Nova Sapho: Tragedia Extranha

Chapter 4

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Certo é que a filha de Typhão parecia ter resurgido do mar e, esquecida do aggravo de OEdipo, golphava da boca larga e mal talhada columnas de agua.

Á hora do curto dialogo de Edgar e Hugh desciam as raparigas ás piscinas.

Lestas, seguiram quasi ao mesmo tempo para o patim da tina alta. Entre Helen e Violet ia a portuguesa. A brancura das inglesas emprestava luz ao corpo de mel de Maria Peregrina, que sobresahia pela desenvoltura de linhas. Todas usavam um calção curto e camisolim decotado, justos. A malha de Peregrina era de seda morena, como o corpo que apertava. Não o escondia, sophismava-lhe a obrigação do vestuario, tornando-a mais bellamente nua.

No patim as três hesitaram; depois foram descendo. A ultima a entrar foi Peregrina que impelliu Helen, suavemente, pelas ancas; segurou, distrahida, o cabello farto, anelado e selvatico, e ficou-se a seguir com o olhar o corpo branco da companheira, a boiar na tina funda.

Só, de pernas colladas, braços levantados como segurando a cabeça esbelta, Maria lembrava um gomil precioso de olaria rica que um principe tivesse ido encher ao lago e ahi esquecesse.

Foi a ultima a entrar e a primeira a sahir. Deu volta ás duas tinas, arando a agua em sulcos dum desenho desmanchado e sahiu, mau grado os protestos das companheiras.

Um quarto de hora depois partiam todas para as cellas-barracas.

Helen ia a entrar para a sua, mas recuou, suppondo enganar-se. Estava occupada por Maria Peregrina que acudiu a chamá-la.

--É esta a tua barraca, informou, abraçando-a. Sahi mais cêdo do banho e vim para aqui para te enxugar com beijos.

--Olha que estou molhada, dizia Helen, achegando-se do lençol.

--Estás molhada? Não importa. Deixa morder o teu corpo velludoso de asclepia. Tenho sêde para te beber toda, dizia de olhos chammejantes, fremindo os labios pelo corpo branco-humido da inglesa.

E sorvendo-lhe as extremidades crestadas do peito:

--Sabes a historia destas lindas nodoas? Não sabes, minha tonta, vou contar-ta.

São dois peccados. Deus tinha apartado uma nuvem branca para fabricar petalas de magnolia. Sabes que não se pode tocar em taes flores; escurece-as um carinho.

A sua mão deu-se a modelar-te, por capricho daquella massa--a das flores sensiveis.

Pôs um cuidado especial no peito que te repartiu em globos medidos pela sua mão divina, e a que deu a maciez das petalas e o calor das rôlas.

Pois o maroto de um anjo que o viu distrahido foi, guloso, dar-lhe dois beijos. São estes pedacitos crestados, rematados por agulhetas finas, que ainda ha pouco pareciam romper-te a malha e me beijaram quando as beijei.

--Muito interessante o conto, commentou a inglêsa, rindo.

E abrindo os braços:

--Venha de lá esse lençol de beijos. Quero sentir os labios que dizem tão lindas historias...

* * * * *

Passaram mêses. Uma tarde, estava Peregrina no quintal a tocar violino junto á Fonte Verde, de costas para a alameda, quando ouviu a folhagem...

Voltou-se.

--Ah! és tu? disse com enfado a Edgar, que avançava para junto della, sentando-se á beira da Fonte.

--Sou eu que estou aqui a ouvir-te ha muito tempo. Que bem comprehendes o violino!

--Então, dize o contrario, que bem que o violino me comprehende, respondeu ella, pois que improvisava musica sobre motivos meus.

--Era uma despedida--a despedida de Helen, não é verdade?

--Era, sim:--anesthesiava-me. As ondas de musica podem ser ondas de ether para a Artista que pudér bem mergulhá-las. Por mim não posso. Não sei esquecer, pois que despendo bastante trabalho a fixar... E o culto que tenho pela musica não vae até apagar-me os defeitos ou virtudes do temperamento.

--Tens então muitas saudades de Helen? Dentro de breve tempo estará ella nos braços dum _gentleman_. Conheço John Brooke de casa de meu pae. É um diplomata muito querido da aristocracia. É bastante mais velho do que ella, mas hãode ser felizes. O casamento foi arranjado pelos paes. Mas, a proposito, deve dizer-se que ha paes que acertam... A que melhor podia aspirar? Bem sei que te dóe a sua ida. Persistes em negar a natureza. No fim ha de succeder-te o mesmo; regressarás a ella mais cedo ou mais tarde.

