Chapter 3
Por entre a rêde azulada de linhas que lhe prendiam os appellidos, destacava as malhas vermelhas dos erros de amor.
Respeitava estes erros pelo que a explicavam. Entre as linhas de bom sangue que a submettiam e o systema de linhas que lhe dava a figura, sentia o conflicto de duas raças. Era pela desenvoltura do seu corpo de garça, talhado em ambar macio e tostado,--expressão de um povo que vive na penumbra um eterno outomno de genio triste...
Que lhe importava que o sangue semita viesse gafar a sua origem fidalga, se ella vivia, sobretudo, essas gotas de sangue, que em revolta com os globulos de raça, a reflectiam numa casuistica tão diversa da que inculcava a outra gente?
No seu perfil moreno, tocado de sonho e de tristeza, parece que o Destino tinha escripto uma parte da sua historia.
Perdera cedo o pae, aos nove annos. Da mãe, victima do nascimento della, ficaram-lhe memorias, casos de bondade que toda a gente repetia. Manoel de Sousa Campello e Pamplona, senhor do vinculo e Casa de Soutello, fôra seu tutor por disposição testamentaria de D. Antonio. Mandou vir uma professora inglesa para a instruir em linguas, lição de coisas e principios de Arte.
Duma grande precocidade, Maria Peregrina seguia, com excepcional aproveitamento, as lições de Louisa Huley.
A inglesa era uma aventureira intelligente, prendada, que, tendo approximadamente trinta annos, tirocinára o ensino pela Allemanha, Austria e França. Tinha de seu uma grande mala com seis vestidos de passeio, o talento das linguas e o ar de quem ensina prendas e vicios para gastar nervos.
Maria Peregrina e Louisa afeiçoaram-se profundamente, excessivamente.
Lamentava a ama de Peregrina, a velha Clara, a indiscreta afeição da extrangeira, que viera roubar-lhe os carinhos da _menina_...
E, da mesma forma, a Salomé, a filha dos morgados, mais nova cinco annos do que Peregrina, se sentia desfalcada nas attenções da prima, muito carinhosa e prodiga de entretenimentos antes da vinda da Huley.
Os de Soutello exultavam.
--Que felicidade darem-se bem, dizia D. Maria Helena para o marido; com o genio voluntarioso de Peregrina o que seria se assim não fosse...
Manoel Pamplona concordava.
A alumna estudava com vantagem. Quando acabou o contrato com a Huley (cinco annos) falava e lia correctamente o inglês, francês e allemão, entrando com uma acuidade que mal se comportava na sua edade nas obras que marcam o genio das linguas. E, da mesma forma, comprehendia e executava musica, surprehendendo a inglesa, muito pratica no seu ensino.
--É um talento precoce, uma sensibilidade! dizia o Tio Manoel, admirado dos progressos de Peregrina, sobretudo da forma porque ella commentava trechos de poesia, esparsos nas selectas, extremando por si a belleza, como os pontos fracos ou extravagantes dalgumas passagens.
Era elle quem a leccionava em português. E ninguem poderia fazê-lo com mais competencia.
Dizia-se modestamente um philologo amador, apesar de ser um estudioso e discorrer Philologia na _Revista Luzitana_, _Instituto_, _Portugalia_ e em algumas publicações extrangeiras.
Era muito acreditado pelas diversões eruditas e conhecimentos miudos dos segredos das linguas antigas.
--Os classicos, explicava ao abbade e ao visinho Thomé, parceiros certos do _bridge_ nas longas noites de Soutello, são os meus antepassados em Letras.
E o abbade, concordando, dizia que o morgado era o representante legitimo dos velhos cultores do Humanismo; que não era comprehensivel o talento sem a grammatica, que lêra ultimamente _A Idéa de Deus_ de Arimathéa Coelho--e concluira que Deus torcêra a Idéa do auctor obrigando-o a dá-la em prosa de saca-rolhas; que lia, ás vezes, por desopilar, a chronica dum gazeteiro de Lisboa, pae dum livro--_Horas tôrpes_,--coisas pelintras, que estavam abaixo dos alumnos do seu tempo, quando iam a meio da Arte; que as Letras iam dizendo bem com o resto...
