Novo dicionário da língua portuguesa
Chapter 2
Estão neste caso as _cangalhas_ (óculos), _catrafilar_ (prender), _estalo_ (bofetada), _esticar_ (morrer), _massa_ (dinheiro), _penante_ (chapéu), _pireza_ (fuga), _refilar_ (reagir), _tóla_ (cabeça), _valente_ (alavanca para arrombar), etc., etc.
Accrescentando-se que os diccionaristas e philólogos, como Bluteau, Diez, Cornu, Schuchardt, Michel, e muitos outros, têm dado ao calão ou gíria a importância que os ingênuos poderão negar-lhe, nada mais opporei aos reparos, com que, a propósito de gíria, foram recebidas as primeiras fôlhas desta obra por um ou outro crítico inoffensivo e anónymo.
* * * * *
Não se limitam os meus estudos e investigações á linguagem escrita e falada no continente português:--Explorei também a linguagem popular dos archipélagos açoreano e madeirense; e, detendo a attenção na linguagem vulgar entre os Portugueses das nossas possessões ultramarinas, realizei larga colheita de expressões locaes, concernentes a usos, costumes, administração pública, vestuário, ceremónias e crenças indigenas de Angola, Moçambique, Estado da Índia, Macau e Timor.
Mas o português não é sómente a língua de Portugal e das suas possessões: fala-o uma grande nação, que se emancipou da nossa velha soberania, mas que não enjeitou o idioma, com que levámos a civilização europeia aos sertões da América do Sul.
Succede porém que o português do Brasil não é precisamente o português europeu: recebeu numerosos termos da população indígena, e o tupi entrou como elemento constituinte no organismo da moderna linguagem brasileira. Ora, desde que um diccionário é destinado a todos os povos que falam português, não póde prescindir dos termos brasílicos, que são inseparáveis da linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico.
Consultei portanto vocabulários brasileiros; li poétas, romancistas, críticos e grammáticos daquella nação; falei pessoalmente com muitos brasileiros, e, de todas estas diligências resultou para êste _Diccionário_ o registo de mais de sete mil brasileirismos, que nunca haviam entrado em diccionários da língua portuguesa.
Note-se entretanto: nem todos os termos, a que eu apponho a nota de brasileirismos, e que como taes são considerados pelos mais conspícuos vocabularistas, como Beaurepaire-Rohan, provieram dos tupís ou fôram criados por brasileiros. Muitos dêlles são velhos portuguesismos, que partiram daqui com os descobridores e colonizadores das terras de Santa-Cruz, e que lá vivem e prosperam ainda, sendo aqui já esquecidos ou mortos. Assim é que a conjunção _si_ que, no português, é hôje privativa do Brasil foi usada por clássicos nossos; usou-a, por exemplo, Garcia da Orta, nos seus _Collóquios_. O vocábulo _perendengues_, se não partiu de cá, foi de lá recebido há muito e entrou no português dos mestres; usou-o Filinto, pelo menos. A _geriza_, o _agir_, o _faneco_ (pedaço de pão), a _alfafa_ ou _alfaifa_, o _guaiar_, etc., são bons e velhos vocábulos portugueses, de que nós nos esquecêmos quási, mas que os Brasileiros, para vergonha nossa, sabem alimentar e prezar. Sob êste ponto de vista, a inscripção de muitos vocábulos brasileiros equivale, creio eu, á rehabilitação pública de alguma coisa, injustamente comdemnada pela ingrata pátria...[1]
* * * * *
Para a inscripção da technologia scientífica, de pouco me valeram os lexicógraphos portugueses que escreveram antes de mim.
A tal respeito, foram sempre vulgares as queixas de professores e estudiosos contra a falta de um vocabulário nacional, que comprehendesse com alguma largueza a technologia mais corrente entre os homens de sciência.
Dei-me ao trabalho incalculável de estudar nas fontes respectivas a technologia botânica, geológica, anatómica, philosóphica, médica, chímica, radiográphica, etc.; e muitas vezes, á mingua de competência encyclopédica, tive de me soccorrer da competência e obsequiosidade de muitos dos nossos mais notáveis homens de sciência, aos quaes se deve certamente o melhor quinhão nos serviços que êste livro possa prestar aos estudiosos de technologia scientífica.
