O Cortiço

Part 8

Chapter 84,006 wordsPublic domain

--Sempre os mesmos pedaços d'asno!... commentava franzindo o nariz. Se a tôla da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam enjoados, e, se ella não toma a sério a borracheira do casamento, dão por páos e por pedras, como esta besta! Uma sucia, todos elles!

Florinda ria, como de tudo, e a velha Marcianna queixava-se de que lhe respingaram kerozene na roupa estendida ao sol. N'essa occasião justamente, um sacco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradoiros. Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. «Aquillo não tinha geito, que diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de aturar?!... Cebo! que os mais não estavam dispostos a supportar as furias de cada um! Quem parira Matheos que o embalasse! Se agora, todas as vezes que a Leocadia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido tinha de sujar d'aquelle modo o trabalho da gente, ninguem mais poderia ganhar ali a sua vida! Que espiga!» Pombinha chegára á porta do numero 15, dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nênêm, toda afogueada do ferro de engommar, perguntava, com um frouxo de riso, se o Bruno ia reformar a mobilia da casa. A Rita fingia não ligar importancia ao facto e continuava a lavar á sua tina. «Não faziam tanta festa ao tal casamento? Pois que aguentassem! Ella estava bem livre de soffrer uma d'aquellas!» O velho Liborio chegára-se, para ver se, no meio da confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do logar em que se achava:

--Sae d'ahi, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pelle do rabo!

Um irmão do santissimo entrára na estalagem, com a sua capa encarnada, a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e parára em meio do pateo, supplicando, muito fanhoso: «Uma esmola para a cera do Sacramento!» As mulheres abandonaram por um instante as tinas e foram beijar devotamente a columbina imagem do Espirito Santo. Pingaram na salva moedinhas de vintem.

Todavia, o Bruno acabava afinal de despejar o que era da mulher e sahia de novo de casa, dando uma volta feroz á fechadura. Atravessou por entre o murmurante grupo dos curiosos que permanecia defronte da sua porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apezar de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua colera.

Leocadia appareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era seu, partido e inutilisado, apoderou-se de furia e avançou sobre a porta, que o marido acabava de fechar, arremettendo com as nadegas contra as duas folhas, que cederam logo, indo ella cahir lá dentro de barriga para cima.

Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fóra e, escancarando a janella com arremeço, começou por sua vez a arrazar e destruir tudo que ainda encontrara em casa.

Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objecto que ella varria para o pateo, gritava sempre: «Upa! Toma, diabo!»

--Ahi vae o relogio! Upa! Toma, diabo!

E o relogio espatifou-se na calçada.

--Ahi vae o alguidar!

--Ahi vae o jarro!

--Ahi vão os copos!

--O cabide!

--O garrafão!

--O bacio!

Um riso geral, communicativo, absoluto, abafava o barulho da louça quebrando-se contra as pedras. E Leocadia já não precisava acompanhar os objectos com a sua phrase de imprecação, porque cada um d'elles era recebido cá fóra com um côro que berrava:

--Upa! Toma, diabo!

E a limpeza proseguia. João Romão acudio de carreira, mas ninguem se incommodou com a presença d'elle. Já defronte da porta do Bruno havia uma montanha de cacos accumulados; e o destroço continuava ainda, quando o ferreiro reappareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a casa, com um raio de roda de carro na mão direita.

Os circumstantes o seguiram, atropelladamente, num clamor.

--Não dá!

--Não póde!

--Prende!

--Não deixa bater!

--Larga o páo!

--Segura!

--Aguenta!

--Cérca!

--Toma o porrete!

E Leocadia escapou afinal das páoladas do marido, a quem o povaréo desarmára num fecha-fecha.

--Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, aproveitando a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detraz.

O Alexandre, que vinha chegando do serviço n'esse momento, apressou-se a correr para o logar do conflicto e cheio de autoridade, intimou o Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir para a estação no mesmo instante.

--Pois você não vê esta gallinha, que apanhei hoje com a boca na botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o Bruno, espumando de raiva e quasi sem folego para fallar.

--Porque você pôz em cacos o que é meu! gritou Leocadia.

--Está bom! está bom! disse o policia, procurando dar á voz inflexões autoritarias e reconciliadoras. Falle cada um por sua vez! Seu marido ... accrescentou elle, voltando-se para a accusada, diz que a senhora...

--É mentira! interrompeu ella.

--Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima!

--Quem era?--Quem foi?--Quem era o homem? interrogaram todos a um só tempo.

--Quem era elle, no fim de contas? inquirio tambem Alexandre.

--Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas!

Houve um côro de gargalhadas.

--É mentira! repetio Leocadia, agora succumbida por uma reacção de lagrimas. Ha muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para romper commigo e, como eu não lh'o dou...

Uma explosão de soluços a interrompeu.

D'esta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em torno do seu pranto.

--Agora ... continuou ella, enxugando os olhos na costa da mão; não sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me até o que eu trouxe quando me casei com elle!...

--Não disseste que já tinhas ahi dentro com que ganhar a vida?... E andar!

