Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
Chapter 13
Ao longo do sereno Tejo, suave e brando, N'hum valle d'altas árvores sombrio Estava o triste Almeno Suspiros espalhando Ao vento, e doces lagrimas ao rio. No derradeiro fio O tinha a esperança, Que com doces enganos Lhe sustentára a vida tantos anos N'h[~u]a amorosa e branda confiança; Que quem tanto queria, Parece que não erra, se confia. A noite escura dava Repouso aos cansados Animaes esquecidos da verdura; O valle triste estava Co'huns ramos carregados, Qu'inda a noite fazião mais escura. Offrecia a espessura Hum temeroso espanto: As roucas rãas soavão N'hum charco de água negra e ajudavão Do passaro nocturno o triste canto: O Tejo com som grave Corria mais medonho que suave. Como toda a tristeza No silencio consiste, Parecia que o valle estava mudo. E com esta graveza Estava tudo triste, Porém o triste Almeno mais que tudo: Tomando por escudo De sua doce pena, Para poder soffrella, Estar imaginando a causa della; Qu'em tanto mal he cura bem pequena. Maior o he o tormento, Que toma por allívio hum pensamento. Ao rio se queixava Com lagrimas em fio, Com que as ondas crescião outro tanto. Seu doce canto dava Tristes águas ao rio, E o rio triste som ao doce canto. Ao sonoroso pranto, Que as águas enfreava, Responde o valle umbroso. De tanta voz o accento temeroso Na outra parte do rio retumbava; Quando, da phantasia O silencio rompendo, assi dizia: Corre suave e brando Com tuas claras ágoas, Sahidas de meus olhos, doce Tejo; Fé de meus males dando, Para que minhas mágoas Sejão castigo igual de meu desejo: Que, pois em mim não vejo Remedio, nem o espero; E a morte se despreza De me matar, deixando-me á crueza Daquella por quem meu tormento quero; Saiba o mundo meu dano, Porque se desengane em meu engano. Ja que minha ventura, Ou a causa qu'a ordena, Quer qu'em pago da dor tome o soffrella; Será mais certa cura Para tamanha pena Desesperar d'haver ja cura nella. Porque se minha estrella Causou tal esquivança, Consinta meu cuidado Que me farte de ser desesperado, Para desenganar minha esperança: Pois somente nasci Para viver na morte, e ella em mi. Não cesse meu tormento De fazer seu officio, Pois aqui t[~e]e hum'alma ao jugo atada: Nem falte o soffrimento, Porque parece vício Para tão doce mal faltar-me nada. Oh Nympha delicada, Honra da natureza! Como póde isto ser, Que de tão peregrino parecer Pudesse proceder tanta crueza? Não vem de nenhum geito De causa divinal contrário effeito. Pois como pena tanta He contra a causa della? Fóra he do natural minha tristeza. Mas a mi que m'espanta? Não basta (ó Nympha bella) Que podes perverter a natureza? Não he a gentileza De teu gesto celeste Fóra do natural? Não póde a natureza fazer tal: Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste; Porém, porque tomaste Tão dura condição, se te formaste? Por ti o alegre prado Me he penoso e duro; Abrolhos me parecem suas flores. Por ti do manso gado, Como de mi, não curo, Por não fazer offensa a teus amores. Os jogos dos pastores, As lutas entr'a rama, Nada me faz contente: E sou ja do que fui tão differente, Que quando por meu nome alguem me chama, Pasmo, porque conheço Qu'inda comigo proprio me pareço. O gado, que apascento, São n'alma os meus cuidados; As flores, que no campo sempre vejo, São no meu pensamento Teus olhos debuxados, Com qu'estou enganando o meu desejo. Do frio e doce Tejo As águas se tornárão Ardentes e salgadas, Despois que minhas lagrimas cansadas Com seu puro licor se misturárão; Como quando mistura Hyppanis co'o Exampêo sua água pura. Se ahi no mundo houvesse Ouvires-me algum'hora, Assentados na praia deste rio; E d'arte te dissesse O mal que passo agora, Que pudesse mover-te o peito frio!.. Oh quanto desvario, Qu'estou imaginando! Ja agora meu tormento Não póde pedir mais ao pensamento, Qu'este phantasiar, donde penando A vida me reserva. Querer mais de meu mal será soberba. Ja a esmaltada Aurora Descobre