Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 18

Chapter 183,717 wordsPublic domain

As doces cantilenas, que cantavão Os semicapros deoses, amadores Das Napêas, que os montes habitavão, Cantando escreverei: que se os amores A sylvestres deidades maltratárão, Ja ficão desculpados os pastores. Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão O claro Apollo e Marte hum ser perfeito, Em quem suas altas mentes assinárão; Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito, Bem sabe onde se salva, pois pretende Levantar com a causa o baixo effeito. Em vós minha fraqueza se defende; Em vós instilla a fonte do Pegáso, O que o meu canto por o mundo estende. Vêdes que as altas Musas do Parnaso Cantando vos estão na doce lira, Tomando-me das mãos tão alto caso. Vêdes o louro Apollo, que me tira De louvar vossa estirpe, e escurece O que a vosso louvor meu canto aspira. Ou por me haver inveja me fallece, Ou por não ver soar na frauta ruda O que a sonora cithara merece. Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda, Em quanto Progne triste o sentimento Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda; E em quanto Galatea ao manso vento Sólta os cabellos louros da cabeça, E Tityro nas sombras faz assento; E em quanto flor aos campos não falleça, (Se não recebeis isto por affronta) Fará que o Douro e o Ganges vos conheça. E ja que a lingua nisto fica pronta, Consenti que a minha Ecloga se conte, Em quanto Apollo as vossas cousas conta. No cume do Parnaso, duro monte, De sylvestre arvoredo rodeado, Nasce huma crystallina e clara fonte, Donde hum manso ribeiro derivado, Por cima d'alvas pedras mansamente Vai correndo suave e socegado. O murmurar das ondas excellente Os passaros incita, que cantando Fazem o verde monte mais contente. Tão claras vão as ágoas caminhando, Que no fundo as pedrinhas delicadas Se podem, huma e huma, estar contando. Não se verão em derredor pizadas De fera ou de pastor, que alli chegasse, Porque de espesso monte são vedadas. Herva se não verá, que alli criasse O monte ameno, triste ou venenosa, Senão que lá no centro as igualasse. O roxo lirio a par da branca rosa, A cecem pura, a flor que dos amantes A côr t[~e]e magoada e saudosa; Alli se vem os myrtos circumstantes Que a crystallina Venus encobrírão, Escondendo-a dos Faunos petulantes. Hortelãa, mangerona, alli respirão, Onde nem frio inverno, ou quente estio, As murchárão jamais, ou sêccas vírão. Dest'arte vai seguindo o curso o rio, O monte inhabitado e o deserto Sempre com verdes árvores sombrio. Aqui huma linda Nympha, por acêrto Perdida da fragueira companhia, A quem este lugar era encoberto; Cansada ja da caça vindo hum dia, Quiz descansar á sombra da floresta, E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria. A novidade vendo manifesta Do sítio, e como as árvores co'o vento As calmas defendião da alta sesta; Das aves o lascivo movimento, Qu'em seus modulos versos occupadas As azas dão ao doce pensamento; Tendo notado tudo, ja passadas As horas da grã sesta, se tornou A buscar as irmãas, no centro, amadas. Despois que largamente lhes contou Do não visto lugar, que perto estava E tanto por extremo a namorou, Que ao outro dia fossem, lhes rogava, A lavar-se em aquella fonte amena, Que tão formosas ágoas destillava. Ja tinha dado hum giro a luz serena Do grão pastor d'Admeto, e já nascia Aos ditosos amantes nova pena, Quando as formosas Nymphas em porfia Para o lugar do monte caminhavão, Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria. D'huma os louros cabellos s'espalhavão Por o formoso collo sem concêrto, E com mil nós suaves s'enlaçavão; Outra, levando