O Atheneu (chronica de saudades)

Part 2

Chapter 23,657 wordsPublic domain

Na occasião em que me ia embora, estavam accendendo luzes variadas de Bengala diante da casa. O _Atheneu_, quarenta janellas, resplendentes do gaz interior, dava-se ares de encantamento com a illuminação de fóra. Erigia-se na escuridão da noite, como immensa muralha de coral flammante, como um scenario animado de saphira com horripilações errantes de sombra, como um castello phantasma batido de luar verde emprestado á selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e recordações. Um jacto de luz electrica, derivado de fóco invisivel, feria a inscripção dourada em arco sobre as janellas centraes, no alto do predio. A uma d'ellas, á sacada, Aristarcho mostrava-se. Na expressão olympica do semblante transpirava a beatitude de um gozo superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da immortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim:--luz benigna e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Pantheon. A contemplação da posteridade em baixo.

Aristarcho tinha momentos d'estes, sinceros. O annuncio confundia-se com elle, supprimia-o, substituia-o, e elle gozava como um cartaz que experimentasse o enthusiasmo de ser vermelho. Naquelle momento, não era simplesmente a alma do seu instituto, era a propria feição palpavel, a synthese grosseira do titulo, o rosto, a testada, o prestigio material de seu collegio, identico com as letras que luziam em aureola sobre a cabeça. As letras, de ouro; elle, immortal: unica differença.

[Figura 04]

Guardei, na imaginação infantil, a gravura d'esta apotheose com o atordoamento offuscado, mais ou menos de um sujeito partindo á meia-noite de qualquer theatro, onde, em magica beata, Deus Padre pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza do ultimo quadro. Conheci-o solemne na primeira festa, jovial na segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o retrato que me ficou para sempre do meu grande director, foi aquelle--o bello bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas, photographia estatica, na ventura de um raio electrico.

É facil conceber a attracção que me chamava para aquelle mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pae que eu ia ser apresentado ao director do _Atheneu_ e á matricula. O movimento não era mais a vaidade, antes o legitimo instincto da responsabilidade altiva; era uma consequencia apaixonada da seducção do espectaculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender á communhão fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empreza ideal de energia e de dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma experiencia de dez annos.

O director recebeu-nos em sua residencia, com manifestações ultra de affecto. Fez-se captivante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu espirito, evidenciou as facturas do seu coração. O genero era bom, sem duvida nenhuma; que apezar do paletot de seda e do calçado raso com que se nos apresentava, apezar da bondosa familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destitui da altitude de divinisação em que o meu criterio embasbacado o acceitara.

Verdade é que não era facil reconhecer alli, tangivel e em carne, uma entidade outr'ora da mythologia das minhas primeiras concepções anthropomorphicas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho, feiissimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões, carbonisando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarcho, e o suppunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara chupada, pedagogica, oculos apocalypticos, carapuça negra de borla, fanhoso, omnipotente e máu, com uma das mãos para traz escondendo a palmatoria e doutrinando á humanidade o b-a-bá.

As impressões recentes derogavam o meu Aristarcho; mas a hyperbole essencial do primitivo transmittia-se ao successor por um mysterio de hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquella complicação immediata do paletot de seda e do sapato raso, fazendo alliança com Aristarcho II contra Aristarcho I. no reino da phantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Elle! Estremeci.

«Como se chama o amiguinho?» perguntou-me o director.

--Sergio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o «seu criado» da estricta cortezia.

--Pois, meu caro Sr. Sergio, o amigo ha de ter a bondade de ir ao cabelleireiro deitar fóra estes cachinhos...

Eu tinha ainda os cabellos compridos, por um capricho amoroso de rainha mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O director, explicando a meu pae, accrescentou com o rizinho nasal que sabia fazer: «Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu collegio...»

--Peço licença para defender os meninos bonitos... objectou alguem entrando.

