O Atheneu (chronica de saudades)
Part 3
A rouparia occupava grande parte do sub-chão do immenso edificio, entre o vigamento do soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada aos lavatorios, centenas de bacias, ao longo das paredes e pouco acima num friso de madeira os copos e as escovas de dentes. Terceiro compartimento, além d'estes, accommodava o arsenal dos apparelhos gymnasticos e o dormitorio da criadagem. Da rouparia para o recreio central atravessava-se obliguamente o saguão das bacias. Logo a sair ao pateo encontrei o benevolo Rebello, que me esperava. Insistiu com um requinte importuno de complacencia sobre o meu incidente, desculpando-me, explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insupportavel. Para mudar de conversa, pedi informações acerca do nosso professor. Deu-m'as optimas, nem outras daria um alumno exemplar como elle. _Nenhum mestre é máu para o bom discipulo_, affirmava uma das maximas da parede.
Era hora de descanço; passeavamos, conversando. Falamos dos collegas. Vi então, de dentro da brandura patriarchal do Rebello descascar-se uma especie de inesperado Thersito, produzindo injurias e maldições. «Uma cafila! uma corja! Não imagina, meu caro Sergio. Conte como uma desgraça ter de viver com esta gente ». E esbeiçou um labio sarcastico para os rapazes que passavam. «Ah! vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais peccados na consciencia que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vicio em cada pollegada de pelle. Fiem-se nelles. São servis, traidores, brutaes, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Socios de bandalheira! Fuja d'elles, fuja d'elles. Cheiram a corrupção, empestam de longe. Corja de hypocritas! Immoraes! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da vespera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com elles mesmos ha de aprender o que são... Aquelle é o Malheiro, um grande em gymnastica. Entrou graudo, trazendo para cá os bons costumes de quanto collegio por ahi. O pae é official. Cresceu num quartel no meio da chacota das praças. Forte como um touro, todos o temem, muitos o cercam, os inspectores não podem com elle; o director respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos... Este que passou por nós, olhando muito, é o Candido, com aquelles modos de mulher, aquelle arzinho de quem saiu da cama, com preguiça nos olhos... Este sujeito... Ha de ser seu conhecido. Mas faço excepções: alli vem o Ribas, está vendo? feio, coitadinho! como tudo, mas uma pérola; É a mansidão em pessoa. Primeira voz do _Orpheon_, uma vozinha de moça que o director adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como os seraphins. Uma perola!»
--Alli está um de joelhos...
--De joelhos... Não ha perguntar; é o Franco. Uma alma penada. Hoje é o primeiro dia, alli está de joelhos o Franco. Assim atravessa as semanas, os mezes, assim o conheço, nesta casa, desde que entrei. De joelhos como um penitente expiando a culpa de uma raça. O director chama-lhe cão, diz que tem callos na cara. Se não tivesse callos no joelho, não haveria canto do _Atheneu_ que elle não marcasse com o sangue de uma penitencia. O pae é de Matto-Grosso; mandou-o para aqui com uma carta em que o recommendava como incorrigivel, pedindo severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um caixeiro que faz os pagamentos e deixa lembranças. Não sáe nunca... Afastemo-nos que ahi vem um grupo de gaiatos.
Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com surriadas.
«Viu aquelle da frente, que gritou _calouro_? Se eu dissesse o que se conta d'elle... aquelles olhinhos humidos de Senhora das Dôres... Olhe; um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.
[Figura 07]
«Isto é uma multidão; é preciso força de cotovellos para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não póde imaginar. Os genios fazem aqui dous sexos, como se fosse uma escola mixta. Os rapazes timidos, ingenuos, sem sangue, são brandamente impellidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o collegio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e affectuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admittir protectores.»
Ia por diante Rebello com os extraordinarios avisos, quando senti puxarem-me a blusa. Quasi caí. Voltei-me; vi á distancia uma cara amarella, de gordura balofa, olhos vesgos sem pestanas, virada para mim, esgarçando a bocca em careta de riso cynico. Um sujeito evidentemente mais forte do que eu. Não obstante apanhei com raiva um pedaço de telha e arremessei. O tratante livrou-se, injuriando-me com uma gargalhada, e sumiu-se. «Muito bem», applaudiu Rebello. E á pergunta que fiz, informou: aquelle desagradavel rapaz era o Barbalho, que havia de ser um dia preso como gatuno de joias, nosso companheiro da aula primaria, do numero dos esquecidos nos bancos do fundo.
