O Cortiço

Part 9

Chapter 93,947 wordsPublic domain

--Foi o Domingos! disseram muitas vozes.

--Ó seu Domingos!

O caixeiro respondeu: «Senhor...» com uma voz de delinquente.

--Chegue cá!

E o criminoso apresentou-se, livido de morte.

--Que fez você com esta pequena?

--Não fiz nada, não senhor!...

--Foi elle, sim! desmentio-o a Florinda.--O caixeiro desviou os olhos, para a não encarar.--Um dia de manhãzinha, ás quatro horas, no capinzal, debaixo das mangueiras...

O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas.

--Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, póde procurar arranjo n'outra parte!...

Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se lentamente.

O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda, pelo portão da estalagem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se em pequenos magotes que discutiam o facto. Principiaram os commentarios, os juizos pró e contra o caixeiro; fizeram-se prophecias.

Entretanto, Marcianna, sem largar a filha, invadira a casa de João Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa.

--Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer?

Elle não deu resposta.

--Vamos! vamos! falle! desembuche!

--Ora lixe-se! resmungou o caixeiro; agora muito vermelho de colera.

--Lixe-se, não!... Mais de vagar com o andôr! Você ha de casar: ella é menor!

Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha.

--Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos!

E despejou da venda, gritando para todos:

--Sabe? O cara de nabo diz que não casa!

Esta phrase produzio o effeito de um grito de guerra entre as lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande indignação.

--Como, não casa?!...

--Era só o que faltava!

--Tinha graça!

--Então mais ninguem póde contar com a honra de sua filha?

--Se não queria casar pr'a que fez mal?

--Quem não póde com o tempo não inventa modas!

--Ou elle casa ou sáe d'aqui com os ossos em sôpa!

--Quem não quer ser lobo não lhe vista a pelle!

A mais empenhada n'aquella reparação era a Machona, e a mais indignada com o facto era Dona Isabel. A primeira corrêra á frente da venda, disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo não tardou que em cada porta, por onde era possivel uma escapula, se postassem as outras de sentinella, formando grupos de tres e quatro. E, no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças:

--Das Dôres! toma cuidado, que o patife não espirre por ahi!

--Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande nol-o pra cá! Temos ainda algumas pequenas que lhe convêm!

--Mas onde está esse ordinario?!

--Saia o canalha!

--Está fazendo a trouxa!

--Quer escapar!

--Não deixa sahir!

--Chama a policia!

--Onde está o Alexandre?

E ninguem mais se entendia. Á vista d'aquella agitação, o vendeiro foi ter com o Domingos.

--Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por emquanto. Logo mais lhe direi o que deve fazer.

E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou:

--Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar!

--Pois então o homem que case! responderam.

--Ou dê-nos pr'a cá o patife!

--Fugir é que não!

--Não foge! não deixa fugir!

--Ninguem se arrede!

E, como a Marcianna lhe lançasse uma injuria mais fórte, ameaçando-o com o punho fechado, o taverneiro jurou que se ella insistisse com desaforos, a mandaria jogar lá fóra, junto com a filha, por um urbano.

--Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso perder tempo!

--Ponha-nos então pr'a cá o homem! exigio a mulata velha.

--Venha o homem! acompanhou o côro.

--É preciso dar-lhe uma lição!

--O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe fallei... Está perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote! Vão descansados; respondo por elle ou pelo dinheiro!

Estas palavras apaziguaram os animos; o grupo das lavadeiras afrouxou; João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que não arredasse pé de casa antes de noite fechada.

--No mais ... acrescentou; póde tratar de vida nova! Nada o prende aqui. Estamos quites.

--Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!...

--Contas? Que contas? O seu saldo não chega para pagar o dote da rapariga!...

--Então eu tenho de pagar um dote?!...

--Ou casar... Ah, meu amigo, este negocio de tres vintens é assim! Custa dinheiro! Agora, se você quizer, vá queixar-se á policia... Está no seu direito! Eu me explicarei em juizo!...

--Com que, não recebo nada?...

--E não principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o ficar ás turras lá fóra com esses damnados! Você bem vio como estão todos a seu respeito! E, se ha pouco não lhe arrancaram os figados, agradeça-o a mim! Foi preciso prometter dinheiro e tenho de cahir com elle, de certo! mas não é justo, nem eu admitto, que saia da minha algibeira, porque não estou disposto a pagar os caprichos de ninguem, e muito menos dos meus caixeiros!

--Mas...

--Basta! Se quizer, por muito favor, ficar aqui até á noite, ha de ficar calado; ao contrario, rua!

E afastou-se.

Marcianna resolveu não ir ao sub-delegado, sem saber que providencias tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte «para ver só!» O que n'esse ella fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumal-a muitas vezes, como costumava, sempre que tinha lá as suas zangas.

