Novos contos 4º volume da Comedia do Campo
Part 8
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Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão, que se iria passar?
O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam estar atemorizadas, pela subita colera do professor.
Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:
—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão fortes em analyse, como na bregeirice.
Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de si, um ambiente de respeito.
A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava resolvido a amedrontar a propria consciencia.
Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de humildade ou compuncção o tocaria!
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O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores, dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.
Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição. Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só, limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:
—Como isto é bello! Como isto é bello!
Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral. O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:
—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?
—Que foi?—perguntou.
—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!
Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse, esforçando-se por se mostrar tranquillo:
—A truta grande, que anda ahi no rio!?
—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento d’um braço.
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Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna. Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum _Senhor fóra_ é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:
—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.
N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.
O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.
Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes. A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um conhecimento para elle inestimavel.
—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!
—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz, abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.
—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou metter o anzol, mesmo na guela!
E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de gozo considerou:
—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente... Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...
Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de batalha era aquelle.
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De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.
Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos. Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos, offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:
—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? Ai! que regalo.
O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.
Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento. Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha; porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas aguas correntes.
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Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões, fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e disse encostando a canna ao canto:
—Vamos primeiro acabar as licções.
Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção, reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso do Esteves, que fallou:
—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...
O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:
—O senhor viu-o passar!?
—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli apparecesse, o mandasse chamar.
Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia. Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.
—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...
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Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. _Deus nobis heac otia fecit_—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a gritar sem fazerem caso.
Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.
Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a sua victima.
Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo rio acima com o anzol tambem prompto!
—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!
O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.
Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre elles uma lucta colossal.
Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem. As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para virem á falla.
O padre disse primeiro:
—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria!
—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande?
—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe que ella está alli.
—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?!
O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde supportar-lhe a censura:
—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina!
Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha nadando.
—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre.
—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa.
No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito barbaças!»—insultaram-se mentalmente.
—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir?
—Valeu—concordou o fidalgo.
D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:
—Cruzes ou cunhos?
—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece.
—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando na palma da mão as cruzes da moeda.
E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois pescadores correram cheios de commoção.
—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.
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O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna, tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:
—Isso é para espantar, padre João?
Callou-se ficando n’um abatimento triste.
Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e desoladora esta possibilidade!
Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido? Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos, nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação, escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto lhe succedera? Uma infinidade.
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Ainda outra consideração:
O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.
Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento. O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia. Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento, poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer, rosnando:
—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.
O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia calcular perto da pedra branca.
Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé, só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.
Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!
—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.
O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz:
—Agora é não a deixar fugir.
—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha.
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Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente, podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo, dava-lhe linha calculadamente.
Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o levassem, mostrava-se fatigado e manso.
O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor.
—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo d’agua, se não, ainda a vê por um oculo.
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O D. Luiz aproveitou o conselho.
Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse victorioso:
—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!
Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente.
—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote.
D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou. Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na sedela, no cacifre, no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio.
—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou retirando-se.
Abril—85.
UM CORVO E UM PAPAGAIO
(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)
Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:
Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo, perguntou d’um modo gracejador:
—Que é lá!? Quem passa?
Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:
—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.
—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me come! Antonio, acode!
Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:
—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos, do que todas as que attribuem á minha raça maldita.
O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:
—Então não és feroz e cruel como dizem?
—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que ahi tens?
—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.
—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra e desprezas.
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Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou:
—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti.
O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome:
—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me hoje, que estou para morrer.
O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou:
—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser caridosos—concluiu espanejando-se.
O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz:
—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.
No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro, desculpando-se:
—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola que me fazes.
Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem, assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si:
—Ó Antonio. Traz o pau!...
E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.
O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado papagaio, exclamou irado:
—Olha o ladrão de um corvo!...
E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo:
—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta. Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro.
Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes, principalmente quando precisam de que se lhes faça bem.
Lisboa, Março, 85.
A VISTA DO SALGUEIRO
(CONTO PARA CREANÇAS)
Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle odiava mais do que a morte.