[Figura 08]
O professor Manlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para salvar-me das consequencias do escarneo do desastrado incidente da primeira aula, obsequiou-me na seguinte com as melhores palavras de animação. Os rapazes foram generosos. Maurilio acariciou-me a cabeça mimosamente, provando que sabia ser bom o dedinho implacavel dos argumentos. Só o amarello dos olhos vesgos teimava em fazer gaifonas á socapa.
Depois do jantar não tornei a vêr o Rebello. Como frequentava algumas aulas extraordinarias do curso superior, recolhia-se a certas horas para as salas de cima.
A sala do professor Manlio era ao nivel do pateo, em pavilhão independente do edificio principal, com duas outras do curso primario, o alojamento da banda de musica e o salão supplementar de recreio, vantajoso em dias de chuva. Formando angulo recto com esta casa, uma extensa construcção de tijolo e taboas pintadas, sala geral do estudo no pavimento terreo e dormitorio em cima, concorria para fechar metade do quadrilatero do pateo, que o grande edificio completava, estentendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa. No fundo d'esta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro, esteril, insipido como a alegria obrigatoria, algumas arvores de cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa, com o verdor morto das palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade precoce dos ramos que soffrem, como se não coubesse a vegetação no internato; a um canto, esgalgado cypreste subia até as gotteiras, tentando fugir pelos telhados.
Sem o Rebello, achei-me ahi como perdido, em meio dos rapazes. Os conhecidos da aula desappareciam no tumulto que as salas todas despejavam.
Nem um só de quem me podesse aproximar. Rente com a parede, para que me não dessem attenção, insinuei-me até o logar d'onde o inspector Sylvino, um grande magro, de avultado nariz e suissas dilaceradas, olhar miudo e vivo como chispas, em orbitas de antro, fiscalisava o recreio, graduando a folgança, á mercê de um temivel canhenho. Sentava-se á entrada do portão do lavatorio. Um pouco além da cadeira do Sylvino, fiquei a salvo. Do seguro retiro avistava, no terreiro, fresco das largas sombras da hora, o movimento dos collegas.
Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente a dispersão dos alumnos. Eram os pobres novatos que os veteranos sovavam á cacholeta, fraternalmente.
Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitencia; em pé, cara contra a parede. Como Sylvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas para arrancar a cabeça e vêr morrer o bichinho na palma da mão. Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de máu modo: «Lá sei! disse elle. Porque me mandaram.» E continuou a pegar as moscas. Franco era um rapazola de quatorze annos, rachitico, de olhos pasmados, face livida, palpebras pisadas. Á fronte, com a expressão vaga dos olhos e obliquidade dolorida dos supercilios, pousava-lhe uma nevoa de afflicção e paciencia, como se vê no _Flos sanctorum_. A parte inferior do semblante rebellava-se; um canto dos labios franzia-se em contracção constante de odiento desprezo. Franco não ria nunca. Sorria apenas, assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo desenlace como um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam. Uma quéda alegrava-o, principalmente perigosa. Vivia isolado no circulo da excomunhão com que o diretor, invariavelmente, o fulminava todas as manhãs, lendo no refeitorio perante o collegio as notas da vespera.
Os professores já sabiam. Á nota do Franco, sempre má, devia seguir-se especial commentario deprimente, que a opinião esperava e ouvia com delicia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós como elle! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anathema. Não convinha expulsar. Uma cousa d'estas aproveita-se como um _bibelot_ do ensino intuitivo, explora-se como a miseria do ilota, para a licção fecunda do asco. A propria indifferença repugnante da victima é util.
Tres annos havia que o infeliz, num supplicio de pequeninas humilhações crueis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das proprias culpas, alli estava,--cariatide forçada no edificio de moralisação do _Atheneu_, exemplar perfeito de depravação offerecido ao horror santo dos puros.
Varias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de subito em frente, e, revestindo-se de quanta seriedade lhe era susceptivel o açafrão da cara, perguntava: «Mudou as calças? Um inferno. Até que afinal, o meu desespero estourou.
[Figura 09]
Foi á noite, pouco antes da ceia. Estavamos a um canto mal illuminado do pateo, quasi sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma inexprimivel interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois, rolavamos na poeira engalfinhados como feras. Uma lucta rapida. Avisaram-nos que vinha o Sylvino. Barbalho evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz.
Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da tristeza de hospital dos dormitorios, fundos na sombra do gaz mortiço, trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia.
Era assim o collegio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
Onde metter a machina dos meus ideaes naquelle mundo de brutalidade, que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando á investigação da minha inexperiencia? Qual o meu destino, naquella sociedade que o Rebello descrevera horrorisado, com as meias phrases de mysterio, suscitando temores indefinidos, recommendando energia, como se colleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a norma generosa e sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz do Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes o nobre aspecto da solemnidade dos premios, dando-me idéa da legião dos soldados do trabalho, que fraternisavam no empenho commum, unidos pelo coração e pela vantagem do collectivo esforço. Individualisados na debandada do receio, com as observações ainda mais da critica do Rebello, bem diverso sentimento inspiravam-me, A reacção do contraste induzia-me a um conceito de repugnancia que o habito havia de esmorecer, que me tirava lagrimas áquella noite. Ao mesmo tempo opprimia-me o presentimento da solidão moral, fazendo adivinhar que as preoccupações minimas e as concomitantes surpresas inconfessaveis dariam pouco para as e effusões de allivio, a que corresponde o conselho, a consolação.
Nada de protector, dissera Rebello, Era o ermo. E, na solidão, conspiradas, as adversidades de toda a especie, falsidade traiçoeira dos affectos, perseguição da malevolencia, espionagem da vigilancia; por cima de tudo, céu de trovões sobre os desalentos, a furia tonante de Jupiter-director, o tremendo Aristarcho dos momentos graves.
Lembranças da familia desviaram-me o curso ás reflexões. Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro somno, nem a oração, tão longe nesse momento, que me protegia á noite como um docel de amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asylos da miseria recolhem.
A convicção do meu triste infortunio lentamente, suavemente, anniquilou-me num conforto de prostração e eu dormi.
Pela noite a dentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens varias do atribulado dia; a pegajosa ternura do Sanches, a cara amarella do Barbalho, a expressão de tortura do Franco, os frades descompostos do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era o Franco. A minha aula, o collegio inteiro, mil collegios, arrebatados, num pé de vento, voavam leguas a fóra por uma planicie sem termo. Gritavam todos, urravam a sabbatina de taboadas com um enthusiasmo de turbilhão. O pó crescia em nuvens do sólo; a massa confusa ouriçava-se de gestos, gestos de galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a floresta dos braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão magra do Maurilio, crescida, enorme, preta, torcendo, destorcendo os dedos sofregos, convulsionados da hysteria do quinau... E eu caía, unico vencido! E o tropel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! sopeavam-me, calcavam-me, pesados, carregando premios, premios aos cestos!
A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angustia. Cinco horas da manhã.
III
Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudencia, emquanto applicavam-se os outros á peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos autobiographicos, para a opportuna confecção de mais uma _infancia celebre_, certo não registraria, entre os meus episodios de predestinado, o caso banal da natação, de consequencias, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.
_Natação_ chamava-se o banheiro, construido num terreno das dependencias do _Atheneu_, vasta toalha d'agua ao rez de terra, trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre. O fundo, invisivel, de ladrilho, offerecia uma inclinação, baixando gradualmente de um extremo para outro. Accusava-se ainda mais esta differença de profundidade por dois degráus convenientemente dispostos para que tomassem pé as crianças como os rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a agua cobria um homem.
[Figura 10]
Por occasião dos intensos calores de Fevereiro e Março e do fim do anuo, havia ahi dous banhos por dia. E cada banho era uma festa, naquella agua gorda, salobra da transpiração lavada das turmas precedentes, que as dimensões do tanque impediam a devida renovação; turbulento debate de corpos nús, estreitamente cingidos no calção de malha rajado a côres, enleiando-se os rapazes como lampreias, uns immergindo, reapparecendo outros, olhos injectados, cabellos a escorrer pela cara, vergões na pelle de involuntarias unhadas dos companheiros, entre gritos de alegria, gritos de susto, gritos de terror; os menores agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos, se algum mais forte chegava.
