Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 16

Chapter 162,123 wordsPublic domain

A quem darei queixumes namorados Do meu pastor queixoso e namorado? A branda voz, suspiros magoados, A causa porque n'alma he magoado? De quem serão seus males consolados? Quem lhe fara devido gasalhado? Só vós, Senhor famoso e excellente, Especial em graças entr'a gente. Por partes mil lançando a phantasia, Busquei na terra estrella, que guiasse Meu rudo verso; em cuja companhia A santa piedade sempre andasse Luzente e clara, como a luz do dia, Que o rudo engenho meu m'allumiasse; E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo Ainda além cumprido o meu desejo. A vós se dem, a quem junto se ha dado Brandura, mansidão, engenho e arte, D'hum esprito divino acompanhado, Dos sobrehumanos hum em toda parte: Em vós as graças todas se hão juntado; De vós em outras partes se reparte. Sois claro raio, sois ardente chama; Gloria e louvor do tempo, azas da fama. Em quanto eu apparelho hum novo esprito, E voz de cysne tal, que o mundo espante, Com que de vós, Senhor, em alto grito Louvores mil em toda parte cante; Ouvi o canto agreste em tronco escrito, Entre vaccas e gado petulante: Que quando tempo for, em melhor modo Ha de m'ouvir por vós o mundo todo. As vãas querellas, brandas e amorosas, Sejão de vós tratadas brandamente; Verdades d'alma pouco venturosas, Sahidas com suspiro vivo e ardente: Em vossas mãos s'entregão valerosas, Porqu'ao futuro vivão entr'a gente, Chorando sempre a antigua crueldade, Para mover as almas a piedade. Ja declinava o sol contra o Oriente, E o mais do dia ja era passado, Quando o pastor co'o grave mal que sente, Por dar allívio em parte a seu cuidado, Se queixa da pastora docemente, Cuidando de ninguem ser escutado. Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia As mágoas que cantou; e assi dizia: Ou tu do monte Pindaso es nascida, Ou marmor te pario formosa e dura: Não póde ser que fosse concebida Dureza tal de humana creatura: Ou quiçá qu'es em pedra convertida, Ou tens da natureza tal ventura; Porém não fez em ti boa impressão, Só de marmor tornar-te o coração. Ja, ja com minha voz rouca e chorosa A gente mais austera moveria; E com esta corrente lagrimosa Os tigres em Hyrcania amansaria. Se não fosses cruel, quanto formosa, Meu longo suspirar t'abrandaria: Mas suspirar por ti, mas bem querer-te, Que fazem senão mais endurecer-te? Se deixáras vencer a crueldade De tua tão perfeita formosura; Hum pouco víras bem minha vontade, E víras a fé minha, limpa e pura, Por ventura, que houveras ja piedade, E tivera eu quiçá melhor ventura: Mas nunca achou igual tua belleza, Se não se foi em ti tua dureza. Ja hum peito abrandára, que não sente, Este meu grave mal, segundo he forte; Se descêra do inferno ao Polo ardente, A piedade movêra a propria morte. Pois se huma gotta d'agua brandamente Torna brando hum penedo, duro e forte, Tantas lagrimas minhas não farão Hum pequeno sinal n'hum coração? Na testa fonte viva tenho d'ágoa, Que por meus olhos tristes se derrama; E no peito de fogo viva fragoa, Que tudo em si converte, tudo inflama: Amor em de redor, por maior mágoa, Voando mais accende a ardente chama. Se queres ver se ardentes são seus tiros, Ólha se são ardentes meus suspiros. Quando grita e rumor grande se sente, Porque fogo se ateia em casa, ou torre, De pura compaixão vai toda a gente, Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre. Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente, E com a ágoa dos olhos se soccorre; Que quem me abraza, outra ágoa me defende, Porque com esta o fogo mais se accende. Quando vemos que sahe lá no Oriente O sol, seu curso antigo começando, Formoso, intenso, puro, refulgente, O monte, o campo, o mar, tudo alegrando; Quando de nós s'esconde no Ponente, E em outras terras sahe, allumiando, Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro, Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro. Caminha o dia todo o caminhante, E, emfim, lhe chega a noite, em que descança; Trabalha na tormenta o