o collo descoberto, Por mais despejo em tranças os atára, Havendo por pezado o desconcêrto. Dinamene e Ephyre, a quem topára Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão Seus delicados corpos n'ágoa clara; Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa, Destras nos arcos mais que quantas tirão; A linda Daliana, com Belisa, Ambas vindas do Tejo, que como ellas Nenhuma tão formosa as hervas pisa: Todas estas angelicas donzellas, Por o viçoso monte alegres hião, Quaes no ceo largo as nitidas estrellas. Mas dous sylvestres deoses, que trazião O pensamento em duas occupado, A quem de longe mais que a si querião, Não lhes ficava monte, valle ou prado, Nem árvore, por onde quer que andavão, Que não soubesse delles seu cuidado. Quantas vezes os rios, que passavão, Detiverão seu curso ouvindo os danos, Que aos proprios duros montes magoavão! Quantas vezes amor de tantos anos Abrandára qualquer vontade isenta, Se em Nymphas corações houvesse humanos! Mas quem de seu cuidado se contenta, Offereça de longe a paciencia; Que Amor d'alegres mágoas se sustenta. Que o moço Idalio quiz nesta sciencia Que se compadecessem dous contrários. Diga-o quem tiver delle experiencia. Indo os deoses, emfim, por montes varios Exercitando os olhos saudosos, Ao crystallino rio tributarios; Topárão dos pés alvos e mimosos As pizadas na terra conhecidas, As quaes forão seguindo pressurosos. Mas, encontrando as Nymphas que despidas Na clara fonte estavão, não cuidando Que d'alguem fossem vistas ou sentidas, Deixárão-se estar quedos, contemplando As feições nunca vistas, de maneira Que vissem, sem ser vistos, espreitando. Porém a espessa mata, mensageira Da cilada dos dous, com o rugido Dos raminhos d'huma aspera aveleira, Manifestando claro o escondido, Todas huma alta grita levantárão, Que o monte pareceo ser destruido. Assi despidas logo se lançárão Por a espessura tão ligeiramente, Que mais que o proprio vento então voárão. Qual o bando das pombas quando sente A rapida aguia, cuja vista pura Não obedece ao sol resplandecente; Empresta-lhe o temor da mortedura Nas azas novo alento; e, não parando, Veloz rompendo o ar fugir procura: Dest'arte as deosas timidas, deixando De seu despôjo os ramos carregados, Nuas por entre as sylvas vão voando. Mas os amantes ja desesperados, Que para as alcançar, emfim, se vião Nada dos pés caprinos ajudados; Com amorosos brados as seguião. Hum só (que o outro ainda não tomava Folego algum da pressa que trazião) Desta sorte sentido se queixava: SATYRO PRIMEIRO. Ah Nymphas fugitivas, Que só por não usar humanidade Os perigos dos matos não temeis! Para que sois esquivas? Qu'inda de nós não peço piedade, Mas dessas alvas carnes, que offendeis. Ah Nymphas! não vereis Que Eurydice, fugindo dessa sorte, Fugio do amante, e não da fera morte? Tambem assi Eperie foi mordida Da vibora escondida. Olhae a serpe occulta na herva verde. Quem o rigor não perde, perde a vida. Que tigre, ou que leão, Que peçonhenta fera venenosa, Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo? D'hum brando coração, Que preso dessa vista rigorosa De si para vós foge, andais fugindo? Olhae que em gesto lindo Não se consente peito tão disforme; Se não quereis que tudo se conforme. Posto que bellas n'ágoa vos vejais, Á fonte não creais, Que vos traz enganadas por vingança Desta nossa esperança, que enganais. Mas ah! que não consinto Que nem palavra minha vos offenda, Postoque me desculpe a mágoa pura. Digo, Nymphas, que minto: Pois mal póde haver nunca quem pretenda Negar-vos essa rara formosura. Se amor de tanta dura Por tanto mal tão pouco bem merece, Não