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Part 17

Chapter 174,242 wordsPublic domain

Seguiose a Vamba Ervigio. Duas Moedas de ouro tenho deste Rey, huma achada em Evora, outra no termo de Viseu; mas ambas do mesmo modo, de huma parte tem o rosto peyor esculpido, que todos os de seus antepassados com as letras: _I. D n. n. n. Ervigius Rex_; que quer dizer, em nome de Deos, repetindo tres vezes o _N._ como o fez seu antecessor Vamba: e de outra huma Cruz sobre os tres degraòs, letra: _Emerita Pius_. Estas Moedas parece se lavraraõ por algum Concilio, que se fez em Merida com o favor deste Rey; pois em seu tempo se celebraraõ tres em Toledo, ou pelas grandes obras, com que illustrou Merida, pois como refere Morales, elle reparou os muros, e reformou a ponte de maneira, que parecia avella feita de novo, como tudo consta do livro velho, donde estaõ as obras de Santo Eugenio, onde se poem hum epigrama feito em louvor delRey, e de Sala Governador, e Capitaõ General, que era de Merida. O Arcebispo D. Antonio Agostinho[201] traz tambem huma Moeda deste Rey, quasi com as mesmas letras das nossas, que saõ: _V. i. N. N. n. Ervigius Rex_: que elle le: _In Dei nomine Ervigius Rex_. Em nome de Deos ElRey Ervigio. Morales tambem teve deste Rey duas Moedas diversas, como se ve destas palavras: _Su verdadero nombre es Evigi_, _y no_ Ervicio, _ni_ Eringio, _como en muchos libros corruptamente se lee; porque y o he visto Monedas de oro suyas en que de ambas partes está su rostro, y de la una dize_: Ervigius Rex; _y de la otra_: Toleto Pius, _Religioso en Toledo, por los Concilios, que en aquella Ciudad hizo celebrar._

_Otra Moneda de oro he visto[202] deste Rey con su rostro, y nombres de una parte, y de la otra la Cruz con las letras:_ Narbona Pius, _y conjectura muy bien el Maestro Alvar Gomez, cuya es esta Moneda, que se pudo poner este titulo por aver relebado aquella Ciudad de algunos nuevos tributos, que ElRey Uvamba por la rebelion le avia puesto._

§. XVIII.

_Egica._

Foy successor de Ervigio seu genro Egica. Em Evora se acharaõ duas Moedas de ouro deste Rey, que eu tenho; em huma està o seu rosto muito mal esculpido com Capacete na cabeça, e huma Cruz na maõ, e letras: _E. N. M. N. Egica Rex:_ e da outra a Cruz sobre tres degràos, e letra: _Elbora Pius_, nesta fórma.

[Illustração]

Naõ consta da historia deste Rey, por onde merecesse taõ excellente titulo, como o de Pio em Evora; senaõ he, que na rebeliaõ, que contra elle moveo Sisberto Arcebispo de Toledo, quando ElRey o venceo, poderia ser que fosse nesta Provincia da Lusitania; e que em Evora se fizesse justiça dos culpados. Tambem consta, que no segundo Concilio de Toledo, que se celebrou em tempo deste Rey, que foy 16. pedio que se mandasse recopilar o livro do Fuero juzgo, e se reduzio à forma, em que agora o vemos, como o sente Morales l. 12. cap. 16. e poderia ser fazer-se esta recopilaçaõ em Evora: e como por estas leys se havia de governar a justiça, lhe dariaõ o titulo de Pio em Evora, que he mais notavel; porq́ tem de huma parte huma Cruz, que divide de alto abaixo a Moeda, e aparta dous rostos muito mal esculpidos; e as letras dizem: _I. D. N. N. I. Egica Rex_. Em nome de Deos Egica Rey; e da outra està huma Cruz nesta forma:

M E+A R

e à roda: _I. D. E. N. N. Vvitiza Rex_; que quer dizer, ElRey Vvitiza; e as letras da Cruz estaõ quasi em cifra, e dizem: _Emerita_, começãdo pelo E do braço direito, e logo o M. que està em cima, e o R. debaixo, e o Ta do braço esquerdo. Esta Moeda mandou lavrar Egica, quando deu titulo de Rey a seu filho mayor Vvittiza, e por isto se poseraõ os rostos, e nomes de ambos na mesma Moeda; o nome de Merida se poz ahi por ser o lugar, segundo parece, em que a Moeda se bateo.

O Mestre Ambrosio de Morales[203] traz tambem huma Moeda deste Rey com as palavras seguintes. _Yo he visto moneda de oro suya, que de una parte tiene su rostro con gran barba, e tiene estas letras al derredor._ I. D. N. N. Egica Rex: _El nombre verdadero està manifiesto; las otras letras del principio pueden dizir:_ In Dei nomine noster Egica Rex; _continuandose en la seguientes, diran todas: En nombre de Dios nuestro Rey Egica._

_Conforme a esto aquella moneda de Egica, que ya he dicho, tiene de la otra parte cierta manera de Cruz en medio y dize la letra al derredor:_ Vvittiza Rex. _Por onde se dà a entender que la moneda se batio en tiempo, que ya padre, y fiijos reinavan ambos._

§. XIX.

_Vvittiza._

De Egica foy filho, e successor Vvittiza. Outra moeda traz Morales[204] delRey Vvittiza jà depois de governar só, por morte de seu pay, de que diz estas palavras: _Su verdadero nombre es el que aqui le ponemos, como en aquella moneda de su padre parece, porque tiene tambien en el reverso otro rostro, y dizen las letras:_ Vvittiza Rex. _El Author, que escrevio la Chronica de Toledo affirma aver visto moneda de oro deste Rey con letras, que en la parte donde estava su rostro, dizian_ Vvitigius Rex; _y en reverso:_ Toleto Pius; _y este nombre el mismo es, que_ Vvitiza; _sino que el primero esta conformado en la lengua latina, a la imitacion de un Rey de los Osthrogodos en Italia, que se nombrò; y estotro està mas accommodado a la pronunciacion de nuestros Vizigodos de Hespaña, conforme a su lenguage._ O Arcebispo D. Antonio Agostinho traz huma moeda deste Rey no seu Dialogo 8. com esta letra: _In D. N. M: Vvittiza Rex:_ In Dei nomine Vvittiza Rex.

§. XX.

_D. Rodrigo._

DelRey D.Rodrigo successor de Vvittiza, e ultimo Rey dos Godos, diz o Mestre Ambrosio de Morales[205] as palavras seguintes: _Su verdadero nombre es Roderico, como manifiestamente parece en una moneda de oro suya, que yo he visto, tiene de la una parte su rostro harto differente de los que las otras moenedas destos Reyes parece. Tiene manera de estar armado, y salen por cima la celada unas puntas como cuernos pequeños, y derechos por ambos lados, que lo hazen estraño, y espantable: las letras dizen al derredor_: In Dei nomine Rodericus Rex; _y el_ In Dei nomine _està en cifra travadas las letras: el reverso tiene en medio una Cruz sobre tres grados, las letras del redondo por de fuera son estas:_ Egitania Pius: _dizen en nuestro romance:_ Religioso en Egitania. _Esta era, la Provincia de Igeditania en Portugal, de que algunas vezes avemos dicho; y estava ya corrompido su nombre, mas no se tiene noticia de cosa notable, que este Rey alli hiziesse, por donde, se le posiesse en la moneda el tal titulo._

Saõ estas Moedas, de que Morales, e o Arcebispo D. Antonio Agostinho fazem mençaõ 23. e as que se acharaõ em Evora, e estaõ na minha livraria, passaõ de trinta. De maneira que só em Evora se acharaõ tantas quasi como em todo o resto de Espanha; por onde parece, que Evora floreceo em tempo dos Godos mais, que nenhuma outra Cidade, segundo mostraõ estes vestigios, e sinaes de sua grandeza; ao que tambem favorece ver, que as Moedas, que trazem estes dous Authores, as mais pertencem a Lusitania, de quem era cabeça Merida; porque das 26. Moedas, que extaõ do tempo dos Godos, como se vè das memorias aqui escritas, saõ de Merida desenove; e de Evora quatro; de Elvas huma; de Braga duas; da Idanha duas; de Eminio, que era junto a Aveiro, huma. Por onde somaõ as tocantes a Portugal, 29. e para o resto de Espanha, 26. a saber oito, que pertencem a Toledo; a Sevilha nove; duas a Tarragona; tres a Cordova, huma a Tucci; tres a Granada; porque a de Narbona toca a França; a fóra as 6. que naõ tem lugares proprios; e assim consta, que Merida cabeça da Lusitania tem mais que todas. Pelo que se pòde entender, que os Godos desde Lusitania senhoreavaõ Castella, e que nesta Provincia assistia a sua grandeza, e mayor frequencia. Donde com razão se pòde dizer do tempo dos Godos o que jà disse Ausonio[206] no dos Romanos, que a Merida se sogeitava toda Espanha.

_Emerita, æquoreus, quam præter labitur Annas, Submittit cui tota suos Hispania fasces._

§. XXI.

_Moedas Arabigas_.

Começou o Senhorio dos Arabes em Espanha no anno de 714. com a grande victoria, que Tarif, e Muça alcançaraõ de D. Rodrigo, ultimo Rey dos Godos; porèm como acharaõ Espanha toda debaixo do governo de hum Principe, vencido este, ficavaõ todas as Provincias rendidas, e os Arabes Senhores de todas ellas; o que naõ acontecera se Espanha tivera mais Reys naquelle tempo, como se vio depois nas entradas, que fizeraõ os Almoravides, Almoades, e Benemerines, que passando a Espanha com muito mayor poder, do que foy o de Tarif, e alcançando alguns delles dos Christãos grandes vitorias, nem por isso senhorearaõ a Provincia, por estar possuida por mais de hum Principe. Pelo que introduzindo os Mouros, que com Tarif vieraõ, e os que se lhe seguiraõ em Espanha, suas leys, e costumes, as Moedas, que corriaõ, eraõ todas suas; destas hà inda hoje grandissima quantidade em Portugal, e eu tenho muitas, que principalmente se acharaõ no territorio de Evora, e Beja; muitas dellas de ouro, as mayores da grandeza de hum Real de prata, e de pezo de 500. atè 600. reis; que teriaõ ametade deste valor, e outras de grandeza de pequenos vintens. Os nomes destas Moedas naõ podemos saber; em nenhuma dellas hà figura alguma, por lhe ser prohibida em sua Seita, senaõ letras de ambas as partes, de huma poem o nome de Deos com os seus attributos de Grande, Bom, Omnipotente, &c. da outra o nome do Principe, que a manda bater com o de seu pay, e Avò, e outros ascendentes, como he costume dos Arabes, que tem isto por a clareza de suas ascendencias. Das Moedas de prata tenho tambem muitas, as mayores como tostoens; mas tam delgadas, que tem só de pezo meyo tostaõ, outras menores, e algumas taõ pequenas, como meyos vintens, todas tem o mesmo modo de letreiros, porèm algumas de muy perfeita esculptura, que deviaõ de ser do tempo dos Reys de Cordova, que floreceraõ em muita grandeza, e policia. As de cobre naõ excedem o tamanho das de prata, ainda que saõ muito grossas, mas tambem as hà meudas, e muito pequenas de peso dos nossos seitiis.

Esta he a noticia, que posso dar destas Moedas, das quaes naõ se pode saber, se alguma toca a Portugal, posto que como se achaõ na mesma terra, parece que devem de ser dos Reys Arabes, que então a senhoreavaõ.

Que nome tivessem estas Moedas, naõ pude alcançar em particular, mas em commum, as que se achaõ nas nossas Chronicas, saõ tres generos de Moedas de ouro, humas chamadas Dobras Mouriscas, outras Dobras Validias, outras Maravidis de ouro.

As Dobras Mouriscas tinhaõ a valia da Dobra Cruzada,[207] que da nossa Moeda faz agora 270. reis, posto que no peso passaria de 600. se agora se achasse, como entendo que o he huma de ouro, que tenho entre outras, que se acharaõ modernamente em Beringel.

Dobras Validias eraõ Moeda de Berberia, que se batia em Tunes de 23. quilates, e terço de peso, e diz a Ordenaçaõ velha, que valia doze Reaes brancos dos primeiros, pelo que vinha a montar da nossa Moeda 216. e destas Dobras se faz particular mençaõ na historia do primeiro Capitaõ de Ceita[208] onde se falla tambem de outras Dobras Mouriscas, com estas palavras: _Dobras Validias era Moeda Mourisca, e communalmente esta era a Moeda de ouro, que se mais corria com estes Reynos, e isto era quasi em todo los tempos dos Reys passados. Sempre os Mouros dalem mar trataraõ nestes Reynos de mercadoria, comprando pela mayor parte todolos annos a fruita do Algarve, e que naõ pagavaõ, senaõ em ouro; e a mayor parte daquellas Dobras saõ feitas em Tunes, e eraõ 23. quilates, e terço de pezo. E outras Dobras traziaõ aquelles Infieis, a saber Dobras de Prazida; e de Sagilmensa, e de Marrocos, de que este Reyno foy assaz fornido, especialmente os thesouros dos Reys, como no começo dos feitos deste Rey fica contado, &c_.

Maravidi he Moeda, que os Mouros introduziraõ em Espanha,[209] cujos Authores dizem, que foraõ os Almoravides, que cà vieraõ, de maneira, que antes observa o Mestre Ambrosio de Morales, que senaõ acha mençaõ desta Moeda, nem da conta dos Maravidis nas memorias de Castella, e pelo contrario de entaõ para cà foy taõ ordinaria em Castella a conta dos Maravidis, que por elles se faziaõ todas as computaçoens dos preços das cousas, e das Moedas, o que ainda hoje permanece; porque para significar a valia do Real de prata, dizem que tem 36. Maravidis, e o dobraõ de ouro 960. Maravidis; computando o Maravidi pela valia do nosso Real de cobre; porèm cà em Portugal ainda que se usou desta Moeda, parece que naõ foy mais que a de ouro, 60. das quaes faziaõ hum marco. Pelo que segundo o preço, vinhaõ a montar hoje 500. reis; com tudo este nome de Maravidi se veyo estender tambem às Moedas de ouro Portuguesas; de maneira, que se diz na Chronica delRey D. Sancho I. que deixou a seu filho ElRey D. Afonso 10U000. Maravidis de ouro.

Isto que està dito dos Reys Mouros, que senhorearaõ Portugal, se entende principalmente atè o tempo delRey D. Fernando o I. de Leaõ, por quanto este Rey tomou Coimbra, e Santarem, e deixou a seu filho ElRey D. Garcia quasi toda a terra, que pertencia a Portugal atè o Tejo; e poucos annos depois seguindose-lhe ElRey D. Afonso Henriques com a tomada de Lisboa, Evora, e Vitoria do Campo de Ourique, e de outros lugares de Alentejo, ficou ElRey quasi Senhor de todo o Reyno; e assim elle, como seus descendentes, foraõ os que mandaraõ bater Moedas com seus nomes, e insignias, como se hirà vendo de cada hum em particular.

§. XXII.

_Moedas dos Reys Portugueses._

A primeira casa de Moeda, que houve em Portugal, foy no Porto, onde os primeiros Reys deste Reyno fizeraõ bater Moeda, mandando vir Officiaes Estrangeiros, porque os naõ havia no Reyno, e por isto lhes concederaõ tantos privilegios, como ainda hoje tem. Havia tambem casa de bater Moeda em Valença, e em Lisboa, como tudo se ve do cap. 57. da Chronica delRey D. Fernando; e tambem a houve em Evora, como se diz na 2. p. da Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 5.

Em razaõ de estar a Casa da Moeda no Porto, se vem hoje os Seitis, e boa parte das Moedas antigas com humas Torres por divisa, e hum Rio por baixo, que saõ as Armas daquella Cidade; depois passando a Corte dos Reys para Coimbra, faz mençaõ muitas vezes o Conde D. Pedro, e particularmente no t. 36. §. 3. dos Moedeiros de Coimbra; por onde parece, que tambem alli os havia. Ultimamente se poz esta Casa em Lisboa, onde ao presente està; consta esta Casa, e se governa por huma mesa, de que he presidente o Thesoureiro da Moeda, e assistem nella mais dous Juizes da balança, e dous Escrivaens da receita, e despeza; os outros cargos provè todos o Thesoureiro, que saõ Fundidor, Affinador, Ensayador, outo Contadores, outo Branquidores, seis Fornaceiros antigos, e trinta modernos, que acrescentou ElRey D. Joaõ III. dezaseis Cunhadores, dous Porteiros, hum da Casa do Thesouro, outro da porta. He esta Casa sogeita ao Tribunal da Fazenda, e o Veèdor da Fazenda da repartiçaõ da India he o que particularmente preside nesta Mesa quando là vay.

Isto he o que se pòde colher do principio das Moedas, que bateraõ os Reys deste Reyno; ainda que naõ consta, se ElRey D. Afonso Henriques bateo Moeda, nem os nomes particulares dellas; só consta que todas as computaçoens que se faziaõ, eraõ por livras; e que deste nome ouve Moedas de prata, e de cobre, atè a de menor valia; porque assim como agora nòs fazemos as contas por reais, assim se faziaõ naquelles tempos por livras; mas como desde ElRey D. Afonso Henriques, atè ElRey D. Afonso IV. naõ se pòde averiguar, quaes foraõ os Reys, que bateraõ estas livras, deixaremos assim as mesmas livras, como as outras Moedas, que dellas procedem, para o ultimo titulo deste Discurso, por continuarmos com as Moedas, que os Reys fizeraõ atègora conhecidamente.

§. XXIII.

_Dobras delRey D. Sancho I._

A Moeda mais antiga, que se acha neste Reyno, he huma de ouro do tamanho de dous vinteis, e de peso, que 60. delles faziaõ hum marco, que vem a ser 500. reis da nossa Moeda, de huma parte tinhaõ esculpido ElRey D. Sancho a cavallo armado, e da outra as Armas de Portugal, na fórma que apontamos no Discurso da Nobreza. Destas Moedas tenho eu huma, e della se faz mençaõ na[210] 3. p. da Monarquia Lusitana, a qual he a seguinte.

[Illustração]

Outra semelhante anda esculpida nos discursos varios do Conego Gaspar Estaço;[25.] e àlem destas vi jà outras duas semelhantes, estas parece que eraõ as nossas Dobras antigas, atè o tempo delRey D. Pedro, porque naõ se achaõ outras Moedas daquelles Reys.

§. XXIV.

_Moedas delRey D. Afonso IV._

Segundo parece do cap. 56. da Chronica delRey D. Fernando, naõ ouve mudança na Moeda deste Reyno, atè o tempo delRey D. Afonso IV. o qual com consentimento do Clero, e povo, fez os Dinheiros Alfonsis, mandando valessem doze dos outros, no que ganhou muito; porque vinha a fazer em cada marco de ganho quatro livras, e quatro soldos; e estas livras saõ as que parece temos agora com nome delRey D. Afonso humas batidas em Lisboa, porque tem hum L. ao pè do nome delRey, e outras lavradas no Porto; porque tem hum P. em lugar de L. Destas Moedas tenho muitas, e para exemplo fiz aqui esculpir huma.

[Illustração]

O peso, que hoje tem esta Moeda de prata pela valia presente, he 40. reis; e esta he a mais antiga Moeda de prata dos nossos Reys, que tenho visto.

§. XXV.

_Moedas delRey D. Pedro._

No cap. 11. da historia delRey D. Pedro se diz, que este Rey mandou fazer Dobras de ouro fino, que 50. dellas faziaõ hum marco, e cada Dobra destas tinha quatro livras, e dous soldos. Este marco era de ouro, e valia entaõ 7380. porque tanto vem a montar as 50. Dobras, que diz o Chronista faziaõ hum marco, contando a 82. soldos cada Dobra, que tanto saõ as quatro livras, e dous soldos, que valia cada Dobra, contando a 20. soldos cada livra.[211] E assim se tomarmos estas Dobras conforme o que entaõ valia o marco de ouro, eraõ agora da nossa moeda 147. reis, e tres quintos de Real; porque valia cada dobra 82. soldos dos primeiros, os quaes a dez seitijs, e quatro quintos de seitil cada hum, vem a fazer os ditos 147. reis, e tres quintos de real, porèm se fizermos a conta conforme a valia do marco de ouro, que saõ 30U000. reis, tinha cada huma destas Dobras 600. reis de peso; pois 50. dellas pesavaõ hum marco, e tanto pesaõ as Dobras daquelle tempo, que ainda hoje se conservaõ, de que eu tenho huma.

Fez o mesmo Rey D. Pedro outra moeda, que chamou meyas Dobras, e tinha 41. soldos, que conforme à computaçaõ acima dita, valiaõ 73. e meyo, e tres decimos de real, das quaes meyas Dobras 100. faziaõ hum marco de ouro, assim teraõ hoje de peso 300. reis.

No mesmo cap. II. se diz, que lavrou este Rey huma moeda de prata, a que chamavaõ Torneses, que 65. faziaõ hum marco de liga, e peso dos reaes delRey D. Pedro de Castella.

Outros Torneses fez mais pequenos, que entravaõ num marco 130. e de huma banda tinhaõ as Quinas, e da outra o rosto delRey com Coroa; e as letras de huma parte diziaõ: _Petrus Rex Portugalie, & Algarbi_: e da outra: _Deus adjuva me_; que eraõ os mesmos cunhos, e letras, que tinha nas suas Dobras. Valia o Tornès grande sete soldos, e o pequeno tres soldos, e meyo. Este nome de Torneses parece que deu ElRey D. Pedro a estas moedas à semelhança de huma moeda Francesa, que entaõ corria por toda Europa, e se lavrava em Tours, Cidade de França, e por isso se chamavaõ soldos Turonenses.

Outra moeda mandou bater ElRey D. Pedro, que chamavaõ Dinheiros Alfonsis de liga, e eraõ do valor, que fizera ElRey D. Afonso seu Pay.

§. XXVI.

_Dos Gentis, Barbudas, Graves, Pilartes, e Fortes delRey D. Fernando._

ElRey D. Fernando fez huma moeda, que chamou Gentil,[212] que mandou valesse quatro livras, e meya, e depois outra que valia tres, e meya, e depois outros Gentis, que valiaõ tres livras, e cinco soldos. Pelo que contando as livras a 36. reis; porque eraõ das antigas, valiaõ os primeiros Gentis 162. reis, e os segundos 144. reis, e os terceiros 126. reis, e os quartos 116. reis; e isto porèm a respeito do pouco que valia entaõ o marco de prata.

Quando ElRey D. Fernando fez a guerra a Castella serviraõ a ElRey D. Henrique o Nobre muitos Soldados Franceses, que vinhaõ armados de celadas, a que elles chamavaõ _Barbudas_; e traziaõ lanças com pendoens, que chamavaõ _Graves_; e traziaõ consigo Pagens para as celadas, a que chamavaõ _Pilares_; e querendo ElRey D. Fernando deixar memoria desta sua empreza, poz estes nomes, e insignias nas moedas, que mandou lavrar de novo[213]

A Barbuda era moeda do tamanho de quatro vintens, ainda que mais delgada; de huma parte tem huma celada com huma Coroa em cima, e o peito de malha, e à roda este letreiro: _Si Dominus mihi adjutor, non timebo_; e da outra parte huma Cruz das da Ordem de Christo, que toma todo o vaõ; nos quatro cantos da Cruz quatro Castellos, e no meyo da Cruz hum escudinho com as Quinas, e a letra: _Fernandus Rex Portugaliæ_; como se vè em algumas destas moedas, que tenho em meu poder.

[Illustração]

Era a Barbuda moeda de prata muito ligada de ley de tres Dinheiros, e ElRey lhe poz preço de 20. soldos, que eraõ huma livra de 36. reis dos nossos.

Dos Graves 120. faziaõ hum marco, e valiaõ 15. soldos, que vem a ser 21. real dos nossos, e tinhaõ por divisa huma lança sobre os cunhos. Os Pilares eraõ tambem de prata de ley de dous Dinheiros, e valiaõ cinco soldos, que saõ da nossa moeda 13 reis, e dous seitijs.

Fez ElRey D. Fernando outra moeda, que chamou Fortes, que valiaõ 20. soldos, que saõ 29. reis, e dous seitijs, e meyos Fortes, que valiaõ 14. reis, e meyo, e hum seitil: assim mesmo mandou bater outros Torneses, a que chamaraõ Petites, palavra Francesa, que significa pequeno; donde se vè, que de França tomaraõ o nome, como tudo consta do cap. 56. da Chronica do mesmo Rey. E assim lavrou outras moedas antigas, das quaes se conservaraõ algumas, que eu tenho jà referidas com valores sobidos; e queixando-se os povos do grande preço, que estas moedas tinhaõ, e do pouco que pesavaõ, lhe abateo a valia a mais accommodados preços, como se diz no cap. 57. da mesma Chronica, convem a saber, que os Graves de 15. soldos dos Dinheiros Alfonsis, naõ valessem mais de 7. e a Barbuda de 20. soldos valesse 14. e os Pilares de 5. valessem tres, e meyo, e os Reaes de prata de 10. soldos valessem 8. E porque ainda estes preços eraõ grandes, tornou ElRey a fazer outra baixa, e mandou que a Barbuda, que jà estava em 14. soldos, valesse só dous, e 4. Dinheiros, que vem a ser quatro reis dos nossos, e o Grave 14. Dinheiros, que saõ dous, e dous seitijs; e o Pilarte 7. que he hum real, e hum seitil, e os Fortes 10. soldos, que saõ 16. reis, e 4. seitijs, e os Dinheiros, que de novo lavrara, que valessem como Mealhas.

§. XXVII

_Das moedas delRey D. Joaõ o I._

ElRey D. Joaõ I. sendo Defensor do Reyno, como se vè no cap. 49. e 50, da I. p. de sua Chronica, mandou lavrar Reaes de prata de ley de 9. Dinheiros, que 72. delles faziaõ hum marco; e depois mandou lavrar outros de ley de 6. Dinheiros, e depois outros de 5. ficando sempre na mesma valia, e ganhando o mais. E com tudo isso o povo, pelo amor, que tinha a ElRey respeitou tanto esta moeda, ainda que cheya de tanta liga, que diz o Chronista, que muitos traziaõ depois estes Reaes de prata ao pescoço, como cousa santa, affirmando que lhe valia contra as enfirmidades.

Depois mandou o mesmo Rey, sendo ainda Defensor, lavrar Reaes de ley de hum Dinheiro, que valia cada hum dez soldos, e depois destes mandou fazer outros Reaes de tres livras, e meya, e de dez Dinheiros, e meyo, e o mesmo se vè do cap. 5. da 2. p. de sua Chronica.

Quando depois ElRey quiz tomar Ceita, mandou lavrar os primeiros Reaes brancos, que cada hum delles valia dez Reaes de tres livras, e meya, e eraõ de ley de dez Dinheiros, e 62. faziaõ hum marco.

Depois que veyo de tomar Ceita, dizem alguns mandou lavrar os seitijs, a quem deu este nome, em memoria do nome de Ceita, que entaõ conquistàra, ainda que outros dizem, que por valerem a sexta parte do Real, se chamaraõ seitijs, e corruptamente seitijs.

§. XXVIII.

_Moedas delRey D. Duarte_.