navegante, Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança; Recobra o fructo fertil e abundante Da terra o lavrador, se nella cança: Mas eu de meu cuidado e mal tão forte Tormento espero só, só crua morte. D'ouvir meu damno as rosas matutinas, Condoidas se cerrão, s'emmurchecem; Com meu suspiro ardente as côres finas Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem. Co'a roxa aurora as pallidas boninas, Em vez de se alegrarem, s'entristecem: Deixão seu canto Progne e Philomena; Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena. Responde o monte concavo a meus ais, E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido; Os indomitos feros animais, Sem humano sentir, mostrão sentido: Mas em ti minhas dores desiguais Nunca movem o peito endurecido: Por muito que te chame, não respondes; E quanto mais te busco, mais t'escondes. Naquella parte donde costumavas Apascentar meus olhos e teu gado; Alli donde mil vezes me mostravas, Qu'era o pastor de ti mais desejado, Vezes mil te busquei, por ver se davas Algum breve descanso a meu cuidado. Busco-te em vão no valle, em vão no monte, Qual o ferido cervo busca a fonte. Este lugar de ti desamparado, Com cujas sombras frias ja folgaste, Agora triste, escuro he ja tornado; Que todo o bem comtigo nos levaste. Eras tu nosso sol mais desejado; Não temos luz, despois que nos deixaste. Torna, meu claro sol; torna, meu bem: Qual he o Josué que te detém? Despois que deste valle t'apartaste, Não pasce ja algum gado, com seccura; Seccou-se o campo, des que lhe negaste Dos teus formosos olhos a luz pura; Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste, Quando menos, que agora, aspera e dura; Nega sem ti a terra, ouvindo gritos, Ás cabras pasto e leite a os cabritos. Sem ti, doce cruel minha inimiga, A clara luz, escura me parece: Este ribeiro, quando a dor m'obriga, Com meu chorar por ti contino crece. Não ha fera, a que a fome não persiga; Algum prado sem ti ja não florece: Cegos estão meus olhos; nada vem, Porque não podem ver seu claro bem. O campo, como d'antes, não s'esmalta De boninas azues, brancas, vermelhas; Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta As candidas pacíficas ovelhas: Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta As doces e solícitas abelhas: Com lagrimas, que manão dos meus olhos, A terra nos produz duros abrolhos. Torna pois ja, pastora, ao nosso prado, Se restituir-lhe queres a alegria: Alegrarás o valle, o campo, o gado, E aquelle espelho teu da fonte fria. Torna, torna, meu sol tão desejado, Faras a noite escura, claro dia; E alegra ja esta vida magoada, Em que só tua ausencia he Parca irada. Vem, como quando o raio transparente Deste nosso horizonte, qu'escondido, Deixa hum certo temor á mortal gente, Causado de ver o Orbe escurecido; E quando torna a vir claro e luzente, Alegra o mundo todo entristecido: Que assi he para mi tua luz pura Claro sol, como a ausencia noite escura. Mas tu 'squecida ja do bem passado, E do primeiro amor, que me mostraste, Teu coração de mi t[~e]es apartado, Não menos que do valle t'apartaste. Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado? Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste? Onde o meu êrro viste, ou desvario, Que pôde merecer-te hum tal desvio? Bem vês que por Amor se move tudo, E que delle não ha quem seja isento; O mais simple animal, mais baixo e rudo, O demais levantado pensamento: Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo Tambem lá t[~e]e d'ardor seu movimento. Pois as aves, que no ar cantando vôão, Não menos humas d'outras s'affeiçôão. A musica do leve passarinho Que sem concêrto algum sólta e derrama, De hum raminho saltando a outro raminho, Mostra que por amor suspira e chama. Em quanto no secreto amado ninho Não acha aquelle, que só busca e ama, No canto, a nós alegre, triste chora, Porque teme perder a quem namora. A fera, que he mais fera, e o leão, Sempre acha outro leão, sempre outra fera, Em quem possa empregar huma affeição, Que o conversar no peito seu lhe gera: Tambem sabe sentir sua paixão, Tambem