estranheis, minh'alma se endoudece: Que se doudices falla d'improviso Sem tento e sem aviso, Queira Deos, que dureza tão crescida Me não prive da vida além do siso. Cousas grandes e estranhas Por o mundo t[~e]e feito e faz natura, Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão. Nas Libycas montanhas As Scitales são feras, de pintura Tão singular, que só co'a vista encantão. As hienas levantão A voz tão natural á voz humana, Que a quem as ouve, facilmente engana. E vós (ó gentis feras) cujo aspeito O mundo t[~e]e sujeito, Tendes de natureza juntamente A vista e voz de gente, e fero o peito. Das amorosas leis, Com que liga natura os corações, Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura? Como? E não vos correis D'haver em vós tão duras condições, Que possão mais que a próvida natura? Se vossa formosura He sobrenatural, não he forçado Que assi tenha tambem o peito irado: Antes ao puro Amor, em cuja mão Os corações estão, Por vossa gentileza tão formosa Lhe deveis amorosa condição. Amor he hum brando affeito, Que Deos no mundo poz e a natureza, Para augmentar as cousas que creou. De Amor está sugeito Tudo quanto possue a redondeza: Nada sem este affecto se gerou. Por elle conservou A causa principal o mundo amado, Donde o pae famulento foi deitado. As cousas elle as ata e as confórma Com o mundo, e reforma A materia. Quem ha que não o veja? Quanto meu mal deseja sempre fórma. Entre as plantas do prado Não ha machos e femias conhecidas, Que junto huma da outra permanece? Não estão carregados Os ulmeiros das vides retorcidas, Onde o cacho enforcado amadurece? Não vêdes que padece Tanta tristeza a rôla por a morte Da sua amada e unica consorte? Pois lá no Olympo, a quantos captivou Cupido e maltratou? Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella, Que ja na sua téla o debuxou. Ah caso grande e grave! Ah peitos de diamante fabricados, E das leis absolutos naturais! Aquelle amor suave, Aquelle poder alto, que forçados Os deoses obedecem, desprezais? Pois quero que saibais, Que contra o fero Amor nunca houve escudo: Costume he seu tomar vingança em tudo. Eu vos verei lançar em hum momento Suspiros mil ao vento, Lagrimas, triste pranto e nova dor Por quem tenha outro amor no pensamento. Mais quizera dizer O desditoso amante, que ajudado Se via então da mágoa e da tristeza; Mas foi-lho defender O outro companheiro, como irado Com tão disforme e aspera dureza. Aquillo que a rudeza D'huma sciencia agreste lh'ensinára, Disse, qual se em tal ponto despertára D'horrendo sonho com pezado grito. O mais que alli foi dito, Vós, montes, o direis, e vós penedos; Qu'em vossos arvoredos anda escrito. SATYRO SEGUNDO. Nem vós nascidas sois de gente humana, Nem foi humano o leite que mamastes, Mas de alguma disforme fera Hyrcana: Lá no Caucaso horrendo vos criastes: Daqui trouxestes a aspereza insana; Daqui os calidos peitos congelastes. Sois Esphinges nos gestos naturais, Que de humanas os rostos só mostrais. Se vós fostes criadas na espessura, Onde não houve cousa que se achasse, Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura, Qu'em seu passado tempo não amasse, Nem a quem a affeição suave e pura Nessa presente fórma não mudasse; Porque não deixareis tambem memoria De vós em namorada e longa historia? Olhae como, na Arcadia soterrando O namorado Alpheo su'ágoa clara, Lá na ardente Sicilia vai buscando Por debaixo do mar a Nympha chara. Assi tambem vereis passar nadando Atys, que Galatêa tanto amára, Por onde do Cyclopea grande mágoa Converteo do mancebo o sangue em ágoa. Virae os olhos, Nymphas, á Erycina Espessura; vereis alli mudar-se Egeria, e em