Surprehendendo-nos com esta phrase, unctuosamente escoada por um sorriso, chegou a senhora do director, D. Emma. Bella mulher em plena prosperidade dos trinta annos de Balzac, fórmas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupillas retintas, de uma côr só, que pareciam encher o talho folgado das palpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria tambem a côr do jambo, se jambo fosse rigorosamente o fructo prohibido. Adiantava-se por movimentos oscillados, cadencia de menuetto harmonioso e molle que o corpo alternava. Vestia setim preto justo sobre as fórmas, reluzente como panno molhado; e o setim vivia com ousada transparencia a vida occulta da carne. Esta apparição maravilhou-me.

Houve as apresentações de ceremonia, e a senhora com um nadinha de excessivo desembaraço sentou-se no divan perto de mim.

--Quantos annos tem? perguntou-me.

--Onze annos...

--Parece ter seis, com estes lindos cabellos.

Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabello nos dedos:

--Córte e offereça a mamãe, aconselhou com uma caricia; é a infancia que ahi fica, nos cabellos louros... Depois, os filhos nada mais têm para as mães...

O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina musica. Olhei furtivamente para a senhora. Ella conservava sobre mim as grandes pupillas negras, lucidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pae, formulou sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no internato.

--Mas o Sergio é dos fortes, disse Aristarcho, apoderando-se da palavra. Demais, o meu collegio é apenas maior que o lar domestico. O amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilancia são mais activos. São as crianças os meus predilectos. Os meus esforços mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a familia está fóra, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os detractores...

Enveredando pelo thema querido do elogio proprio e do _Atheneu_, ninguem mais pôde falar...

Aristarcho, sentado, de pé, cruzando terriveis passadas, immobilisando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de _meetings_, clamando como para um auditorio de dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiraveis, como um leiloeiro, e as opulentas facturas, desenrolou, com a memoria de uma ultima conferencia, a narrativa dos seus serviços á causa santa da instrucção. Trinta annos de tentativas e resultados, esclarecendo como um pharol diversas gerações agora influentes no destino do paiz! E as reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporaes, o que já dava uma benemerencia passavel. Era preciso a introducção do methodos novos, suppressão absoluta dos vexames de punição, modalidades aperfeiçoadas no systema das recompensas, ageitação dos trabalhos, de maneira que seja a escola um paraiso; adopção de normas desconhecidas cuja efficacia elle presentia, perspicaz como as aguias. Elle havia de crear... um horror, a transformação moral da sociedade!

Uma hora trovejou-lhe á bocca, em sanguinea eloquencia, o genio do annuncio. Mirámol-o na inteira expansão oral, como, por occasião das festas, na plenitude da sua vivacidade pratica. Contemplavamos (eu com aterrado espanto) distendido em grandeza épica--o _homem sandwich_ da educação nacional, lardeado entre dous monstruosos cartazes. Ás costas, o seu passado incalculavel de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a reclame dos immortaes projectos.

II

Abriam-se as aulas a 15 de Fevereiro.

De manhã, á hora regulamentar, compareci.

O director, no escriptorio do estabelecimento, occupava uma cadeira rotativa junto á mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro abria-se em columnas massiças de escripturação e linhas encarnadas.

Aristarcho, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do collegio, conferia, analysava os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento entravam alumnos. Alguns acompanhados.

A cada entrada, o director lentamente fechava o livro, marcando a pagina com um alfange de marfim; fazia gyrar a cadeira e soltava interjeições de acolhimento, offerecendo episcopalmente a mão pelluda ao beijo contricto e filial dos meninos. Os maiores, em regra, recusavam-se á cerimonia e partiam com um simples aperto de mão.

O rapaz desapparecia, levando o sorriso pallido na face, saudoso da vadiação ditosa das férias. O pae, o correspondente, o portador, despedia-se, depois de banaes comprimentos, ou palavras a respeito do estudante, amenisadas pela gracinha da bonhomia superior de Aristarcho, que punha habilmente um sujeito fóra de portas com o riso fanhoso e o simples modo impellido de segurar-lhe os dedos.

[Figura 05]

A cadeira gyrava de novo á posição primitiva; o livro da escripturação espalmava outra vez as paginas enormes; e a figura paternal do educador desmanchava-se, volvendo a simplificar-se na esperteza attenta e secca do gerente.

