Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II

Chapter 10

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Ay! quien dará á mis ojos una fuente De lágrimas que manen noche y dia? Respirara si quiera la alma mia, Llorando lo pasado, y lo presente. Quien me diera apartado de la gente, De mi dolor siguiendo la porfia Con la triste memoria y fantasia Del bien por quien mal tanto así se siente! Quien me dará palabras con que iguale El duro agravio que el amor me ha hecho, Donde tan poco el sufrimiento vale? Quien me abrirá profundamente el pecho, Dó está escrito el secreto que no sale, Con tanto dolor mio, á mi despecho?

CCXXIII.

Con razon os vais, aguas, fatigando Por llegar dó sereis bien recebidas; Y en aquel mar inmenso convertidas, Que ya de tantos dias vais buscando. Triste de aquel que siempre anda llorando Las vanas esperanzas ya perdidas, Y con dolor las lágrimas vertidas Nunca al fin pretendido van llegando! Vosotras sin traer derecha via, Al término llegais tan deseado, Por mas que os embarace el gran rodeo; Mas yo siempre afligido noche y dia, Por un camino, que no llevo errado, Jamás puedo llegar donde deseo.

CCXXIV.

Oh cese ya, Señor, tu dura mano! No llegues tanto al cabo con mi vida; Baste el estar por ti tan consumida, Que ya no se halla en ella lugar sano. Ay estraña hermosura! ay deshumano Hado, á que nunca puedo hallar salida! Si tú de tu piedad no eres movida, Roto el hilo vital verás temprano. Un blando desamor, un amor blando, Bien basta para un hombre tan perdido, Que de su mal ningun remedio espera. Y si estimas en poco el ver cual ando, Aqui me tienes ante ti rendido: Viva tu gusto, mi esperanza muera.

CCXXV.

Dulces engaños de mis ojos tristes, Cuan vivo despertais mi pensamiento! Aquello que pudiera dar contento, En sombra de pintura lo volvistes. De blando sobresalto enternecistes Con vista arrebatada el sentimiento; Mas no le asegurastes un momento Aqueste vano bien que le ofrecistes. Veo que la figura era fingida, Y no aquella que en sí mi alma esconde, Aunque en esto se llega al natural: Así escucha mi llanto, así responde, Así se condolece de mi vida, Como si fuera el propio original.

CCXXVI.

Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste, Como si alguno alegre yo esperara? Como, o Tajo, al pasar esa tu clara Agua, no la alteraste, y no me hundiste? El paso me cerraste, el pecho abriste, O mi ventura, de mi bien avara! Á Dios, montañas de hermosura rara; Á Dios, mi corazon, que no partiste. Si adonde quedas en dichosa suerte No bebieres las aguas del olvido, En tanto bien no quieras olvidarme. Cantando mi dolor llora mi muerte; Porque hasta el hueco monte sin sentido Suelta su ronca voz por consolarme.

CCXXVII.

Levantai, minhas Tagides, a frente, Deixando o Tejo ás sombras nemorosas; Dourai o valle umbroso, as frescas rosas, E o monte com as árvores frondente. Fique de vós hum pouco o rio ausente, Cessem agora as lyras numerosas, Cesse vosso lavor, Nymphas formosas, Cesse da fonte vossa a grã corrente. Vinde a ver a Theodosio grande e claro, A quem 'stá offrecendo maior canto Na cithara dourada o louro Apolo. Minerva do saber dá-lhe o dom raro, Pallas lhe dá o valor de mais espanto, E a Fama o leva ja de pólo a pólo.

CCXXVIII.

Vós, Nymphas da Gangetica espessura, Cantae suavemente, em voz sonora, Hum grande Capitão que a roxa Aurora Dos filhos defendeo da noite escura. Ajuntou-se a caterva negra e dura, Que na Aurea Chersoneso affouta mora, Para lançar do charo ninho fóra Aquelles que mais podem que a ventura. Mas hum forte leão, com pouca gente, A multidão tão fera como necia, Destruindo castiga e torna fraca. Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente Mais do que Leonidas fez em Grecia, O nobre Leoniz fez em Malaca.

CCXXIX.

Alma gentil, que á firme eternidade Subiste clara e valerosamente, Cá durará de ti perpetuamente A fama, a gloria, o nome e a saudade. Não sei se he mor espanto em tal idade Deixar de teu valor inveja á gente, Se hum peito de diamante, ou de serpente, Fazeres que se mova a piedade. Invejosa da tua acho mil sortes, E a minha mais que todas invejosa, Pois ao teu mal o meu tanto igualaste. Oh ditoso morrer! sorte ditosa! Pois o que não se alcança com mil mortes, Tu com huma só morte o alcançaste.

CCXXX.

Debaixo desta pedra sepultada Jaz do mundo a mais nobre formosura, A quem a morte, só de inveja pura, Sem tempo sua vida t[~e]e roubada, Sem ter respeito áquella assi estremada Gentileza de luz, que a noite escura Tornava em claro dia; cuja alvura Do sol a clara luz tinha eclipsada. Do sol peitada foste, cruel morte, Para o livrar de quem o escurecia; E da lua, que ante ella luz não tinha. Como de tal poder tiveste sorte? E se a tiveste, como tão asinha Tornaste a luz do mundo em terra fria?

CCXXXI.

Imagens vãas me imprime a phantasia; Discursos novos acha o pensamento; Com que dão á minha alma grão tormento Cuidados de cem annos n'hum só dia. Se fim grande tivessem, bem sería Responder a esperança ao fundamento: Mas o fado não corre tão a tento, Que reserve á razão sua valia. Caso e Fortuna pódem acertar; Mas se por accidente dão victoria, Sempre o favor da Fama he falsa historia. Excede ao saber, determinar: Á constancia se deve toda a gloria: O ânimo livre he digno de memoria.

CCXXXII.

Quanta incerta esperança, quanto engano! Quanto viver de falsos pensamentos! Pois todos vão fazer seus fundamentos Só no mesmo em qu'está seu proprio dano. Na incerta vida estribão de hum humano; Dão credito a palavras que são ventos; Chórão despois as horas e os momentos, Que rírão com mais gôsto em todo o ano. Não haja em apparencias confianças; Entendei que o viver he de emprestado; Que o de que vive o mundo são mudanças. Mudai, pois, o sentido e o cuidado, Somente amando aquellas esperanças Que durão para sempre com o amado.

CCXXXIII.

Mal, que de tempo em tempo vás crescendo, Quem te visse de hum bem acompanhado! A vida passaria descansado, Da morte não temêra o rosto horrendo. Se os vãos cuidados fôra convertendo Em suspiros que dão outro cuidado, Oh quão prudente, oh quão affortunado A capella do louro irá tecendo! Tempo he ja de esquecer contentamentos Passados, co'a esperança que passou, E de que triumphem novos pensamentos. A fé, que viva n'alma me ficou, Dê ja fim aos caducos ardimentos A que o passado bem se condemnou.

CCXXXIV.

Oh quanto melhor he o supremo dia Da mansa morte, que o do nascimento! Oh quanto melhor he hum só momento, Que livra de annos tantos de agonia! De alcançar outro bem cesse a porfia; Cesse todo applicado pensamento De tudo quanto dá contentamento, Pois só contenta ao corpo a terra fria. O que do seu fez Deos seu despenseiro, T[~e]e mais estreita conta que lhe dar: Então parece rico o ovelheiro. Triste de quem no dia derradeiro T[~e]e o suor alheio por pagar, Pois a alma ha de vender por o dinheiro!

CCXXXV.

