Part 15
Este nome _Senhor_, se derivou do latino: _Senior_, que quer dizer o mais velho; e confórme a Scipiaõ Amirato[176] se começou a usar deste termo, pelo de _Dominus_, depois da entrada dos Longobardos em Italia; porque era ley entre elles, que tendo o Senhor de hum lugar muitos filhos, se repartisse por todos a fazenda; porém o governador do lugar ficasse sempre com o mais velho; pelo que lhe chamavaõ vulgarmente: _Senior illius loci_; que he o mesmo, que o mais velho do lugar; ao que ajuda o que diz sobre esta palavra: _Senior_, Santo Agostinho Epist. 174. Este mesmo costume guardavaõ, segundo parece, as mais das naçoens do Norte; porque todas ellas os tiveraõ quasi semelhantes, e por elles se governaraõ muitos em lugar de leys. Pelo que assim o deviaõ fazer os Godos em Espanha, e se prova claramente da historia de Joaõ Abbade de Valclara, e Bispo de Girona nosso Portuguez; qual chama a Aspidio Senhor dos montes Agarenses, _Senior loci_, que quer dizer: Senhor do lugar. E nos Concilios de Espanha aos que humas vezes chamavaõ: _Proceres, & Optimates_; igualmente os diziaõ outras vezes: _Seniores_; e em todas as Escrituras dos Reys de Navarra de 500. annos atraz se dà o nome de Senior, ao Senhor de qualquer lugar; e se usava nas Escrituras igualmente pelo de _Dominator_; como mostra largamente Morales,[177] e Escholano,[178] e o Padre Fr. Antonio de Yepes[179] na Confirmaçaõ da entrega do Mosteiro de S. Torcato, diz que confirma entre outros; Diogo Alvares, nesta fórma: _Senior Diogo Alvres_. O mesmo consta de França, e Italia, segundo Gregorio Turonense, e Scipiaõ Amirato.[180] Pelo que desta ley dos Longobardos, e Godos parece teve origem o antigo costume de Espanha de chamarem sempre aos irmaõs mais velhos, assim Reys, como Titulos: Senhores; e isto com tanta particularidade, que se prohibio por ley, que ninguem podesse chamar meu Senhor ao Rey, senaõ às pessoas Reaes, atè o quarto grào, e Duques do Reyno; posto que darem os mesmos Titulos os Fidalgos, e Nobres aos pays foy ordinario em tempo de nossos Avòs, e aos Avòs tambem por isso diziaõ: _Donos_, os antigos, que era o mesmo que Dominios, e Senhores; com tudo o nome de Senhor de terras se veyo a usar tanto, que os que as possuiraõ com jurisdicçaõ, deixaraõ por elle o nome de Vassallos; e principalmente des do tempo delRey D. Afonso V. para cà, chamando-os ElRey em suas Provisoens, e Alvaràs: Senhores dos taes lugares, e tem assento nas Cortes depois dos Fidalgos do Conselho.
§. XXVIII.
_Da dignidade da Cavalleria._
Concluamos esta materia das dignidades da Nobreza com a da Cavallaria, a qual foy antigamente taõ estimada, que até os mayores Principes de Europa procuravaõ com grande cuidado recebella, entendendo que ficavaõ com ella mais acrescentados com reputaçaõ, e authoridade, assim lemos,[181] que a Espanha vieraõ Conrado Duque de Suecia filho do Emperador Federico I. e D. Raimon de Flacada Conde de Tolosa a se armar Cavalleiros da maõ delRey D. Afonso XI. de Castella, e Eduardo Principe de Inglaterra, da delRey D. Afonso Sabio; e do mesmo modo, só para este effeito vieraõ a Portugal outros Grandes Senhores em varios tempos. Porém os que nesta parte a meu parecer alcançaraõ mòr gloria, foraõ os nossos Infantes filhos delRey D. Joaõ I. porque só com este intento emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceita; e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe, a de Arzilla. Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas, quando alguma Personagem sobia a novo Titulo, como o fez[182] ElRey D. Pedro, quando creou Conde de Barcellos D. Afonso Tello, seu grande privado, para o qual acto mandou fazer cinco mil cirios, que outros tantos homens tinhaõ na maõ toda a noite, que o Conde velou as armas em S. Domingos de Lisboa, estando postos em procissaõ, des do Convento até os Paços de Alcaçova. ElRey D. Afonso V. armou[183] a seu irmaõ o Infante D. Fernando Cavalleiro com tanta solennidade, que quasi o menor apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil tochas, quatrocentas levavaõ Cavalleiros, e as seiscentas Escudeiros dos mais luzidos da Corte, todos vestidos de hum trage, e librè.