--É falso! soluçou Leocadia.

--Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle: está tudo terminado! Seu marido vae recebel-a em boa paz...

--Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece!

--Nem eu queria! retorquio a mulher. Prefiro metter-me com um cavallo de tilbury a ter de aturar este bruto!

E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e recolhendo do montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitavel, fez de tudo uma grande trouxa e foi chamar um carregador.

A Rita sahio-lhe ao encontro.

--Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa.

--Não sei, filha, por ahi!... Hei de encontrar um furo!... Os cães não vivem?...

--Espera um instante ... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ahi para dentro do meu commodo.--E correndo ao Albino, que lavava:--Passa-me no sabão aquella roupa, ouviste? E, quando Firmo acordar, diz-lhe que precisei ir á rua.

Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos hombros o seu chale de crochet e, batendo nas costas da campanheira, segredou-lhe:

--Anda cá commigo! não ficarás á tôa!

E as duas sahiram, ambas sacudidas, deixando atraz de si suspensa a curiosidade do cortiço inteiro.

IX

Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de paraty «pr'a cortar a friagem. »

Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros.

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar tambem com os amigos.

E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos, d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo oriental de arabicos principes voluptuosos.

Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver, conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste; triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:

--Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de cá?...

--Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher.

--Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem!

Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou a mesa.

Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes. Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos, dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em casa da Rita.

Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto, negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente:

--Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se mal!... Tem paciencia!

Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas rebentaram n'aquelle momento.

--Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou a soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo.

O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo:

--Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo, nem que se cuidasse de coisa séria!

Piedade desabafou:

--E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!

E os soluços recrudesciam.

--Não digas asnices, filha!

--Ah! eu bem sei o que isto é!...

--É bobagem tua, é o que é!

--Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me tivéra cahido um calháo na cabeça!

--Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue!

Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse pela «pobrezinha de Christo.»

--Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem bom coração...

--Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!...

Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas.

--Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo.

--Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata!

Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume, pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida.

--Gravida? mas então não é do marido!...

--Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes...

--Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?...

--Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente.

Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo; babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a baba no queixo com a barra da saia.

E riam-se.

Não! definitivamente estava cahido!

Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto, accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas cartas.

E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma, sem tirar os olhos das suas cartas:

--Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.

--É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava por dentro! Ai, o meu rico homem!

E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo, supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse tamanha desgraça.

--Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!... Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo!

A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e, se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida.

Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons resultados.

Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do cavouqueiro, olhava-o atravessado.

O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel, recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás minhocas, porque isso para elle não era gente!--Com um par de cocadas boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do amigo e fez que não dera por coisa alguma.

No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto, cada qual seguio em silencio para o seu lado.

Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes; mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha Marcianna e sua filha Florinda.

Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao bacio.

--Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar inquiridor.

--Não sei, mamãe...

--Que sentes tu?...

--Nada...

--Nada, e estás lançando?... Hein?!

--Não sinto nada, não senhora!...

A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido, levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias, correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente:

--Está de barriga.

E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura.

Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.

Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero 12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella.

Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:

--Quem foi?! Quem foi?!

E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas.

--Quem foi?!

A pequena berrava, mas não respondia.

--Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!

E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala.

Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de uns nove palmos de altura.

As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo.

Todos procuraram chamal-a á razão:

--Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?!

--Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que é!

--Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim você lhe dá cabo da pelle!

--Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ella ha de dizer quem foi ou quebro-lhe os ossos!

--Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a das Dôres.

Fez-se em torno da rapariga um silencio avido, cheio de curiosidade.

--Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! Mas esperem, que eu lhes mostro se ella falla ou não!

E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o cacete, porque a velha queria crescer de novo para a filha.

Ao redor d'esta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam todos por saber quem a tinha emprenhado «Quem foi?! Quem foi?!» esta phrase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve outro remedio:

--Foi seu Domingos ... disse ella, chorando e cobrindo o rosto com a fralda do vestido, rasgado na lucta.

--O Domingos!...

--O caixeiro da venda!...

--Ah! foi aquelle cara de nabo? gritou Marcianna. Vem cá!

E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até a venda.

Os circumstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira.

A taverna, como a casa de pasto, ferviam de concurrencia.

Ao balcão d'aquella, o Domingos e o Manoel aviavam os freguezes, numa roda viva. Havia muitos negros e negras. O barulho era enorme. A Leonor lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro, mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nadegas de negrinha virgem. Tres marujos inglezes bebiam gengibirra, cantando, ebrios, na sua lingua e mascando tabaco.

Marcianna na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que a seguia como um animal puxado pela colleira, ao chegar á porta lateral da venda, berrou:

--Ó seu João Romão!

--Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de serviço.

Bertoleza, com uma grande colher de zinco gottejante de gordura, appareceu á porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta gente reunida, gritou para seu homem:

--Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!

Elle veio afinal.

Que diabo era aquillo?

--Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobrio, deve tomar conta d'ella!

João Romão ficou perplexo.

--Hein?! Que é lá isso?!