Como podes (oh cego peccador!) Estar em teus errores tão isento, Sabendo que esta vida he hum momento, Se comparada com a eterna for? Não cuides tu que o justo Julgador Deixará tuas culpas sem tormento, Nem que passando vai o tempo lento Do dia de horrendíssimo pavor. Não gastes horas, dias, mezes, anos, Em seguir de teus damnos a amisade De que despois resultão mores danos. E pois de teus enganos a verdade Conheces, deixa ja tantos enganos, Pedindo a Deos perdão com humildade.

CCXXXVI.

Verdade, Amor, Razão, Merecimento, Qualquer alma farão segura e forte; Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte, T[~e]e do confuso mundo o regimento. Effeitos mil revolve o pensamento, E não sabe a que causa se reporte: Mas sabe que o que he mais que vida e morte Não se alcança de humano entendimento. Doctos varões darão razões subidas; Mas são as exp'riencias mais provadas: E por tanto he melhor ter muito visto. Cousas ha hi que passão sem ser cridas: E cousas cridas ha sem ser passadas. Mas o melhor de tudo he crer em Christo.

CCXXXVII.

De Babel sôbre os rios nos sentámos, De nossa doce patria desterrados, As mãos na face, os olhos derribados, Com saudades de ti, Sião, chorámos. Os orgãos nos salgueiros pendurámos, Em outro tempo bem de nós tocados; Outro era elle, por certo, outros cuidados; Mas por deixar saudades os deixâmos. Aquelles que captivos nos trazião Por cantigas alegres perguntavão: Cantai (nos dizem) hymnos de Sião. Sôbre tal pena, pena tal nos dão, Pois tyranicamente pretendião Que cantassem aquelles que choravão.

CCXXXVIII.

Sôbre os rios do Reino escuro, quando Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão, Lagrimas nossos olhos derramárão, Por ti, Sião divina, suspirando, Os que hião nossas almas infestando, De contino em error, as captivárão; E em vão por nossos Psalmos perguntárão; Que tudo era silencio miserando. Dizendo estamos: Como cantaremos As acceitas canções a Deos benino, Quando a contrarios seus obedecemos? Mas ja, Senhor só Santo, determino, Deixando viciosissimos extremos, Os cantos proseguir de Amor Divino.

CCXXXIX.

Em Babylonia sôbre os rios, quando De ti, Sião sagrada, nos lembrámos, Alli com grã saudade nos sentámos, O bem perdido, miseros, chorando. Os instrumentos musicos deixando, Nos estranhos salgueiros pendurámos, Quando aos cantares, que ja em ti cantámos, Nos estavão imigos incitando. Ás esquadras dizemos inimigas: Como hemos de cantar em terra alhea As cantigas de Deos, sacras cantigas? Se a lembrança eu perder que me recrea Cá nestas penosissimas fadigas, _Oblivioni detur dextra mea._

CCXL.

Aponta a bella Aurora, luz primeira, Que a grã nova nos deo do claro dia: Vesti-vos, corações, ja de alegria, E recebei da vida a Mensageira. Da humana Redempção nasce a Terceira: Alegra-te, Divina Monarchia; Da terra terás cedo a companhia, Do ceo verás tambem a nossa feira. De tal obra se espanta a natureza, Confuso fica de temor o inferno, Vendo a que nasce isenta da defeza. Lei geral era posta desde eterno; Mas o Senhor da Lei toda limpeza Para o Sacrario seu guardou Materno.

CCXLI.

Porque a terra no ceo agasalhasse, O ceo na terra Deos agasalhou: Lá não cabendo, cá se accommodou, Porque lá, de cá indo, se alargasse. Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse, Por o homem a ser homem Deos chegou: Seu divino poder tanto humanou, Porque o humano em divino se tornasse. Vêde bem o que deo e recebeo: Não se perca hum bem tanto da memoria: Deo-nos a vida, a morte padeceo. Trocou por nossa pena a sua gloria; Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo; Porque amor foi auctor desta victoria.

CCXLII.

Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo. Para quem? Para o genero he humano. Que faz delle? Hum remedio soberano. Para que? Para a culpa e triste pranto. E que obra? Reduzir Lusbel a espanto. Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano. Que foi? A morte deo com hum engano. Tanto pôde? Sem falta pôde tanto. Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo. A que desce? A subir a creatura. Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo. He escada para ir lá? E a mais segura. Quem o obrigou? De amor só se venceo. Que amava este Feitor? Sua feitura.

CCXLIII.

Oh Arma unicamente só triumphante, Propugnaculo só de nossas vidas, Por quem forão ganhadas as perdidas Com que o Tartaro horrendo andava ovante! Sigua-se esta bandeira militante Por quem são taes victorias conseguidas, Por quantas almas, della divertidas, No Ponente errão cá, lá no Levante. Oh Arvore sublime, e marchetada De branco e carmesi, de ouro embutida, Dos rubis mais preciosos esmaltada, E de trophéos mais claros guarnecida! Á vida a morte vimos em ti dada, Para qu'em ti se désse á morte a vida.

CCXLIV.

Aos homens hum só homem poz espanto, E o poz a toda a humana natureza; Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza, Porqu'antes que nascesse era ja Santo. Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto, Qu'entre os nascidos houve a mor alteza; Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza, Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto. Aquella voz foi elle sonorosa, No concavo dos Orbes resonante, E que a Carne inculpavel baptizou; Quem do mor Pae ouvio a voz amante; Quem a subtil pergunta industriosa Com sincera resposta socegou.

CCXLV.

Vós só podeis, sagrado Evangelista, Angelico abrazado Seraphim, E na sciencia mais alto Cherubim, Do que he mais sabio Amor ser Coronista. Divina e real Aguia, cuja vista Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim, De Jacob mais querido Benjamim, Quem mais campêa de Joseph na lista. Apostolo, e Propheta, e Patriarca, Ao Principe dos Ceos o mais acceito, Qu'em seu seio dormindo então mais via. A quem o mesmo Deos por irmão marca; Quem por filho da Mãe unica feito, Em corpo e alma goza o claro dia.

CCXLVI.

Como louvarei eu, Seraphim santo, Tanta humildade, tanta penitencia, Castidade, e pobreza, e paciencia, Com este meu inculto e rudo canto? Argumento que ás Musas põe espanto, Que faz muda a grandiloqua eloquencia. Oh imagem, qu'a Divina Providencia De si viva em vós fez para bem tanto! Fostes de Santos huma rara mina; Almas de mil a mil ao ceo mandastes Do mundo, que perdido reformastes. E não roubaveis só com a doutrina As vontades mortaes, mas a Divina; Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.

CCXLVII.

Ditosas almas, que ambas juntamente Ao ceo de Venus e de Amor voastes, Onde hum bem que tão breve cá lograstes, Estais logrando agora eternamente; Aquelle estado vosso tão contente, Que só por durar pouco triste achastes, Por outro mais contente ja o trocastes, Onde sem sobresalto o bem se sente. Triste de quem cá vive tão cercado, Na amorosa fineza, de hum tormento Que a gloria lhe perturba mais crescida! Triste, pois me não val o soffrimento, E Amor para mais damno me t[~e]e dado Para tão duro mal tão larga vida!

CCXLVIII.

Contente vivi ja, vendo-me isento Deste mal de que a muitos queixar via: Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria Discordia e semrazão, guerra e tormento. Enganou-me co'o nome o pensamento: (Quem com tal nome não se enganaria?) Agora tal estou, que temo hum dia Em que venha a faltar-me o soffrimento. Com desesperação, e com desejo Me paga o que por elle estou passando, E inda está do meu mal mal satisfeito. Pois sôbre tantos damnos inda vejo Para dar-me outros mil hum olhar brando, E para os não curar hum duro peito.

CCXLIX.

