O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Part 3

Chapter 33,960 wordsPublic domain

Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.

Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo, suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.

Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.

Era Pery.

O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou; com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.

Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre sua segurança e socego.

O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de damasco azul até ao collo da menina.

Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a luz do dia.

Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento; deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o somno da menina.

Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de Cecilia.

Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura.

Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito, como se forão reliquia sagrada.

Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder o silencio profundo da natureza quando dorme.

O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem aproximar-se.

Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado.

Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão no ataque dos Aymorés partio immediatamente.

O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do _Paquequer_ indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de Mariz.

O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestigio do que procurava.

O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si; e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.

Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D. Antonio de Mariz recusára crer na accusação.

De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o peso que devia dar a semelhante accusação.

Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.

Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.

Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada; esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda, porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.

Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta singularidade.

Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia erão ordinariamente dous e não tres.

Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido.

Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel descobri-los.

Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que conheceu immediatamente ser a folha de um punhal.

--És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida.

Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um partido.

--Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel.

--Já é hora?

--Não.

--Todos dormem.

Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.

O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão de palha.

Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia, e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.

Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?

Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.

Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e inevitavel.

O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.

Era uma idéa original.

Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.

Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas ameaçadora.

--Quem vai lá?...

Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não servisse senão de apresar o que elle queria evitar.

Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito.

O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco e pouco e inundavão o chão.

Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos, e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava.

Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão Aposto feixes da palha para atear um incendio.

Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim de Cecilia.

O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.

Mas elle conheceu Ruy Soeiro.

Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento, ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe a garganta.

Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e quedou de encontro ao muro.

Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.

Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella aberta.

Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.

Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la, espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a janella ter sido aberta por Cecilia.

Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no quarto da menina.

Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada áquella hora.

O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se ao leito.

Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.

O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecilia.

Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou senão dessa horrivel profanação.

A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão do italiano estava pregada ao muro.

Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a curvar-se.

VI

REVOLTA

Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do quarto de Cecilia ao interior da casa.

Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria.

A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção.

Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery.

Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação; chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir.

Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta.

De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a audacia e o desespero o podião salvar.

A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.

Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos para ver a causa daquella inundação.

Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro.

Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:

--Não sabeis o que significa isto? disse elle.

--Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.

--Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a todos com o seu dente envenenado.

--Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...

--Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?

--É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz.

--Talvez morto tambem!

--Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados.

--Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo! O nome!...

--E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?

--Pery?... exclamarão os aventureiros.

--Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua vingança!

--Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou Vasco Affonso.

--Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê cuidado!

--E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.

--E justiça será feita.

--Neste mesmo instante.

--Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me.

Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto.

Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle; o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente.

--O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros.

Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta.

--Ides mata-lo?...

--Mas de certo!

--E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido, amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou vivemos?

--Seja embora protegido, quando é criminoso...

--Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar a cabeça e calar-vos.

--Oh! isso é de mais!

--Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou Martim Vaz.

--Sois peiores que alimarias; sois escravos!

--Por São Braz, tendes razão, Loredano.

--Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas, porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita.

--Pois bem; eu vo-lo mostrarei!

--E eu! gritou toda a banda.

--Qual é vossa tenção? perguntou o italiano.

--A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o assassino de Bento.

--Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e faremos justiça pelas nossas mãos.

--Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a D. Antonio?

Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se: chamava-se João Feio.

--Serei eu!

--Sabeis o que lhe deveis dizer?

--Oh! ficai descansado. Ouvirá boas!

--Ides já?

--Neste instante.

Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:

--Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.

D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventureiros o seu olhar severo.

O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavão.

Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres Gomes.

O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras em que esta vão deitados.

Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.

O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu amigo ignorava como elle.

Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.

Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.

Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem cabia tomar as providencias que o caso pedia.

D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro, como tinha ouvido a do indio.

--Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me aqui.

--Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo para segui-lo.

--Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher, Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é preciso.

--Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe?

--Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda.

O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos, corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra.

--Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D. Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes.

Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão.

--Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos culpados!

O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho fidalgo.

Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião, estava infallivelmente perdido.

Adiantou-se:

--Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães; que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos!

--Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se respeite a nossa vida!

--Não somos escravos!

--Obedecemos, mas não nos captivamos.

--Valemos mais que um herege!

--Temos arriscado a nossa existência para defender-vos!

D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo gradualmente ao tom da ameaça.

--Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar! Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.

Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.

--Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por que motivo!...

--Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.

Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em lançar o golpe.

D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.

VII

OS SELVAGENS

Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz.

O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro.

Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração, derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas.

O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.