--Não fales assim, Edgar, se tens algum empenho em ser-me agradavel. Tem caridade comtigo.

--Sabes, Maria, que é por caridade para commigo que penso assim. Por caridade commigo e por amor de ti. Ha que tempos te amo! Chegava a ter ciumes de Helen, que entrava passivamente nas tuas loucuras. Conversava-a sobre os vossos delirios. Tinha um prazer amargo em acompanhar pela dor o vosso fremir de corpos, que nunca podiam casar-se. De toda a tua philosophia só para mim resultou um bem:--estar ao pé de ti, ouvindo os echos duma alma a despedaçar-se num conflicto que tem um unico suppuradouro--o teu talento. O encanto que derramas não podia vencer a natureza, subjugando a mulher que escolheste. Conversa-a daqui a mêses. Creio que o casamento é breve. Verás que mal se recorda do amor em que a usavas. Ah! mas o encanto das tuas palavras, como o talento dos teus defeitos não se perdeu. Tenho tudo no peito. Tinhas ao teu lado alguem que te amava religiosamente...

--Sem me comprehender, objectou Peregrina.

--Não digas isso. Amar é comprehender. Vê como eu, do Norte, me sinto meridional ao pé de ti, só para te pedir um pouco de tolerancia para este amor que recebes como um peccado. Dize o que queres que faça para merecer-te!

Queres que a teu lado seja o pregoeiro do amor exotico, explicando que os nossos corpos se não entendem; que os nossos laços são um commercio do espirito? Comprarei essa mentira por toda a casta de infamia, e irei, de alma lavada, prostituir-me ás casas de pederastia que houver ou tivermos de inventar. Como esbanjas a fortuna dos teus encantos! Tens o talento de te fazer amar, mas não sabes amar...

--Basta, Edgar! Bem dizia eu:--não me comprehendes. Não extranho. Eu sou, de facto, um enigma, o arremêdo da Esphinge, que o capricho dum canteiro exprimiu em pedra á beira do lago. Sou o monstro de Thebas, que resurgiu em fórmas novas. O que vês é o meu avêsso. Não me percebes! Não te devorarei, como o antigo monstro fazia a quem lhe não decifrava o enigma. Petersfield não é bem o monte de Thebas e a Esphinge de hoje tem de ser uma Esphinge civilizada...

Vou explicar-te o enigma que sou. Dizer-te como sou.

Tenho a cabeça das mulheres de Granada, talhada em sombra e sonho; o peito é português; assento o busto no torso de Leão, que é do escudo das minhas armas e das armas da Peninsula,--a bravura do Ocidente; as minhas asas são o genio judaico--a tara duma raça, perseguida, que ninguem acceita, que não acceita ninguem...

--Vamos daqui, Edgar, concluiu num riso amargo.

--Maria, pediu o irlandês, um instante apenas!

--Vamos!

E partiram os dois, silenciosos, perdendo-se no borborinho dos que batalhavam o _tennis_ num recanto do recreio...

* * * * *

Passou um mês. Chegou a noite de nupcias de Helen.

Meia noite. Maria escrevia sem cessar desde as 9 horas. Subito sentiu mexer na porta. Levantou-se e foi abrir.

Á porta estava Edgar, a tremer de commoção, cingindo uma capa leve, redonda pelos joelhos.

--Entra, disse-lhe Maria.

--É então certo, meu amor, que te condoeste de mim? Imaginei ao ler o teu bilhete que não era verdadeiro. Não podia ser. Tu não podias querer-me. Quasi me não falavas depois que te revelei o meu amor. E assim, de repente, um recado para que te viesse possuir... Que estranha és! Que abençoado momento te inspirou, dizia elle abraçando-a... Foi o genio do amor que preside a tudo, que sabe quanto a minha vida te merece.

Mas, vejo-te tão morna, depois duma resolução tão nobre...

Maria, sê minha devéras. E conta-me o que te levou a chamar-me. Dize-me que me queres. Que sou o escravo do teu amor...

E, solto da capa, apertava-a contra o corpo, despindo-a, e listrando a beijos a sua carne morena...

E ella, afastando-o com mansidão, deslumbrada:

--Deixa-me ver-te com olhos de Artista. És bello, realmente!