O escandalo não deixou de ser, durante o dia, discutido um só instante. Não se fallava n'outra coisa; tanto que, quando, já á noite, Augusta e Alexandre receberam uma visita da comadre, a Leonie, era ainda esse o principal assumpto das conversas.

Leonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote á franceza, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro em todas as caras. O seu vestido de seda côr de aço, enfeitado de encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos á moda com um salto de quatro dedos de altura; as suas luvas de vinte botões que lhe chegavam até aos sovacos; a sua sombrinha vermelha, sumida n'uma nuvem de rendas côr de rosa e com um grande cabo cheio de arabescos extravagantes; o seu pantafaçudo chapéo de immensas abas forradas de veludo escarlate, com um passaro inteiro grudado á copa; as suas joias caprichosas, scintillantes de pedras finas: os seus labios pintados de carmim; suas palpebras tingidas de violeta; o seu cabello artificialmente loiro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas, os costumes e as maneiras d'aquella pobre gente, que de todos os lados surgiam olhos curiosos a espreital-a pela porta da casinha do Alexandre; Augusta, ao ver a sua pequena, a Jujú, como vinha tão embonecada e catita, ficou com os d'ella arrazados d'agoa.

Leonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que fazia as suas e pela mesma costureira; arranjava-lhe chapéos escandalosos como os d'ella e dava-lhe joias. Mas, n'aquelle dia, a grande novidade que Jujú apresentava era estar de cabellos loiros, quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso para uma revolução na estalagem; a noticia correu logo de numero a numero, e muitos moradores se abalaram do commodo para ver a filhita da Augusta «com cabellos de franceza.»

Tal successo pôz Leonie radiante de alegria. Aquella afilhada era o seu luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços depravados; era o que aos seus proprios olhos a resgatava das abjecções do officio. Prostituta de casa aberta, presava todavia com admiração e respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se honrada com a sua estima; cobria-a de obsequios de toda a especie. Nos instantes que estava ali, entre aquelles seus amigos simplorios, que a matariam de ridiculo em qualquer outro logar, nem ella parecia a mesma, pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria preferencias: assentava-se no primeiro banco, bebia agoa pela caneca de folha, tomava ao collo o pequenito da comadre e, ás vezes, descalçava os sapatos para enfiar os chinellos velhos que encontrasse debaixo da cama.

Não obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher não tinha limites; pareciam capazes dos maiores sacrificios por ella. Adoravam-na. Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas suas roupas de espavento, com o seu rostinho redondo, malicioso e petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim.

Jujú, com um embrulho de balas em cada mão, era carregada de casa em casa, passando de braço a braço e levada de bocca em bocca, como um idolo milagroso, que todos queriam beijar.

E os elogios não cessavam:

--Rica pequena!...

--É um enlevo olhar a gente pr'o demoninho!

--É mesmo uma lindeza de criança!

--Uma criaturinha dos anjos!

--Uma boneca franceza!

--Uma menina Jesus!

O pai acompanhava-a commovido, mas solemne sempre, parando a todo momento, como em procissão, á espera que cada qual desafogasse por sua vez o enthusiasmo pela criança. Silenciosamente risonho, com os olhos humidos, patenteava em todo o seu carão mulato, de bigode que parecia postiço, um ar condolente e estupido de um profundo reconhecimento por aquella fortuna, que Deus lhe dera á filha, enviando-lhe dos ceus o ideal das madrinhas.

E, emquanto Jujú percorria a estalagem, conduzida em triumpho, Leonie na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças, discreteava sobre assumptos sérios, fallando compassadamente, cheia de inflexões de pessoa pratica e ajuisada, condemnando máos actos e desvarios, applaudindo a moral e a virtude. E aquellas mulheres, aliás tão alegres e vivazes, não se animavam, defronte d'ella, a rir nem levantar a voz, e conversavam a medo, cochichando, a tapar a bocca com a mão, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua sobranceria de mulher loira vestida de seda e coberta de brilhantes. A das Dôres sentio-se orgulhosa, quando Leonie lhe pousou no hombro a mãozinha enluvada e rescendente, para lhe perguntar pelo seu homem. E não se fartavam de olhar para ella, de admiral-a; chegavam a examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as saias, apalpar-lhe as meias, levantando-lhe o vestido, com exclamações de assombro á vista de tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez commovida. Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da Nossa Senhora da Penha. E Nênêm, no seu enthusiasmo, disse que a invejava do fundo de coração, ao que a mãe lhe observou que não fosse besta. O Albino contemplava-a em extasis, de mão no queixo, o cotovelo no ar. A Rita Bahiana levára-lhe um ramalhete de rosas. Esta não se illudia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita. «Ora! era preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pelle dos homens ricos aquella porção de joias e todo aquelle luxo de roupa por dentro e por fóra!»