Para padrinhos se buscavaõ Cavalleiros de grande nome, e linhagem, como alèm de outros, parece do Conde D. Pedro, que conta ordinariamente destes antigos Senhores, quaes Fidalgos armaraõ para Cavalleiros. Os mais dos Reys antigos de Castella costumavaõ armar-se Cavalleiros a si mesmos, antes de se coroarem: e do nosso D. Afonso Henriques diz a historia dos Godos,[184] que elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando as armas do Altar: _Infans inclytus Dominus Alphonsus Comitis Henrici, & Regina D. Tarasiæ filius D. Alphonsi nepos habens ætatis años fere quatuordecim apud sedem Zamorensem ab Altari Santi Salvatoris ipse sibi manu propria sumpsit militaria arma ab Altari; & ibidem in Altari indutus est, & accintus militaribus armis, sicut moris est Regibus facere in die Santo Pentecostes._
As ceremonias, que neste Reyno se usavaõ neste acto, confórme ao Regimento da guerra delRey D. Afonso V. eraõ, que o Cavalleiro novèl vigiava em huma Igreja des do meyo dia de antes, rezando, e encõmendando-se a Deos, que aceitasse aquelle acto para seu serviço. Vinda a manhãa, e acabada a vigia, se vestia ricamente, e ouvia na mesma Igreja Missa cantada muy solenne, depois da qual posto de joelhos diante do padrinho, era perguntado, se queria receber aquella honra? E dito que sim, lhe fazia huma pratica explicando-lhe as novas obrigaçoens, em que entrava; e como em todas as acçoens de armas devia favorecer, e ajudar a justiça. Acabada a pratica, lhe calçavaõ as espòras dous Cavalleiros, e outro lhe cingia a Espada, em que se significava o antigo baltheo, insignia propria dos Soldados; da cinta lhe arrancava o Padrinho a espada, e dando-lhe com ella tres vezes por cima do Capacete dizia, o armava Cavalleiro, em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo. Feito isto, o abraçava o Padrinho, e lhe dava paz, e elle fazia o mesmo a todos os outros Cavalleiros, que alli se achavaõ. Estas ceremonias se usaõ ainda hoje com os que saõ admittidos nas Ordens Militares; porque lhes naõ lançaõ o habito sem primeiro serem armados Cavalleiros, por outros Cavalleiros da mesma Religiaõ Militar. Era costume deste acto naõ ser o Cavalleiro menor de 14. annos, e de essencia ter jà sido armado Cavalleiro o Padrinho, como se julgou no Caso delRey D. Fernando,[185] quando estando no campo de Caya para dar batalha a ElRey D. Joaõ I. de Castella, armou muitos Fidalgos Cavalleiros; porèm averiguando-se pelos que alli estavaõ, que por elle naõ ser Cavalleiro, ainda que Rey fosse, os naõ podia armar, e posto que elle se devia armar a si mesmo, parece que por dar esta honra ao Conde de Cambriz, lhe pedio que o armasse, e entaõ tornou a fazer de novo os mesmos Cavalleiros, que jà tinha armados com outros mais.
Começou esta dignidade da Cavallaria a ser neste Reyno mais ordinaria depois da tomada de Ceita, e Alcacere, como diz Gomes Eannes de Azurara,[186] porque atè entaõ como o Reyno estava sem conquistas, naõ havia occasiaõ, senaõ rara, de alcançar semelhante honra, e os que hiaõ fóra do Reyno a buscalla, eraõ poucos; porèm de entaõ para cà com as occasioens da guerra, assim de Africa, como de Asia, saõ tantos os que recebem a Cavallaria da maõ dos Governadores, e Capitaens daquellas partes, e Estados, que os nossos Reys lhes poseraõ limite no 2. l. das Ordenaçoens t. 60. mandando, que os privilegios da Nobreza concedidos a estes Cavalleiros lhes naõ valessem, sem primeiro serem confirmados pela Pessoa Real, de maneira que podemos dizer, que neste Reyno fica sendo a Cavallaria nos inferiores o primeiro gráo da Nobreza, e nos Principes, o ultimo accrescentamento della.
Estas ceremonias da Cavallaria naõ se usaraõ entre os Gregos, e Latinos, senaõ depois, que as Naçoens do Norte se senhorearaõ das Provincias do Imperio. Pelo que parece, que dellas teve principio, por ser costume seu, como se ve de Cornelio Tacito, ninguem poder trazer armas, sem primeiro ser approvado pelo Magistrado; e para isso era ceremonia juntarem se os principaes do povo, e o pay, ou parente mais chegado, ou mais nobre, e dar ao moço o Escudo, ou Espada, e armallo com ella, e que esta era a primeira honra, que os mancebos recebiaõ, tendo se até entaõ por parte da Casa de seu pay, e dalli por diante por membros da Republica. As palavras de Tacito[187] saõ estas: _Arma sumere non antecuiquam moris, quam civitas sussecturum probaverit. Tum in ipso Concilio Principum aliquis, vel pater, vel propinquus, scuto, frameaque juvenem ornaret, hæc apud illos, hic primus juventæ bonos, ante hoc domûs pars videntur, mox Reipublicæ_.
NOTAS DE RODAPÉ:
[91] _Scipiaõ Amirato no principio das familias de Nap._
[92] _O Doutor Ant. Fran. no tratado da Nobreza._
[93] _Rezende Chronica. de D. Joaõ II. Cap. 87._
[94] _Virg. lib. 9._
[95] _Satyr. 5._
[96] _Virg. l. 7._
[97] _l. 2. c. 18._
[98] _Claud. de Bello Gildon._
[99] _Pancirol. in notit. utriusque Imper. 2. c. 20._
[100] _Tacito Annal. l. 2._
[101] _Tacit. de Mor. Ger._
[102] _Scipiaõ Amirato Familias de Nap. t. delle Ensegni._
[103] _Morales l. 13. c. 5._
[104] _D. Ant. Agost. Dial. 3. das moed. sub Capadoc._
[105] _Yepes tom. 7. anno 1117. c. 5._
[106] _Argote Nobleza de Andal. l. 1. c. 48._
[107] _Conde D. Ped. t. 21._
[108] _Argote ubi sup._
[109] _Hist. dos Condes de Barcel. de Fr. Franc. Diogo l. 2. c. 7._
[110] _Chron. delRey D. Af. 2. c. 7._
[111] _Argot. l. I. c. 7._
[112] _D. Mauro Ferrer. l. 2. c. 2. & l. 3. c. 11._
[113] _Boter. Rel. un. p. 3. l. 2._
[114] _Fr. Marc. de Guadalajara c. 12._
[115] _Argote l. 1. c. 44. e 74._
[116] _Hist. Benedictina. de Port. Trat. 1. c. 8. p. 2._
[117] _Argòte no lugar citado._
[118] _O mesmo Nobil. de Andal. l. 1. c. 103._
[119] _Hist. de Avil. p. 4. §. 1._
[120] _Hist. de França._
[121] _Pier. Hierogl. l. 55. de lilio._
[122] _Hierem. 12._
[123] _Conde D. Ped. t. 22. delRey Ramiro._
[124] _Chro. de D. Joaõ II. de Duarte Nun._
[125] _Decad. 1. de Barros l. 2. c. 2._
[126] _Dec. 1. de Barr. l. 4. c. 11._
[127] _Chron. delRey D. Manoel p. 4. c. 58._
[128] _Dec. 1. de Barros l. 4. c. 11._
[129] _Hist. da India de Castanh. l. 5. c. 59. c. 60._
[130] _O mesmo Brazaõ. O Brazaõ._
[131] _Plutarc. Vit. Marij._
[132] _Alexander. ab Alex. l. 1. c. 20_
[133] _Regimento dos Officiaes da Armaria._
[134] _1. p. c. 163._
[135] _Blond. Roman, triumph. l. 4._
[136] _Thes. de la lang. Cast._
[137] _Piazza univers. discur. 77._
[138] _Excel. de la Monar. de Hesp. cap. 4._
[139] _Republ. 2. p. l.4. c. 16._
[140] _Conde. D. P. t. 75._
[141] _Garibay p. 1. l. 10. c. 4._
[142] _Ord. l. 1. t. 56. §. 22. & l 3. t. 5. §. 5._
[143] _Scip. Amir. principio da Nobreza de Napoles._
[144] _Fr. Hier. Rom. p. 2. da Republ. l. 4. c. 16._
[145] _Cabedo 2. p. decis. 6._
[146] _Partid. 4. t. 25. l. 1._
[147] _Chron. de D. P. c. 10._
[148] _Chron. de D. Joaõ I p. 2. c. 73._
[149] _Chron. delRey D. Fern._
[150] _Cabedo ubi supra._
[151] _Comp. da Nobr. Verb. Vasallo._
[152] _Antonio Franc. supra._
[153] _Conde D. P. t. 23._
[154] _Conde D. P. t. 9. §. 1._
[155] _Annaes de Aragaõ de Çurita l. 2. c. 64._
[156] _Hist. de Valenc. Dec. 1. l. 5. c. 27_
[157] _Part. 2. t. 1. l. 13_.
[158] _Guid. Pancirol. c. 139. Notitia utriusq. Imperij._
[159] _Lamprid. apud eundem._
[160] _Carol. Sigonius de Regno Ital._
[161] _Moral. l.12. c. 31._
[162] _Pandulf. Colenucio l. 3. c. 3._
[163] _Tomada de Ceita cap. antepenult._
[164] _Scipiaõ Amirato Nobreza de Napol. t. dos Duques._
[165] _Pierius l. 40._
[166] _Amirato nas Familias de Napol. Tit. dos Marqueses._
[167] _Moral. l. 12. c. 31._
[168] _Chron. de D.Joaõ II de Resen. c. 78._
[169] _Petrus Patricius de Dignitat & officijs Regum Gotth. verbo_ Comes.
[170] _Scip. Amirato princip. das famil. de Napol._
[171] _Pancirol. ubi sup._
[172] _Loaiza Concil. 8. Tol. de subscript. Palatinor. Moral. no lugar cit._
[173] _Monarq. Lusit. p. 2. l. 7. c. 10. & 16. Fr. Ant. de Yepes Chron. de S. Bento tom. 7. anno. 1105. c. 1. Moral. l. 15. c. 25._
[174] _Fr. Hier. Repub. Gentil. l. 4. c. 15._
[175] _Scip. Amirato principio dos familias de Napoles._
[176] _Scip. Am. no lugar acima citado._
[177] _Yepes t. 6. an. 1070. cap. 2._
[178] _Moral. l. 10. c. 63._
[179] _Eschol. Dec. 1. de Valen. l. 1. c. 13._
[180] _Scip. Am. ubi sup._
[181] _Chron de. D. Man. 4. p. c. 4. Chron. do Conde D. Pedro p. 1. c. 60. Chron. de D. Joaõ I. p.3. c. 6._
[182] _Chron. delRey D. Pedro de Duarte Nunes._
[183] _Chron. do Principe D. Joaõ c. 1._
[184] _Hist. Gotthor._
[185] _Chron. delRey D. Fern. de Duarte Nun._
[186] _Chron. de D. Duarte de Meneses, c. 50._
DISCURSO IV.
SOBRE AS MOEDAS DE _Portugal_.
§. I.
A noticia, e ponderaçaõ das Moedas, e Medalhas antigas tem occupado a grandes engenhos, e vemos hoje muitos volumes, que trataõ sómente deste argumento, por quanto nas imagens das Moedas, e suas inscripçoens se conserva a memoria dos tempos mais, que em nenhum outro monumento. Os livros depressa se consomem, se senaõ copiaõ, as fabricas, e estatuas naõ passaraõ de hum lugar, e ahi mesmo acabaraõ, as pyramides, e obeliscos, em que se esculpiraõ os hieroglyphicos mysteriosos, que continhaõ as propriedades occultas, jà delles naõ ha memoria. Pelo que nenhuma cousa conserva tanto a antiguidade, como as Moedas, e Medalhas, que pela incorrupçaõ dos metaes perseveraõ perpetuamente, e por seu grande numero estaõ em toda a parte, onde representaõ os verdadeiros rostos, que tiveraõ os mais antigos Principes, seus nomes, suas vitorias, suas fabricas, e finalmente o valor de todas as cousas, porque todas ellas se reduzem ao pezo, e valia da Moeda. Exemplo seja disto a historia dos Emperadores, que fez Roberto Herbipolita tirada só das suas Medalhas. A Religiaõ, Milicia, e Exercitos da mesma Republica se mostraõ em outro volume de Guilhelme de Choul tirado das Moedas antigas. Julio Orsino pelas mesmas Medalhas escreveo, e deduzio as geraçoens das antigas Familias de Roma. O Arcebispo de Tarragona D. Antonio Agostinho, e Sebastiaõ Eriso mostraraõ em grandes volumes as empresas, hieroglyphicos, e mysterios, que em outras muitas Medalhas os Principes, e Respublicas quizeraõ significar ao Mundo. Sobre os Siclos, e Moedas naõ saõ de menos erudiçaõ, e estima os doutissimos Budeu, e Covarruvias, e outros muitos, que nesta materia escreveraõ. Por onde atè no Evangelho Sagrado[188] se nos dá por exemplo da Sabedoria o Perfeito pay de Familias, cujo thesouro se compoem das Moedas antigas, e modernas: _Qui prosert de thesauro suo nova, & vetera_. E porque naõ ha atègora quem divulgasse inteiramente o que toca às Moedas deste Reyno, e da antiga Lusitania, me pareceo fazer dellas este breve Discurso.
§. II.
_Moedas Romanas._
Antes da entrada dos Romanos em Espanha, ou os Espanhoes naõ usaraõ de Moeda propria; ou se as houve, naõ chegaraõ a nòs; porque algumas, que se acharaõ com letras Gregas, ou Carthaginesas, saõ mais das Colonias, que cà tinhaõ estas Naçoens, que de Espanha. E a razão he, porque como não havia cá Principe universal; e os que mandavão varias Respublicas, erão mais como Capitaens, e Governadores, que como Reys absolutos, não havia quem obrigasse aos povos a aceitar Moeda esculpida com seu rosto, e nome, mas vindo este poder a mãos de Sertorio, como sua intençaõ foy fazer-se Senhor de Espanha, como Mario, a quem elle seguio, intentàra fazer-se de Roma, foy o primeiro que achamos, que bateo Moeda; a qual tinha de huma parte o seu rosto com huma vista menos, e da outra parte huma cerva, que era a sua divisa; porque huma branca, que consigo trazia, fingio que lha mandàra a Deosa Diana. Em Evora se achou huma moeda de prata com esta escultura, que eu tenho na fórma, que aqui està estampada.