E desapertando-lhe a malha lilaz:

--Despe tudo isso, quero ver-te bem. A historia do bilhete é simples. Recebi esta manhã carta de Helen. Casou hoje. A esta hora deve estar com o noivo; lembrei-me de tirar uma copia do casamento... Quiz ser possuida ao mesmo tempo que ella, e lembrei-me de ti!

Demais, sempre no meu ponto de vista de Arte, não me é indifferente noivar com um rapaz tão bello como tu.

--Maria! Despe a intelligencia e entrega-te! Veste, como eu, o espirito de animalidade, e deixa que a nossa carne se entenda.

E, abraçando-a, lançou-a sobre a cama estreita, collando a sua boca á della, e emmaranhando-se-lhe nos cabellos, que, desmanchados, desceram como uma segunda noite, a agasalhá-los...

Sobre a madrugada Maria Peregrina afastou, suavemente, os braços de Edgar e disse-lhe com fleuma:

--Vamos, arranja-te. Creio que não quererás que te procurem aqui.

--Conforme, disse elle, se o facto de nos encontrarem aqui nos obrigasse á união para sempre, gritaria já daquella janella o meu triumpho. Porque foi um triumpho para mim esta noite, não é verdade? dizia mordendo os labios vermelhos de Maria. Quebrei o Enigma. A Esphinge era uma mulher, embora a mais preciosa das mulheres, a unica que Deus poderia dar-me e tambem a unica, Elle sabe, que eu lhe pedi!

Eu andava ha muito a procurar-me. Perdera-me a sonhar... Encontrei-me em ti. Vi-me á luz negra do teu olhar, fluido de amor e perdição. Os teus olhos são como o genio da aventura:--reflectem amor, lucto, Belleza dolorosa... Como sinto os enleios negros do seu fulgor, penumbras de sonho e loucura!

Vejo atravez delles a alma da tua raça--aquella que elles discorrem, fataes de amor.

Adivinho-me junto de ti na primeira hora em que viveste, aquella em que odiaste outra luz, e exclamo:

--Ahi está a Artista, uma Raça que vae chorar, cantando; recemnasceu o crepusculo do grande povo, aquelle que viveu madrugadas e vae morrer Poeta, amortalhado na sua alma de sombra.

No teu corpo de marfim e sêda, realizou o Divino da Belleza um sonho luxurioso, aquelle sonho que Elle viveu um momento, confundindo-se em ti, em mim. Escreveu na tua boca de dahlia a nova redempção--a prophecia de prazer que o universo syllába a mêdo e que os teus labios franzem, reprêsos de amor. A Vida é o Amor, o nosso Amor... Como recordo a Noite! Tudo o que havia de voluptuoso ella atrahiu e teceu, descendo, interessada, a possuir-nos.

Sinto o roçar velludoso do seu tecido de mysterio e vicio. E chego a ter zelos das suas caricias. Só tu devias ser presente. Eu proprio queria ser ausente... em ti. Houve no nosso amor um erro, o genio da tua carne que um momento interessou tudo!--Oh! como odeio a Noite, a sombra immensa de todos os delictos e volupias que o Ceu espectra para vingar a pureza, a abstinencia eterna...

Soffro e amo o teu genio--o genio do erro que me faz abdicar de mim, mirado nos encantos da tua figura de chamma, ateada de imprevisto.

Como te amo! Transformas tudo. Se até solves a nevoa que turva o olhar da minha raça!...

Vê como eu, que sou da nublosa Irlanda, me sinto peninsular ao pé de ti...

Mas que passividade é agora a tua? Então, minha querida, fala! Olha que já não és a Esphinge...

E, tocando uma minitura de esmalte, florida de diamantes:

--Deixa ver isto; quero ver, com vagar, o teu unico traje desta noite. É lindo vestir sómente uma joia na noite de nupcias.

E reparando:

--Ah! é a Sapho de Pradier.

Perdôo-lhe porque esteve calada... Foi discreta.

--A peor Sapho para ti, Edgar, não foi ella, fui eu. Digo-te, com desgosto, que a Esphinge permanece. Nem um só minuto vasei a minha alma na tua!