A este vae-vem de attitudes, feição dupla de uma mesma individualidade e contingencia commum dos sacerdocios, estava tão habituado o nosso director, que nenhum esforço lhe custava a manobra. O especulador e o levita ficavam-lhe dentro em camaradagem intima, _bras dessus, bras dessous_. Sabiam, sem prejuizo da opportunidade, apparecer por alternativa ou simultaneamente; eram como duas almas inconhas num só corpo.

Soldavam-se nelle o educador e o emprezario com uma perfeição rigorosa de accôrdo, dois lados da mesma medalha: oppostos, mas justapostos.

Quando meu pae entrou commigo, havia no semblante de Aristarcho uma pontinha de aborrecimento. Decepção talvez de estatistica; o numero dos estudantes novos não compensando o numero dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as despezas do fim do anno. Mas a sombra de despeito apagou-se logo, como o resto de tunica que apenas tarda a sumir-se numa mutação á vista; e foi com uma explosão de contentamento que o director nos acolheu.

Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria de recepção que queria dispensar. Elle tinha maneiras de todos os gráos, segundo a condição social da pessoa. As sympathias verdadeiras eram raras. No amago de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. E duramente se marcavam distincções politicas, distincções financeiras, distincções baseadas na chronica escolar do discipulo, baseadas na razão discreta das notas do guarda-livros. Ás vezes, uma criança sentia a alfinetada no geito da mão a beijar. Saía indagando comsigo o motivo d'aquillo, que não achava em suas contas escolares... O pae estava dois trimestres atrazado.

Por diversas causas a minha recepção devia ser das melhores. Effectivamente; Aristarcho levantou-se ao nosso encontro e nos conduziu á sala especial das visitas.

Saiu depois a mostrar o estabelecimento, as collecções, em armarios, dos objectos proprios para facilitar o ensino. Eu via tudo curiosamente, sem perder os olhares dos collegas desconhecidos, que me fitavam muito ancho na dignidade do uniforme em folha. O edificio fôra caiado e pintado durante as férias, como os navios que aproveitam o descanço nos portos para uma refórma de apresentação. Das paredes pendiam as cartas geographicas, que eu me comprazia de vêr como um itinerario de grandes viagens planejadas. Havia estampas coloridas em molduras negras, assumptos de historia santa e desenho grosseiro, ou exemplares zoologicos e botanicos, que me revelavam direcções de applicação estudiosa em que eu contava triumphar. Outros quadros vidraçados exhibiam sonoramente regras moraes e conselhos muito meus conhecidos de amor á verdade, aos paes, e temor de Deus, que estranhei como um codigo de redundancia. Entre os quadros, muitos relativos ao Mestre--os mais numerosos; e se esforçavam todos por arvorar o mestre em entidade incorporea, argamassada de pura essencia de amor e suspiros cortantes de sacrificio, ensinando-me a didascalolatria que eu, de mim para mim, devotamente, jurava desempenhar á risca. Visitámos o refeitorio, adornado de trabalhos a lapis dos alumnos, a cozinha de azulejo, o grande pateo interno dos recreios, os dormitorios, a capella... De volta á sala de recepção, adjacente á da entrada lateral e fronteira ao escriptorio, fui apresentado ao professor Manlio, da aula superior de primeiras letras, um homem aprumado, de barba toda, grisalha e cerrada, pessoa excellente, desconfiando por systema de todos os meninos.

Durante o tempo da visita, não falou Aristarcho senão das suas luctas, suores que lhe custava a mocidade e que não eram justamente apreciados. «Um trabalho insano! Moderar, animar, corrigir esta massa de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações; encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos impetos; amordaçar excessivos ardores; retemperar o animo dos que se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a corrupção; desilludir as apparencias seductoras do mal; aproveitar os alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos; prevenir a depravação dos innocentes; espiar os sitios obscuros; fiscalisar os amizades; desconfiar das hypocrisias; ser amoroso, ser violento, ser firme; triumphar dos sentimentos de compaixão para ser correcto; proceder com segurança, para depois duvidar; punir para pedir perdão depois... Um labor ingrato, titanico, que extenua a alma, que nos deixa acabrunhados ao anoitecer de hoje, para recomeçar com o dia de amanhã... Ah! meus amigos, concluiu offegante, não é o espirito que me custa, não é o estudo dos rapazes a minha preoccupação... É o caracter! Não é a preguiça o inimigo, é a immoralidade!» Aristarcho tinha para esta palavra uma intonação especial, comprimida e terrivel, que nunca mais esquece quem a ouviu dos seus labios. «A immoralidade!»

E recuava tragicamente, crispando as mãos. «Ah! mas eu sou tremendo quando esta desgraça nos encandalisa. Não! Estejam tranquillos os paes! No _Atheneu_, a immoralidade não existe! Velo pela candura das crianças, como se fossem, não digo meus filhos: minhas proprias filhas! O _Atheneu_ é um collegio moralisado! E eu aviso muito a tempo... Eu tenho um codigo... » Neste ponto o director levantou-se de salto e mostrou um grande quadro á parede. «Aqui está o nosso codigo. Leiam! Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hypothese: o caso da immoralidade não está lá. O parricidio não figurava na lei grega. Aqui não está a immoralidade. Se a desgraça occorre, a justiça é o meu terror e a lei é o meu arbitrio! Briguem depois os senhores paes!... »

Affianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em superlativo a metaphora sabida das varas verdes. Notando a minha perturbação, o director desvaneceu-se em afagos. «Mas para os rapazes dignos eu sou um pae!... os máus eu conheço: não são as crianças, principalmente como você, o prazer da familia, e que ha de ser, estou certo, uma das glorias do _Atheneu_. Deixem estar... » Eu tomei a sério a prophecia e fiquei mais calmo.

Quando meu pae saiu, vieram-me lagrimas, que eu tolhi a tempo de ser forte. Subi ao salão azul, dormitorio dos medios, onde estava a minha cama; mudei de roupa, levei a farda ao numero do deposito geral, meu numero. Não tive coragem de affrontar o recreio. Via de longe os collegas, poucos áquella hora, passeando em grupos, conversando amigavelmente, sem animação, impressionados ainda pelas recordações de casa; hesitava em ir ter com elles, embaraçado da estréa das calças lanças, como um exaggero comico, e da sensação de nudez á nuca, que o córte recente dos cabellos desabrigara era escandalo. João Numa, inspector ou bedel, baixote, barrigudo, de oculos escuros, movendo-se com vivacidade de bacoro alegre, veio achar-me indeciso, á escada do pateo. «Não desce, a brincar?» perguntou bondosamente. «Vamos, desça, vá com os outros». O amavel bacoro tomou-me pela mão e descemos juntos.

O inspector deixou-me entre dous rapazinhos, que me trataram com sympathia.

Ás onze horas, a sineta deu o signal das aulas. Os meus bons companheiros, de classes atrazadas, indicaram a sala de ensino superior de primeiras letras, que devia ser a minha, e se despediram.

O professor Manlio, a quem eu fôra recommendado, recommendou-me por sua vez ao mais sério dos seus discipulos, o honrado Rebello. Rebello era o mais velho e tinha oculos escuros como João Numa. O vidro, curvo dos oculos cobria-lhe os olhos rigorosamente, monopolisando a attenção no interesse unico da mesa do professor. Como se fosse pouco, o zeloso estudante fazia concha com as mãos ás temporas, para impedir o contrabando evasivo de algum olhar escapado ao monopolio do vidro.

Este luxo de applicação não provinha do simples empenho de fazer attitude de exemplar. Rebello soffria da vista, tanto que muito tarde podera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com um sorriso benevolo de avô; afastou-se um pouco para me dar logar e esqueceu-me incontinente, para afundasse na devoradora attenção que era o seu apanagio.

Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de typos que me divertia. O Gualterio, miudo, redondo de costas, cabellos revoltos, motilidade brusca e caretas de simio--palhaço dos outros, como dizia o professor: o Nascimento, o _bicanca_, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma fouce; o Alvares, moreno, senho carregado, cabelleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e estupido, que Manlio atormentava, designando-o para o mister das plata-fórmas de bond, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translucido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir á pedra com um vagar languido de convalescente; o Maurilio, nervoso, insoffrido, fortissimo em taboada: cinco vezes tres, vezes dous, noves fora, vezes sete?... lá estava Maurilio, tremulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fulgidos no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas accesas, labios inquietos, physionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado tres minutos, sempre á mesa do professor e sempre enxotado, debulhando um rizinho de pouca vergonha, fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bomzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Manlio repellia, precavido de confianças; Baptista Carlos, raça de bugre, valido, de má cara, coçando-se muito, como se o incommodasse a roupa no corpo, alheio ás cousas da aula, como se não tivesse nada com aquillo, espreitando apenas o professor para aproveitar as distracções e ferir a orelha aos vizinhos com uma setta de papel dobrado. Ás vezes a setta do bugre ricochetava até á mesa de Manlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquerito. Em vão, que os partistas temiam-no e elle era matreiro e sonso para disfarçar.

Dignos de nota havia ainda o Cruz, timido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar covarde de quem foi creado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina christã, facil como um despertador para desfechar as licções de cór, perro como uma cravelha para ceder uma idéa por conta propria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o venerando Rebello, primeiro da classe, muito intelligente, vencido apenas por Maurilio na especialidade dos noves fóra vezes tanto, cuidadoso dos exercicios, emulo do Cruz na doutrina, sem competidor na analyse, no desenho linear, na cosmographia.

O resto, uma cambadinha indistincta, adormentados nos ultimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.

Fui tambem recommendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipathico: cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, labios humidos, porejando baba, meiguice viscosa de crapula antigo. Era o primeiro da aula. Primeiro que fosse do côro dos anjos, no meu conceito era a derradeira das creaturas.

Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou o meu nome. Fiquei tão pallido que Manlio sorriu e perguntou-me brando, se queria ir á pedra. Precisava examinar-me.

De pé, vexadissimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça de vertigem. Adivinhei sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar odioso e timorato do Cruz, os oculos azues do Rebello, o nariz do Nascimento, virando de vagar como um leme; esperei a setta do Carlos, o quinau do Maurilio, ameaçador, fazendo cócegas ao tecto, com o dedo feroz; respirei no ambiente adversa de maldita hora, perfumado pela emanação acre das resinas do arvoredo proximo, uma conspiração contra mim da aula inteira, desde as bajulações de Negrão até á maldade violenta do Alvares. Cambaleei até á pedra, O professor interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-se-me do espirito um pavor estranho. Acovardou-me o terror supremo das exhibições, imaginando em roda a ironia má de todos aquelles rostos desconhecidos. Amparei-me á taboa negra, para não cair; fugia-me o sólo aos pés, com a noção do momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna! liquidando-se a ultima energia... pela melhor das maneiras peiores de liquidar-se uma energia.

[Figura 06]

Do que se passou depois, não tenho idéa. A perturbação levou-me a consciencia das cousas. Lembro-me que me achei com o Rebello, na rouparia, e o Rebello animava-me com um esforço de bondade sincero e commovedor.

Rebello retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu desastre, emquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a considerar a differença d'aquella situação para o ideal de cavallaria com que sonhara assombrar o _Atheneu_.

Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que alli estava á mesa dos assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso folheto, versos e estampas... Fechei-o convulsamente com o arrependimento de uma curiosidade perversa. Estranho folheto! Abri-o de novo. Ardia-me á face inexplicavel incendio de pudor, constringia-me a garganta exquisito aperto, de nausea. Escravisava-me, porém, a seducção da novidade. Olhei para os lados com um gesto de culpado; não sei que instincto me acordava um sobresalto de remorso. Um simples papel, entretanto, borrado na tiragem rapida dos delictos de imprensa. Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. «Larga d'ahi! disse com brutalidade, isso não é p'ra menino!» E retirou o livrinho.

Esta impressão viva de surpreza curou-me da lembrança do meu triste episodio, crescendo-me na imaginação como as visões, absorvendo-me as idéas. Zumbia-me aos ouvidos a palavra aterrada de Aristarcho... Sim, devia ser isto: um entravamento obscuro de fórmas despidas, roupas abertas, um turbilhão de frades bebados, deslocados ao capricho de todas as deformidades de um monstruoso desenho, tocando-se, saltando a sarabanda diabolica sem fim, no empastado negrume da tinta do prelo; aqui e alli, o raio branco de uma falha, fulminando o espectaculo e a gravura, como o estigma complementar do acaso.