o negro manto Da sombra, que as montanhas encobria. Descansa, frauta, agora, Pois meu escuro canto Não merece que veja o claro dia. Não canse a phantasia D'estar em si pintando O gesto delicado, Em quanto traz ao pasto o manso gado Esse pastor, que lá só vem fallando. Callar-me-hei somente; Que o meu mal nem ouvir se me consente. AGRARIO. Formosa manhãa clara e deleitosa, Que, como fresca rosa na verdura, Te mostras bella e pura, marchetando As Nymphas, espalhando teus cabellos Nos verdes montes bellos; tu só fazes, Quando a sombra desfazes triste e escura, Formosa a espesura e a clara fonte, Formoso o alto monte e o rochedo, Formoso o arvoredo e deleitoso, E emfim tudo formoso co'o teu rosto D'ouro e rosas composto e claridade; Trazes a saudade ao pensamento, Mostrando em hum momento o roxo dia, Com a doce harmonia nos cantares Dos passaros a pares, que voando Seu pasto andão buscando nos raminhos, Para os amados ninhos que mantém. Oh grande e summo bem da natureza! Estranha subtileza de pintora, Que matiza em hum'hora de mil côres O ceo, a terra, as flores, monte e prado! Oh tempo ja passado! quão presente Te vejo abertamente na vontade! Quão grande saudade tenho agora Do tempo que a pastora minha amava, E de quanto prezava a minha dor! Então tinha o amor maior poder, Quando em hum só querer nos igualava; Porque quando hum amava a quem queria, Logo eco respondia d'affeição No brando coração da doce imiga. Nesta amorosa liga concertavão Os tempos, que passavão com prazeres. Mostrava a flava Ceres por as eiras Das brancas sementeiras ledo fruto, Pagando seu tributo aos Lavradores; E enchia aos pastores todo o prado Pales do manso gado guardadora. Hião Zéphyro e Flora passeando, Os campos esmaltando de boninas; Nas fontes cristallinas triste estava Narciso, qu'inda olhava n'água pura Sua linda figura e delicada: Mas Eco, namorada de tal gesto, Com pranto manifesto, seu tormento No derradeiro accento lamentava. Alli tambem se achava o sangue tinto Do purpureo Jacintho; e o destrôço De Adonis bello moço; morte fêa Da bella Cytherêa tão chorada; Toda a terra esmaltada destas rosas. Hião Nymphas formosas por os prados; E os Faunos namorados apos ellas, Mostrando-lhes capellas de mil côres, Ordenadas das flores que colhião: As Nymphas lhe fugião espantadas, As faldas levantadas, por os montes. Via-sea água das fontes espalhar-se; Vertumno transformar-se alli se via; Pomona, que trazia os doces fruitos; Alli pastores muitos, que tangião As gaitas que trazião, e cantando Estavão enganando as suas penas, Tomando das Sirenas o exercicio. Ouvia-se Salicio lamentar-se; Da mudança queixar-se crua e fêa Da dura Galathêa tão formosa: E da morte invejosa Nemoroso Ao monte cavernoso se querella, Que a sua Elisa bella em pouco espaço Cortou inda em agraço. Ah dura sorte! Oh immatura morte, que a ninguem De quantos vida t[~e]e jamais perdoas! Mas tu, tempo, que voas apressado, Hum deleitoso estado quão asinha Nesta vida mesquinha transfiguras Em mil desaventuras, e a lembrança Nos deixas por herança do que levas! Assi que se nos cevas com prazeres, He para nos comeres no melhor. Cada vez em peor te vás mudando: Quanto v[~e]es inventando, qu'hoje approvas, Logo á manhãa reprovas com instancia. Oh perversa inconstancia e tão profana De toda cousa humana inferior, A quem o cego error sempre anda annexo! Mas eu de que me queixo? ou eu que digo? Vive o tempo comigo? ou elle tem Culpa no mal que vem da cega gente? Por ventura elle sente, ou elle entende Aquillo que defende o ser divino? Elle usa de contino seu officio, Que ja por exercicio lhe he devido: Dá-nos fructo colhido na sazão Do formoso verão; e no inverno, Com seu humor eterno congelado, Do vapor levantado co'a quentura Do sol, a terra dura lhe dá alento, Para que o mantimento produzindo, Estê sempre cumprindo seu costume. Assi que não consume de si nada, Nem muda da passada vida hum dedo: Antes sempre está quedo no devido, Porqu'este he