Dos maiores, alguns havia que faziam medo realmente, singrando a braçadas, levando a hombro a resistencia d'agua; outros se precipitavam cabeça para baixo, volteando os pés no ar como cauda de peixe, prancheando sem vêr a quem. E, borbulhando entre os nadadores, fartas ondas de resaca se emborcavam e iam transbordar pelas immediações do banheiro alagando tudo.
Ao longo do tanque, corria o muro divisorio, além do qual ficava a chacara particular do director. Á distancia, viam-se as janellas de uma parte da casa, onde ás vezes eram recolhidos os estudantes enfermos, fechadas sempre a venezianas verdes.
Trepada ao muro e meio escondida por uma mouta de bambús e ramos de hera, vinha Angela, a canarina, vêr os banhos da tarde. Lançava pedrinhas aos rapazes; os rapazes mandavam-lhe beijos e mergulhavam, buscando o seixo. Angela, torcendo os pulsos, reclinando-se para traz, ria perdidamente um grande riso, desabrochado em corolla de flôr através dos dentes alvos.
Ao primeiro banho, amedrontou-me a desordem movimentada.
Procurei o recanto dos menores. Determinava a disciplina a divisão dos banhistas em tres turmas, conforme as classes de idade. Mas, o descuido da fiscalisação permittia que as turmas se confundissem e o inspector de serviço, com a varinha destinada aos retardatarios, vigiava, affastado, de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos marmanjos que as espadanas d'agua acobertavam. Mal tinha eu entrado, senti que duas mãos, no fundo prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um impulso violento caí de costas; a agua abafou-me os gritos, cobriu-me a vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asphyxia, pensei morrer. Sem saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, á tôa, immerso a desfallecer, quando alguem me amparou. Um grande tomou-me ao hombro e me depôz á borda, estendido, vomitando agua. Levei algum tempo para me inteirar do que occorrera. Esfreguei por fim os olhos e verifiquei que o Sanches me tinha salvo. «Ia afogar-se!» disse elle, amparando-me a cabeça emquanto me desempastava os cabellos de cima dos olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe effusivamente o que me haviam feito. «Perversos!» observou-me o collega com pena, e attribuiu a brutalidade a qualquer peste que fugira no atropello dos nadadores, desvelando-se em solicitudes por tranquillisar-me. Tive depois motivo para crêr que o perverso e a peste fôra-o elle proprio, na intenção de fazer valer um bom serviço.
Mas a consequencia immediata do facto foi que forcei a repugnancia que o Sanches me causava e me fiz todo gratidão para com elle e intima amizade. Curiosa e accidentada tinha de ser essa minha aventura de apego e confiança...
No _Atheneu_ formávamos a dous para tudo. Para os exercicios gymnasticos, para a entrada na capella no refeitorio, nas aulas, para a saudação ao anjo da guarda, ao meio-dia, para a distribuição do pão secco depois do canto. Por amor da regularidade do organisação militar, repartiam-se as tres centenas de alumnos em grupos de trinta, sob o directo commando de um decurião ou _vigilante_. Os vigilantes eram escolhidos por selecção de aristocracia, asseverava Aristarcho. Vigilante era o Malheiro, o heróe do trapezio; vigilante era o Ribas, a melhor vocalisação do _Orpheon_; vigilante era o Matta, mirrado, corcundinha, de espinha quebrada, appellidado o _mascate_, mellifluo no trato, nunca punido ninguem sabia por que, reputação de excellente porque ninguem se lembrava de verificar, que, entretanto, Rebello apontava como chefe da policia secreta do director; vigilante o Saulo, que tinha tres distincções na instrucção publica; vigilante Romulo, _mestre cook_, por alcunha, uma besta, grandalhão, ultimo na gymnastica pela corpulencia bamba, ultimo nas aulas, dispensado do _Orpheon_ pela garganta rachada de requinta velha, mas exercendo no collegio, por excepção de saliencia na largura chata da sua incapacidade, as complexas e delicadas funcções de zabumba da banda. Não sei se este geito particular para o bombo, formula musical do annuncio, não sei se uma celebre herança que Romulo esperava de afortunados parentes, verdade é que entre todos fôra Romulo apurado por Aristarcho para o invejavel privilegio de seu futuro genro.
Diversos outros vigilantes contavam-se como estes, eleitos por um criterio que dava ensejo a que o escolhido por valentia á barra fixa representava no estudo um papel contristador; vice-versa, outro, como Ribas, exemplar nas aulas, magricella e esgotado, mal podia ao trapezio vacillar a acrobacia simplificada do prumo.
