Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 15
Cantando por hum valle docemente Descião dous pastores, quando Phebo No reino Neptunino se escondia: De idade cada qual era mancebo; Mas velho no cuidado, e descontente Do que lh'elle causava parecia. O que cada hum dizia Lamentando seu mal, seu duro fado, Não sou eu tão ousado, Que o pretenda cantar sem vossa ajuda: Porque se a minha ruda Frauta deste favor vosso for dina, Posso escusar a fonte Caballina. Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso; Em vós tenho Calliope e Thalia; E as outras sete irmãas, co'o fero Marte; Em vós deixou Minerva sua valia; Em vós estão os sonhos do Parnaso; Das Pierides em vós s'encerra a arte. Com qualquer pouca parte, Senhora, que me deis d'ajuda vossa Podeis fazer qu'eu possa Escurecer ao sol resplandecente: Podeis fazer que a gente Em mi do grão poder vosso s'espante; E que vossos louvores sempre cante. Podeis fazer que cresça d'hora em hora O nome Lusitano, e faça inveja A Esmirna, que d'Homero s'engrandece. Podeis fazer tambem que o mundo veja Soar na ruda frauta o que a sonora Cithara Mantuana só merece. Ja agora me parece, Que podem começar os meus pastores A cantar seus amores. Porqu'inda que presentes não estejão As qu'elles ver desejão, Mudança de lugar, menos d'estado, Não muda hum coração do seu cuidado. Ja deixava dos montes a altura, E nas salgadas ondas s'escondia O sol, quando Frondoso e Duriano, Ao longo d'hum ribeiro, que corria Por a mais fresca parte da verdura Claro, suave e manso, todo o ano, Lamentando seu dano, Vinhão ja recolhendo o manso gado. Hum estava callado, Em quanto hum pouco o outro se queixava; Apos elle tornava A dizer de seu mal o que sentia; E em quanto este fallava, aquelle ouvia. Vinhão-se assi queixando aos penedos, Aos sylvestres montes e á aspereza, Que quasi de seus males se doião. Alli as pedras perdião a dureza; Alli correntes rios estar quedos, Promptos ás suas queixas, parecião. Somente as que podião Estes males curar, pois os causavão, O ouvido lhes negavão, Por perderem de todo a esperança: Mas elles, que mudança D'amor com tantos damnos não fazião, Com ellas fallando inda, assi dizião: FRONDOSO. Isto he o que aquella verdadeira Fé, com que t'amei sempre, merecia, Sem nunca te deixar hum só momento? Como (cruel Belisa) t'esquecia Hum mal, cuja esperança derradeira Em ti só tinha pôsto o seu assento? Não vias meu tormento? Não vias tu a fé, com que t'amava? Porque não t'abrandava Est'amor, que me tu tão mal pagaste? Mas pois ja me deixaste Co'a esperança de ti toda perdida, Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Se os males que por ti tenho soffrido (Oh Silvana, em meus males tão constante!) Quizesses que algum'hora te dissera; Inda que, qual durissimo diamante, Fôra o teu cruel peito endurecido, Creio que a piedade te movêra. Ja agora em branda cera Os montes são tornados e os penedos; E os rios, qu'estão quedos, Sentírão meus suspiros, minhas queixas. Tu só, cruel, me deixas, Qu'es mais, que montes e penedos, dura, E fugitiva mais qu'a fonte pura. FRONDOSO. Ond'está aquella falla, que sohia Só com seu doce tom, que me chegava, Avivar-me os espiritos cansados? Onde está o olhar brando, que cegava O sol resplandecente ao meio dia? Ond'estão os cabellos delicados, Que ao vento espalhados Escurecião o ouro, a mi matavão; E a quantos os olhavão, Causavão tambem novos accidentes? Porque, cruel, consentes Qu'outro goze da gloria a mi devida? Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Nenhum bem vejo, que a meu mal espere, Se não fosse esperar que morte dura Me venha emfim a dar a saudade. Vejo faltar-me a tua formosura; A vontade me diz que desespere, Contradiz-me a razão esta vontade. Diz qu'em huma beldade, Em quem mostrou o cabo a natureza, Não ha tanta crueza, Qu'hum tão constante amor desprezar queira, E fé tão verdadeira; Mas tu, que de razão jamais curaste, Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste. FRONDOSO. A quem, Belisa ingrata, t'entregaste? A quem déste, cruel, a formosura, Qu'a meu tormento só, só se devia? Porqu'huma fé deixaste, firme e pura? Porque tão sem respeito me trocaste Por quem só nem olhar-te merecia? O bem que t'eu queria, E que não perderei se não por morte, Não he de maior sorte, Que quanto a cega gente estima e preza? Só a tua crueza Foi nisto contra mi endurecida. Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Levaste-me o meu bem n'hum só momento; Levaste-me com elle juntamente De cobrá-lo jamais a confiança: Deixaste-me em lugar delle sómente Huma contínua dor, hum grão tormento, Hum mal, de que não póde haver mudança. Tu, qu'eras a esperança Dos males que, cruel, tu me causaste, De todo te trocaste, Com Amor conjurada em minha morte. Porém se a minha sorte Consente que por ti seja causada, Morte não foi mais bem-aventurada. FRONDOSO. Não nasceste d'alguma pedra dura; Não te gerou alguma Tigre Hyrcana; Não te criaste, não, entre a rudeza, A quem, cruel, sahiste deshumana? No ceo formada foi tal formosura, Onde a mesma brandura he natureza. Pois, logo, essa dureza Donde teve princípio, ou a tomaste? Porque, dura, engeitaste De hum verdadeiro amor, que tu bem vias, A fé, que conhecias, Por outra de ti nunca conhecida? Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Vai-se co'o seu pastor o manso gado, Porque d'amor entende aquella parte, Qu'a natureza irracional lh'ensina. O rustico leão sem algum'arte, Do natural instincto só ensinado, Aonde sente amor, logo se inclina. E tu, que de divina Não tens menos queVenus e Cupido, Porque sequer co'o ouvido Hum amor verdadeiro não soccorres? Ah! porque te não corres De que o leão te vença em piedade, Se não te vence Venus na beldade? FRONDOSO. A mi não me faltava o que se preza Entre os celestes deoses, que formárão A tua mais que humana formosura: Em mi os voluntarios ceos faltárão; Em mi se perverteo a natureza D'huma cruel formosa creatura. Mas, pois, Belisa dura, Que do mais alto ceo a nós vieste, E em teu peito celeste Hum tal contrário pôde aposentar-se, Não he contrário achar-se Tamanha fé tão mal agradecida. Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Por ti a noite escura me contenta; Por ti o claro dia m'aborrece; Abrolhos me parecem frescas flores; A doce Philomela m'entristece: Todo contentamento m'atormenta Com a contemplação de teus amores; As festas dos pastores, Que podem alegrar toda a tristeza. Em mi tua crueza Faz que o mal cada hora vá dobrando. Oh cruel! até quando Ha de durar em ti tal pensamento, E a vida em mi, que soffre tal tormento? FRONDOSO. Fugiste d'hum amor tão conhecido, Fugiste d'huma fé tão clara e firme; E seguiste a quem nunca conheceste, Não por fugir d'amor, mas por fugir-me; Pois bem vês, quanto eu tinha merecido Esse amor que tu a outro concedeste. A mi não me fizeste Alguma sem razão; que bem conheço Que tanto não mereço: Fizeste-a áquelle bem firme e sincero Que sabes que te quero, Em lhe tirar a gloria merecida. Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Cresce cad'hora em mi mais o cuidado, E vejo qu'em ti cresce juntamente Cad'hora mais de mi o esquecimento. Oh Silvana cruel! porque consente Esse peito formoso e delicado Que s'esqueça hum tão aspero tormento? Tal aborrecimento Merece hum capital teu inimigo: Não eu, que só comtigo Estou contente, e nada mais desejo, Se algum'hora te vejo. Tu es hum só meu bem, huma só gloria, Que nunca se m'aparta da memoria. FRONDOSO. Olhos, que vírão tua formosura; Vida, que só de ver-te se sostinha; Vontade, qu'em ti'stava transformada; Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha, Tão unida comsigo, quanto a pura Alma co'o debil corpo está liada; E que agora apartada Te vê de si com tal apartamento, Qual será seu tormento? Qual será aquelle mal que t[~e]e presente? Maior he que o que sente O triste corpo em última partida. Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Regendo em outro tempo o manso gado, Tangendo a minha frauta nestes vales, Passava a doce vida alegremente: Não sentia o tormento destes males; Menos sentia o mal deste cuidado; Que tudo então em mi era contente. Agora não somente Desta vida suave m'apartaste. Mas outra me deixaste, Que ao duro mal que sinto ca no peito, Me t[~e]e ja tão affeito, Que sinto ja por gloria a minha pena, Por natureza o mal, que me condena. FRONDOSO. Juntamente viver compridos anos, Os fados te concedão, que quizerão Ajuntar-te com tal contentamento. Pois os bens para ti todos nascêrão, Nascêrão para mi todos os danos, Logra tu tua gloria, eu meu tormento. Nenhum apartamento, Belisa, me fara deixar d'amar-te; Porqu'em nenhuma parte Poderás nunca estar sem mi hum'hora. Consente pois agora, Qu'em pago desta fé tão conhecida, Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Veja-t'eu, crua, amar quem te desame, Porque saibas que cousa he ser amada De quem tanto aborreces e desprezas. Veja-t'eu ser ainda desprezada De quem tu mais desejas que te ame, Porque sintas em ti tuas cruezas, Sintas tuas durezas, E quanto póde o seu cruel effeito N'hum coração sujeito. Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora, Espero qu'algum'hora Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te, Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te. FRONDOSO. Mil annos de tormento me parece Cad'hora que sem ti, sem esperança Vivo de poder mais tornar a ver-te. A vida só me dá tua lembrança; A vida sôbre tudo m'entristece; A vida antes perdêra, que perder-te. Mas eu se, por querer-te Hum bem qu'em ti só t[~e]e seu firme assento, Padeço tal tormento, Qu'esperará de ti quem te desama, Ou quem ao menos te ama Com algum falso amor, ou fé fingida? Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Então, cruel, verás se te merece Com tamanho desprêzo ser tratada Hum'alma, que d'amar-te só se preza. Mas como poderás ser desprezada, Se o menos qu'em ti fóra se parece, Póde abrandar dos montes a aspereza? Porque se a natureza Em ti o remate poz da formosura, Qual será a pedra dura, Qu'a teu valor resista brandamente? Que fará a fraca gente, Se ao humano parecer não se defende, E a mesma Venus deosa ao teu se rende? FRONDOSO. E pois fé verdadeira, amor perfeito, Tormento desigual e vida triste, Junta com hum contino soffrimento, E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste, Não puderão mover teu duro peito A mostrares sequer contentamento De ver o meu tormento; Antes tudo soberba desprezaste, E a outrem t'entregaste Por nada me ficar em qu'esperasse, Senão quando acabasse A vida, a pezar meu, ja tão comprida, Perca, quem te perdeo, tambem a vida. DURIANO. Longo curso de tempo, e apartado Lugar a hum coração, que vive entregue, Não podem apartar de seu intento. Porque foges, cruel, a quem te segue? Não vês que teu fugir he escusado, Pois sem mim não estás hum só momento? Nenhum apartamento, Inda que a alma do corpo se m'aparte, Poderá ja ausentar-te Dest'alma triste, que continuamente Em si te t[~e]e presente. Torna, cruel; não fujas a quem t'ama: Vem a dar vida, ou morte a quem te chama. A noite escura, triste e tenebrosa, Que ja tinha estendido o negro manto, D'escuridade a terra toda enchendo, Fez pôr a estes pastores fim ao canto, Que ao longo da ribeira deleitosa Vinhão seu manso gado recolhendo. Se aquillo, qu'eu pretendo Deste trabalho haver, que he todo vosso, Senhora, alcançar posso; Não será muito haver tambem a gloria E o louro da victoria, Que Virgilio procura e haver pretende, Pois o mesmo Virgilio a vós se rende.
ECLOGA V.
_Falla hum só pastor._