fonte clara e crystallina Por a morte de Numa distillar-se. Olhae que a triste Byblis vos ensina, Com perder-se de todo e transformar-se Em lagrimas, qu'emfim puderão tanto, Que accrescentarão sempre o verde manto. E s'entre as claras ágoas houve amores, Os penedos tambem forão perdidos. Olhae os dous conformes amadores Lá no monte Ida em pedra convertidos: Lethêa, por cahir em vãos errores De sua formosura procedidos; Oleno, porque a culpa em si tomava, Por escusar a pena a quem amava. Tomae exemplo, e vêde em Cypro aquella, Por quem Iphis no laço poz a vida. Tambem vereis em pedra a Nympha bella, Cuja voz foi por Juno consumida, E, se queixar-se quer de sua estrella, A voz extrema só lhe he concedida. E tu tambem, ó Daphnis, que trouxeste Primeiro ao monte o doce verso agreste! Tamanho amor lhe tinha a branda amiga, Que em inimiga, emfim, se foi tornando: Porque outra Nympha estranha ja o sogiga, Suas magicas hervas vai buscando. Olhae a quanto a crua dor obriga! Por vingar-se, assi irada transformando O foi em pedra. Oh dura confusão! Despois lhe pezaria; mas em vão. Olhae, Nymphas, as árvores alçadas, A cuja sombra andais colhendo flores, Como em seu tempo forão namoradas; Do qu'inda agora o tronco sente as dores. Vereis, entre as de fructo matizadas, Como a côr das amoras he de amores: O sangue dos amantes na verdura Testimunha de Tisbe a sepultura. E lá por a odorifera Sabêa Não vêdes que de lagrimas daquella, Que com seu pae se junta e se recrêa, Arabia s'enriquece, e vive della? Lembrai-vos da verde árvore Penêa, Que foi ja n'outro tempo Nympha bella, E Cyparisso angelico mancebo; Ambos verdes com lagrimas de Phebo. De Phrygia vêde o moço delicado No mais alto arvoredo convertido, Que tantas vezes fere o vento irado; Galardão de seus erros merecido: Pois, da alta Berecynthia sendo amado, Por huma Nympha baixa foi perdido; E a deosa, a quem perdeo do pensamento, Quiz que tambem perdesse o entendimento. O subito furor lhe figurava Que as árvores e os montes se cahião; Ja dos pudicos membros se privava, Que os horrores a tanto o constrangião; Ja indignado no monte se lançava: De sua morte as feras se doião. Dest'arte perdeo Atys na espessura, Despois de tantas perdas, a figura. Lembre-vos quando as gentes celebravão Em Grecia as grandes festas de Liêo, Onde as formosas Nymphas se juntavão, E os sacros moradores do Licêo. Todos em doce somno se occupavão Por o monte, despois que anoiteceo; Mas o deos do Hellesponto não dormia; Que hum novo amor o somno lh'impedia. Mas ella emfim, os braços estendendo, Em ramos se lhe forão transformando; Em raizes os pés se vão torcendo; E o nome Loto só lhe vai ficando. Vêde, Napêas, este caso horrendo, Que vos está de longe ameaçando. Assi tambem daquella, a quem seguia O sacro Pan, a fórma se perdia. Que vos direi de Filis, pois perdida Da saudosa dor com que vivia, Á desesperação emfim trazida Do comprido esperar de dia em dia, Por desatar do corpo a triste vida Atava ao collo a cinta que trazia. Mas o tronco sem fôlha por o monte Rhodope abraça o lento Demophonte. Nas boninas, tambem vereis Jacinto, Porquem Phebo de si se queixa em vão; Vereis o monte Idalio em sangue tinto Do neto de seu pae, da mãe irmão. Chora Venus a dor do moço extinto, Maldiz o ceo e a terra, com razão; A terra, porque logo não se abrio; O ceo, porque tal morte permittio. E tu, constante Clycie, a quem fallece A fé de teus amores enganosos, No louro amante, que de ti s'esquece, S'esquecem os teus olhos saudosos. Nenhum alegre estado permanece; Que são do mundo os gostos mentirosos; E á tua clara luz, por quem suspiras, Ainda agora em herva os