seu partido e sua usança; E nelle esta mudança he mais firmeza. Mas quem a Lei despreza, e pouco estima, De quem de lá de cima está movendo O ceo sublime e horrendo, o mundo puro, Este muda o seguro e firme estado Do tempo, não mudado de verdade. Não foi naquella idade d'ouro claro O firme tempo charo e excellente? Vivia então a gente moderada; Sem ser a terra arada dava pão; Sem ser cavado o chão as fructas dava; Nem águas desejava, nem quentura; Suppria então natura o necessario. Pois quem foi tão contrário a esta vida? Saturno, que, perdida a luz serena, Causou, qu'em dura pena, desterrado, Fosse do ceo lançado, onde vivia; Porque os filhos comia, que gerava. Por isso se mudava o tempo igual Em mais baixo metal: e assi descendo Nos veio, emfim, trazendo a este estado. Mas eu, desatinado, aonde vou? Para onde me levou a phantasia? Qu'estou gastando o dia em vãas palavras? Quero ora minhas cabras ir levando Ao Tejo claro e brando; porque achar No mundo qu'emendar, não he d'agora: Basta que a vida fóra delle tenho: Com meu gado me avenho, e estou contente. Porém, se me não mente a vista, eu vejo Nesta praia do Tejo estar deitado Almeno, que enlevado em pensamentos, As horas e os momentos vai gastando: Vou-me a elle chegando, só por ver Se poderei fazer que o mal que sente, Hum pouco se lhe ausente da memoria. ALMENO. Oh doce pensamento! oh doce gloria! São estes por ventura os olhos bellos, Que t[~e]e de meus sentidos a victoria? São estas, Nympha, as tranças dos cabellos, Que fazem de seu preço o ouro alheio, Como a mi de mi mesmo só com vellos? He esta a alva columna, o lindo esteio, Sustentador das obras mais que humanas, Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio? Ah falso pensamento, que me enganas! Fazes-me pôr a boca onde não devo, Com palavras de doudo, ou quasi insanas! Como a alçar-te tão alto assi me atrevo? Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás? Levas-me tu a mi, ou eu te levo? Não poderei eu ir onde tu vás? Porém, pois ir não posso onde tu fores, Quando fores, não tornes onde estás. AGRARIO. Oh que triste successo foi de amores, O que a este pastor aconteceo, Segundo ouvi contar a outros pastores! Tanto emfim, por seu damno se perdeo, Que o longo imaginar em seu tormento, Em desatino Amor lh'o converteo. Oh forçoso vigor do pensamento, Que póde em outra cousa estar mudando A fórma, a vida, o siso, o entendimento! Está-se hum triste amante transformando Na vontade daquella, que tanto ama, De si a propria essencia transportando. E nenhum'outra cousa mais desama, Que a si, se vê qu'em si ha algum sentido, Que deste fogo insano não se inflama. Almeno, que aqui 'stá tão influido No phantastico sonho, que o cuidado Lhe traz sempre ante os olhos esculpido, Está-se-lhe pintando, de enlevado, Que t[~e]e ja da phantastica pastora O peito diamantino mitigado. Em este doce engano estava agora Fallando como em sonho, mas achando Ser vento o que sonhava, grita e chora. Dest'arte andavão sonhos enganando O pastor somnolento, que a Diana Andava entre as ovelhas celebrando; Dest'arte a nuvem falsa, em fórma humana, O vão pae dos Centauros enganava: (Que Amor quando contenta, sempre engana) Como este, que comsigo só fallava, Cuidando que fallava, de enleado, Com quem lhe o pensamento figurava. Não póde quem quer muito, ser culpado Em nenhum êrro, quando vem a ser Este amor em doudice transformado. Amor não será amor, se não vier Com doudices, deshonras, dissensões, Pazes, guerras, prazer e desprazer; Perigos, linguas más, murmurações Ciumes, arruidos, competencias, Temores, nojos, mortes, perdições. Estas são verdadeiras penitencias De quem põe o desejo onde não deve, De quem engana alheias innocencias. Mas isto t[~e]e o amor, que não se escreve Senão donde he illicito e custoso; E donde he mais o risco, mais se atreve. Passava o tempo alegre e deleitoso O Troiano pastor, em quanto andava Sem ter alto desejo e perigoso. Seus furiosos touros coroava, E nos