Confessarei, sem hesitar, que uma das sciências, em que se me depararam maiores dificuldades, foi a Botânica geral:--Num diccionário da língua, ¿até onde deveria chegar o registo dos seres vegetaes, dos seus órgãos e dos seus phenómenos biológicos? A quem deveria eu seguir nas classificações do reino vegetal? Linneu? De-Candolle? O Congresso de Paris de 1867?...
Pela sua importância collectiva e scientífica, aquelle Congresso impunha-se-me naturalmente com as suas decisões; mas a classificação que propôs,--_classe_, _sub-classe_, _cohorte_, _sub-cohorte_, _ordem_, _sub-ordem_, _tribo_, _sub-tribo_, _gênero_, _sub-gênero_, _secção_, _sub-secção_, _espécie_, _sub-espécie_ ou _prole_, _variedade_, _sub-variedade_, _variação_, _sub-variação_, _planta_,--além de se me figurar um tanto casuística, obrigar-me-ia a minúcias pouco compatíveis com a precisão, simplicidade e clareza que me cumpria observar; e assim, reduzindo todos os graus daquella classificação ao menor número possível sem offensa da sciência, acostei-me á simples e clara taxinomia das _familias_, _tribos_, _gêneros_ e _espécies_.
No que eu respeitei, quanto pude, o referido Congresso, foi em preferir a terminação _áceas_ á terminação _ídeas_, _íneas_, _íceas_, etc., ao designar _famílias_ vegetaes: _amomáceas_, em vez de _amómeas_; _lauráceas_, em vez de _lauríneas_; _rhamnáceas_, em vez de _rhâmneas_; _myrtáceas_, em vez de _myrtíneas_, etc., respeitando embora as fórmulas consagradas das _gramíneas_, _leguminosas_, _labiadas_, etc.
Mas não eram simplesmente taxinómicas as difficuldades que a Botânica me oppunha: provinham também da amplitude numérica, que, num diccionário da língua, se deveria dar aos gêneros e espécies do reino vegetal.
A tal ponto se tem desenvolvido há um século o estudo da Botânica que, não sendo conhecidos ainda 2:000 _gêneros_ em tempo de Jussieu, (fins do século XVIII), o número dêlles sobe hoje a mais de 8:000, segundo o cálculo de Ducharte; e orça-se em 600:000 o número das plantas actualmente conhecidas! Há cincoenta annos, em tempo de Lasegues, nem 100:000 se conheciam aínda.
É verdade que muitos milhares de plantas aínda não perderam a sua designação exclusivamente scientífica e difficilmente se adaptariam dêsde já á nossa linguagem vulgar; mas muitíssimas há, cujo nome é perfeitamente romanizável, como outras há, em que a designação vulgar e a scientífica precisamente coincidem, tão estreito é o parentesco entre o português e o latim.
Occorri á difficuldade, conciliando, quanto em mim coube, a conveniência, se não necessidade, de enriquecer um diccionário da língua com um amplo onomástico botânico, e a impossibilidade de realizar nesse diccionário o que aínda não conseguiram os próprios vocabularistas botânicos.
E assim, quanto á Botânica geral, registei com inusitada amplidão o onomástico das _famílias_ e dos _gêneros_, e só me detive nas _espécies_ que se recommendam pelas suas qualidades medicinaes, ornamentaes, etc.
Quanto porém á Botânica portuguesa, continental e colonial, e quanto á Botânica brasileira, tudo me aconselhava que registasse quanto as minhas investigações me deparassem.
Neste ponto, e ao passo que noutros diccionários só se havia dado plausível attenção à Botânica europeia, tive a satisfação de trazer para a lexicographia numerosíssimas espécies da nossa flora africana, asiática e oceânica, bem como da flora brasileira. No _Museu_ da Sociedade de Geographia, nos jardins botânicos da Escola Polytéchnica de Lisbôa e da Universidade de Coimbra, nos livros de Garcia da Orta, Capello e Ivens, Serpa Pinto, Sisenando Marques, Stanley, Henrique de Carvalho, Levingstone, Ficalho, Lopes Mendes, Pedroso Gamito, Dalgado, e outros, pude colher notícia de muitos centenares de espécies vegetaes, que ainda hoje valorizam o nosso império colonial e que, pela primeira vez, enriquessem agora um diccionário da língua; e, para o largo registo que faço da flora brasileira, de muito me serviram os largos de estudos do Dr. Caminhoá, de Del-Vecchio, de Araújo Amazonas, de Brás Rubim, de Beaurepaire-Rohan, etc.
Na própria Botânica do nosso país, e não obstante o muito que já lhe consagraram outros diccionários, tive ensejo de reconhecer, pelos livros dos nossos ampelógraphos, pelos relatórios dos agrónomos, pelos jornaes de agricultura e pelo trato directo com a gente do campo, que muitos frutos e muitíssimas espécies de plantas úteis ainda não pertenciam á lexicographia, tendo eu que registar mais de 1:500 variedades de videiras, e numerosos frutos, que entraram há muito na linguagem do povo e que só agora entram no vocabulário português.
* * * * *
Na parte scientífica do meu léxico, não foi sómente a Botânica o que me abriu campo extenso e diffícil: a Chímica não me offerecia muito menores difficuldades.
Relendo livros e consultando professores, também me surgiam hesitações sôbre o ponto até onde deveria estender-se o registo da nomenclatura chímica num diccionário da língua. Depois de haver colhido nesse campo muitíssimo mais do que os meus confrades em lexicographia, suspendi a colheita quando conheci a impossibilidade ou a desnecessidade de proseguir. Foi quando vi que os chímicos, lutando com a difficuldade de designar um _composto_ por uma palavra normalmente organizada ou derivada, formavam de muitos elementos um só termo, que só poderá quadrar ás altas especulações scientíficas ou ás memórias secretas dos laboratórios. Para um diccionário, pareceu-me inútil, se não muito estranhável, aproveitarem-se fórmulas como esta: _paranitrophenyldehydrohexonecarboxýlico_; ou como esta: _oxyditrichloroethylidenadiamina_.
Quando muito, vocábulos com dimensões análogas, só me aventurei a registar a _pentadecylparotolylcetona_, pela sua estreita relação com a radioscopia; _phenylhydroquinazolina_, e pouco mais.
E não foi só a exagerada complicação das fórmulas adoptadas recentemente pelos nomencladores chímicos o que fez sustar o passo nas minhas excursões por aquella província do saber humano; foram também, não direi o abuso, mas o arbítrio, com que a pharmacologia de hoje se dá ao apparatoso luxo de inventar vistosos rótulos para os seus productos, á custa da Chímica e da Pathologia.
Entretanto, pelo esfôrço próprio e pela cooperação de alguns dos nossos mais notáveis homens de sciência, consegui registar largamente a nomenclatura chímica, em visível desproporção com o que até agora, e a tal respeito, se tinha feito em trabalhos congêneres.
* * * * *
Com a Entomologia, vi que se davam factos análogos. Se eu me despreoccupasse de outras considerações e attendesse exclusivamente ao plausível intuito de registar vocábulos que não há noutros diccionários da língua, ampliaria desmedidamente a colheita que fiz naquella especialidade scientífica. Tenho effectivamente ao meu alcance os nomes de milhares de insectos, nomes que eu não registo, não só porque o bom senso e a lexicologia estabelecem limites entre um _diccionário da língua_ e um diccionário especial, senão também, e principalmente, porque procurei dar ao meu trabalho a possível unidade e refugir ás desproporções, de que enfermam outros léxicos, nomeadamente, a meu vêr, o grande diccionário de Larousse.
E, contudo, nenhum diccionário português apresentou ainda tão copioso vocabulário entomológico, como o diccionário que estou prefaciando.
* * * * *
Em Ornithologia, consegui refundir lexicographicamente o respectivo vocabulário, não só ampliando com centenares de variedades o registo, por outros feito, das aves portuguesas, mas também dando dellas noção mais exacta, do que aquella que até hoje podiamos adquirir pelos diccionários.
E, de facto, é vulgaríssimo vermos definidos, como nomes de animaes diversos, o _gaivão_, o _zirro_, o _pedreiro_, o _guincho_, o _ferreiro_, o _andorinhão_, o _arvião_, o _catavento_; quando, afinal, eu pude verificar que todos êsses nomes,--cada qual em sua província ou localidade,--são dados á mesma ave, o _gaivão_, embora um ou outro sirva excepcionalmente para designar, ao mesmo tempo, outra ave.
O mesmo succede com o _abibe_, cujo nome varía de região para região, podendo nós, se percorrermos o país inteiro, ouvir que lhe dão os nomes de _bibes_, _víbora_, _abesconhinha_, _avetoninha_, _ave-fria_, _gallispo_, _matoninha_, _verdizella_, _choradeira_, _galleno_, _coím_, _donzella-verde_, _galleirão_, _avecoínha_, _còninha_; além de que, na Madeira, esta ave tem os nomes de _bibi_, _bisbis_, _guizinho_, _melrinho-das-urzes_, _melrinho-da-serra_, _melrinho-dos-pereiros_, _pintasilgo-derrabado_.
E mais extraordinária é ainda a _megengra_, que, variando o nome, segundo as localidades ou regiões, chega a reunir os seguintes nomes: _chapim_, _cedovém_, _patachim_, _pinta-caldeiras_, _fradisco_, _fura-bugalhos_, _ferreiro_, _mezengro_, _parachim_, _cachapim_, _papa-abelhas_, _chincharavêlha_, _fradinho_, _semeia-linho_, _chinchinim_, _caldeirinha_, _rabilongo_!
Êstes e outros factos análogos, facilmente verificáveis, dão-me a persuasão de que a parte ornithológica desta obra revela os devidos escrúpulos, o possível rigor, e sensíveis melhorias na lexicographia nacional.
O autor, neste caso e em casos semelhantes, não fala por vaidade nem faz alarde de serviços e méritos: julga cumprir um dever, historiando os seus processos e o seu trabalho, para auxiliar o leitor no conhecimento e avaliação da obra. Contraprovadas por êste as allegações e os factos, fica-lhe o pleníssimo direito de julgar a obra como lhe aprouver. Mas, antes que a julgue, requeiro que me oiça.
* * * * * A Ichthyographia e a Conchyliologia também me facultaram importantes acquisições lexicológicas, por intermédio dos autorizados estudos de Felix Capelo, Barbosa du Bocage, Baldaque da Silva, A. Girard e muitos outros.
* * * * *
Mais importantes ainda fôram as contribuições que eu devo á Anatomia, á Medicina geral e, especialmente, á Ophtalmologia, á Psychiatria, á Homeopathia, á Electrotherapia, etc.
Os mais conspícuos especialistas nestas sciências distinguiram-me com as suas luzes, com os seus livros, com o seu carinhoso auxílio, o que me autoriza a affirmar que em nenhum diccionário português essas sciências lograram ainda tão largo espaço como na presente obra.
O mesmo se póde dizer da Radiographia, da Veterinária, da Agricultura, da Geologia, da Architectura, das indústrias fabris, da Náutica antiga e moderna, da Pedagogia, da arte militar, da Velocipedia, do Espiritismo, dos offícios mecânicos, da Jurisprudência, das antiguidades gregas e romanas, da Ethnologia, dos jogos, danças, e usos populares, etc., etc.
Procurei não omittir os mais recentes descobrimentos em qualquer esphera da actividade humana,--o _cinematógrapho_, a _icérya_, o _radioscópio_, a _melinite_, o _acetylene_, e tantíssimos outros; e, dando ao meu trabalho feição sensívelmente encyclopédica, obedeci ao propósito de basear em novos processos uma obra que, não podendo têr tudo, tivesse ao menos alguma coisa de tudo e de novo.
III
*Processo da obra*
Reunidos os materiaes através de duas dezenas de annos e á custa de incompensáveis fadigas, dois caminhos se me antolhavam:--Organizar um desenvolvido diccionário que poderia abranger seis a oito grossos volumes; ou synthetizar aquelles materiaes no mais limitado espaço.
Na primeira hypóthese, seria mister um editor arrojado, se não temerário, o que é raro; e ao autor, seria mister vida longa, o que é ainda mais incerto. Aventurei-me á segunda hypóthese, e nem por isso foi menos arrojado o meu saudoso amigo e honradíssimo editor[2], que não hesitou em jogar sôbre o meu trabalho uma dezena de contos de réis.