--Não sei, filha! pregava depois a mulata, no pateo, a uma companheira; seja assim ou assado, a verdade é que ella passa muito bem de bocca e nada lhe falta: sua boa casa; seu bom carro para passeiar á tarde; theatro toda a noite; bailes quando quer e, aos domingos, corridas, regatas, pagodes fóra da cidade e dinheirama grossa para gastar á farta! Emfim, só o que afianço é que esta não está sujeita, como a Leocadia e outras, a pontapés e cachações de um bruto de marido! É dona das suas acções! livre como o lindo amor! Senhora do seu corpinho, que ella só entrega a quem muito bem lhe der na veneta!

--E Pombinha?... perguntou a visita. Não me appareceu ainda!...

--Ah! esclareceu Augusta. Não está ahi, foi á sociedade de dansa com a mãe.

E, como a outra mostrasse na cara não ter comprehendido, explicou que a filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas e sabbados, mediante dois mil reis por cada noite, servir de dama n'uma sociedade em que os caixeiros do commercio aprendiam a dansar.

--Foi lá que ella conheceu o Costa... acrescentou.

--Que Costa?

--O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida?

--Ah, sei...

E a cocote perguntou depois, abafando a voz:

--E aquillo?... Já veio afinal?...

--Qual! Não é por falta de boa vontade da parte d'ellas, coitadas! Agora mesmo a velha fez uma nova promessa á Nossa Senhora da Annunciação ... mas não ha meio!

D'ahi a pouco, Augusta apresentou-lhe uma chicara de café, que Leonie recusou por não poder beber. «Estava em uso de remedios...» Não disse porém quaes eram estes, nem para que molestia os tomava.

--Prefiro um copo de cerveja, declarou ella.

E, sem dar tempo a que se oppuzessem, tirou da carteira urna nota de dez mil reis, que deu a Agostinho para ir buscar tres garrafas de Carls Berg.

Á vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se um silencio enternecido. A cocote distribuio-os por sua propria mão aos circumstantes, reservando um para si. Não chegavam. Quiz mandar buscar mais; não lh'o permittiram, objectando que duas e tres pessoas podiam beber juntas.

--Para que gastar tanto?... Que alma grande!

O troco ficou esquecido, de proposito, sobre a commoda, entre uma infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas.

--Quando você, comadre, agora me apparece por lá?... quiz saber Leonie.

--Pr'a semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre tem precisão de alguma ... póde-se apromptar com mais pressa...

--Então é bom mandar-me toalhas e lençóes... Camisas de dormir, é verdade! tambem tenho poucas.

--Depois d'amanhã está tudo lá.

E a noite ia se passando. Deram dez horas. Leonie, impaciente já pelo rapaz que ficára de ir buscal-a, mandou ver se elle por acaso estaria no portão, á espera.

--E aquelle mesmo que veio da outra vez com a comadre?...

--Não. É um mais alto. De cartola branca.

Correu muita gente até á rua. O rapaz não tinha chegado ainda. Leonie ficou contrariada.

--Imprestavel!... resmungou. Faz-me ir sozinha por ahi ou incommodar alguem que me acompanhe!

--Porque a comadre não dorme aqui?... lembrou Augusta. Se quizer, arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre depressa!...

Não! não era possivel! Precisava estar em casa essa noite: no dia seguinte pela manhã iriam procural-a muito cedo.

N'isto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo á entrada que Leonie estava em casa do Alexandre, e a menina deixou a mãe um instante no numero 15 e seguio sozinha para ali, radiante de alegria. Gostavam-se muito uma da outra. A cocote recebeu-a com exclamações de agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes.

--Então, minha flôr, como está essa lindeza? perguntou-lhe, mirando-a toda.

--Saudades suas ... respondeu a moça, rindo bonito na sua bocca ainda pura.

E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se, isolando-as de todas as outras. Leonie entregou á Pombinha uma medalha de prata que lhe trouxéra; uma tetéia que valia só pela exquisitice, representando uma fatia de queijo com um camondongo em cima. Correu logo de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas.

--Por um pouco que não me apanhas ... continuou a cocote na sua conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado já, eu estaria longe.--E mudando de tom, a acarinhar-lhe os cabellos:--Porque não me appareces?... Não tens que receiar: minha casa é muito socegada... Já lá tem ido familias!...

--Nunca vou á cidade... É raro! suspirou Pombinha.

--Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas commigo...

--Se mamãe deixar... Olha! ella ahi vem. Peça.

