Novo dicionário da língua portuguesa
Chapter 4
Sobretudo de algumas palavras da África portuguesa é até impossível determinar-lhes a verdadeira pronúncia. Por um capricho, difficilmente explicável, os nossos viajantes e exploradores africanistas lembraram-se de representar por _M'_ e por _N'_ o som inarticulado, quási nasal, com que os Landins e outras tríbos africanas acompanham a pronúncia de certos termos: _m'pacaça_, _m'baca_, _n'guvo_, etc. O diccionarista português, que queira indicar a pronúncia de taes palavras, não póde, porque não tem sýllabas nem letras que exprimam o alludido som. O racional seria escrever _pacaça_, _baca_, _guvo_, etc. Não sería representação rigorosa, mas aproximava-se mais da pronúncia local do que as mencionadas fórmas. O _M_ e _N_, insulados, nada representam. Por isso, bem avisados andam os que escrevem _Pungo Andongo_, em vêz da fórma bárbara, usada por alguns africanistas modernos, _Pungo N'Dongo_.
Outra dificuldade occorre ainda, a respeito de pronúncia, ao diccionarista, quando trata de palavras compostas, na technologia scientífica. Primitivamente, a desinência do primeiro elemento dessas palavras é aberta e átona: _pàthògenia_, _hippòdromia_, _geòdynâmica_, _neò-céltico_, _photòsphera_, _lithòspermo_, _lithòclase_, _histògenia_, _hypèrácido_, _intèrplanetário_, _mònòcéphalo_, etc. Com o andar do tempo e com a vulgarização do termo scientífico, todas as vogaes secundárias se subordinam á vogal tónica, e temos _typographia_, _morphologia_, _pathologia_, _histologia_, _photographia_, _geographia_, _neologismo_, _intermittente_, _hyperbólico_, _monographia_, etc., que ninguém pronuncía _hypèrbólico_, _intèrmittente_, _gèògraphia_, _phòtògraphia_, _nèòlogismo_, _històlogia_, _pàthòlogia_, _typògraphia_, _mònògraphia_... ¿Onde acaba o carácter erudito e primitivo da palavra, e onde começa a sua feição vulgar ou popular? Ninguém marcou ainda a linha divisória; e o que hoje é erudito é amanhan popular.
E daqui se infere a difficuldade, se não a desnecessidade, de indicar a pronúncia das vogaes secundárias na maioria das palavras. O ponto capital é a determinação da vogal tónica.
Além do que, a pronúncia do português no Brasil offerece notáveis divergências da nossa pronúncia e, em muitos casos, será diffícil justificar o direito com que pretendamos dar lições prosódicas aos nossos irmãos transatlânticos. Dentro do próprio Brasil, do norte ao sul, há sensíveis divergências na modulação das vogaes átonas. Assim, ao norte, como em Portugal, o _o_ de _botar_ é surdo, pronunciando-se _bu-tar_; e ao sul é aberto, pronunciando-se _bò-tar_.
Reduzida, na grande maioria dos casos, a questão da pronúncia á determinação da vogal tónica, naturalmente nos abeiramos do problema da accentuação gráphica[6].
VI
*A accentuação gráphica*
Muitos diccionários portugueses e estrangeiros representam a pronúncia das palavras, escrevendo-as sonicamente; em português, _immaculado_ é representado por _i-ma-ku-lá-du_; em francês, _marginaire_ por _mar-gi-nêr_; em inglês, _directory_ /# _1 2 2 1_ por _de-re-k'tu-re_. #/
O systema é admissível e talvez profícuo nas línguas em que se escreve de uma fórma e se lê de outra; no português, parece-me improfícuo e incoherente, se não absurdo. Parte-se ingenuamente do princípio de que o leitor de diccionários não conhece o valor da sýllaba _ca_, e representa-se _cama_ por esta fórma _ka-ma_; ora, quem ignora o valor da sýllaba _ca_, com mais razão devia ignorar o valor da sýllaba _ka_; mas, se quiser saber lêr _kali_, acha apenas _ká-li_, sem que o diccionário lhe diga como se pronuncía a primeira daquellas duas sýllabas.
Se a questão capital é a vogal tónica, dispensemos o inútil e incoherente formulário sónico, e sirvamo-nos dos conhecidos accentos gráphicos, que são prata de casa e bôa de lei, se bem que reduzida e modesta, como de casa que não é rica.
Depois, um português, que consulta o diccionário da sua língua não precisa que lhe ensinem como se pronuncía _bello_, _grande_, _casa_, _abril_, _andar_, _vestir_, _campo_, etc., etc. A difficuldade reduz-se apenas á correcta pronúncia das palavras _agudas_ e _esdrúxulas_, (_manganés_, _pállido_...), e ainda das graves, em que a vogal tónica tem modulação excepcional, (_cêdo_, _perdigôto_...), como das palavras homógraphas, em que a pronúncia diverge, (_séde_ e _sêde_, _rôla_ e _róla_, _tópo_ e _tôpo_, _bêsta_ e _bésta_...) Para êstes casos, o accento agúdo e circunflexo, e para alguns outros o accento grave e o trema, são elementos bastantes para um regular systema prosódico. Assim o entenderam, e assim o praticaram judiciosamente, os nossos velhos lexicógraphos.
Não me refiro por ora á vantagem ou necessidade da accentuação gráphica na escrita corrente de qualquer obra. Refiro-me exclusivamente ao léxico, em que há necessidade e obrigação de indicar a prosódia.
Como é sabido, e desde longa data, o accento agudo tem servido especialmente para mostrar que uma vogal tem modulação aberta, (_avó_, _rapé_, _sinhá_, _séco_, _bésta_...), como o accento circunflexo para mostrar que uma vogal tem modulação fechada, (_avô_, _português_, _bêsta_, _sêco_...) Para as vogaes surdas e para outros valores do _e_, não temos, e aínda mal, sinaes diacríticos, bastando-nos todavia a indicação de que o _A_, o _E_ e o _O_ em sýllabas finaes, desacompanhados de accentos gráphicos, têm modulação surda, e o _E_ antevocálico e não tónico, como em grupos ditongaes, tem o valor de _i_, como em _ideal_.
Entre quantos, em Portugal, se occupam hoje da sciência da linguagem, difficilmente se encontrará quem não advogue, para qualquer trabalho escrito, a necessidade de accentuação gráphica dos proparoxýtonos ou palavras esdrúxulas: _pállido_, _tépido_, _hýbrido_, _autómato_, _hippódromo_, _túmulo_...
A divergência está apenas em que alguns eruditos, que eu respeito e estimo, só admittem o accento agudo como sinal de vogal tónica.
E assim, aínda que a vogal tónica tenha modulação fechada, como em _esplendido_, _languido_, _hellespontico_, _infancia_, êlles accentuam _infáncia_, _hellespóntico_, _lánguido_, _espléndido_. E contudo aquellas vogaes tónicas têm modulação fechada, e para esta modulação criou-se o accento circunflexo.
Quando digo que a vogal tónica de _explêndido_, _cândido_, etc., tem modulação fechada, não ignoro que tal vogal é _aberta_ entre o povo do Minho e em parte da região do Doiro; mas êsse restricto _patoá_ não invalida o que possa dizer-se da orthoépia geral do país. Nem o _cáurdo_ (caldo) e o _sourdado_ (soldado) do povo minhoto; nem o _vinégre_ (vinagre) do baixo Alentejo, nem a _epidêmia_ (epidemía) e o _lête_ (leite) do Algarve, nem o _espeilho_ ou _espâlho_ (espêlho) de Lisbôa e Aveiro, nem o lisboêta _riu_ Tejo (rio Tejo), etc., poderão nunca influir na representação da pronúncia geral do país.
Ora, a questão prosódica não está simplesmente em distinguir-se a vogal tónica; está também em distinguir-se a modulação das vogaes _O_, _E_ e _A_; e, se o accento circunflexo fecha a modulação, tenho difficuldade em admittir accento agudo sôbre uma vogal de modulação fechada, como nos exemplos citados.
Bem sei que, por qualquer lado que se procure resolver a questão, a solução nunca será isenta de dúvidas, conhecida a pobreza dos nossos sinaes diacriticos; mas afigura-se-me que, accentuando circunflexamente _lânguido_, _explêndido_, etc.; e, sabendo-se que as vogaes _O_, _E_, _A_, quando nasaes, têm sempre modulação fechada, póde concluir-se que o accento circunflexo se empregou, não para indicar a modulação, mas, sim, a vogal tónica.
Eu sei também que na escrita castelhana o accento agudo designa a vogal tónica, e talvez êsse facto influísse na prática de alguns meus illustres conterrâneos. Pondere-se, porém, que a accentuação gráphica estrangeira tem escassa analogia com a nossa; e por isso o espanhol escreve _marqués_, porque o _e_ é a vogal tónica; e os que entre nós escrevem _espléndido_ não se dedignam de escrever _marquês_, porque o accento agudo, neste caso, desfiguraria o valor da vogal. Desfigurá-lo-ia aqui, como o desfigura em _espléndido_.
Tenho porém á mão um argumento, que talvez faça hesitar os mais convictos defensores do accento agudo em qualquer vogal tónica, aberta ou fechada, de palavras proparoxýtonas.
Occorrem-me pelo menos duas palavras, que podem abalar taes convicções: _neveda_ e _levedo_.
São palavras esdrúxulas, como se sabe. Ora, segundo a theoria dos que só querem accento agudo para a vogal tónica da palavra proparoxýtona, deveriam accentuar-se _néveda_ e _lévedo_; mas, depois de tal accentuação, toda a gente que não conhecesse taes palavras, lê-las-ia erradamente, porque iria lêr _né-ve-da_, _lé-ve-do_, quando afinal essas palavras nunca se pronunciaram nem se pronunciam senão _nê-ve-da_, _lê-ve-do_, e assim mesmo as accentuou o bom Roquete, no seu _Diccion. Port. Franc._. Creio que tinha muita razão o Roquete, que, apesar de tudo, ainda hoje merece lêr-se. E, se êlle tinha razão, tenho-a eu também.
O que deixo dito de _nêveda_ e _lêvedo_, é applicável a _bêbedo_, _trôpego_, _nêspera_, _côdea_, _côvado_, _ênclase_, _êncero_, _êulopho_, _êumeno_, _êumicro_, _peixôtoa_, _serôdio_, _cômoro_, _devêramos_, _fêvera_, etc.
Fóra da hypóthese dos esdrúxulos de vogal tónica com accentuação fechada, hypóthese em que talvez seja lícita a defesa de duas opiniões distintas, é muito simples a representação prosódica da linguagem portuguesa, sem recorrer a fallíveis e contradictórios expedientes sónicos.
Em regra, nas palavras graves, a vogal tónica é vogal aberta: _soldado_, _donzella_, _escola_... Portanto, accentuam-se as excepções, quando queremos representar o valor das palavras: _trombêta_, _rôla_...; ou, se organizamos vocabulário, notamos essas excepções em parênthese, seguidamente ao vocábulo, assim:--Lobo, (_lô_), _m._--Etc.
É verdade que _pâra_, _câda_ e _sôbre_ são palavras que se consideram _proclíticas_, e que, perdendo por tanto o accento próprio, pela sua subordinação a uma palavra immediata, (_para nós_, _cada homem_, _sobre tudo_), não merecem accento gráphico, no conceito de bons mestres; e, tanta consideração estes me merecem, que não devo esquivar-me a significar-lhes o fundamento da minha insignificante divergência.
* * * * *
Em primeiro lugar, e sem discutir se _pâra_ deve considerar-se proclítica, porque talvez se possa sustentar que as próclises só se dão nos monosýllabos, (_*de* todos_, _*a* história_, _*por* Lisbôa_), impressiona-me a reflexão de que os leitores, na sua maioria, não são phoneticistas nem se dão ao cuidado de destrinçar próclises e ênclises. De fórma que, devendo o diccionarista representar a modulação excepcional das vogaes tónicas, e não representando o valor da alludida vogal naquellas suppostas proclíticas, o leitor ficaria no direito de lêr _pára_ quando devia lêr _pâra_, e poderia dizer _sóbre_ quando devia dizer _sôbre_; e _cáda_, quando devia dizer _câda_, etc.; visto que a regra é sêr aberta a vogal tónica da palavra.
Depois, verifica-se um facto, que talvez não seja indifferente á questiúncula:--é que as vogaes _e_ e _o_ das partículas não são _fechadas_, são _surdas_, (_*por* Deus_; _*de* Roma_). Portanto, se _sôbre_ fosse uma proclítica e tivesse de subordinar-se á regra das próclises _monosyllábicas_, teriamos de lêr _*subre* tudo_, o que ninguém acceitaria, é claro.
Mas temos mais. _Sôbre_ nem sempre é palavra dependente de outra. Em náutica designa certas velas: «O vento despedaçou os _sôbres_». E até em grammática é palavra independente, como quando dizemos: «A palavra _sôbre_ é uma preposição». E isto mesmo se póde dizer de _pâra_, etc.
E mais ainda: Sem accentuação gráphica, _para_ e _sobre_ podem sêr preposições e podem sêr verbos; mas, independentemente do sentido das respectivas locuções, só o accento gráphico mostrará se são verbos ou preposições.
Quanto ás palavras agudas, toda a gente accentua com razão a vogal tónica, quando não é _u_ ou _i_, nem anteposta a _b_, _c_, _d_, _g_, _h_, _l_, _n_, _p_, _r_, _t_, _z_: _manganés_, _acolá_, _noitibó_.
Como as palavras, em que a vogal da última sýllaba é _i_ ou _u_, são geralmente agudas, dispensam accentuação gráphica: _alli_, _Paris_, _Caramuru_, _alecrim_... Portanto, accentuem-se as excepções: _tríbu_, (que melhor se escreve _tribo_, sem necessidade de accentuação), _Vênus_, _Sírius_, _Páris_, _vírus_...
Em regra, as palavras terminadas em _r_ ou _l_, são agudas: _andar_, _vestir_, _lupanar_, _Manuel_, _funil_, _batel_... Portanto, basta accentuar as excepções: _âmbar_, _açúcar_, _éther_, _Aníbal_, _amável_, _possível_...
Tem proximamente modulação fechada a terminação _eis_, em geral: _reis_, _seis_, _achareis_, _deveis_... Portanto, accentúo as excepções: _pastéis_, _coronéis_, _cascavéis_...
Etc.
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Não farei ponto neste árido assumpto, sem alludir a alguns casos, em que parece sêr regra a modulação fechada da vogal tónica: taes são aquelles, em que a vogal tónica é seguida de _m_ ou _n_: _cama_, _leme_, _Roma_, _arcano_, _pena_, _dono_... Logo, basta que se accentuem as excepções: _carbóne_, _tómo_ (verbo), _mordómo_...
Parece, ás vezes, que o _m_, embora não immediato á vogal, influe no valor della, de acôrdo com a regra citada: _ermo_, _mormo_, _termo_, _enfermo_, _esmo_, _colmo_, _torresmo_, _resma_, _sesmo_... Donde poderá concluir-se que estas fórmas, para bem se interpretarem, não precisam de accentuação gráphica.
Também a vogal tónica do ditongo _eu_ tem geralmente modulação fechada, dispensando accento: _meu_, _teu_, _vendeu_, _judeu_... Basta accentuar as excepções: _céu_, _mausoléu_, _mastaréu_...
Por algum tempo hesitei sôbre se o _o_ do ditongo _oi_ é, em regra, aberto ou fechado; mas concluí, sem grande difficuldade, que é fechado: _foi_, _moio_, _dois_, _oito_, _arroio_, _joio_, _soito_, _toiro_, _loiro_, _vassoira_... Donde se infere a legitimidade e a conveniência de accentuarem as excepções: _dezóito_, _herói_, _jóia_, _combóio_, _clarabóia_, _lóio_...
Algumas vezes o accento agudo dispensa o trema, quando póde recair na vogal tónica; em vez de _maïça_, _maíça_; em vez de _saïda_, _saída_... Fóra da vogal tónica, o trema não tem substituição: _saïmento_, _intuïção_, _apaülado_...[7]
A pobreza de sinaes diacríticos força-nos, por vezes, a usar accentuação gráphica, que não corresponde precisamente ao valor da vogal accentuada. Assim, nas variantes _ideia_ e _idéa_, usamos na segunda fórma o accento agudo, não só para indicar a vogal tónica, senão também para mostrar que essa vogal tem modulação que não é _fechada_ nem _surda_, e que a mesma vogal não faz parte de um semiditongo, como em _láctea_, _áurea_, _purpúrea_...
Em todo caso, o accento agudo de _idéa_, _corréa_, _moréa_..., fórmas aliás, a que eu naturalmente prefiro _ideia_, _correia_, _moreia_..., tem um pouco de convencional, como nos casos seguintes:--Estabelecido, como regra, que são graves ou paroxýtonos os polysýllabos terminados em _am_ ou _em_, (_dizem_, _valem_, _fazem_, _ontem_, _louvam_, _devem_), natural é que se accentuem graphicamente as excepções, (_retém_, _contém_, _armazém_, _Santarém_, _também_, _ninguém_...) Raros serão os polysýllabos terminados em _om_, mas, dêsses, não conheço nenhum que não seja oxýtono, dispensando-se por isso a final accentuação gráphica.