Uma condição me impôs apenas: reunir todos os materiaes, colhidos por mim, a tudo que os outros diccionários tivessem de aproveitável, e organizar uma obra, cujo preço a não tornasse incompatível com os recursos pecuniários da maioria do público que lê.
Daqui a índole visivelmente sinthética do _Novo Diccionário_. A quem ella não aprouver bastará ponderar que uma sýnthese em dois grossos volumes só por convenção se chama sýnthese e corre já o perigo de exceder a condição do editor e as intenções do autor.
Obedecendo a estas e àquella, na redacção primitiva do _Diccionário_ não havia sequer uma citação de autor ou de obra estranha. Por êsse lado todavia,--e só por êsse lado,--senti não têr de recomeçar a obra, porque reconheci a conveniência de justificar com uma autoridade o registo de tal ou tal vocábulo, de tal ou tal accepção.
Era tarde para voltar atrás, e seria quási impossível recordar, entre centenares de livros, o livro e a página que contribuiu para o meu vocabulário.
Como porém um triste successo retardou por dois annos a publicação da obra, e como até hoje nunca cessou a colheita de novos vocábulos e novas accepções, pude remediar o que era remediável, e, nas novas colheitas, pude justificar com citações succintas o registo de um ou outro vocábulo, de uma ou de outra accepção.
A linguagem não é inventada pelos diccionaristas: falada ou escrita, registam-na, e deixam a responsabilidade della aos que a criaram.
Mas há circunstâncias, em que a menção de um vocábulo poderia sêr apodada de destempêro pelos leitores mais inclinados á maledicência do que á justiça.
Assim, quando eu registo um barbarismo inútil ou um neologismo ousado, a crítica fácil poderia suppor que eu inventei, ou que perfilho, como escritor, a novidade, se eu não lançasse o termo á conta alheia, citando o inventor ou o patrono. Estão nêste caso os neologismos _mesmice_, _desenfechar_, e tantos outros.
Da mesma fórma, se eu registasse os advérbios _mulhermente_, _lucreciamente_, _lapantanamente_, o substantivo _manticostumes_, o adjectivo _minotaurizado_, _difficillissimo_, _digressoar_, _dormitólogo_, _donairíssimo_, _fósmea_, _flavibico_, _clystermente_, etc., e não mostrasse logo que essas originalidades são da responsabilidade de Filinto, Camillo, etc., poderiam suppor ingênuos que eu estava brincando com quem me lê[3].
Por outro lado, colligi numerosos vocábulos, cuja significação não resalta do texto em que se me depararam. Claro é que, em tal hypóthese, o processo preferível é registar o vocábulo e citar o texto respectivo, para que os leitores o interpretem, se puderem.
Muitas vezes, se não quási sempre, as referências a obras alheias levam a indicação do tomo e página respectiva, não só para se facilitar a contraprova ao leitor escrupuloso, se não também e principalmente para obviar ás supposições gratuitas de críticos praguentos e mal intencionados, que, julgando por si os mais, admittem a possibilidade de que qualquer escritor tenha a improbidade de inventar citações por conveniência própria.
É verdade que, em muitos casos, a obra citada teve duas ou mais edições, e é diversa a paginação destas, difficultando assim o cotejo. Em todo caso, a difficuldade não é impossibilidade; importa apenas algum trabalho para o crítico mais minudencioso, por têr de consultar diversas edições da mesma obra.
Excepcionalmente, cito uma ou outra locução sem indicar as fontes escritas, porque a recebi da linguagem oral ou dos registos avulsos e dispersos do falar do povo, como as canções populares, os prolóquios, etc.
* * * * *
Seguindo bons exemplos,--e bastar-me-ia o de Littré,--registei, a par do vocabulário português, alguns vocábulos e locuções que pertencem a outras línguas, mas que são, mais ou menos commummente, usados e, em geral, necessários em nossa linguagem falada e escrita. Taes são _deficit_, _Te-Deum_, _item_... Tive porém o cuidado de os preceder da indicação de alheios ao português e de indicar a língua a que pertencem, para que, ao escreverem-se, sejam devidamente sublinhados ou griphados, não vá alguém confundi-los com o que é lidimamente nosso.