[Illustração]
O Mestre Ambrosio de Morales refere outra semelhante, que lhe veyo às mãos, que era de bronze, e tinha o nome de Sertorio.
Outra teve o Arcebispo D. Rodrigo da Cunha de prata achada em Almeida com o mesmo nome de Sertorio, e escultura. Porèm com a morte de Sertorio, e reduzida Espanha a Provincia de Republica, e do Imperio, naõ teve mais Principe particular, que batesse moeda, e assim todas as que houve desde Julio Cesar atè a entrada dos Godos em Espanha, não pertencem particularmente a este Reyno; porque ainda que em algumas dellas se acha o nome de _Hispania_, era mais como empresa, que como particular Moeda. Tambem as Cidades particulares batiaõ Moeda com o nome da Cidade, e sua insignia, e da outra parte o rosto do Emperador. Destas tenho eu muitas de Merida, que era Cabeça da Lusitania, as quaes de huma parte tem as Torres sobre a ponte com a inscripçaõ: _Emerita colonia Augusta_. E da outra parte o rosto do Emperador Augusto, e Tiberio. Mas estas Moedas mais saõ particulares, que universaes, e se batiaõ com particular privilegio, como se vè de huma da mesma Merida, que de huma parte tem hum junta de hum touro, e de huma vaca, com a letra: _Augusta Emerita_; e da outra: _Cæsaris Augusti P. P. permissu_.
Das Moedas dos Emperadores Romanos se tem achado em Evora, e sua Diocesi grande numero, e a minhas mãos tem vindo mais de 3U000. Moedas de ouro, prata, metal Corinthio, e bronze de todos os Emperadores, cousa difficultosa de achar, ainda em huma Cidade de Italia; o que denota bem a grandeza, que entaõ teve a nossa Evora; pois ainda depois de tantos seculos conserva taõ inteiras memorias da Monarquia Romana. Porèm como estas Moedas sejaõ universaes a todas as Provincias do Imperio, naõ me parece fazer dellas particular mençaõ.
§. III.
_Moedas Gotticas._
Depois que Espanha foy apartada do Imperio pelo poder dos Godos, que a occuparaõ, ainda que se governava pelos Reys, que elles elegiaõ; com tudo atè o tempo de Leovigildo nenhum delles bateo moeda, por serem mais Capitaens, que Principes. Porèm como Leovigildo apoderando-se do Reyno dos Suevos, onde foy chamado para socorro, ficou absoluto Senhor de toda Espanha, foy o primeiro, que tomou insignias Reaes, e batendo moeda, se senhoreou de tudo; e assim de entaõ atè ElRey D. Rodrigo hà moedas de todos os Reys, que a Leovigildo succederaõ, das quaes eu tenho muitas achadas em Evora, e em seu territorio, que me pareceo devia apontar, por quanto Leovigildo, e seus successores naõ sómente foraõ Senhores de toda Espanha, mas fizeraõ particular estimaçaõ da Lusitania; porque Leovigildo deu titulo de Rey della ao Santo Martyr Hermenegildo seu filho, que residia em Merida, de maneira, que só desta Cidade se conserva hoje mayor numero de moedas Gotticas, que de nenhuma outra Cidade de Espanha; e ainda se pòde dizer, que ella só compete com todas as outras juntas. Pelo que com razaõ podemos ter estas moedas por Lusitanas, e proprias; alèm das quaes tambem se apontaraõ algumas, que trazem outros Authores, para ficar a noticia desta materia mais inteira.
§. IV.
_Leovigildo._
Nas Moedas dos Reys Godos se vé melhor, que em nenhuma outra cousa o haver-se perdido quasi de todo a esculptura em Espanha; porque podemos dizer, que naõ tem figura de rosto humano, o que nellas està esculpido, mas com tudo isso por ellas se averiguaõ muitas cousas, que de outra parte naõ se poderaõ saber: e podéramos attribuir esta falta da esculptura a ser os Godos gente pouco amiga de taes policias, senaõ se achara a mesma barbaria nas Moedas dos Emperadores de Constantinopla por estes tempos.
DelRey Leovigildo dizem muitos Escritores,[189] que foy o primeiro, que acrescentou os Dereitos do Fisco Real, e ajuntou grande thesouro de bens confiscados, e despojos de inimigos, e com soberba tambem, e altivès se vestio de roupas preciosas, e assentando-se em alto throno, tomou insignias Reaes; porque antes, como apontamos, e o diz Santo Isidoro, os Reys dos Godos naõ se differençavaõ no trage, nem em outra pompa da gente commum.
Deste Rey tenho huma Moeda de ouro com rosto de ambas as bandas, letra: _Leovigildus Rex_: e da outra: _V.M.D.O.P.T.I.N.I.T.S.P._ Estas letras naõ achey quem as interpretasse, por serem letra por parte; mas parece se pòde dizer: _Cum Dominium optinit Spaniæ_. Bem vejo, que nesta interpretaçaõ fica o latim errado; porque houvera de ser, _obtinet_. E _Spaniæ_, houvera de ser com _H_. porém os Godos eraõ taõ barbaros, que nestes letreiros comettiaõ outros erros, escrevendo _Tustos_ por _Justus_; e _Recarepus_, por _Recaredus_; como notou o Arcebispo D. Antonio Agostinho, e escreveraõ: _Emeretæ_, por _Emerita_; e assim naõ serà muito estar este letreiro errado no latim.
[Illustração]
Outra Moeda traz deste Rey Gaspar Estaço nas Antiguidades de Portugal cap. 68. num. 13. & 14. a qual tem de ambas as bandas a sua imagem, e letra: _Leovigildus Rex_: e da outra parte: _Brachara Victor_; a qual Moeda parece que se lavrou quando Leovigildo foy socorrer os Suevos, e lhe usurpou o Reyno; e como Braga era cabeça de Galiza, intitulando-se vencedor de Braga, que era a Metropoli dos Suevos, se ficava intitulando Senhor do Reyno.
Naõ vio o Mestre Ambrosio de Morales nenhuma Moeda de Leovigildo, pelo que he de notar, que estas duas, que apontamos deste Rey, pertencem ambas a Portugal; porque a que eu tenho, se achou em Evora, e assim denota mandalla Leovigildo lavrar depois, que unio a si o Reyno dos Suevos, e ficou Senhor de toda Espanha.
A terceira he a que traz o Arcebispo D. Antonio Agostinho,[3] que diz _Elvora Justos_, que quer dizer, Justo em Evora; e se devia bater por alguma acçaõ insigne de justiça, que ElRey fez na nossa Cidade de Evora; por onde parece, que nestas partes de Portugal foy a sua residencia mayor.
§. V.
_Hermenigildo._
ElRey Leovigildo deu ao Principe Hermenigildo seu filho o titulo de Rey, e por assento de sua Corte a Merida, como aponta o Arcebispo de Turs; e porque Merida era a cabeça da Lusitania, podemos ter a este Santo Principe por particular nosso. O titulo de Rey se vè numa Moeda sua de ouro, que tenho, e se achou em Almeida; e de huma parte tem o seu rosto bem esculpido com huma Cruz nos peitos, e a letra _Hermenigildus_. Da outra huma figura assentada com a coroa na cabeça, e na mão huma cousa, que parece cetro, e a letra à roda, que diz: _Rex inclytus_; e ao pè do assento, _E. M._ que parece: _Emerita_. Esta Moeda parece se lavrou, quando se lhe deu logo o titulo de Rey.
[Illustração]