Novos contos 4º volume da Comedia do Campo

Part 7

Chapter 73,793 wordsPublic domain

Havia dois que conduziam simulacros das escadas pelas quaes os verdugos tinham subido aos braços da cruz. Um rapasote, com altivez para que todos reparassem, sustentava na ponta d’uma canna a esponja que servira ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança com que se abrira o sacratissimo lado. As chagas, em lacre vermelho, iam em salva de prata. A Veronica, rapariga esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, a face penitente e ensanguentada do divino mestre. Quasi no fim iam as tres Marias, todas a par, cobertas de gaze preto e logo a seguil-as, S. João, o discipulo amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. A Magdalena, uma rapariga casadoira, de longas madeixas encaracolladas cahindo-lhe nas espaduas nuas, caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e significava limpar abundantes lagrimas, deitando de vez em quando um riso de soslaio, ás pessoas conhecidas.

Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso do madeiro, e o da Virgem lacrimosa que implorava do ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e humilde logo em frente do Centurião, que commandava com arrogancia os seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos entre os mais espadaudos da visinhança. Orgulhosos dos capacetes prateados, das botas de montar, dos mantos vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente as suas lanças, olhando em redor com provocação. O José Cancella levando a insignia da videira, atiçava-os com olhares tremebundos e modos arrogantes de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia, principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, ameaçava-o com o inferno. A Lindoria, não se teve que lhe não dissesse, quando elle passou:

—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que tu querias!

Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. Pelos modos, parecia ter cabellos no coração, aquelle diabo—diziam todos. Os seus olhares furibundos sobre o Christo, não podiam constituir um peccado? Era realmente de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha a sua desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já ouvira muitas vezes os missionarios. Era fingido, bem se sabia, mas escusava de estar a fazer arremessos de lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso é que ninguem o obrigava.

O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um sarcasmo reprehensivo:

—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te como um sendeiro!

—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque se vamos a isso, arraso tudo a pau.

N’este momento o _trombeteiro_ deu signal para continuarem. Ao longe ouvia-se o alarido dos rapazes, que admiravam os prodigios de força, tanto do que levava o guião como do que sustentava o estandarte, pois eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão seguia por uma encosta, no cimo da qual haveria o sermão do encontro.

* * * * *

Um limpido ceu de março cobria os campos, que principiavam a reviver para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes, que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro, só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel, quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga. Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador.

* * * * *

A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo, ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo. _Elle_ encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade! Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no logar mais intimo da alma.

Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o discurso, quil-o ornamentar com a conversão _d’um infiel_. O infiel era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder extraordinario da divina palavra.

* * * * *

Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava, attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador, ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça. Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente:

—Rende-te Centurião!

—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e precatoria.

O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto:

—Não me rendo!

O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse:

—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno.

Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a cabeça com a lança.

O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção, continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou, deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o, supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo _rende-te_, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o Centurião respondeu cathegorico:

—Não quero, não rendo!

—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o Agrella, que estava certo do que se passara entre o José Cancella e o pregador.

* * * * *

O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de objurgatoria. Para ser mais solemne, começou em tom simples, subindo gradualmente até ao intimativo.

Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos, uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as almas!

O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave:

—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!

—Agora!—intimou o Agrella.

O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O vinho dava-lhe coragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador:

—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me!

* * * * *

Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor, tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua propria mãe.

As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier, achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com moderação:

—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.

—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.

Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de páu—opinavam.

O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras soltas, gritos, creanças a chorar...

O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir. Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá, elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.

Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o Centurião clamando:

—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no que foi elle que matou Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos.

Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o filho pelo tronco:

—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home!

Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:

—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!

* * * * *

Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:

—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não.

O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é que lhe agarrou n’um braço, socegando-o:

—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas se pagam. Moinante!

O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:

—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me mordam, se pozer outra vez isto na cabeça!

E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter a distancia.

O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli estavam:

—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe ponha os ossos num feixe.

Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais de doze horas!

Fevereiro de 86.

A TRUTA GRANDE

Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes, breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado, o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e, talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a distancia.

Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso, padre João!...

* * * * *

O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas. As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação, mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco considerando:

—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó Luiza!—chamou repetindo tres vezes.

Uma voz de dentro da casa respondeu:

—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco?

—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um pau velho.

—Tambem, está sempre com seccuras!

* * * * *

Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no chão, juncto do amo que disse:

—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia dar lições.

Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começou _glou, glou, glou_... até um final de saciedade, que consistiu n’um prolongado ahhh!...

A creada, voltando com a lavagem, disse:

—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar, lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito nenhum—censurou.

—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu arregalando olhos bregeiros.

—Um padre velho, sempre falla d’um modo...

—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.

E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de satisfação. A creada reprehendeu-o:

—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.

—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste, mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas.

—De mim! Arreda, que me quero casar.

—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção, eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda.

—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer...

* * * * *

Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios, e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo.

—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!...

Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis prazeres, que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem. A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a rirem juncto de fontes, em florestas edylicas.

—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina! Grandissimo tratante! Talvez não saibas o _Sum, és, fui_ e estás ahi com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que maliciasona!

Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua, como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres tempos, com todas as precauções para que o não presentissem.

—Ahh!!!...—respirou.

Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella, um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante, no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o _Afasta_, _janota_, _arreda_. O padre João via-a pelas costas, o tronco inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos, estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando disfarçadamente.

—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.

Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se, seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se nos bicos dos pés.

A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras, ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» «Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme os cambiantes da lucta.

—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.

* * * * *

Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o sitio, cheia de fervor beato.

Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.

—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle não fez mal nenhum.

Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E berrava pelo caminho:

—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres! Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha!

Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho, para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da procura dos discipulos, indicou-lhos:

—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem!

A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira. Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da aula.

Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se para traz, com o fim de os increpar:

—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!...

A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir:

—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta.

Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias mais serenos e benevolos.