Sanches era tambem vigilante.
Estes officiaes inferiores da milicia da casa faziam-se tyrannetes por delegação da suprema dictadura. Armados de sabres de páu com guardas de couro, tomavam a sério a investidura do mando e eram em geral de uma ferocidade adoravel. Os sabres puniam summariamente as infracções da disciplina na fórma: duas palavras ao serra-fila, perna frouxa, desvio notavel do alinhamento. Regimen siberiano, como se vê, do que resultava que os vigilantes eram altamente conceituados.
No caso particular da nossa fortuita aproximação, não podia deixar de influir consideravelmente, a bella importancia collegial do vigilante Sanches. Mas outras circumstancias concertaram-se para determinar a nova feição das minhas disposições conforme se accentuou depois do incidente do banho.
Já me era licito julgar iniciada na convivencia intima da escola. Chamado por Manlio a provas, consegui agradar, conquistando uma aura que me devia por algum tempo favorecer. Encontrei o Barbalho. Tinha a face marcada pelas minhas unhas; evitou-me. No recreio commetti a injustiça de ir deixando o Rebello. Tambem o amavel camarada tinha na bocca um máu cheiro que lhe prejudicava a pureza dos conselhos; demais, falava prendendo a gente com dedos de torquez e soltando os aphorismos a queima-roupa. Por seu lado, o venerado collega correspondeu ao movimento massando-se commigo e amuando. Durante as aulas, em que nos sentavamos perto um do outro, absorvia-se em sua desesperada attenção e era como se estivesse a muitas milhas. Se, todavia, por imprescindivel necessidade tinha de me falar, então dirigia-me a palavra com a habitual affabilidade de joven cura.
Estava acclimado, mas eu me acclimara pelo desalento, como um encarcerado no seu carcere.
Depois que sacudi fóra a tranca dos ideaes ingenuos, sentia-me vasio de animo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderavel da alma: o vacuo habitava-me dentro. Premia-me a força das cousas; senti-me acovardado. Perdeu-se a licção viril de Rebello: prescindir de protectores. Eu desejei um protector, alguem que me valesse, naquelle meio hostil e desconhecido, e um valimento directo mais forte do que palavras.
Se não houvesse olvidado as praticas, como a assistencia pessoal do Rebello, eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo, como elle observara a efffeminação morbida das escolas. Mas a theoria é fragil e adormece como as larvas friorentas, quando a estação obriga. A lethargia moral pesava-me no declive. E, como se a alma das crianças, á maneira do physico, esperasse realmente pelos dias para caracterisar em definitiva a conformação sexual do individuo, sentia-me possuido de certa necessidade preguiçosa de amparo, volupia de fraqueza em rigor impropria do caracter masculino. Convencido de que a campanha do estudo e da energia moral não era precisamente uma cavalgata quotidiana, animada pelo clarim da rhetorica, como nas festas, e pelo verso emphatico dos hymnos, entristeceu-me a realidade crua. Desilludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triumphaes; desmoralisava-me o ram-ram estagnado da paz das casernas, o prosaismo elementar da fachina.
Com esta crise do sentimento casava-se o receio que me infundia o microcosmo do _Atheneu_. Tudo ameaça os indefesos. O desembaraço tumultuoso dos companheiros á recreação, a maneira facil de conduzir o trabalho, pareciam-me traços de esmagadora superioridade: espantava-me a viveza dos _pequenos_, tão pequenos alguns! O braço do Sanches vinha assim salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na vertigem do momento.
Eu não estudava: a minha conta era, entretanto, regular, por um concurso de elementos eventuaes direitos da recente matricula á benevolencia, a minha recommendação ao professor Manlio, com os retalhos alinhavados de sciencia anterior. Mantinha-me em satisfactoria média; mas o risco da decadencia era constante. O methodo constituia o peior obstaculo; sem o auxilio de alguem, mais pratico, estava perdido. Sanches havia sem duvida de valer-me com a sua capacidade de grande estudante, sobretudo com a boa vontade insinuativa que desinteressadamente manifestava. Sem falar no proveito que rendia esta affeição, empunhando por meu favor o terrivel sabre de vigilante, com guardas de couro!