Deixa Apollo o correr tão apressado, Não sigas essa Nympha tão ufano: Não te leva o amor, leva-te o engano Com sombras de algum bem a mal dobrado. E quando seja amor, será forçado; E se forçado for, será teu dano. Hum parecer não queiras mais que humano Em hum sylvestre adôrno ver tornado. Não percas por hum vão contentamento A vista que te faz viver contente; Modera em teu favor o pensamento. Porque menos mal he, tendo-a presente, Soffrer sua crueza, e teu tormento, Que sentir sua ausencia eternamente.

CCL.

Nas Cidades, nos bosques, nas florestas, Nos valles, e nos montes, teus louvores Sempre te cantem musicos pastores Nas manhãas frias, nas ardentes sestas. E neste Templo donde manifestas E repartes agora teus favores, Com Psalmos, hymnos, e com varias flores Sejão celebres sempre as tuas festas. Estes te offreção pés, ess'outros mãos; D'aquelles pendão sôbre os teus altares Monstros do mar, de servidão prisões. Que eu cuidados, enganos e affeições, Muito maiores monstros, e milhares Te deixo aqui de pensamentos vãos.

CCLI.

Vi queixosos de Amor mil namorados, E nenhuns inda vi com seus louvores; E aquelle que mais chora o mal de amores, Vejo menos fugir de seus cuidados. Se das dores de Amor sois mal tratados, Porque tanto buscais de Amor as dores? E se tambem as tendes por favores, Porque dellas fallais como aggravados? Não queirais alegria achar alg[~u]a No Amor, porque he composto de tristeza, Na fortuna que acheis mais agradavel. Nella e nelle achei sempre a mesma l[~u]a, Em quem nunca se vio outra firmeza, Que não seja a de ser sempre mudavel.

CCLII.

Se lagrimas choradas de verdade O marmore abrandar podem mais duro, Porque as minhas que nascem de amor puro Hum coração não rendem a piedade? Por vós perdi, Senhora, a liberdade, E nem da propria vida estou seguro. Rompei desse rigor o forte muro, Não passe tanto avante a crueldade. Ao prezar de desprezos dae ja fim: Não vos chamem cruel; nome devido A quem se ri de quem suspira e ama. Abrandai esse peito endurecido, Por o que toca a vós, ja não por mim, Que eu aventuro a vida, e vós a fama.

CCLIII.

Ja me fundei em vãos contentamentos, Quando delles vivi todo enganado De hum phantastico bem, e de hum cuidado, De que só cuidão cegos pensamentos. Passava dias, horas e momentos, Deste enleio de amores tão pagado, Que tinha só por bem-aventurado Quem só por elles mais bebia os ventos. Mas agora que ja cahi na conta, Desengana-me quanto me enganava; Que tudo o tempo dá, tudo descobre. O Amor mais caudaloso menos monta. Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava, Aquelle que de amores he mais pobre.

CCLIV.

Em huma lapa toda tenebrosa, Adonde bate o mar com furia brava, Sôbre h[~u]a mão o rosto, vi qu'estava Huma Nympha gentil, mas cuidadosa. Igualmente que linda, lastimosa, Aljofar dos seus olhos distillava: O mar os seus furores applacava Com ver cousa tão triste e tão formosa. Alguma vez na horrivel penedia Os bellos olhos punha com brandura, Bastante a desfazer sua dureza. Com angelica voz assi dizia: Ah! que falte mais vezes a ventura Onde sobeja mais a natureza!

CCLV.

Se em mim, ó alma, vive mais lembrança Que aquella só da gloria de querer-vos, Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos, E de ver-vos tambem toda a esperança. Veja-se em mi tão rustica esquivança, Que possa indigno ser de conhecer-vos; E, quando em mor empenho de aprazer-vos, Vos offenda, se em mi houver mudança. Confirmado estou ja nesta certeza: Examine-me vossa crueldade, Exprimente-se em mi vossa dureza. Conhecei ja de mi tanta verdade; Pois em penhor e fé desta pureza Tributo vos fiz ser o que he vontade.

CCLVI.

