O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)
Part 2
Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano.
O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão offerecer seus serviços a D. Antonio.
Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei Angelo di Lucca.
III
VERME E FLOR
Erão onze horas da noite.
O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros escassos da viração susurravão na folhagem.
Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do rochedo.
O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda nocturna, como um general na vespera de uma batalha.
Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos seixos deixou-os cahir um depois do outro.
O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento nas folhas.
Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos dous homens que fazião a guarda nocturna:
--Tudo está preparado?
--Só esperamos por vós.
--Vamos! não ha tempo a perder.
Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.
Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade de uma luz.
Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.
Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um dialogo breve e rapido.
--Quantos são? perguntou o homem que chegára.
--Vinte ao todo.
--Restão-nos?
--Dezenoze.
--Bem. A senha?
--Prata.
--E o fogo?
--Prompto.
--Aonde?
--Nos quatro cantos.
--Quantos sobrão?
--Dous apenas.
--Seremos nós.
--Precisais de mim?
--Sim.
Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça:
--Ruy, vós me sois dedicado?
--Dei-vos a prova.
--Preciso de um amigo fiel.
--Contai comigo.
--Obrigado.
O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.
--Sabeis que amo uma mulher?
--Vós m'o dissestes.
--Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso que concebi este plano horrivel?
--Não; não o sabia.
--Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo; servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.
--Fallai; que quereis que eu faça?
--Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.
--Qual dizei!
--Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que...
O desconhecido hesitou:
--Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ella pode dar.
--Mas como?
--Matando-a!
Ruy sentio um calafrio.
--Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve ser para mim um gozo immenso.
--Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.
--Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o thesouro que rejetais!
O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciencia.
--Jurais? perguntou Loredano.
--Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.
--Avante então!
Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro como uma especie de ponte suspensa.
--Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.
O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.
A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa, e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.
Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre a prancha.
--Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.
--Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.
A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.
Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse momento esquivar-se a elles.
Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle impunha respeito ao aventureiro.
Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.
No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo era o italiano depositario.
Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no abysmo; não passou de um desejo.
Venceu a final a tentação.
Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha podido suster.
Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a ousadia, como a vista do sangue excita a féra.
Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.
--Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.
O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente superiora quem a morte não podia tocar.
Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da janella de Cecilia.
Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.
Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de precipita-lo.
A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se estivera solidamente pregada ao rochedo.
Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.
Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo; seu sorriso era apenas enlevo.
O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a lençaria diaphana os seios mimosos.
Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.
Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.
Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens brancas que protegião a innocencia.
Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel, estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer, é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura e horrivel supplicio.
A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.
Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada a sua atmosphera.
E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens.
Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vicio.
O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu uma vela de cera côr de rosa.
O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia appareceu cercada de uma aureola.
Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que nem fôra interrompido.
Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.
A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder.
IV
NA TREVA
Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos que acabavão de passar.
Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.
Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites de grande calma.
O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria naquella mesma noite.
Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.
Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis a D. Antonio de Mariz.
Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi toda essa parte do edificio.
Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.
Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.
Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe, dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da noite em que tudo estava recolhido.
Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro, que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e aceitou o offerecimento.
Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.
Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.
Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão, tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.
--Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres; e sempre a passar-me.--Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me tendes para responder-vos.
--Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais um diabo de nome que não é portuguez?
--Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante?
--Conheceis este homem, Ayres?
--Por Deus! se elle é dos nossos!
--Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem era e o que fazia?
--Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle.
--E quando isto, se vos lembra?
--Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove...
O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a sua idade.
--Foi por este tempo, ha um anno; principios de março.
--Estais bem certo? exclamou mestre Nunes.
--Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes?
Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado.
--Nada! Não é possivel!
--Não acreditais?
--É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma simonia horrenda!
--Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez.
Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o facto de serem da mesma nação.
--Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido debaixo da terra.
Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o espadão que tinha á cabeceira.
--Que ides fazer? gritou mestre Nunes.
--Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai longe?
--É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.
Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de Nunes.
Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy dera á chave, fechando a porta.
O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu companheiro que estava de vigia junto da escada.
Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.
O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho por motivo algum.
A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se adiantasse.
Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se furtivamente na habitação.
O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e conseguio penetrar no quarto de Cecilia.
Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que elle contava realisar n'um momento.
Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro virião em seu soccorro.
Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens adormecidos.
Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando a primeira luz da alvorada terminava o _sabbat_ infernal.
Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime, por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza.
Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava.
Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que se passava.
Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra. Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito de o poder apanhar com facilidade.
Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de fazer.
Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida direita, rapida e cega.
A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.
Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um suspiro, abafado e cheio de angustia.
Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.
A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.
Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo genio das crenças de nossos pais.
Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de amante.
O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um passo, e inclinou-se sobre o leito.
Cecilia sonhava neste momento.
Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face.
A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa àolis.
Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma flôr e exhalou um suspiro perfumado.
--Pery!
O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se entre o talho da sua anagoa de cambraia.
O italiano ergueu-se pallido.
Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura.
Mas o tempo urgia.
Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado leito, fechou os olhos, estendeu as mãos.
V
DEOS DISPÕE
O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e subitamente impellida foi bater de encontro á parede.
Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo pregára a mão do italiano no muro do aposento.
O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo, porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua cabeça.
Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.
Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.