olhos víras. Trago-vos estas cousas á lembrança, Porque s'estranhe mais vossa crueza Com ver que a criação e longa usança Vos não perverte e muda a natureza. Dou as lagrimas minhas em fiança, Qu'em tudo quanto está na redondeza, Cousa d'Amor isenta, se attentais, Em quanto vos não virdes, não vejais. Ja disse, que d'Amor sempre tiverão As cousas insensiveis pena e gloria. Vêde as sensiveis como se perdêrão. E dir-vos-hei das aves larga historia: As penas, qu'em su'alma se soffrêrão, Nas azas lhes ficárão por memoria; E aquelle altivo e leve movimento Lhes ficou do voar do pensamento. O doce rouxinol e a andorinha, Donde lhes veio o ir-se transformando, Senão do puro amor que o Thracio tinha, Qu'em poupa ainda a amada vai chamando? Clama sem culpa a misera avezinha, Que n'areia de Phasis habitando, Do rio toma o nome; e quando clama, Cruel á mãe, ao pae injusto chama. Vêde a que engeitou Pallas por fallar, (Que dos amores he maior defeito) E aquella, que succede em seu lugar, Ambas aves; de amor usado effeito; Huma, porque fugia ao deos do mar; Outra, porque tentára o patrio leito: E Scylla, que a seu pae poz em perigo, Só por ser muito amiga do inimigo. E Pico, a quem ficárão inda as côres Da purpura Real, que antes vestia; Esaco, que o seguir de seus amores O trouxe a ver tão cedo o extremo dia: Ou vêde os dous tão firmes amadores, Que amor aves tornou na praia fria. Do Rei dos ventos era genro o triste; Mas contra o fado, emfim, nada resiste. Estava a triste Halcyone, esperando Com longos olhos o marido ausente; Mas os ventos indomitos soprando, Nas ágoas o affogárão tristemente. Em sonhos se lh'está representando; Que o coração preságo nunca mente: Só do bem as suspeitas mentirão, Mas as do mal futuro certas são. Ao pranto os olhos seus a triste ensaia; Buscando o mar com elles hia e vinha: Quando o corpo sem alma achou na praia. Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha! Ó Nereidas do Egêo, consolai-a, Pois este pio officio vos convinha. Consolai-a; sahi das vossas ágoas; Se consolação ha em grandes mágoas. Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando Das avezinhas mansas e amorosas? Pois tambem teve Amor natural mando Entr'as feras montezes venenosas. O leão e a leoa, como, ou quando Taes formas alcançárão temerosas? Sabe-o da deosa Dindymene o templo, E a que a Adonis o dava por exemplo. Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia; Mas o grão Nilo o diga, pois a adora. Que fórma teve á Ursa, saber-se-hia Do Pólo Boreal, onde ella mora. O caso d'Acteon tambem diria Em cervo transformado; e melhor fôra Se dos olhos perdêra a vista pura, Que em seus galgos achar a sepultura. Tudo isto Acteon vio na fonte clara, Onde a si d'improviso em cervo vio: Que quem assi dest'arte alli o topára, Que se mudasse em cervo permittio. Mas, como o triste Principe em si achára A desusada fórma, se partio. Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando; E, tendo-o alli presente, o vão buscando. Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava; Que a voz humana ja perdida tinha. Qualquer delles por elle então chamava, E a multidão dos cães contr'elle vinha. Hum cervo acude a ver (qualquer gritava) Acteon, donde estás? acude asinha, Que tardar tanto he este? (repetia) _He este, he este_, o eco respondia. Quantas cousas em vão estou fallando (Oh Napêas esquivas!) sem que veja O peito de diamante hum pouco brando De quem meu damno tanto só deseja. Pois, por mais que de mi me andais tirando, E por mais longa emfim que a vida seja, Nunca em mi se verá tamanha dor, Que Amor a não converta em mais amor. Aqui (formosas Nymphas) vos