* * * * *
Há toda a conveniência, e de bom grado a subscrevo, em que se annotem de archaísmos os termos que se afastam da linguagem commum do nosso tempo e da prática dos mestres contemporâneos. Reconheço porém a difficuldade de, em muitos casos, capitular de archaico um termo que, pela primeira vez, nos occorre em documento antigo. Nenhum de nós, os que escrevemos, conhece metade dos termos da sua língua, e, como já notei, muitos julgarão archaico um vocábulo, que só vimos usado em escritores quinhentistas ou pre-quinhentistas, e que póde deparar-se-nos acaso no uso corrente de alguma região portuguesa, e até na escrita de algum escritor moderno.
Entretanto, não poupei a nota de _antigos_ ou de simplesmente _desusados_ aos vocábulos que me parecem não têr chegado ao uso do nosso tempo ou, pelo menos, aos escritores portugueses do último século.
Essa nota porém não quere dizer que todos êlles sejam pertença exclusiva de épocas findas e que não possam nobilitar e enriquecer a escrita moderna, embora a adaptação dependa de muito bom senso, alguma autoridade, e de opportunidade sempre. Succede, até, que muitas expressões, realmente de cunho antigo, tendo pertencido a usos e instituições que passaram, hão de necessariamente empregar-se ainda hoje, sempre que tenhamos de nos referir a essas instituições e usos.
Temos disso copiosos exemplos em Herculano.
A simples indicação, que eu faço a revêzes, de que um vocábulo é _gallicismo_, significa que a palavra proveio directamente do francês, o que não implica a sua condemnação em nome da vernaculidade portuguesa; podem arrecear-se della os puristas, mas nada prova que ella não possa consubstanciar-se, ou não venha a consubstanciar-se, no corpo da nossa língua.
Há gallicismos de gallicismos: e, quando êlles se me afiguram inúteis, violentos ou disparatados, inscrevo-lhes ao lado o _cave canem_ do prudente aviso.
Quanto á disposição das várias accepções de cada vocábulo, segui, ás vezes, o processo da Academia Francesa, dando o primeiro lugar á accepção mais vulgar ou conhecida, quando a accepção primitiva é inteiramente obsoleta, e deixando esta para o fecho do artigo. Em regra, porém, e de acôrdo com os mais autorizados lexicógraphos, dou o primeiro lugar á accepção natural ou primitiva, consignando sucessivamente a extensiva e a figurada, quando para um vocábulo há variedade de accepções.
V
*A orthographia*
A orthographia, que, para os antigos padres-mestres, era uma parte da grammática, está reduzida actualmente a um intricado e curioso problema.
Àparte meia dúzia de eruditos, que tomam o assumpto a sério, a generalidade dos nossos escritores modernos observam a orthographia que lhes ensinaram ou aquella a que se habituaram, preoccupando-se mediocremente com a razão do que escrevem.
Todos os escritores estão convencidos de que orthographam bem e, entretanto, cada qual ortographa de sua maneira. Como descargo de consciência, suppõem praticar a orthographia _usual_. A orthographia usual reduz-se á orthographia de cada um, o que dá em resultado cem ou duzentas orthographias differentes e quási todas autorizadas.
Officialmente, considera-se modêlo a orthographia do _Diário do Govêrno_. É verdade que o próprio Govêrno, isto é, os ministros, só a praticam nas columnas da mesma fôlha; cá fóra, praticam o que lhes ensinou o professor de primeiras letras, cuja orthographia já brigava com a do professor da vizinha escola.
O _uso dos doutos_ é outro bordão, que de nada serve porque o uso do _douto_ Garret não é o uso do _douto_ Herculano; o uso dêste não é o de Castilho; o de Castilho não é o de Latino, e assim por deante. Lembremo-nos de que Herculano escreveu _outomno_ e Castilho _outono_; Camilo graphou _filósopho_; Garret usava _mattar_, _cinquenta_, _fummo_, _entrehabrir_, e outras extravagâncias do mesmo gênero.
Êste facto, só o não vê quem fôr cego de vontade.