O Thomé interferia a favor do chronista--que não era tanto como dizia o abbade, que auctor das _Tôrpes_ exteriorizava em parte as suas idéas, que elle, Thomé, escrevêra antes para um semanario de Pindamonhangaba, quando era ainda moço de loja no Tijuco. Manoel Pamplona intervinha sempre, ordeiro, temendo perder os parceiros; sorria intelligentemente para o abbade como a pedir-lhe clemencia para as idiotices do chronista, em que Thomé era commanditario, e depois dalguns rodeios cahia a fundo, muito socio em idéas com o abbade, na ignorancia do grande numero dos plumitivos, e ainda na obra daquelles que não eram idiotas como o exemplar preferido pelo Thomé.
Maria Peregrina, que precisava encher as noites de Soutello, lia quasi sempre, mau grado as observações da Tia e as reprimendas carinhosas de Manoel Pamplona.
Preferia ler traducções de poesia latina ou grega. De vez em quando, levantava-se a inquirir o Tio sobre casos complicados. Queria apprehender a Poesia no mais largo significado. E irritava-se porque, apercebendo-a no rhythmo, na idéa simplista da imagem, no trocadilho das passagens extravagantes, não podia desde logo penetrar a rêde do maravilhoso que envolve a tessitura classica e jogar com o conflicto dos deuses, e todo o genero de sobrenaturalismo. O Morgado entremeava os _robers_ de explicações, pigarreando quando tinha de fugir a qualquer ponto escabroso, posto em discussão pela sobrinha.
Quando a educanda completou quinze annos reuniu o conselho de familia para deliberar sobre o complemento da educação. O curador dos orphãos, homem novo, sabedor da precocidade de Maria Peregrina e vendo o montante da sua fortuna, entendeu que devia promover o fim da educação della no extrangeiro, longe dos preconceitos nacionaes, e dahi ter requerido ao conselho que fosse internada num collegio inglês, segundo o costume das educandas no seu nascimento. Os Morgados protestaram, e Manuel Pamplona pôs á prova toda a importancia e empenho, a ver se impedia o que elle chamava «as modernices impertinentes do bacharel-curador».
Não obteve coisa alguma. Em outubro de 1895 partia com Maria Peregrina para Inglaterra a cumprir as ordens do Conselho.
IV
Anno de 1898.
Nesta data chegou a Petersfield, collegio de St. James, onde Maria Peregrina fôra installar-se, a noticia da morte de Manuel Pamplona.
Tinha ella dezoito annos.
O Collegio de St. James era uma das primeiras casas de educação da Inglaterra, com destino á aristocracia inglesa e a extrangeiros e nacionaes de fortuna.
Havia quatro annos que Maria Peregrina entrára, sendo a primeira alumna do collegio, apesar das extravagancias de genio, que a disciplina britanica não conseguira modificar e ia indulgenciando em attenção aos seus talentos.
Recebeu a noticia da morte do Tio com tristeza. Lembrava-se da velha bulha do _bridge_ nas noites de inverno do Mosteiro, entre o Abbade e o Thomé, a que elle acudia ordeiro e conciliador; das suas lições de português e rudimentos de latim, das velhas recitações que elle fazia sob os arvoredos de Soutello e Lares das obras de Homero, que ao tempo amava por instincto no seu hellenismo genial; de Sophocles, o poeta que em si summariava a maravilhosa cultura e floração da Belleza grega, de tudo emfim que Manuel Pamplona lhe ensinara ou suggerira debaixo das arvores do Minho--ou nos salões dos velhos solares, duma pretenção architectural tão portuguesa e ingenua.
--Coitado, dizia á predilecta Helen, como era bom na simpleza de provinciano, e sabio de coisas classicas, de que sentia sómente o pautado e regramento do periodo--numa pretenção humanista adoravel!
