar estranha guerra. Sem mi de serra a serra (O ceo assi o queira) Logrem meus inimigos Os valles e pacigos Desta, donde nasci, fresca ribeira; Na qual (se não m'engano) Inda será chorado Limiano. ANZINO. Limiano, ja bem tenho entendido Quanto sentes meu mal; mas eu te digo Que o teu mal he de mi menos sentido. Ácerca de ficar hoje comtigo, Farei pois (ja qu'assi nos detivemos) Tudo o que tu quizeres, como amigo. E, pois o dia ja passado temos, Vamos-nos mais chegando para o gado; E lá nas outras cousas fallaremos. Todavia de funda e de cajado Te vai apercebendo a som de guerra; Que não foi tal pastor cá do ceo dado, Para não dar ao ceo tão larga terra.

ECLOGA XII.

INTERLOCUTORES.

DELIO, ALCIDO, GALASIO.