Ilustre Gracia, nombre de una moza, Primera malhechora en este caso Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso, Sugeto digno de immortal coroza; Si en medio de la Iglesia no reboza El manto á vuestro rostro tan devaso, Por vos dirán las gentes recio y paso: Veis quien con el demonio se retoza. Puede mover los montes sin trabajo; Con palabras el curso al agua enfrena; Por las ondas hará camino enjuto. Averguenza su patria y rico Tajo, Que por ella hombres lleva, mas que arena, De que paga al infierno gran tributo.

CCLVII.

Qual t[~e]e a borboleta por costume, Qu'enlevada na luz da acesa vella, Dando vai voltas mil, até que nella Se queima agora, agora se consume: Tal eu correndo vou ao vivo lume D'esses olhos gentis, Aonia bella; E abrazo-me, por mais que com cautella Livrar-me a parte racional presume. Conheço o muito a que se atreve a vista, O quanto se levanta o pensamento, O como vou morrendo claramente; Porém não quer Amor que lhe resista, Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento, Qual em gloria maior está contente.

CCLVIII.

Lembranças de meu bem, doces lembranças Que tão vivas estais nesta alma minha, Não queirais mais de mi, se os bens que tinha Em poder vêdes todos de mudanças. Ai cego Amor! ai mortas esperanças De qu'eu em outro tempo me matinha! Agora deixareis quem vos sostinha; Acabarão co'a vida as confianças. Co'a vida acabarão, pois a ventura Me roubou n'hum momento aquella gloria, Que, quando tão grande he, tão pouco dura. Oh se apoz o prazer fôra a memoria! Ao menos estivera a alma segura De ganhar-se com ella mais victoria.

CCLIX.

Formosos olhos, que cuidado dais Á mesma luz do sol mais clara e pura; Que sua esclarecida formosura, Com tanta gloria vossa, atraz deixais; Se por serdes tão bellos desprezais A fineza de amor que vos procura, Pois tanto vêdes, vêde que não dura O vosso resplandor quanto cuidais. Colhei, colhei do tempo fugitivo E de vossa belleza o doce fruto; Qu'em vão fóra de tempo he desejado. E a mi, que por vós morro, e por vós vivo, Fazei pagar a Amor o seu tributo, Contente de por vós lho haver pagado.

CCLX.

Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes, En lágrimas tratais la noche el dia, Mirad si es lágrima esta que os envia Aquel sol por quien vos tantas vertistes. Si vos me asegurais, pues ya la vistes, Que es lágrima, será ventura mia; Por empleadas bien desde hoy tendria Las muchas que por ella sola distes. Mas cualquier cosa mucho deseada, Aunque viendo se esté, nunca es creida; Y menos esta, nunca imaginada. Pero della aseguro, si es fingida, Que basta ser por lágrima enviada, Para que sea por lágrima tenida.

CCLXI.

T[~e]e feito os olhos neste apartamento Hum mar de saudosa tempestade, Que póde dar saudade á saudade, Sentimentos ao proprio sentimento. Em dor vai convertido o soffrimento, Em pena convertida a piedade; A razão tão vencida da vontade, Qu'escravo faz do mal o entendimento. A lingua não alcança o qu'a alma sente. E assi, se alguem quizer em algum'hora Saber que cousa he dor não comprehendida, Parta-se do seu bem, porque exprimente Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra Partir-se do viver para ter vida.

CCLXII.

A peregrinação d'hum pensamento, Que dos males fez hábito e costume, Tanto da triste vida me consume, Quanto cresce na causa do tormento. Leva a dor de vencida ao soffrimento; Mas a alma está, de entregue, tão sem lume, Qu'enlevada no bem que haver presume, Não faz caso do mal qu'está de assento. De longe receei (se me valêra) O perigo que tanto á porta vejo, Quando não acho em mi cousa segura. Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!) Qu'entendimentos presos do desejo Não t[~e]e remedio mais que o da ventura.

CCLXIII.