E lembrar-me de que fui eu quem o obrigou á unica viagem que fez! Ah! a confusão que sentiu ao entrar em Londres, memorava. E ainda bem, pois que esse aturdimento lhe anesthesiou o desgosto de deixar-me. Sinto no peito o seu abraço de despedida, o ultimo abraço, como elle disse a chorar. Tinha de ser!...
E Helen Green, uma linda adolescente de dezasseis annos, muito enleada em Peregrina:
--Dize-me, mas a morte do Tio Manuel não prejudica a tua estada aqui, não é verdade?
--Não. Sei vagamente que posso emancipar-me. Vou escrever á Tia Helena, a tomar parte no seu lucto--deve estar consternada! e ao procurador a mandar que promova a minha emancipação immediatamente. Depois traçarei, á vontade, o novo plano de vida.
--E a emancipação não te pode ser recusada? inquiriu Helen.
--Pode, mas não o será, porque vou recommendar ao José Lourenço que se entenda com os do conselho da familia, estimulando-os, sem olhar a despesas. Confio absolutamente nelle. É fino, ladino, e... minhoto. E olha que o Codigo de expedientes do Minho, minha querida, vale as leis inglesas, concluiu beijando Helen.
* * * * *
Passaram mêses sobre a morte de Manuel Pamplona.
Maria Peregrina trabalhava no quarto, segundo o costume áquella hora, quatro da tarde, escrevendo vagarosamente, quando vieram annunciar-lhe a visita dum português. Desceu ao salão, intrigada. Quem seria o português? Teve a maior das surprêsas! A um canto do salão, discreto, attento á decoração das paredes, dando voltas ao chapeu, de roda de palmo, estava o procurador.
--Oh José Lourenço! exclamou Peregrina, como quem chama por uma visão a desapparecer, pois és tu? Em Petersfield! E, vendo-o caminhar para ella:
--Venha um abraço; quero abraçar o Minho nas abas de Londres!
E o José Lourenço, com os olhos e a voz rasos de lagrimas, baixando-se para a abraçar na cintura, reverente:
--É verdade, senhora Morgada, vim dar conta do recado de V. Ex.ª e receber novas ordens. A Maria tambem queria vir, mas lá me pareceu de mais.
Que, a bem dizer, o que aqui me trouxe foram as saudades. Ha tanto tempo que não via a Fidalga. E a Maria, tinha tantas saudades como eu, coitada! Lembra-se todos os dias do tempo em que a apartou. Ainda outro dia lá appareceu um senhor a pedir colheita e ella esteve todo o serão a falar da senhora Morgada, a ponto que se ia zangando porque elle se riu, quando ella disse que V. Ex.ª era a menina mais linda que havia no mundo. E, a falar verdade, que féra está! Dá gosto vê-la assim. Que linda! Como a Maria havia de gostar de vê-la!
O tempo córre. E o que faz o sangue! As raparigas do Mosteiro da creação da Fidalga estão umas lambisgoias. A não ser a prima de V. Ex.ª que tambem, não desfazendo em ninguem, está um anjo. Das outras nem falar...
--Pára, José, disse Maria Peregrina desnorteada com a loquacidade do procurador. Havemos de falar muito do Mosteiro, das pessoas que temos pelo Minho, mas antes de mais, interessa-me saber como déste com Petersfield.
--Muito facilmente, senhora Morgada. O vinho do Mosteiro é, como a Fidalga sabe, o melhor vinho de Portugal e creio até que do mundo, pois que elle vae para toda a parte...
--José! Não te esqueças da minha pergunta. Queria eu saber como déste com Petersfield, observou Maria Peregrina, impaciente e medrosa da longa historia dos vinhos verdes...
--Perdôe a Fidalga, a gente não sabe falar, mas era o que eu ia para dizer. Ia contar que o vinho do Mosteiro é muito procurado, e dahi vendê-lo cedo a uma casa do Porto, que tem agentes inglêses. Entendi-me com um agente, que todos os annos vem a Inglaterra. Fizemos viagem juntos e estou certo de que se o perdesse já não ficava por cá. Ia direito para o Minho. Eu podia ter escripto a V. Ex.ª e forrar o dinheiro da viagem, mas tinha saudades da Fidalga, além de que tinha gosto em vir dar parte a V. Ex.ª de que está emancipada e ninguem mais manda no que lhe pertence. Os homens a principio oppunham-se á emancipação, que era cedo, e não constava um caso assim, demais tratando-se da maior fortuna do Minho... Afinal, tudo se remediou.
--És um letrado, disse Maria Peregrina. Espera: quero mostrar-te a uma pessoa amiga!
E, levantando-se, foi chamar Helen, que entrou, passados minutos, quedando, curiosa, deante do Lourenço, que a cortejava, mesureiro.
--Que curiosa figura! dizia Helen, passeando os olhos de turquesa sobre o corpo athletico do velho, cingido no burel grosso do vestuario, de calça em polaina, bota de prateleira, jaqueta alamarada, e um grilhão de oiro á laia de corrente.
--Que curiosa figura! repetia a inglesa, approximando-se mais do Lourenço.
E voltando-se para Peregrina:
--Que vaes fazer delle?
--Primeiramente, hei de passeá-lo por Londres. Sabes que estou emancipada--o que equivale a dizer que mando em mim. Heide levá-lo a toda a parte. Quero sentir as suas impressões no Hyde-Park e Camara dos Communs. Tenho pena de que o humor inglês não vença as complicações do protocolo da tua Côrte, pois fazia gosto em apresentá-lo em Windsor!
E dando pela attenção baldada do velho á conversa em inglês:
--Estava a dizer que iamos passear muito. Quero que leves que contar para o Minho.
--Sim, minha senhora, como a Fidalga quizer, mas eu precisava de estar lá para as malhas, de amanhã a três semanas, arriscou o Lourenço, reverente.
--Estarás, havemos de arranjar tudo. Descansa.
E ficaram os três, á puridade, no salão do collegio, estudando, discutindo o Minho.
--Aproveita, Helen! dizia Peregrina. Eu traduzo-te o velho. Olha que é a primeira vez que o Minho authentico atravessa a Mancha...
* * * * *
O Collegio de S. James dava á instrucção literaria o logar competente. As aulas de letras começavam ás nove horas.
Rapazes e alumnas tinham educação conjuncta em varios ramos de ensino, e designadamente em _sport_. Entendeu a Pedagogia que era preciso preparar creaturas fortes. O Collegio de S. James executava á risca os votos dos congressos. Facultava a mais vasta educação, instruindo pelo livro, pratica de laboratorios, trabalho de officinas, jardinagem, etc., isto na maior liberdade de acção compativel com a ordem, no proposito de extremar vocações e especializar talentos. Rapazes e raparigas aproveitavam as sombras do arvoredo, que abraçava o collegio, conversando, pintando do natural, jogando, á vontade, numa confiança mutua de professores e alumnos.
Para o inglês o culto da natureza livre é a razão maxima da sua forma de sentir a Liberdade. Maria Peregrina, uma peninsular, com sangue de casas reinantes decahidas, caldeado de globulos extranhos, e uma imaginação escandecida pela sobreexcitação dos talentos, recebeu de começo com mau senho aquella imposição de força ingenua, que dominava o collegio.
Mas, pouco a pouco, foi-se achando bem. Como tinha caracter nos defeitos adquiridos e congenitos, aproveitou o que lhe pareceu de molde a serví-los, relegando o ensino que toldava o seu hellenismo nascente, collidindo com o genio do Sul de que ella era expressão.
--Ah! dizia em conversa de camaradas, no _hall_, ri muito dos do conselho de familia, quando me destinaram para _menina de collegio_. Coitados, entendem que todas as aves se dão em gaiola. E que na mesma cabem pardaes e aguias...
Afinal, vim na idéa de ver a Inglaterra e seguir mundo. Com o pretexto de experimentar collegios, ia vendo terras e educando-me por mim e para mim, como sempre desejei; mas certo é que me tenho achado bem...
--É que as gaiolas na Inglaterra são folgadas, disse Edgar Buckley, um bello rapaz do bando, dezoito annos, loiro, irlandez de nascimento e coração, de physionomia severa e sympathica.