Não me arrependo do que fiz, pois que consegui o que esperava,--soffrer. Foi uma noite que sacrifiquei á minha saudade. E deu-me volupia o soffrimento, como dá sempre. Mas lembra-te de que te vejo hoje peor do que nunca. Eu sou como os aleijados que não perdôam aos que possuem corpos sãos. A minha alma é doente, não perdôa a tua alegria em possuir-me á custa dum prazer de que eu soffri o avêsso--ondas dum horror que hade durar...

--Por quem és, não me relegues ao inferno depois de possuir-te. Irei para onde fôres. Já ninguem nos separa. Respeitar-te-ei todos os caprichos, até loucuras, que eu sei que o genio as tem... Só uma coisa quero--o direito de fundir a beijos o teu corpo...

--Basta, Edgar! disse ella, dando-lhe a capa e acompanhando-o até á porta. Deixa-me! Não exasperes a minha sensibilidade, duplicando o meu horror por ti. Vae!...

E, fechando a porta sobre Edgar, que descia cauteloso e somnambulo a escadaria, foi, semi-nua, como estremunhada, procurar no segredo dum movel o retrato de Helen, que ficou a fitar por largo tempo.

* * * * *

No dia seguinte tentou Edgar falar-lhe. Queria discorrer sobre a noite antecedente, aquella noite que lhe custara canseiras e milagres, pois que teve de atravessar pavilhões ás escuras, saltar e assaltar janellas, resolver difficuldades, até que, vencida a mulher dos seus desejos, a via, de subito, despedi-lo como uma creatura desprezivel, porque a amava!...

Que extranha aventura! Podia ser? Mas quando ia para se approximar, sentia uma tal commoção... depois, parecia tão firme o proposito de Maria em afastá-lo, que elle proprio, sentindo por si a repugnancia que lhe inspirava, era o primeiro a fugir, corrido.

Succediam-se os dias até que Edgar soube por Violet que Maria Peregrina ia sahir do collegio no sabbado seguinte. Assim o fôra participar ao director. Era uma segunda-feira.

Edgar, desesperado, tentou o ultimo reducto. E, decidido, procurou a hora em que Maria, segundo o costume, ia abancar junto á Fonte.

Estava lá, de facto. Viu Edgar e baixou os olhos sobre um livro que tinha aberto, sem ler.

Elle chegou junto della e começou a falar-lhe resoluto. Mas, pouco e pouco foi perdendo a serenidade, ao passo que ia lendo na physionomia da amante o horror que lhe inspirava.

--Queria saber, começou, se era verdade que ella ia sahir do collegio. Tinha o direito de sabê-lo, pois que o acaso os juntára, e elle estava resolvido a seguí-la; uma palavra sua de amor, de benevolencia apenas, era sufficiente...

--Basta! disse ella, fitando-o com decisão. Não me canses.

E levantando-se:

--Respeita a minha sensibilidade, mesmo que não a comprehendas. Deixa-me!

E metteu pela ala da esquerda, deixando Edgar aturdido, junto á Fonte.

Na manhã immediata, elle levantou-se cedo. Foi para a casa de estudo e escreveu durante dois quartos de hora; a seguir foi á sala das armas e dahi para a quinta, onde passeou até ao almoço--oito horas e meia.

Acompanhou as aulas até á uma hora. Foi ao dormitorio vestir um fato ligeiro de _football_, mas mal entrou no jogo. Falou por espaço de meia hora com Hugh; e emquanto este seguia com os demais alumnos para o _tennis_, Edgar desceu rente ao muro, a internar-se nas sombras.

Passado tempo ia Maria Peregrina para junto da Fonte. Levava o violino para tentar um trecho de Wagner, em que Edgar tinha falado.

Momentos antes, dissera a Violet:

--Afinal, é sensibilizante a amargura do pobre rapaz, mas não posso soffrer o horror que me causa a perfeição daquelle systema de nervos tão bem ajustados a um corpo magnifico, e tudo ao serviço dum amor normal, duma animalidade de cavador!

De repente avistou a Fonte, e, a seguir, um corpo estendido a alguns palmos da vasa. Apressou o passo: era Edgar!

--Edgar! Edgar! chamou.

Nada...

Sacudiu-o, e o corpo abandonou-se-lhe. Maria Peregrina, recuou; pôs-se a examiná-lo: estava de bruços, com o ouvido direito collado á areia, o braço esquerdo ao longo do torso e o direito estendido para a frente, tendo na mão um revólver.

Percebeu então; estava morto:--suicidára-se.

--Pobre rapaz! disse a meia voz. Que lindo!...

Edgar vestia simplesmente:--camisola de sêda preta, calção de linho branco, e sapatos de camurça cinzenta, solados de borracha.

Assim viera do recreio dos jogos.

Maria Peregrina ajoelhou junto ao cadaver e metendo a mão pelo calção largo, pôs-se a afagar-lhe a coxa luzente. Depois flectiu-o, voltou-o, subiu-lhe a camisola até ao peito. Subito, deu com três cartas. Leu os endereços: uma era para ella! Lá estava na letra muito firme de Edgar, escripto o seu nome; as outras duas eram--uma para o director, outra para o pae, o sr. Buckley.

--Pobre Lord, exclamou, como hade ficar!...

Guardou a carta que lhe era destinada, e ficou a contemplar aquelle corpo, côr de tocha.

--Que bello, no seu ar de crepusculo! murmurou. Mas que rictus o da sua boca dolorosa!

E, de repente, como obedecendo a uma força intima, baixou-se mais, beijando-lhe a pelle de cera; cahiu sobre o cadaver, soergueu-lhe a cabeça, collou os labios á boca-lilaz do morto, e ficou por minutos como que adormecida sobre elle...

Depois levantou-se, examinando a mão e o braço com que o soerguera. Sentira na mão um liquido; era o sangue que borbulhára do ouvido direito do suicida.

Pousou outra vez na areia, a cabeça de Edgar. Foi lavar-se á Fonte; compôs o cadaver e ficou ainda uns minutos a contemplá-lo.

--Que lindo estás! disse-lhe, quasi ao ouvido; e como gostaste dos ultimos carinhos! Já não tens o rictus de ha pouco...

Leio as nossas pazes á luz roxa do teu sorrir de morto!

E beijando-o:

--Parto contente. Adeus!

V

Dias depois do drama de Petersfield, estava Maria Peregrina installada na Praça de Trafalgar, em Londres, no Hotel Metropol.

Acompanhava-a Violet, que sahira do Collegio com ordem da familia, ordenado estabelecido, e auctorização de seguir com ella durante o tempo do contrato--cinco annos.

Ás tres horas, veiu um creado annunciar a chegada duma carruagem.

Violet compôs a _toilette_ de Maria e esta sahiu depois de breves recommendações.

--Manda seguir para a avenida Northumberland, n.º 1013, disse ao trintanario.

Pouco tempo depois parava a carruagem.

Maria Peregrina entrou no vestibulo da casa indicada.

Perguntou se estava Helen Brooke e entregou um bilhete.

--Vou ver, disse o porteiro.

Voltou dahi a pouco, e informou:

--Está, mas não recebe.

--Como assim? inquiriu Maria.

--Foi a ordem que me deram...

--Manda andar para o Hyde Parck, disse ao trintanario, já na rua, voltando as costas ao porteiro.

A carruagem seguiu.

* * * * *

Na manhã seguinte, ás nove horas, trabalhava no gabinete de estudo, quando chegou o correio.

Dentre o maço de correspondencia, foi extremando as cartas de letra conhecida. Leu-as com vagar e interesse, sobretudo as que vinham de Petersfield, dos antigos companheiros de collegio.

Passou a abrir as revistas, maços de livros, etc. Dentre as cartas desconhecidas tomou uma, ao acaso. Foi ver a assignatura. Leu com extranheza: John Brooke.

A carta dizia:

«Estava hontem em casa quando V. Ex.ª veiu para visitar minha mulher. Fui eu quem prohibiu que fosse recebida. Helen pôs-me ao facto das antigas relações entre V. Ex.ª e ella. Porque me não convem nesta casa, entendi dever dar-lhe parte da minha resolução».

Maria Peregrina leu com attenção a carta. Releu-a, como se quizesse certificar-se da primeira leitura e escreveu por minutos.

Depois chamou:

--Violet!

A inglesa appareceu quasi logo.

--Lê; e estendeu-lhe a carta de Brooke. Ahi tens a explicação da forma porque fui recebida.

Agora vê a resposta, e deu-lhe a folha recem-escripta.

Violet leu alto:

Meu caro Senhor!

Sei o que Helen lhe disse, porque sei o que ella, incapaz de mentir, podia dizer-lhe--a verdade. Não posso culpá-la. Ella teve a sinceridade duma confissão que V. não merecia, pois a ouviu sem a comprehender. A circumstancia da minha visita e o supplementar da sua carta são para mim coisas minimas.

