Novo dicionário da língua portuguesa
Chapter 1
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*O acordo autografico da lingua portuguesa*
O «Diario do Governo» de ontem publicou o seguinte:
_Por ter saído com inexactidões, novamente se publica o seguinte acôrdo firmado entre a Academia das Ciencias de Lisboa, e a Academia Brasileira de Letras, em 30 de Abril de 1931, para a unidade ortográfica da lingua portuguesa, com a qual s. ex.^a o ministro concordou por seu despacho de 4 do corrente_:
*Instrumento do acordo firmado entre a Academia das Ciencias de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras, em 30 de Abril de 1931, para a unidade ortografica da lingua portuguesa*:
A Academia Brasileira de Letras representada por s. ex.^a o Embaixador do Brasil, sr. dr. José Bonifacio de Andrada e Silva, e a Academia das Ciencias de Lisboa, representada pelo seu presidente, sr. dr. Julio Dantas, animadas do proposito de contribuir para a unidade e, consequentemente, para a maior expansão e prestigio da gloriosa lingua portuguesa, resolvem:
1.^o--A Academia Brasileira de Letras aceita a ortografia oficialmente adoptada em Portugal, com as modificações pela mesma Academia propostas nas bases que vão juntas ao instrumento deste acôrdo, devidamente rubricadas, e dele fazem parte integrante.
2.^o--A Academia das Ciencias de Lisboa aceita as modificações propostas pela Academia Brasileira de Letras, constantes das referidas bases.
3.^o--As duas Academias concordam em examinar em comum as duvidas que de futuro se suscitem quanto á ortografia da lingua portuguesa.
4.^o--As duas Academias obrigam-se a empregar os seus esforços junto dos respectivos Governos, a fim de que, em harmonia com os termos do presente acôrdo, seja decretada nos dois países a ortografia oficial.
Este instrumento é, na mesma data, assinado do Rio de Janeiro, representando a Academia das Ciencias do Lisboa s. ex.^a o Embaixador de Portugal, sr. dr. Duarte Leite Pereira da Silva, e a Academia Brasileira de Letras o seu presidente, sr. dr. Fernando de Magalhães.
Lisboa, Sala da Academia das Ciencias de Lisboa, 31 de Abril de 1931.--Pela Academia Brasileira de Letras, _José Bonifacio de Andrada e Silva_.--Pela Academia das Ciencias de Lisboa, _Julio Dantas_.
* * * * *
*Bases para um acordo ortografico propostas pela Academia Brasileira de Letras e aprovadas em sessão da Academia das Ciencias de Lisboa, de 19 de Março de 1931*:
§ 1.^o Eliminar:
1.^o As consoantes mudas: _cetro_, _fruto_, _sinal_ em vez de _sceptro_, _fructo_, _signal_.
2.^o As consoantes geminadas: _sábado_, _belo_, _efeito_, em vez de _sabbado_, _bello_, _effeito_.
Exceptuam-se:
a) Os _ss_ e _rr_: _russo_, _carro_.
b) O grupo _cc_, quando os dois _cc_ soarem distintamente: _sucção_, _secção_.
3. O _h_ mudo mediano: _saír_, _tesouro_, _compreender_.
_Notas_:
a) Mantêm-se os grupos _ch_ (chiante), _lh_, _nh_: _chá_, _velho_, _ninho_.
Excepção:
Conserva-se o _h_ mudo nos vocábulos compostos com prefixo, quando existir na lingua, como palavra autónoma, o ultimo elemento: _inhumano_, _deshabituar_, _deshonra_, _rehaver_.
b) As formas reflexivas ou pronominais do futuro e condicional dos verbos serão escritas sem _h_: _dever-se-á_, _amar-te-ei_, _dir-se-ia_.
4.^o O _s_ do grupo inicial: _ciência_, _ciática_.