--Não é isso, advertiu, meigamente, Peregrina, fitando Helen. É que achei em Petersfield a creatura que me deu alentos á exteriorização da minha Arte. Eu tinha latente um amor exotico que não achava apoio algum fóra de mim, e, portanto, não podia vir a publico sobre forma alguma. A Arte é sempre uma expressão de amor. Só produz quem ama. Que esse amor seja bom, ou mau, que importa! O que é preciso é amar.
--Maria Peregrina! arriscou Edgar, sabes que commungo comtigo na admissibilidade do amor extravagante; mas parece-me que este amor deve ser accidental. Ámanhã, quando sahirmos do collegio, iremos todos cahir no amor vulgar; e, a falar verdade, supponho que sobretudo áquelles que têem talento isso convém. Pois não é certo que o amor extravagante nos degenera e gasta?
--Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:--vivê-la para o espirito, para a Arte--numa tensão firme de Belleza, e vivê-la como o commum da gente--almoçando, dormindo, trabalhando á hora, realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e oito annos. Para estes não importa o amor exotico. E convenho que os prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior, muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes dá em Belleza o que perdem em felicidade. Não leste de certo, o que ha escripto ácerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo, affirma a supremacia do vicio; esclarece--«que as relações eroticas dos homens com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a comprehender, a condição unica, necessaria de toda a educação viril; que todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em taes relações; que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a concepção daquellas relações».
--E parecem-te, perguntou Edgar, certas, essas theses?
--Absolutamente verdadeiras. Condizem com os estudos a que me tenho dado da civilização grega, e de o entender assim a minha concepção nova de Hellenismo, o Poema que estou urdindo e vou publicar.
--Já agora, Peregrina, como teus admiradores, creio que temos direito a saber o entrecho do Poema. A tua Arte é tambem nossa.
--Claro, insistiram os do grupo, que eram o companheiro constante de Edgar, Hugh, um adolescente de olhar quebrado, vago; Violet, uma rapariga tambem inglesa, de olhos e cabellos castanhos, de andar suave, e fala cantada; e Helen, a predilecta de Maria Peregrina.
--Pois vou explicar-vos o Poema, já que desejaes interessar nelle, disse a portuguesa, sentando-se.
Conheceis, de certo, até pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito se tem escripto sobre ella. Não ha noticias claras da sua vida e obras. Pertence, principalmente, á lenda. As suas _Odes_, como cerca de setenta fragmentos reunidos nas _Lyrici graeci_ de Bergk--não são de molde a dar notas seguras acerca do que foi.
Um facto é assente--o valor da sua extrema figura. Qual a reproducção mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho, sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos auctores. Tenho reproducções dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret, Diebolt, Clesinger, etc. Trataram em opera a tragedia de Sapho--Angier (musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A idéa dos seus presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet--aliás inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer nevrotica, dada a volupias e violencias. O que é assente, emfim, é que a critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalização e triumpho pelo amor exotico.
Assim a considero e vou cantá-la.
Para mim, Sapho foi a mulher de genio que acceitou como um facto a homosexualidade grega, o desprezo transitorio pela mulher, e tirou dahi estimulos para a sua campanha de amor, independentemente de preconceitos de sexo--fundando a sua escola para levar á civilização áttica a quota parte que lhe devia a adolescencia feminina, o mundo-feminino, em uma demonstração de vicio e genio que eram parallelos ao genio e vicio que contrastavam as maiores figuras do hellenismo.
Ver do conflicto entre o seu valor e o desprezo pelo sexo, sentir o culto de si propria, historiar e reproduzir a hypercivilização grega e fazer dessa mulher sublime o ponto culminante, a expressão de synthese da sensualidade dum povo que aspirava ao _contrôle_ da civilização do mundo--tal é, meus amigos, a razão do meu Poema, a concepção do livro que tenciono publicar com o titulo--_Nova Sapho_. Porque é uma nova _Sapho_, concluiu, a que espero desvendar.
Os presentes, desde muito industriados no amor lesbico por Peregrina, com leituras tendentes a desculpar-lhes o peor da vida hellenica, tinham preparação bastante a comprehender a tessitura do Livro. Applaudiam-no, sobretudo, pelo arrojo de lançar a publico a idéa dissolvente do amor extravagante.
Todos se mostraram surprêsos, mas cheios de admiração pela creatura invulgar que supremaciava sempre na roda em que estivesse, e que decididamente ia dar que discutir.
--Curiosa faina! dizia Edgar, baixando o olhar...
E todos se deram a commentar a intenção e episodios em que a auctora repartia os cantos, até que vieram as trez horas dissolver aquella inesperada academia, num collegio, a poucas leguas da utilitaria Londres!
A campainha badalára o signal para o banho. Alumnos e alumnas separaram-se em direcção ás respectivas piscinas.
* * * * *
As casas de banho eram distanciadas, nas extremas do recreio. A dos rapazes era um alpendre espaçoso, com dois panos de tijolo, columnas e um coberto escuro de lousa miuda, que dava, de longe, por entre a ramaria, a impressão selvagem dum enorme dorso de crocodilo.
Naquella tarde, segundo o costume, os rapazes correram todos para o alpendre. Em minutos, professor e alumnos tinham despido os fatos. Tudo mergulhou. Só Edgar e Hugh se deixaram ficar junto ao tritão;--Edgar muito triste, distrahido, de busto inclinado, parecendo desembaraçar-se da roupa com desgosto; Hugh muito mirado no corpo do companheiro, já nu, de pé, attento e á espera para mergulharem juntos.
Soberbo quadro o dos rapazes que á beira do lago acamaradavam com o tritão, num grande contraste de belleza!
O Tritão era a força rude, o abraço forte da terra e do mar, meio-peixe e meio-homem, o genio mysterioso, assistindo interessado ao que os dois diziam, num silencio de confidente.
Hugh era a belleza vulgar, a media da belleza adolescente, firme nos traços, duma carnação que era um calendario a marcar-lhe a edade, sem uma nota de imprevisto.
Pelo contrario, Edgar era a excepção:--a belleza áparte, no contornado do seu corpo branco, suavemente tatuado de veias roxo-lirio, sem um traço a mais, uma flaccidez destoante, um descuido de lançamento.
Inclinado, repuxava as pernas, deixando adivinhar as rocas perfeitas de seus musculos, que tão bem lhe jogavam a gentileza do corpo, forte e airoso, flectindo-o numa harmonia suprema de linhas.
--Que formoso és! disse o companheiro.
--De que vale sê-lo, reflectiu Edgar com tristeza. A natureza quando nos engendra devia logo equilibrar a alma com o corpo e eleger com as nossas tendencias a mulher de tendencias equivalentes que tivesse de pertencer-nos.
--Ah! exclamou Hugh, percebo. Estás apaixonado por Maria Peregrina. E querias que a natureza te destinasse em Londres uma companheira de Portugal...
--Não brinques. Sei que me é fatal o amor que tenho por ella.
--Que fazem? inquiriu o professor de natação, por entre os gritos e o espadanar da agua que sahiam daquelle lago.
Subito, os dois rapazes moveram-se como duas estatuas que resolvessem partir; levantaram as mãos em seta e mergulharam na primeira clareira.
A piscina era um lago de carne. Curioso espectaculo! Ephebos de jaspe, remando corpos desenvoltos... Eram os amantes aguerridos do heroe de Carthago; Apollo, Adonis, Ganymedes! Memorias tomando banho...
As piscinas destinadas ás alumnas eram abrigadas por uma casa ampla, repartida em cellas, com mobiliario e objectos ligeiros de _toilette_.
Havia duas tinas quadradas de dez metros e de diversa altura, para receber as alumnas, segundo o adeantamento em natação.
Abastecia-as de agua uma Esphinge de lavrado exotico:--cabeça de escocêsa, peito amplo montado em corpo de leão escanzelado, e tendo á laia de asas pennas ralas de milhafre. Era o monstro de Thebas peorado pelo canteiro inglês, vingando as victimas do Enigma.