suspira, morre, desespera; Acena, salta, brada, ferve e geme; E não temendo a nada, a Amor só teme. O cervo, qu'escondido e emboscado, Temendo ao cobiçoso caçador, Está na selva, monte, bosque, ou prado, Alli donde anda e vive, vive amor. De temor e d'amor acompanhado, Com justa causa amor t[~e]e e temor: Temor a quem para feri-lo vinha, Amor a quem ja, ja ferido o tinha. Pois se a fera insensivel, que não sente, Tambem sente d'Amor a frecha dura, Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente, Que procede da tua formosura? Porqu'escondes a luz do sol á gente, Que nesses olhos trazes bella e pura? Mais pura, mais suave, mais formosa, Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa. Póde ser, se me visses, que sentiras Ver liquidar hum peito em triste pranto; E bem pouco fizeras, se me viras, Pois eu só por te ver suspiro tanto: As mágoas, os suspiros, que m'ouviras Te puderão mover a grande espanto, A dor, a piedade, a sentimento, E a mais, que para mais he meu tormento. Os pensamentos vãos, que o vento leve: O suspirar em vão tambem ao vento; Hum esperar á calma, á chuva, á neve, E nunca poder ver-te hum só momento; Tormento he, que somente a ti se deve. E se póde inda haver maior tormento, Quem te vio, e se vê de ti ausente, Muito mais passará mais levemente. Faz mossa a pedra dura em sua dureza Com a ágoa que lhe toca brandamente; Abranda o ferro forte a fortaleza, Se lhe toca tambem o fogo ardente: Em ti só desconheço a natureza; Que, a ser de pedra ou ferro totalmente, Ja teu peito cruel fôra desfeito Das ágoas e das chammas do meu peito. Quando a formosa Aurora mostra a fronte, Alegra toda a terra, vendo o dia; Quando Phebo apparece no horizonte, Manifesta tambem grande alegria; Contente pasce o gado ao pé do monte, Contente a beber vai na fonte fria: Está tudo contente, alegre tudo; Eu só, só pensativo, triste e mudo. Se ja d'alma e do corpo tens a palma, E do corpo sem alma não tens dó, Ha dó do corpo só, qu'está sem alma, Pois sem alma não vive o corpo só. Nas chammas e no ardor, no fogo e calma, Na affeição, no querer eu sou hum só: Não acharás vontade tão captiva; Nem outra como a tua tão esquiva. Se te apartas por não ouvir meu rôgo, Onde estiveres te hei d'importunar: Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo, Comtigo em toda parte m'has d'achar; Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo, Emquanto eu vivo for, hão de durar; Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte, Que não se ha de soltar em vida, ou morte. Neste meu coração sempr'estaras, Emquanto a alma estiver com elle unida: Tambem o meu esprito possuirás Despois que a alma do corpo for partida. Por mais e mais que faças, não faras Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida: Impossivel sera qu'eternamente Ausente estês de mim, estando ausente. Cá m'acompanhará vossa memoria, Se o rio, que se diz do esquecimento, Da minha não borrar tão longa historia, Tão grave mal, tão duro apartamento. Até quando vos veja entrar na gloria, Viverei n'hum contino sentimento: E ainda então vereis (s'isto ser possa) Esta minh'alma lá servir a vossa. Aqui com grave dor, com triste accento, Deo o triste pastor fim a seu canto: Co'o rosto baixo e alto o pensamento, Seus olhos começárão novo pranto: Mil vezes parar fez no ar o vento, E apiedou no ceo o coro santo: As circumstantes sylvas s'inclinárão, Condoidas das mágoas qu'escutárão. Com h[~u]a mão na face, reclinado, Tão enlevado em sua dor estava, Que, como em grave somno sepultado, Não via que ja o sol no mar entrava. Berrando andava em roda o manso gado, Que o seguro curral ja desejava: Nas covas as raposas, e em seus ninhos Se recolhem os simples passarinhos. Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto O mocho com funesto e triste canto: Ao som delle o pastor ergueo o rosto, E vio a terra envolta em negro manto. Quebrando então o fio de seu gôsto, E o fio não quebrando de seu pranto, Por não se descuidar de seu cuidado, Levou para os curraes o manso gado.

ECLOGA VI

INTERLOCUTORES

AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador.