Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 2

Chapter 23,965 wordsPublic domain

Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção. Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte, que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo está toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra etc._ A differença está em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_, diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta _nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento. Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o que inda ha pouco era rio caudaloso.

AGRARIO.

Minha alva Dinamene, a primavera Que os deleitosos campos pinta e veste, E rindo-se uma côr aos olhos gera, Que em terra lhes faz ver o Arco celeste; As aves, as boninas, a verde hera, E toda a formosura amena agreste Não he para os meus olhos tão formosa, Como a tua, que abate o lirio e rosa.

ALICUTO.

As conchinhas da praia, que presentão A côr das nuvens, quando nasce o dia; O canto das Sirenas, que adormentão; A tinta que no murice se cria; O navegar por ondas, que se assentão Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria, Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.

AGRARIO.

A deosa, que na Lybica lagôa Em fórma virginal appareceo, Cujo nome tomou, que tanto sôa, Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo: Garços os tem; mas uma, que a corôa Das formosas do campo mereceo, Da côr do campo os mostra graciosos. Quem não diz que são estes os formosos?

ALICUTO.

Perdoem-me as deidades, mas tu diva Que no liquido marmore es gerada, A luz dos olhos teus, celeste e viva, Tens por vicio amoroso atravessada: Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva De luz o dia, baixa e socegada Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego, E com toda esta luz sempre estou cego.

Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o merecimento e preço das obras dos grandes homens.

Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte, aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.

Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de _Obras Attribuidas_, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era excellente.

Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões, que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas para divertimento particular.

E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor (nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle, se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas heroicos e lyricos de Hespanha.

Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina, tanta facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a militar.

Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda; que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça, tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria, que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas, brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas: na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia resurgir os mortos.

VIDA DE LUIS DE CAMÕES.

Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que nasceo Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porém depois reparando que o poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, ia caminhando para os seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo 55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu nascimento.

Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util; como o sol, que então dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua genealogia.

A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas regalias. Vasco Pires de Camões, ultimo representante desta familia, fôra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a seu partido, quando aspirava á coroa de toda a Hespanha. Mas, como se malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do Sardoal e Punhete, Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e herdades, que em Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de Portalegre e membro do seu conselho.

Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão mor das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo depois a capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua honra e valor. E della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as herdades de Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em Alemquer.

João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser Vassallo de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes serviços que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo Gomes da Silva e irmão de João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João 1.º, fôra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, desposando a Guiomar da Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas de Camões, que casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E destes nasceo o nosso poeta.

Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se empenhárão em lhe dar uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto se vião faltos de meios, na esperança de que viria a ser o bordão de sua velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores estudos, de mui tenra idade o mandárão para a Universidade que de Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então restituida a Coimbra por João III, e florescia em todas as sciencias sob a direcção e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que este Rei com largos premios de toda a parte attrahíra. Com tão felizes disposições e tão sabios preceptores, não podia Luis de Camões deixar de fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi.

Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio das Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se infere, foi feito quando voltava de férias, ja ferido de outra paixão.

Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se apartasse daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo de seus cuidados, se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida. Restituido á patria, cheio de tão saudosas lembranças, ahi escreveo aquella maviosa Canção que principia:

Vão as serenas ágoas Do Mondego descendo etc.

Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava Amor preparando novo assumpto. Fazia então o principal ornamento do paço uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de maior Petrarca. Vio-a Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e 123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido de amores. Des de então não soube mais parte de si; e ufano de se ver vencido de tão peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava que este passo, o mais notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda não satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia. Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores erão puramente Platonicos; mas disso não ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que manifesta na Canção 15 onde diz:

Des que com gentil arte Vestís de flores bellas A terra, que tocais co'a bella planta, Quantas vezes com vê-las, Quiz n'uma dessas flores transformar-me! Porque vendo pisar-me Desse candido pe, que a neve espanta, Póde ser que na flor mudado fòra Que deo a Juno irada a linda Flora.

não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira por que Marte foi gerado.

Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim, amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa, Egloga 3.ª) que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida, foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas vizinhanças do Zezere, se infere da Canção 13. Depois ou porque este desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo depois do princípio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte recebêra aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel, mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª

Agora exprimentando a furia rara De Marte, que nos olhos quiz que logo Visse e tocasse o acerbo fructo seu. E neste escudo meu A pintura verão do infesto fogo.

Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que para fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir, arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro impedimento se deixou ficar em terra; e não veio a sahir para o seu destino, senão dous annos depois, no de 1553, como consta de outro assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa: e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que disse na despedida, forão (como se ve de uma carta que de Goa escreveo) as de Scipião Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_.

Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o acompanhou o poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente refere na Elegia 3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do seguinte anno de 1554 chegárão as naos do Reino, em que ia Dom Pedro Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se divulgou a triste noticia das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma carta com data de Janeiro de 1555.

E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo: _Emfim, Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços que nessa terra me armavão os acontecimentos, como com vir para esta, onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a cella de um frade prégador_. Mas esta felicidade e socego não lhe durou muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que não era affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa no seu commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que miseravelmente soffrêra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandára preso e capitulado para o reino. E nem um nem outro fazem menção do desterro. Manoel Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião festejado a successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou por zelo da justiça, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em tudo isto não ha de verdadeiro, senão que Luis de Camões foi desterrado por Francisco Barreto, como passâmos a demonstrar.

Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei Dom Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa occasião se fizerão, como testimunha ocular. Logo não foi Luis de Camões provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro Mariz, nem sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno, como dissemos. Tambem he falso que Luis de Camões, voltando de Macao a Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime, não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de 1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e capitulado para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro Barreto, indo por governador de Çofala, e desejando levar a Luis de Camões na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movêra a isso, dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua plena liberdade.

Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das Redondilhas, que andão nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na India_.