pintei Todo d'amores hum jardim suave; D'ágoas, de pedras, d'árvores contei, De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave. Se este amor, que no peito aposentei, Que dos contentamentos t[~e]e a chave, Por dita em tempo algum determinasse Que de tão longos damnos vos pezasse, Quanto mais devagar vos contaria De minha larga historia e não alheia? E com quanta mais ágoa regaria, Que o rio, de contente, a branca areia? Novo contentamento me seria Formar de meu cuidado a nova ideia: E vós, gostando deste estado ufano, Zombarieis então de vosso engano. Mas com quem fallo ja? que estou gritando, Pois não ha nos penedos sentimento? Ao vento estou palavras espalhando; A quem as digo, corre mais que o vento. A voz e a vida a dor m'está tirando, E o tempo não me tira o pensamento. Direi, emfim, ás duras esquivanças Que só na morte tenho as esperanças. Aqui, sentido, o Satyro acabou, Com huns soluços que a alma lhe arrancavão. Os montes insensiveis, que abalou, Nas ultimas respostas o ajudavão. Então Phebo nas ágoas se encerrou Co'os animaes que o mundo allumiavão; E co'o luzente gado appareceo A candida pastora por o ceo.

ECLOGA VIII.

PISCATORIA.

_Sereno._

Arde por Galatêa branca e loura Sereno pescador pobre, forçado D'huma estrella, que quer á míngoa moura. Os outros pescadores t[~e]e lançado No Tejo as redes: elle só fazia Este queixume ao vento descuidado: Quando virá (formosa Nympha) hum dia, Em que te possa dar a conta estreita Desta doudice triste e vãa porfia? Não vês, que me foge a alma e que m'engeita, Buscando em hum só riso d'essa boca, Nos teus olhos azues mansa colheita? Se ao teu esprito alg[~u]a mágoa toca, Se d'amor fica nelle huma pégada, Que te vai, Galatêa, nesta troca? Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada: Não ta demandarei: dá-me por ella Huma só volta d'olhos descuidada. Se muito te parece, e minha estrella Não consentir ventura tão ditosa, Dou-te as azas do Amor perdidas nella. Que mais te posso dar, Nympha formosa, Inda que o mar d'aljofar me cubríra Toda esta praia leda e graciosa? Amansão-se ondas, quebra o vento a ira: Minha tormenta só nunca socega; O meu peito arde em vão, em vão suspira. Anda no romper d'alva a nevoa cega Sôbre os montes d'Arrabida viçosos, Em quanto o solar raio lhes não chega. Eu, vendo apparecer outros formosos Raios, que a graça e côr ao ceo roubárão, Se os olhos cegos vi, vejo saudosos. Quantas vezes as ondas se encrespárão Com meus suspiros! quantas com meu pranto As fiz parar de mágoa e me escutárão! Se na fôrça da dor a voz levanto, E ao som do remo, que ágoa vai ferindo, Perante a lua meu cuidado canto; Os maviosos delfins m'estão ouvindo; A noite socegada; o mar callado: Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo. Estranhas, por ventura, o mar cercado Da fraca rede; a barca ao vento solta; E hum pobre pescador aqui lançado? Antes que o sol no ceo cerre huma volta Se póde melhorar minha ventura, Como a outros succede, n'ágoa envolta. Igual preço não he da formosura D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia, Mas hum amor, que para sempre dura. Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia; Verás teu nome na mimosa areia. Nunca sôbre elle o mar com furia saia! Vento algum atégora o não salteia: Tres dias ha que escripto aqui o deixou Amor, e o veda a toda fôrça alheia. Elle com suas mãos proprio ajudou A escolher estas conchas, affirmando Que o sol para ti só as matizou. Hum ramo te colhi de coral brando: Antes que o ar lhe désse, parecia O que de tua boca estou cuidando. Ditoso se o soubesse inda algum dia!

ECLOGA IX.

PISCATORIA.

_Palemo._