No mesmo caso estão os polysýllabos terminados em _im_ e _um_, que, em português corrente, são sempre oxýtonos: _Joaquim_, _nenhum_, _fartum_, _pingalim_... Não exigem accento gráphico. As palavras terminadas em _en_, _in_, _on_ e _un_, são avêssas á tradição da língua e, geralmente, só se usam em palavras eruditas ou scientíficas, e nunca são oxýtonas: _órion_, _líchen_, _certâmen_, _abdômen_... Estas duas últimas fórmas, e suas congêneres, ficarão mais portuguesas, se lhes dispensarmos o _n_ final, como se fez ao _nome_, ao _lume_, ao _crime_...
Visto que em fórmas verbaes de terminação nasal há muitas vezes coincidência phonética de singular e plural, pareceu-me acceitável o uso do circunflexo para distincção do plural, visto que o accento agudo já tinha a funcção de designar o oxýtono. _Verbi gratia_: «_Contem_, meus senhores, o dinheiro que êste cofre _contém_ e não se importem do que as gavetas _contêm_.» Convenção, é claro, mas certamente útil, se não necessária.
Verdade é que alguns escritores e grammáticos distinguem, naquella hypóthese, singular e plural, com a inclusão de um _e_: «Êlle _tem_, êlles _teem_.» Outros, talvez mais acertadamente, nasalam graphicamente o primeiro _e_ daquelle plural, e escrevem _t[~e]em_, _cont[~e]em_... Parece-me todavia que a distincção phonética, entre o singular e o plural, não existe na linguagem commum ou vulgar: todo povo, e talvez muitos eruditos, dizem simplesmente: «Êlle _tem_, êlles _têm_; êlle _contém_, êlles _contêm_.» E, neste caso, a distincção dos números verbaes parece-me vantajosamente indicada com os signaes, que acompanham os exemplos alli consignados.
* * * * *
Além da vogal tónica, algumas vezes é mister accentuar a vogal átona, não já servindo-nos do accento agudo, mas do grave. _Corado_ poderia ler-se erradamente _cu-ra-do_, se não accentuássemos _còrado_; _pegada_, (_pé-gá-dâ_), lêr-se-ia erradamente _pegada_ (com _pe_ surdo), não se pondo accento grave na primeira sýllaba, (_pègada_). O accento agudo, em tal caso, tornaria tónica a primeira sýllaba, convertendo em esdrúxula uma palavra que é grave.
O accento grave significa, pois, que a respectiva vogal é aberta, mas não tónica.
Na accentuação, porém, das sýllabas átonas, o diccionarista deve manter a mais discreta sobriedade, por motivos de vária índole.
Em primeiro lugar, entre cêrca de quarenta milhões de indivíduos que falam o português, em todas as partes do mundo, há profundas dissidências orthoépicas, que seria ocioso corrigir ou capitular de erróneas. Sobretudo, entre Portugal e o Brasil, as variantes orthoépicas são numerosas e conhecidas. Dentro do próprio Brasil, como já notei, a pronúncia não é uniforme.
Depois, nas palavras compostas, de formação erudita, é assombroso o quadro das irregularidades e divergências prosódicas, como também já notei.
Em taes casos, portanto, o que prevalece é a natural evolução phonética e a soberania do uso, que não o arbítrio ou a opinião do diccionarista.
Limitada, em geral, a representação prosódica do vocabulário á accentuação gráphica da vogal tónica, pareceu-me vantajoso que, na definição ou noção de vocábulo, como em qualquer escrita corrente, se reproduzam os accentos indicados no vocabulário: não é só o leitor de um diccionário que tem direito a saber o valor prosódico de uma palavra; qualquer leitor de prosas ou de versos deve vêr no que lê a indicação clara do valor phonético de cada termo.
É verdade que, em tal matéria, e dada a possibilidade de divergências fundadas ou infundadas, o diccionarista nada impõe: propõe.
Na sua qualidade de proposta, a accentuação gráphica, adoptada pelo autor na generalidade dos seus escritos e apontada no decurso desta obra, pouco terá com a essência do diccionário,--que póde sêr bom ou mau, independentemente daquelle ponto de vista.
O autor propõe; os mais entendidos e o público dispõem.[8]
VII
*A etymologia*
Para o commum dos leitores, não tem elevado valor a parte etymológica de um diccionário; mas, para a história da língua, para o estudo da linguagem e para a correcção da escrita, a etymologia é elemento de primeira ordem e tem merecido tal cuidado aos cultores e mestres da Philologia moderna, que já hoje constitue um dos ramos capitaes desta sciência, se é que não constitue já uma sciência, por si própria.