Não tenciono voltar a procurar Helen. E como será a ultima vez que me dirijo a V., vou aproveitar o ensejo para lhe vaticinar que a sua conducta para commigo pode ter realizado a intenção de magoar-me, mas não o defende.

O temperamento de Helen não se fecha com prohibições e ordens como as que deu. E, se proseguir com ellas, peor lhe será. Helen dar-lhe-á o amor legal com um horror que no fim hade amargar aos dois.

Da inalteravel amiga de Helen:

_Maria Peregrina_.

--Podes fechar a carta e sobrescritá-la, disse, quando Violet acabou de ler.

E como falando só:

--Que infelicidade a minha e a dos que me rodeiam! Comecei por matar minha mãe, para entrar no mundo! Perdi meu pae aos nove annos.

Tenho no ouvido as suas ultimas palavras:

--Hasde ser, como todos os nossos, infeliz. Não tive tempo de te quebrar o motivo das maiores desgraças--o orgulho. Demais, tens talento.

Peor ainda:--talento e orgulho--o que terás de supportar!

Cêdo o Acaso me accendeu a sensibilidade.

A pobre Louisa Huley foi a primeira a soltar os amores doentios que eu tinha em mim. A fatalidade mandou-me da Inglaterra uma creatura para tentar-me.

Acabo de receber carta della.

Está perdida, vae para a Suissa tratar as ultimas esperanças de tuberculosa, e pede-me uma esmola!...

E fitando Violet:

--Não te esqueças de remeter-lha.

Helen, que foi a suprema alegria da minha vida, porque nós só nos alegramos quando satisfazemos vicios,--ahi está nas mãos dum inglês bruto, incomprehendida, bloqueada de ciumes e grossarias.

Edgar--morto tragicamente junto á Fonte Verde, em Petersfield, e eu a detestá-lo quando o seu lindo corpo se encapellou na minha posse e a ter por elle, a partir da hora em que o vi morto, uma quasi paixão...

Não imaginas como estava lindo, e sem se mexer, ali, á minha ordem. Ah! senti-o bem meu naquella hora que encherá uma parte da minha vida.

Como soube ler-lhe o corpo!

De quando em quando sentia barulho. Eram as folhas a bisbilhotar horrores contra mim!

Eu tinha mêdo que revivesse, que a sua alma regressasse ao amor.

Tu nunca amaste um morto!...

Elle, muito languido, côr de sêda crua, a dar-se-me, passivamente, movendo aos meus delirios o seu corpo de ambar.

Eu, muito collada a elle, falando-lhe, emprestando amor aos seus membros perros, lendo as linhas de sua nobre belleza--um Apollo de morte, a sentí-lo a sós, sem que houvesse ali mais do que eu propria e a sua carne...

Oh! o delirio daquella tarde!

--Nunca me mostraste a ultima carta delle.

--Ah! queres vê-la?

E depois de levantar-se a buscá-la:

--Ahi a tens.

Violet leu:

Minha querida Peregrina!

Morro amando-te. Quiz que soubesses que te comprehendi. Beijo-te ao partir. Olha que não levo resentimentos. Sei que não podias amar-me. Que me concedeste o mais que podias conceder-me. Mas eu não podia ficar. Era doloroso sentir que te afastavas tanto de mim, quanto eu de ti procurava approximar-me.

Creio que morto te não merecerei a repulsa que me tens dado.

Presumo que sejas a primeira a visitar-me. Irei suicidar-me junto á Fonte, na idéa de que sejas a primeira a ver-me!

Se assim fôr, ao menos então hasde pensar em mim. E podes vêr-me outra vez com os olhos de Arte, que já me não magôas. Pelo contrario, onde estiver, heide exultar de orgulho--se o meu corpo te der linhas perfeitas que entretenham por minutos a tua sensibilidade.

Procura bem. Olha que a morte é carinhosa com a adolescencia. Eu heide ser bello, ao menos na hora do teu encontro.

Vê-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffreá-la onde quer que esteja. Não quero que dês pela sua sensibilidade, encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor... Nem poderia levá-lo todo, tão grande elle é!

Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perdôa-lhe. O corpo deve estar em breve junto á Fonte. Tu amas a passividade, as linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.

Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela Morte. A Morte é tambem como tu--delicia-se, ceva-se na belleza passiva...

Adeus, Peregrina!

* * * * *