5.^o O apóstrofo: _dêste_, _naquele_, _donde_, _outrora_, _estoutro_, _mãi-dagua_, _daí_, _dali_.
§ 2.^o Substituir:
1.^o O _k_ e o grupo _ch_ (duro), por _qu_, antes de _e_ e _i_, e por _c_, nos outros casos: _querubim_, _monarca_, _quimica_, _quilo_, _Cristo_, _tecnico_.
_Nota._--Conserva-se a letra _k_ nas abreviaturas de _quilo_ e _quilómetro_, 2 _ks_. de sal; 50 _k_.^2; bem como nos vocábulos geográficos ou derivados do nomes proprios: _Kiel_, _Kiew_, _kantismo_.
2.^o O _w_ por _u_ ou _v_, conforme a pronuncia do vocábulo: _vórmio_, _uigândias_.
3.^o O _y_ por _i_: _júri_, _mártir_, _Pati_, _Andarai_.
4.^o Os grupos _ph_, _rh_ e _th_, por _f_, _r_ e _t_: _fósforo_, _retórica_, _tésouro_.
5.^o O _z_ final por _s_ nas palavras como _água-rás_, _português_, _país_, _após_.
_Nota._--Os nomes proprios portugueses ou aportuguesados, quer pessoais, quer locais, serão escritos com _z_ final quando terminados em sílaba longa, e com _s_ quando em sílaba breve: _Tomaz_, _Garcêz_, _Queiroz_, _Andaluz_; _Álvares_, _Pires_, _Nunes_, _Dias_, _Vasques_, _Peres_.
_Observações_:
Os nomes Jesus e Paris conservarão o _s_, visto a dificuldade de qualquer alteração.
No uso do _s_ e do _z_ médios segue-se o que determinam a etimologia e a historia da lingua.
6.^o O _m_ por _n_ nas palavras em que houver caído o _p_ etimológico: _pronto_, _assunto_, _isento_.
§ 3.^o Grafar:
1.^o Com _i_ as palavras que alguns escrevem com _e_ e outros com _i_: _igual_, _idade_, _igreja_.
2.^o Com _s_ as palavras que alguns escrevem com _s_ e outros com _ç_: _cansar_, _pretensão_, _dansa_, _ânsia_.
3.^o Com _ã_, a sílaba longa: _irmã_, _manhã_, _maçã_.
4.^o Com _ão_ os substantivos e adjectivos que alguns escrevem com _ão_ e outros com _am_: _aiórdão_, _bênção_.
5.^o Com _am_ o final átono dos verbos: _amam_, _amavam_, _amaram_.
6.^o Com _ai_, _au_, _eu_, _iu_ e _oi_ os ditongos que alguns escrevem com _ae_, _ao_, _eo_, _io_, _oe_: _mãi_, _pau_, _céu_, _viu_, _herói_.
_Nota_--Não sendo ditongo, permanece o digrama _io_: _rio_, _fio_, _tio_.
§ 4.^o Conservar:
1.^o O _g_ mediano: _legislar_, _imagem_.
2.^o Os ditongos _ue_, _õe_: _azues_, _põe_.
3.^o Os varios sons do _x_ (_s_, _z_, _cs_, _ss_, _ch_): _excelente_, _exacto_, _fixo_, _próximo_, _luxo_.
§ 5.^o Divisão silábica:
1.^o No infinitivo seguido dos pronomes _lo_, _la_, _los_, _las_, estes se transportarão para depois do hifen, acentuando-se a vogal tónica do verbo, de acôrdo com a pronuncia: _amá-lo_, _dizê-lo_.
2.^o Escrever-se-ão com hifen os vocábulos compostos cujos elementos conservam a sua independencia vernácula: _pára-raios_, _guarda-pó_, _contra-almirante_.
3.^o A divisão de um vocábulo far-se-á fonéticamente pela soletração e não pela separação etimológica de seus elementos: _subs-cre-ver_, _sec-ção_, _des-ar-mar_, _in-ha-bil_, _bis-a-vó_, _e-xér-ci-to_, _nas-cer_, _des-cer_.
§ 6.^o Nomes proprios:
Conservar nos nomes proprios estrangeiros as formas correspondentes vernáculas que forem de uso: _Antuérpia_, _Berna_, _Cherburgo_, _Colónia_, _Escandinávia_, _Escalda_, _Londres_, _Marselha_.
_Observação_.--Sempre que existam formas vernáculas para os nomes proprios, quer personativos, quer locativos, devem elas ser preferidas.
§ 7.^o Acentuação:
Reduzir os sinais gráficos que caracterizam a prosodia, de modo a corresponderem esses sinais á prosodia dos dois povos, tornando mais facil o ensino da mesma escrita.
Está conforme oom o original. Tem, em todas as folhas, o sinal da Academia Brasileira de Letras e as rubricas: Magalhães--José Bonifacio--Julio Dantas--Aquiles Machado.--O secretario geral, _Aquiles Machado_.
Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas Artes, 9 de Maio de 1931.--O director geral, _Francisco Nobre Guedes_.
NOVO DICCIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA
TYP. DA EMPR. LITTER. E TYPOGRAPHICA (Officinas movidas a electricidade) 178, R. ELIAS GARCIA, 184-PORTO-1913
CANDIDO DE FIGUEIREDO
Da Academia das Sciências de Lisboa, da Aacademia Brasileira, da Academia Espanhola, da Sociedade Asiatica de Paris, da Academia de Jurisprudência de Madrid, do Instituto de Coimbra, etc., etc.
NOVO DICCIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Redigido em harmonia com os modernos princípios da sciência da linguagem, e em que se contém quási o dôbro dos vocábulos até agora registados em todos os diccionários portugueses, além de satisfazer a todas as graphias legítimas, especialmente a que tem sido mais usual e aquella que foi prescrita officialmente em 1911
NOVA EDIÇÃO
Essencialmente refundida, corrigida e copiosamente ampliada
*Volume I*
1913
Livraria Clássica Editora de A. M. TEIXEIRA 20--PRAÇA DOS RESTAURADORES--20 *LISBOA*
CONVERSAÇÃO PRELIMINAR
(DA PRIMEIRA EDIÇÃO)
I
*Razão da obra*
A história dos diccionários da língua portuguesa, de par com alguns deploráveis documentos de insciência, de leviandade e de mera exploração mercantil, offerece á nossa admiração perduráveis monumentos de muito saber, de laboriosas e inestimáveis investigações, de honestíssimo e profícuo trabalho.
Está certamente na consciência de todos o altíssimo serviço, prestado ás letras nacionaes por Bluteau, que, lutando com a carência de trabalhos similares na sua pátria adoptiva, inaugurou brilhantemente a lexicographia portuguesa; por Moraes e Silva, cuja obra foi, relativamente aos fins do século XVIII, invejável título de glória; pelos obscuros e illustradíssimos autores do primeiro e único volume do _Diccionário_ da Academia Real das Sciências, esmagados ante-sazão pela enormidade e pêso daquelle meritório emprehendimento; e ainda em tempos mais próximos de nós, pela clara e sisuda intelligência, que se reconhece na organização do _Diccionário Contemporâneo_.
Não menciono mais, porque só adduzo exemplos.
Infelizmente, todos que sabem lêr terão certamente observado que, sendo cada diccionário geralmente vazado nos moldes dos diccionários que o precederam, succedeu que a língua andou e os diccionários pararam.
E pararam, sem que ao menos tivessem conglobado em vocabulário a maior parte dos thesoiros, disseminados nos nobiliários, nos cancioneiros, nas chrónicas quinhentistas, em Gil Vicente, em Bernardim Ribeiro, em Vieira, em Filinto...
Pararam, e a esphera da linguagem foi-se ampliando successivamente, não só por effeito de numerosas derivações internas, senão também, e principalmente, pela formação e diffusão da moderna technologia scientífica, artística e industrial, pela permutação internacional de muitas fórmulas, pela febre do neologismo, e pela necessidade de dar nome a coisas e factos que nossos avós desconheceram.
Ora, desde que eu senti em mim o mofino sestro de cultor das letras, preoccupou-me e dissaboreou-me sempre a falta de um vocabulário, que me dirigisse no estudo dos mestres da língua, desde Fernão Lopes até Camillo; na applicação de milhares de lusitanismos, conservados amoravelmente pelo povo de todas as nossas províncias, mas desconhecidos dos diccionaristas; na avaliação da nossa riquíssima technologia rural, da technologia artística e scientífica; no conhecimento da fauna e da flora do nosso ultramar e até do nosso próprio continente.
Abria os diccionários menos imperfeitos ou de melhor nomeada,--O _Contemporâneo_, por exemplo,--e nem ao menos alli se me deparavam vocábulos de uso corrente e vulgaríssimo, como _paulada_, _bruxedo_, _deferimento_, _saliência_, _caudelaria_, _palheiro_, _plagiar_, _plangente_, _granjear_, _prefaciar_, _desvirar_, _saguão_, _agrupamento_, _propositado_, _promptificar-se_, _reconsiderar_, _reproductor_, _ruço_, _têxtil_, _empanturrar_, _guerrilheiro_, etc., etc.
De centenares de vocábulos, com que Vieira, Filinto e Camillo enriqueceram a sua língua, raramente se me deparava _um_ sequer nos léxicos portugueses!
Da antiga e moderna technologia das artes e sciências rara notícia me davam os lexicógraphos nacionaes.
Da linguagem popular, privativa desta ou daquella província, tratára um ou outro literato, um ou outro folclorista; os diccionaristas, êsses não desceram da esphera da linguagem erudita, restringida, ainda assim, á quinta parte da linguagem dos eruditos.
Isto, quanto á pobreza de vocabulário. Quanto a erros de doutrina, aliás communs aos melhores diccionários, não me podiam êlles surprehender, visto como um diccionário, não obstante a maior autoridade e competência do seu autor, é o trabalho literário mais susceptível de imperfeições, e ocioso será o justificar esta these.
Por isso, embora o respeitável Moraes e outros distintos lexicógraphos errem ao definir _licranço_, _pesebre_, _teiró_, _croca_, _pieira_, _calambrá_, _rocló_, _lacrau_, _baceira_, _cerva_, _maniqueira_, _corça_, _torneja_, _gallacrista_, etc.; embora registem palavras que nunca existiram, como _igarvana_, _garna_, _fomo_, _fangapena_, _marapinina_, _frondíbalo_, etc.; embora mandem lêr _adípe_, (que é _ádipe_), _alcácel_, (que é _alcacél_), _caguí_, (que é _çagüí_, ou _sagüí_), _mucuna_, (que é _mucuná_), _gombo_, (que é _gombô_), etc.; embora perpetrem manifesto arbítrio e notáveis irregularidades em prosódia, tornando ora paroxýtonas, ora proparoxýtonas, palavras de formação similar, como _hydrocéle_, _epiplócela_, etc., etc., não era por esse lado que mais facilmente se justificaria o accréscimo de mais um diccionário a tantissimos que enxameiam o escasso mercado nacional; mas, sim, pela assombrosa deficiência de vocábulos ou artigos, imprescindíveis em qualquer inventário da língua nacional.
E, a êste propósito, não será ocioso memorar que muitos diccionaristas conheceram e usaram, no decurso das suas obras, expressões que não registaram no competente lugar do vocabulário, ou porque, redigindo um artigo, não souberam recordar-se dos termos que usaram noutro, ou porque, distribuida a obra por collaboradores diversos, o autor dos artigos relativos á letra A, por exemplo, não conhecia os termos de que se serviria o autor dos artigos da letra Z.
E assim é que, na grande obra de Frei Domingos Vieira,--e só me refiro aos artigos de uma letra,--debalde procuraremos _pelagiano_, _perómelos_, _phene_, _patigabiraba_, _picaveco_, _plumbear_, _panarei_, etc., etc. E, contudo, o autor ou os seus ampliadores conheceram e empregaram aquelles termos, ao definir _marmanjo_, _albatroz_, _batrachio_, _benzina_, _côco_, _azerar_, _calhamaço_, etc. No bom _Diccionário Contemporâneo_, inutilmente procuraremos os vocábulos _assexuado_, _arachnidas_, _herva_, _carácias_, _chenopódias_, _spermatozoides_, _camomilla_, _gorilla_, _gálleas_, _parrochiano_ e _parróchia_, _trachinídeos_, _decapódeos_, _escomberoides_, _avessar_, _termillionésimo_, _azaro_, _lóio_, etc.; e contudo o autor ou os autores da obra serviram-se delles, com fundamento ou sem êlle, ao definir _abelha_, _ácaro_, _alquequenje_, _ambeta_, _anserina_, _antherídea_, _anthêmis_, _anthropomorphos_, _aparinas_, _aparrochiar-se_, _aranha_, _astacites_, _atum_, _avessado_, _avo_, _azeredo_, _azulóio_, etc.,--e só me refiro a vocábulos da letra A.
Em taes casos, é a falta de méthodo, e sobretudo o facto ou a necessidade de muitos collaboradores da mesma obra, o que determina sensíveis lacunas, sem desabono da competência e saber de quem dirige a obra.
E todavia taes casos, embora dignos de nota, não accusam, como é de vêr, as principaes deficiências dos nossos mais estimados diccionários: as deficiências capitaes referem-se á linguagem popular, á linguagem culta, antiga e moderna, á technologia scientífica, etc., e foi especialmente neste campo que eu, durante vinte e dois annos, despendi larga parte dos meus cuidados e trabalho.
II
*Materiaes da obra*
Nado e criado entre as serranias da Beira, nunca achei exaggerado o parecer de Camillo, quando o celebrado escritor chamava ao povo o melhor dos nossos clássicos; e, tendo ao depois residido annos nas provincias do Doiro, do Alentejo e da Extremadura, mais se me arraigou a convicção de que o povo é realmente um grande mestre da língua, embora êlle o seja inconscientemente, e embora mui raramente o hajam consultado diccionaristas, a revêzes preoccupados de prosápias acadêmicas.
Desadorada pelos lexicógraphos, a linguagem popular mereceu-me longos e especiaes cuidados, que reverteram na colheita de mais de seis mil vocábulos e locuções que não andavam nos diccionários, mas que o povo tem guardado religiosamente por essas províncias em fóra.
É muitas vezes incerta a origem ou formação dessas expressões; mas, muitas outras vezes, ali se nos deparam preciosos lusitanismos, apropriadas dicções, e até numerosos termos, que os eruditos têm tido a ingenuidade de capitular de archaísmos!
Poderiam centuplicar-se os exemplos justificativos dêste assêrto, mas poucos bastarão. Nos escritores e manuscritos antigos deparam-se-nos expressões que os eruditos têm relegado para os domínios do archaísmo ou, pelo menos, da linguagem desusada. Taes são: _claror_, _luxar_ (sujar), _grossor_, _gerecer-se_, _calleja_, _almofia_, _doairo_, _traguer_ (trazer), _nembro_, _estrancinhar_ (usado no _Cancioneiro da Vaticana_), _confita_, (na _Eufrosina_), _engaço_ (ancinho), _ceivar_, _orreta_, _gocho_ (nas comédias de Simão Machado), _sorça_ (nas _Lendas da Índia_), _adôrádo_, _busaranhos_, (em Gil Vicente), _agra_, _bramante_ (por _barbante_), _quartapisa_, _seto_, _ril_, _tenreiro_, _gaiar_, _guaiar_, _legão_, _cofinho_, _inorar_, etc. E contudo, quem percorrer as nossas províncias, sobretudo quem penetrar nos desviados rincões, donde o caminho de ferro e a concomitante civilização ainda não expungiram tudo que há de usanças e locuções avoengas, ouvirá pronunciar commummente no Algarve _claror_, _luxar_ (sujar), _grossor_; na Beira, _gerecer-se_, _calleja_, _almofia_, _doairo_, _traguer_ (trazer); no Minho _nembro_, _estrancinhar_, _confita_, _engaço_ (ancinho); no Ribatejo, _ceivar_; em Trás-os-montes, _orreta_, _gocho_, _sorça_, _adôrádo_, _busaranhos_; em Aveiro, _agra_, etc. E, em quási todas as províncias poderá ouvir as dicções antigas _incréu_, _descudar_, _hétigo_; bellos lusitanismos como _verguio_; e, mormente em Trás-os-montes, puros latinismos, como _hedra_, por _hera_. Etc.
Ainda cheguei a tempo para incluir no inventário da língua nacional milhares de verbas, que àmanhan estariam sonegadas por essa insaciável cabeça de casal, que se chama _civilização_, o que, desculpando-se com os seus intuitos nobilíssimos, procura locupletar-se á custa de tudo e apesar de tudo.
Àmanhan seria tarde; e exceptuando o que Camillo salvou com os seus livros e o que algum devotado folclorista tem recolhido acaso, pouco ficará, entre o povo, da bôa e antiga linguagem portuguesa. Falo por experiência: há trinta annos, ainda aprendi nas aldeias da Beira numerosas fórmas de dizer, de perfeito cunho local e de acentuado sabor português; hoje, parte dellas, não as oiço por lá, e acho-as substituídas ás vezes pela gíria da cidade e pelo neologismo, ora inútil, ora tolíssimo. A locomotiva, ou antes, a _locomotora_, esfumou aquelles cerros e valles, e a vegetação secular vai cedendo terreno a plantas novas, entanguidas e ephêmeras...
Nem tudo porém se perderá; e, sobretudo se houver devoção para colher e archivar os numerosos provincianismos, de que, apesar dos meus esforços, não consegui tomar conhecimento e que porventura ainda vão resistindo á foice que os ameaça, a Philologia terá nelles valiosos subsídios para a história crítica da língua, e a língua poderá continuar a ufanar-se da sua excepcional flexibilidade e belleza, e do seu numeroso vocabulário, irrivalizável talvez, se o defrontarmos com o das outras línguas românicas.
* * * * *
Na classificação dos provincianismos portugueses, nem sempre pude seguir uma norma absolutamente rigorosa. A um termo, que se ouve pelo menos em Mogadoiro, em Miranda ou em Vinhaes, chamei provincianismo trasmontano, sem que isso signifique que êlle é usado em toda aquella província ou que não é usado fóra della. Uma vez ou outra,--raramente,--designo a localidade, (_termo de Alcobaça_, _termo de Coímbra_, etc.), por tôr a probabilidade de que o termo respectivo só ali é usado. Também, quando chamo a um vocábulo _provincianismo beirão_, quero dizer que êlle é falado, pelo menos, numa das duas Beiras, (Alta e Baixa), ou até só em parte de uma dellas. Da mesma fórma, há _provincianismos alentejanos_, que não são conhecidos no Alto Alentejo, e outros, que os distritos de Beja e Portalegre não conhecem.
Vá isto á conta de esclarecimento, como de quem, assentando numa classificação que o não satisfaz absolutamente, não achou processo mais simples nem mais próximo da verdade.
* * * * *
Mas a linguagem portuguesa não é só a linguagem popular de hoje; é também a linguagem popular antiga, e a linguagem culta, antiga e moderna.
Sôbre a linguagem popular antiga, foram-me excellentes subsídios os autos e comédias de Gil Vicente, António Prestes, Jorge Ferreira, Simão Machado; e para o estudo da nossa linguagem culta de todos os tempos, não foi sem grande assombro que eu achei, ainda inexplorados pelos diccionaristas, não só os cancioneiros e chrónicas dos primeiros tempos da nossa língua, não só Fernão Lopes e Gil Vicente, senão também os monumentos literários de Vieira, Francisco Manuel, Filinto, José Agostinho, Castilho, Latino, Herculano, Camillo, e tantos outros. Só em António Vieira, depararam-se-me mais de quatrocentos vocábulos, que eu nunca vira em diccionários. Em Gil Vicente e Filinto, mais numerosa foi ainda a colheita.
E nada desperdicei do que fui colhendo: archaísmos e neologismos, derivações violentas e até erróneas, termos de significação duvidosa ou obscura, tudo alphabetei e reproduzi, julgando cumprir um dever.
Bem sei que os menos experientes em trabalhos desta natureza hão de acoimar-me de nimiamente tolerante, com respeito a locuções injustificáveis. Mas ao diccionarista não impende o tolerar ou vedar o uso ou abuso de tal ou tal locução: o diccionarista tem, como dever capital, o reproduzir factos e interpretá-los. Se entende que um vocábulo está corrompido ou que é mal formado, se o julga neologismo inútil ou disparatado, consigna o que entende, mas regista o vocábulo.
Os próprios mestres têm extravagâncias, que ao diccionarista não é lícito expungir. Vejam o _manti-costumes_, o _mil-lindo_, o _mil-gamenho_, o _mulhermente_ de Filinto, o _lucreciamente_ de Camillo, etc.
Mas onde a crítica fácil mais convictamente me alvejará é na inscripção, que eu faço, de gallicismos intoleráveis. Não alongarei justificações, afóra o que dito fica sôbre a missão do consciencioso diccionarista; mas apraz-me notar que, embora a francesia e o barbarismo em geral não sejam defeitos vulgares em livros meus, eu nem sempre condemno o estrangeirismo que não pratíco. Por uma consideração: é que nós não sabemos se o gallicismo, hoje intolerável, será àmanhan palavra portuguesa e, como tal, fará parte do thesoiro da língua.
E esta incerteza é confirmada pela história. Raro será o clássico, antigo ou moderno, que não tenha perpetrado gallicismos, passando êstes ao domínio da língua. Basta citar _garção_, _abrevar_, _minhão_ (pequeno), _mancar_ (faltar), etc.
Um purista, que vivesse há quatro ou cinco séculos, devia sentir ondas de indignação, quando visse começar a usar-se _libré_, _arranjar_, _ferrabrás_, _marau_, _freire_, _grifa_, _genebra_, _bilhete_, _betarraba_, _besonha_, febre_ (adj.), _petigris_, _poteia_, _poterna_, _abreuvar_, _assembleia_, _petimetre_, _grelo_, _gaio_ (alegre), _gage_, _greu_, _moéla_, _gredelém_, etc., porque todas essas palavras eram puras francesias; hoje... são portuguesas. ¿Quem sabe o que succederá aos mais intoleráveis gallicismos de hoje?
E possível que os alludidos _neologóphobos_ abranjam na sua phobia o registo, que eu faço, de muitos centenares de termos de gíria, como estranhos á linguagem othodoxa e grave dos pontífices literários. Aos taes bastará ponderar que não há pontífice literário que inflija excommunhão maior ao vocabulário da gíria, porque está relacionado por muitos vínculos á linguagem geral, offerece por vezes o facto notável de derivações erudítas e tanto se abeira amiúde da linguagem popular, que se torna diffícil traçar a divisória.