Mas, tão grande como a importância da etymologia, é a difficuldade que o seu estudo offerece a todos, mormente aos que não são polyglottas. Direi, até, que o verdadeiro etymologista deveria sêr mais do que polyglotta: deveria sêr _panglotta_, se me permittem o termo; e os que curam de Philologia sabem que não é exaggerado o asserto.
Ora, eu ignoro,--como a maior parte da humanidade e, até, como quase todos os diccionaristas do mundo,--o japonês, o cingalês, o malaio, o persa e, muito mais aínda, o quichua, o caraíba... E, contudo, os diccionários, em que se procura consignar a etymologia do vocabulário, têm de referir-se àquellas fontes, sem que os autores possam verificar a exactidão de uma filiação registada.
Daqui, um facto interessante e vulgaríssimo: é que cada dia se fazem novos, descobrimentos no campo etymológico, e que a origem, designada hoje a uma palavra pelos patriarchas da lexicographia, é amanhã rejeitada pelo descobrimento de um facto, que vem accrescer aos recentes progressos da Philologia.
Não obstante a extensão e a variedade dos trabalhos a que me aventurei na organização do vocabulário, e não obstante a estreiteza do tempo e a escassez dos recursos, não descurei a parte etymológica desta obra, consultando as fontes que mais autorizadas se me affiguravam,--Diez, Meyer-Lübke, Littré, Freund, Dozy, M. Bréal, e outros, não falando de alguns esclarecimentos eventuaes, que directamente recebi de illustrados arabistas e romanistas.
Succede porém que, num ou outro ponto, nenhum daquelles mestres disse a última palavra da sciência; e, se alguma vez erraram, com mais attenuantes eu terei errado, reproduzindo êrro alheio. Mas não é grande desaire errar em companhia de primates, que se chamaram Dozy, Littré...
De minha exclusiva responsabilidade é a indicação da origem de numerosos vocábulos, que eu nunca vi noutros diccionários, nacionaes ou estranjeiros; e aínda de alguns outros termos, como _dramadeira_, _drusa_, _machada_, _malagueta_, _marrafa_, _marachão_, _trintanário_, _moita_, _matulagem_, _saloio_, etc., etc., que são vulgares noutros diccionários, mas á cêrca das quaes eu indico origens que aínda não vi registadas por ninguém.
Como em geral, num diccionário, a parte mais susceptível de imperfeições, é a etymológica, e como, logo depois de impressas as primeiras fôlhas desta obra, eu próprio reconheci que a opinião de mestres, subscrita por mim, tem sido, num ou noutro ponto, rectificada pelo progredimento dos estudos philológicos, algumas rectificações adduzi em _Supplemento_, documentando o sincero empenho de acertar, e de servir, como em mim caiba, as letras da minha terra.[9]
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Ainda na parte etymológica do _Diccionário_, há um ponto a que entendo dever referir-me: é a representação, em caracteres românicos, de termos pertencentes a idiomas de povos que, como os Tupís, nunca tiveram língua escrita, e de outros, cujos caracteres alphabéticos pouco ou nada têm de commum com os nossos.
A representação do tupi e aínda do árabe, por exemplo, tem de sêr feita, aproximadamente pelo menos, consoante a pronúncia de quem os falou ou os ouviu. Para a representação do tupi temos no Brasil os subsídios de Gonçalves Dias e de outros estudiosos; e para a representação do árabe,--visto que, num diccionário de uso geral, não sería opportuna a reproducção de caracteres alheios aos nossos,--temos os subsídios de Dozy. Mas, apesar da autoridade do grande arabista, algumas vezes simplifiquei as suas fórmulas, por me acostar ao conceito de hábeis arabistas nossos que, na representação de muitos termos árabes, dispensam certos grupos consonantes que, em português, nada exprimem do como devemos pronunciar o árabe.
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Na representação das próprias palavras gregas, por mais próximo que seja o seu parentesco com as nossas, é sabido que há mais de um systema de as representar em caracteres românicos, e que a diversidade da representação não depende pouco da diversidade dos systemas da pronúncia. Geralmente, nos estabelecimentos de ensino, creio que prevalece a pronúncia erásmica, o que não quere dizer que nalguns casos se não pratique a pronúncia reuchliniana.