Dona Isabel prometteu ir, não no dia seguinte, mas no outro immediato, que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, d'ahi a um quarto de hora, o rapaz por quem esperava Leonie. Era um moço de vinte e poucos annos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e muito bem apessoado. A cocote, logo que o vio approximar-se, disse baixinho á menina:

--Não é preciso que elle saiba que vais lá domingo, ouviste?

Jujú dormia. Resolveram não acordal-a; iria no dia seguinte.

Na occasião em que Leonie partia pelo braço do amante, acompanhada até ao portão por um sequito de lavadeiras, a Rita, no pateo, beliscou a coxa do Jeronymo e soprou-lhe á meia voz:

--Não lhe cáia o queixo!...

O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d'hombros.

--Aquella pr'a cá,nem pintada!

E, para deixar bem patente as suas preferencias, virou o pé do lado e bateu com o tamanco na canella da mulata.

--Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão ao logar da pancada. Sempre ha de mostrar que é gallego!

X

No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no «Jornal do Commercio» que S. Ex. fôra agraciado pelo governo portuguez como titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se achassem prevenidos para ir comprimental-o no domingo, o negociante dispunha-se a recebel-os condignamente.

Do cortiço, onde esta novidade causou sensação, viam-se nas janellas do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou Izaura, a sacudirem tapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um páo, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da poeira que a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de peça. Chamaram-se novos criados para aquelles dias. No salão da frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia reboliço. Dona Estella, de penteador de cambraia enfeitado de laços côr de rosa, era lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas ordens, abanando-se com um grande leque; ou apparecia no patamar da escada do fundo, preoccupada em soerguer as saias contra as aguas sujas da lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira tambem ia e vinha, com a sua pallidez fria e humida de menina sem sangue. Henrique, de paletó branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e, de instante a instante, chegava á janella, para namoriscar Pombinha, que fingia não dar por isso, toda embebida na sua costura, á porta do numero 15, numa cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia de seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo espaço, ella desviava os olhos do serviço e erguia-os para o sobrado. Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobrecasacado, com o chapéo alto derreado para traz na cabeça e sem largar o guarda-chuva, entrava da rua e atravessava a sala de jantar, seguia até á despensa, diligente e esbaforido, indagando se já tinha vindo isto e mais aquillo, provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda, dando ordens, ralhando, exigindo actividade, e depois tornava a sahir, sempre apressado, e mettia-se no carro que o esperava á porta da rua.

--Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro apromptou os fogos!

E viam-se chegar, quasi sem intermittencia, homens carregados de gigos de champanha, caixas de porto e bordeus, barricas de cerveja, cestos e cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus e leitões, canastras d'óvos, quartos de carneiro e de porco. E as janellas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente, sahido do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças de carne em vinha d'alhos, promptos para entrar no forno. Á porta da cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem depois de tirar-lhe a pelle.

Todavia, cá em baixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos, o seductor da Florinda, desapparecêra durante a noite e um novo caixeiro o substituia ao balcão.

O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido:

--Sei cá! Creio que não podia trazel-o pendurado ao pescoço!...

--Mas você disse que respondia por elle! repontou Marcianna, que parecia ter envelhecido dez annos n'aquellas ultimas vinte e quatro horas.

--De accordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter paciencia!

--Pois então ande com o dote!

--Que dote? Você está bebada?

--Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de mostrar!

--Ora, não me amole!

E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se chegára.

--Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por minha filha! exclamou a desgraçada.

Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade.

Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas as partes.

Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que, sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava possessa.

--Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria! Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste!

E notando que a pequena chorava:--Agora déste para chorar, hein?! mas na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta!

A filha soluçou.

--Cala-te, coisa ruim! Não ouviste?

Florinda soluçou mais forte.

--Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão!

E precipitou-se sobre uma acha de lenha.

Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só carreira o pateo da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.

Ninguem teve tempo de apanhal-a, e um clamor de gallinheiro assustado levantou-se entre as lavadeiras.

Marcianna foi até ao portão, como uma doida e, comprehendendo que a filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos, olhando para o espaço. As lagrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E logo, sem transição, disparou da colera, que a convulsionava desde a manhã da vespera, para cahir n'uma dôr humilde e enternecida de mãe que perdeu o filho.

--Para onde iria ella, meu pai do ceu?...

--Pois você desd'hontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita. Fugio-lhe, é bem feito! Que diabo! ella é de carne, não é de ferro!

--Minha filha!

--É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente!

--Minha filha! Minha filha! Minha filha!

Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha, que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu desvairado olhar de bruxa feiticeira.

Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e a carapinha desgrenhada:

--Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão! Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa!

A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras.

O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que despejasse o numero 12.

--É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua!

Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico.