Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 17
A rustica contenda desusada Entr'as Musas dos bosques, das areias, De seus rudos cultores modulada; A cujo som attonitas e alheias Do monte as brancas vaccas estiverão, E do rio as saxatiles lampreias; Desejo de cantar. Que se movêrão Os troncos ás avenas dos pastores, E ja sylvestres brutos suspendêrão. Não menos o cantar dos pescadores As ondas amansou do fundo pégo, E fez ouvir os mudos nadadores. E se por sustentar-se o moço cego Nos trabalhos agrestes a alma inflama, O que he mais proprio no ocio e no socêgo; Mais maravilhas dando á voz da fama, No mesmo mar undoso e vento frio Brazas roxas accende a roxa flama. Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio, Cuja frondente coma ja cobrio De Luso todo o gado e senhorio; E cujo são madeiro ja sahio A lançar a forçosa e larga rede No mais remoto mar que o mundo vio; E vós, cujo valor tão alto excede, Que, a cantá-lo com voz alta e divina, A fonte do Parnaso move a sêde; Ouvi da minha humilde çanfonina A harmonia, que vós ja levantais Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina. Mas se agora que affabil m'escutais, Não ouvirdes cantar com alta tuba O que vos deve o mundo, que dourais; E se os Reis avós vossos, que de Juba Os Reinos debellárão, não ouvis Que nas azas do excelso verso suba; Se não sabem as frautas pastoris Pintar de Toro os campos semeados D'armas e corpos fortes e gentis; Por hum Moço animoso sustentados, Contra o indomito Rei de toda Hespanha, Contra a fortuna vãa e injustos fados: Hum Moço, cujo esfôrço, brio e manha, Do Olympo fez descer o duro Marte, E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha; Se não sabem cantar a menor parte Do sapiente peito e grão conselho, Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te; Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho, Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas, Porque a elle se affeitem como a espelho; Saberão bem cantar, em nada vãas, D'Alicuto as contendas e d'Agrario; Hum d'escamas coberto, outro de lãas. Vereis, Duque sereno, o estylo vário, A nós novo, mas n'outro mar cantado De hum, que só foi das Musas secretario: O pescador Sincero, que amansado T[~e]e o pégo de Prochyta co'o canto Por as sonoras ondas compassado. Deste seguindo o som, que póde tanto, E misturando o antigo Mantuano, Façamos novo estylo, novo espanto. Partira-se do monte Agrario insano Para onde a fôrça só do pensamento Lh'encaminhava o lasso pêzo humano. Embebido em hum longo esquecimento De si, e do seu gado e pobre fato, Apos hum doce sonho e fingimento, Rompendo as sylvas horridas do mato, Vai por cima d'outeiros e penedos, Fugindo, emfim, de todo humano trato. Ante os seus olhos leva os olhos ledos Da branca Dinamene, qu'enverdece Só co'o meneo valles e rochedos. Ora se ri comsigo, quando tece Na phantasia algum prazer fingido; Ora falla; ora mudo s'entristece. Qual a tenra novilha, que corrido T[~e]e montanhas fragosas e espessuras, Por buscar o cornigero marido; E cansada nas humidas verduras Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro, Ja quando as sombras vem cahindo escuras; E nem co'a noite ao valle seu primeiro Se lembra de tornar, como sohia, Perdida por o bruto companheiro: Tal Agrario chegado, emfim, se via Onde o grão pégo horrisono suspira N'huma praia arenosa, humida e fria. Tanto que ao mar estranho os olhos vira, Tornando em si, de longe ouvio tocar-se De douta mão não vista e nova lira. Fez-lhe o som desusado desviar-se Para onde mais soava, desejando D'ouvir e conversar, e de provar-se. Muito não tinha proseguido, quando Em a concavidade d'hum penedo, Que pouco a pouco fôra o mar cavando, Topou hum pescador, que prompto e quedo, N'huma pedra assentado, brandamente Tangendo, faz o mar sereno e ledo. Mancebo era d'idade florecente, Pescador grande do alto, conhecido Por o nome de toda humida gente: Alicuto se chama: que perdido Era por a formosa Lemnoria; Nympha que t[~e]e o mar ennobrecido. Por ella as redes lança noite e dia; Por ella as ondas tumidas despreza; Por ella soffre o sol e a chuva fria. Co'o seu nome mil vezes a braveza D'irados ventos amansou co'o verso, Que remove das rochas a dureza. E agora em som de voz, suave e terso, Está seu nome aos ecos ensinando Por estylo do agreste som diverso. Ouvindo Agrario, attonito, affroxando Da phantasia hum pouco seu cuidado, Suspenso esteve os numeros notando. Mas Alicuto, vendo-se estorvado Por hum pastor da musica divina, O rosto levantou bem socegado, E disse assi: Vaqueiro da campina, Que vens buscar ás arenosas praias, Onde a bella Amphitrite só domina? Que razão ha, pastor, para que saias A este nosso escamoso e vil terreno Dos teus floridos myrtos e altas faias? Pois s'agora o mar vês brando e sereno, E estender-se estas ondas por a areia, Amansadas das mágoas, com que peno, Logo verás o como desenfreia Eolo o vento por o mar undoso, De sorte que Neptuno se receia. Responde Agrario: Oh musico e amoroso Pescador! eu não venho a ver o lago Bravo e quieto, ou vento brando e iroso; Mas o meu pensamento, com que apago As flammas ao desejo, me trazia Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago: Até que a tua angelica harmonia M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas A tua perigosa Lemnoria. Mas se de ver-me cá no mar t'espantas, Eu m'espanto tambem do estylo novo Com que as ondas horrisonas quebrantas. Porém se com verdade o louvo e approvo, Desejo de o provar contra o sylvestre Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo. E tu, que no tocar pareces mestre, Bem julgarás se ha clara differença Entr'o canto maritimo e o campestre. Não ha (disse Alicuto) em mi detença: Alvorôço antes ha, por mais que veja Que a tua confiança só me vença. Mas, porque saibas que nenhuma inveja Os pescadores temos aos pastores Do som que pelo mundo se deseja, Toma a lyra na mão, que os moradores Do vitreo fundo vendo estou juntar-se Para ouvir nossos rusticos amores. Bem vês por essa praia presentar-se Nas conchas vária côr á vista humana; E o mar vir por entr'ellas e tornar-se. Socegada do vento a furia insana, Encrespa brandamente o ameno rio, Que seu licor aqui mistura e dana. Estepenedo concavo e sombrio, Que de cangrejos ves estar coberto, Nos dá abrigo do sol, quieto e frio. Tudo nos mostra, emfim, repouso certo, E nos convida ao canto, com que os mudos Peixes sahem ouvindo ao ar aberto. Assi se desafião estes rudos Poetas, nos officios discrepantes; Nos engenhos porém subtis e agudos. Eis ja mil companheiros circumstantes Estavão para ouvir, e apparelhavão Ao vencedor os premios semelhantes. As bem sonantes lyras se tocavão; Agrario começava, e da harmonia Os pescadores todos s'admiravão; E dest'arte Alicuto respondia. AGRARIO. Vós semicapros deoses do alto monte, Faunos longevos, Satyros, Sylvanos; E vós, deosas do bosque e clara fonte, E dos troncos que vivem largos anos; Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte A nossos versos rusticos e humanos, Ou me dae ja a capella de loureiro, Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro. ALICUTO. Vós humidas deidades deste pégo, Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo; Vós, Nereidas do sal em que navego, Por quem do vento as furias pouco temo; Se ás vossas sacras aras nunca nego O congro nadador na pá do remo, Não consintais, que a musica marinha Vencida seja aqui na lyra minha. AGRARIO. Pastor se fez hum tempo o moço louro, Que do sol as carretas move e guia; Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro, Que o seu claro inventor alli tangia. Io foi vacca; Jupiter foi touro: Mansas ovelhas junto d'ágoa fria Guardou formoso Adonis; e tornado Em bezerro Neptuno foi ja achado. ALICUTO. Pescador ja foi Glauco, e deos agora He do mar; e Protêo Phocas guarda. Nasceo no pégo a deosa, que he senhora Do amoroso prazer, que sempre tarda. Se foi bezerro o deos, que cá se adora, Tambem ja foi delfim. Se se resguarda, Vê-se que os moços pescadores erão, Que o escuro enigma ao primo Vate derão. AGRARIO. Formosa Dinamene, se dos ninhos Os implumes penhores ja furtei Á doce Philomela; e dos murtinhos Para ti (fera!) as flores apanhei; E se os crespos madronhos nos raminhos Com tanto gôsto ja te presentei, Porque não dás a Agrario desditoso Hum só revolver d'olhos piedoso? ALICUTO. Para quem trago d'ágoa em vaso cavo Os curvos camarões vivos saltando? Para quem as conchinhas ruivas cavo Na praia, os brancos buzios apanhando? Para quem de mergulho no mar bravo Os ramos de coral vou arrancando, Senão para a formosa Lemnoria, Que co'hum só riso a vida me daria? AGRARIO. Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno, D'atras nuvens vestido, horrido e feio, Ennegrecendo á vista o ceo superno, Quando os troncos arranca o rio cheio; Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno, Que ao mundo mostra hum pallido receio: Tal o amor he cioso, a quem suspeita Que outrem de seus trabalhos se aproveita. ALICUTO. Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante Furor lançando flammas e bramidos, Quando as pasmosas serras traz diante, Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos: A braços derribando o ja nutante Mundo, co'os elementos destruidos: Assi me representa a phantasia A desesperação de ver hum dia. AGRARIO. Minha alva Dinamene, a primavera, Que os deleitosos campos pinta e veste, E rindo-se huma côr aos olhos gera, Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste; As aves, as boninas, a verde hera, E toda a formosura amena agreste Não he para os meus olhos tão formosa, Como a tua, que abate o lirio e rosa. ALICUTO. As conchinhas da praia, que presentão A côr das nuvens, quando nasce o dia; O canto das Sirenas, que adormentão; A tinta, que no Murice se cria; O navegar por ondas, que se assentão Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria, Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me. AGRARIO. A deosa, que na Lybica lagôa Em fórma virginal appareceo, Cujo nome tomou, que tanto sôa, Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo: Garços os t[~e]e; mas huma, que a corôa Das formosas do campo mereceo, Da côr do campo os mostra graciosos. Quem diz, que não são estes os formosos? ALICUTO. Perdoem-me as deidades; mas tu, diva, Que no liquido marmore es gerada, A luz dos olhos teus, celeste e viva, T[~e]es por vício amoroso atravessada: Nós petos lhe chamâmos; mas quem priva De luz o dia, baixa e socegada Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego; E com toda esta luz sempre estou cego. Assi cantavão ambos os cultores Do monte e praia, quando os atalhárão; A hum pastores, a outro pescadores. E quaesquer a seu Vate coroárão De capellas idoneas e formosas, Que as Nymphas lhes tecêrão e ordenárão: A Agrario de murtinhos e de rosas; A Alicuto d'hum fio de torcidos Buzios, e conchas ruivas e lustrosas. Estavão n'ágoa os peixes embebidos Com as cabeças fóra; e quasi em terra Os musicos delfins estão perdidos. Julgavão os pastores que na serra O cume e preço está do antigo canto; Que quem o nega, contra as Musas erra. Dizem os pescadores que outro tanto T[~e]e na sonora frauta, quanto teve O monte pastoril da antigua Manto. Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve Molhava n'ágoa amara, e compellia A recolher a roxa tarde e breve: E foi fim da contenda o fim do dia.
ECLOGA VII.
INTERLOCUTORES.
SATYRO I. SATYRO II.