álamos altos escrevia Teu nome (Enone) quando a ti só amava. Os álamos crescião, e crescia O amor qu'elle te tinha: sem perigo, E sem temor, contente te servia. Mas despois que deixou entrar comsigo Illicito desejo e pensamento, De sua quietação tão inimigo; A toda a patria poz em detrimento Com mortes de parentes e de irmãos, Com crú incendio, e grande perdimento. Nisto fenecem pensamentos vãos: Tristes serviços mal galardoados, Cuja glória se passa d'entre as mãos. Lagrimas e suspiros arrancados D'alma, todos se pagão com enganos: E oxalá forão muitos enganados! Andão com seu tormento tão ufanos, Que gastão na doçura d'hum cuidado Apos huma esperança muitos anos. E talha tão perdido namorado, Tão contente co'o pouco, que daria Por hum só volver d'olhos todo o gado. Em todo povoado e companhia, Sendo ausentes de si, se vem presentes Com quem lhes pinta sempre a phantasia. Co'hum certo não sei que andão contentes, E logo hum nada os torna, ao contrário, De todo ser humano differentes. Oh tyrannico Amor, oh caso vario, Que obrigas a hum querer que sempre seja De si contínuo e aspero adversario! E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja, Senão quando do seu despôjo amado Sua inimiga estar triumphando veja. Quero fallar com este, qu'enredado Nesta cegueira está sem nenhum tento. Acorda ja, pastor, desacordado. ALMENO. Oh porque me tiraste hum pensamento, Que agora estava aos olhos debuxando, De quem aos meus foi doce mantimento? AGRARIO. Nesta imaginação estás gastando O tempo e vida, Almeno? Perda grande! Não vês quão mal os dias vás passando? ALMENO. Formosos olhos, ande a gente e ande; Que nunca vos ireis dest'alma minha, Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande. AGRARIO. Quem poderá cuidar que tão asinha Se perca o curso assi do siso humano, Que corre por direita e justa linha? Que sejas tão perdido por teu dano, Almeno meu, não he por certo aviso; He só doudice grande, grande engano. ALMENO. Ó Agrario meu, que vendo o doce riso, E o rosto tão formoso, como esquivo, O menos que perdi foi todo o siso. E não entendo, desque sou captivo, Outra cousa de mi, senão que mouro: Nem isto entendo bem, pois inda vivo. Á sombra deste umbroso e verde louro Passo a vida, ora em lagrimas cansadas, Ora em louvores dos cabellos d'ouro. Se perguntares porque são choradas, Ou porque tanta pena me consume, Revolvendo memorias magoadas; Desque perdi da vida o claro lume, E perdi a esperança e causa della, Não chóro por razão, mas por costume. Jamais pude co'o fado ter cautella; Nem houve nunca em mi contentamento, Que não fosse trocado em dura estrella. Que bem livre vivia e bem isento, Sem qu'ao jugo me visse submettido De nenhum amoroso pensamento! Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido Tão fóra d'amor tinha, que me ria De quem por elle via andar perdido. De várias côres sempre me vestia; De boninas a fronte coroava; Nenhum pastor cantando me vencia. A barba então nas faces me apontava; Na luta, na carreira, em qualquer manha, Sempre a palma entre todos alcançava. Da minha idade tenra, em tudo estranha, Vendo (como acontece) affeiçoadas Muitas Nymphas do rio e da montanha; Com palavras mimosas e forjadas, De solta liberdade e livre peito, As trazia contentes e enganadas. Mas não querendo Amor, que deste geito Dos corações andasse triumphando, Em quem elle criou tão puro affeito; Pouco a pouco me foi de mi levando Dissimuladamente ás mãos de quem Toda esta injuria agora está vingando. AGRARIO. Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem O princípio e o fim; que Nemoroso Contado tudo isso, e mais, me tem. Mas (quero-to dizer) se este enganoso Amor he tão usado a desconcertos, Que nunca amando fez pastor ditoso; Ja que nelle estes casos são tão certos, Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa Te chorão valles, montes e desertos? Vejo-te estar gastando em viva fragoa, E juntamente em lagrimas; vencendo A grã Sicilia em fogo, o Nilo em ágoa. Vejo que as tuas cabras, não querendo Gostar as verdes hervas, se emmagrecem, As tetas aos cabritos encolhendo. Os campos, que co'o tempo reverdecem, Os olhos alegrando descontentes, Em te vendo, parece, se entristecem. De todos teus amigos e parentes, Que lá da serra vem por consolar-te, Sentindo na alma a pena, que tu sentes, Se querem de teus males apartar-te, Deixando a choça e gado vás fugindo, Como cervo ferido, a outra parte. Não vês que Amor, as vidas consumindo, Vive só de vontades enlevadas No falso parecer d'hum gesto lindo? Nem as hervas das águas desejadas Se fartão; nem de flores as abelhas; Nem este Amor de lagrimas cansadas. Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas, Chorou Phebo de Daphne as esquivanças, Regando as flores brancas e vermelhas? Quantas vezes as asperas mudanças O namorado Gallo t[~e]e chorado De quem o tinha envolto em esperanças? Estava o triste amante recostado, Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso, Que o falso Amor lhe tinha destinado. Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso, Na fonte de Aganippe destillando, Se fazião de lagrimas hum vaso. O intonso Apollo o vinha alli culpando, A sobeja tristeza perigosa Com asperas palavras reprovando. Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa Nympha, que tanto amaste, descobrindo Por falsa a fé, que dava, e mentirosa; Por as Alpinas neves vai seguindo Outro bem, outro amor, outro desejo; Como inimiga, emfim, de ti fugindo. Mas o misero amante, que o sobejo Mal empregado amor lhe defendia Ter de tamanha fé vergonha ou pejo; Da falsífica Nympha não sentia Senão que o frio do gelado Rheno Os delicados pés lhe offenderia. Ora se tu vês claro, amigo Almeno, Que d'Amor os desastres são de sorte, Que para matar basta o mais pequeno, Porque não pões hum freio a mal tão forte, Qu'em estado te põe, que sendo vivo, Ja não se entende em ti vida nem morte? ALMENO. Agrario; se do gesto fugitivo, Por caso de fortuna desastrado, Algum'hora deixar de ser captivo; Ou sendo para as Ursas degradado, Adonde Boreas t[~e]e o Oceano Co'os frios Hyperboreos congelado; Ou donde o filho de Climene insano, Mudando a côr das gentes totalmente, As terras apartou do trato humano; Ou se ja por qualquer outro accidente Deixar este cuidado tão ditoso, Por quem sou de ser triste tão contente; Este rio, que passa deleitoso, Tornando para traz, irá negando Á natureza o curso pressuroso. As cabras por o mar irão buscando Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura Das hervas os delfins apascentando. Ora se tu vês, n'alma quão segura Deste amor tenho a fé, para qu'insistes Nesse conselho e prática tão dura? Se de tua porfia não desistes, Vae repastar teu gado a outra parte; Qu'he dura a companhia para os tristes. Huma só cousa quero encomendarte, Para repouso algum de meu engano, Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte: Que s'esta fera, qu'anda em traje humano, Por a montanha vires ir vagando, De meu despôjo rica e de meu dano, Comos vivos espritos inflammando O ar, o monte e a serra, que comsigo Continuamente leva namorando; Se queres contentar-me, como amigo, Passando, lhe dirás: Gentil pastora, Não ha no mundo vício sem castigo. Tornada em puro marmore não fôra A fera Anaxarete, se amoroso Mostrára o rosto angelico algum'hora. Foi bem justo o castigo rigoroso: Porém quem te ama (Nympha) não queria Nódoa tão feia em gesto tão formoso. AGRARIO. Tudo farei, Almeno, e mais faria Por algum dia ver-te descansado, Se s'acabão trabalhos algum dia. Mas bem vês como Phebo ja empinado Me manda que da calma iniqua e crua, Recolha em algum valle o manso gado. Tu nessa phantasia falsa e nua, Para engano maior de teu perigo, Não queres companhia mais que a sua. Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo; E ficarás melhor acompanhado. ALMENO. Elle comtigo vá, como comigo Me fica acompanhando o meu cuidado.
ECLOGA III.
INTERLOCUTORES.
ALMENO e BELISA.