Chapter 2
… preciso porÈm notar-se que, quem escreve estas linhas, È um mero amador que vem simples e unicamente dar a resenha dos quadros expostos e a sua impress„o pessoal, dizendo simplesmente gosto ou n„o gosto, sem me prender nunca em consideraÁıes sabias sobre o modo de pintar de cada um. N„o citarei escolas hollandezas, flamengas, etc., etc. com ares sabios de critico emerito.
E n„o o farei, porque entendo que para se escreverem artigos substanciosos e chorudos sobre tal assumpto È necessario, antes de mais nada, ter visto alguma coisa d'essas escolas e d'essa pintura, acompanhado isso da leitura de livros da especialidade.
E, vulgarmente, n„o succede assim. Muitos dos nossos criticos conhecem esses quadros e essas escolas porque algum amigo, vindo l· de fÛra, lhes trouxe, como recordaÁ„o, catalogos dos muzeus que viu por l·, e È por ahi que elles fazem, a maior parte das vezes, critica. Ora eu, como nunca vi muzeus, nem tenho lido livros sobre pintura, n„o faÁo critica, faÁo a minha reportagem, deixem-me assim dizer. E posto isto, l· vae a impress„o pessoal que me ficou d'alguns dos trabalhos de Carneiro Junior. E elle que me perdÙe se n„o gostar.
Em primeiro logar, se bem que n„o sejam estes os principaes trabalhos, ponho eu os desenhos a sanguinea---que figuram no catalogo com os n.^{os} 27 e 28, _Figuras para a fonte do Bem_; 10, _Estudo para o quadro do Amor_; 6, _Estudo para a figura EsperanÁa_; 25, _Estudo de creanÁa para a fonte do Bem_.
[Figura: Retrato--ANTONIO CARNEIRO]
Os retratos do _Marcos Guedes_, n.^o 43; do _dr. Alfredo de Magalh„es_, 34; do _Antonio Patricio_ (filho), 32; de _J. Teixeira Lopes_, 36; do _Claudio_, 40; e os dous retratos de _R. C_., 37 e 38, s„o magnificos.
Em todos elles ha um tom de vida e muito de alma, especialmente nos dois ultimos, em que o artista pıe todo o seu sentimento de amor.
O quadro _Tarde no mar_, n.^o 56, È delicioso; como que se sente, ao olhal-o, aquella cadencia ou melopeia que o grande mar sabe cantar quando suavemente beija a areia fina da praia.
_Campo de trigo_, n.^o 77; em _Auvay_, impress„o de frente, 89; impress„o, (_Bretanha_), 71; em _LeÁa_, impress„o, 68; o _Tamega_, (Amarante), 67; o _Sena em Auteil_, 62; _Pinheiros ao cahir da tarde_, 57; ...s„o, para mim, sentidissimas paisagens onde a nossa vista se perde e o nosso espirito se embrenha como em paginas brilhantes da _Viagem da minha terra_, de Garrett.
Ha alli tambem um quadro, _Leitura_, de que muito gostei. N'um interior de casa escura, · luz de um candieiro, tres mulheres, uma das quaes lÍ. … admiravel n„o sÛ de execuÁ„o, como de composiÁ„o.
O esboÁo do quadro _Fonte do Bem_ È apreciavel e bem desejariamos vÍr o quadro definitivo.
E, antes de terminar, deixe-me Carneiro Junior dizer-lhe que o seu triptyco, È, para o meu fraco entender, um d'estes geniaes poemas que sÛ os grandes artistas sabem conceber. Emquanto · sua execuÁ„o acho-a primorosa. _A EsperanÁa_, deliciosa virgem estudada e delineada com toda a pujanÁa d'um bello espirito;--_O Amor_--assombroso de execuÁ„o; ha n'aquelle cavalleiro todo em aÁo vestido, a virilidade d'um cavalleiro andante; _A Chimera_, fundamente abstracta, na sua cÙr doentia e na sua express„o de verdadeira Fatalidade olha o quer que seja de horrivel, guiando o fogosissimo cavallo em que monta o cavalleiro;--_Saudade_--na base d'uma sphinge sonha uma mulher, toda de negro vestida. Quanta doÁura n'aquella express„o de tristeza! Como o pintor soube dar ·quella delicada mulher a nota melancolica do que È na realidade a saudade! Este quadro seria bastante, para definir o grande talento do artista e o seu temperamento subtil de poeta.
Que o artista me perdoe se n„o disse tanto quanto merecia a sua obra e acceite o parabem sincero de quem sÛ diz o que sente.
MarÁo 1901.
IV
Thadeu Maria d'Almeida Furtado
PALAVRAS DITAS ¡ BEIRA DA CAMPA DO FALLECIDO PROFESSOR
N„o È, o que vou dizer, uma biographia, nem um necrologio; representam simplesmente estas despretenciosas palavras como que um punhado de saudades espersas sobre a campa, ainda mal fechada, do illustre morto.
Conhecendo-o desde ha muito, tive sempre por elle uma d'essas veneraÁıes respeitosas de consideraÁ„o e amisade, que se tem por aquelles que vivem sempre de cabeÁa levantada e aos quaes n„o podem attingir nunca as settas envenenadas da m· vontade e da calumnia. E È por isso que hoje n„o posso deixar de vir dizer aqui algumas palavras a respeito de quem, sempre se fez querido de todos quantos, uma vez sÛ que fosse, d'elle se aproximaram.
[Figura: Thadeu Maria d'Almeida Furtado]
Thadeu Furtado foi um dos mais antigos professores de desenho do Porto e dos de mais nomeada; cumpridor dos seus deveres, como poucos, recto nas suas apreciaÁıes, como ninguem, quantas vezes fez elle rebentar essas bolhas de balofa vaidade, com que muitos mediocres se julgavam notabilidades, e a quem o publico inculto tecia os mais rasgados elogios; mas, sincero como era, nunca se pejava de dizer as verdades por mais duras que ellas fossem.
Trabalhador incanÁavel, atÈ ao ultimo dia, em que um desastroso acontecimento o impossibilitou, foi regularmente occupar o seu logar na Academia, onde hoje era secretario e onde em outros tempos fÙra professor sapiente.
E inegavelmente È a este trabalhador indefeso, a este morto illustre, que se devem os melhoramentos ultimamente feitos n'aquella casa de ensino artistico.
Quantas e quantas vezes, reclamados esses melhoramentos ao governo, foram elles lanÁados no rol dos esquecimentos, rol lendario, onde s„o archivadas todas as cousas uteis do nosso querido Portugal. Mas, Thadeu Furtado, com a sua vontade de ferro, ao saber no Porto o conselheiro Elvino de Brito, ent„o Ministro das Obras Publicas e antigo discipulo da Academia das Bellas Artes do Porto, a elle foi e depois de lhe mostrar, provando de _visu_ a necessidade urgente d'aquelles melhoramentos, conseguiu o que atÈ ali ninguem tinha conseguido. E È portanto a este querido morto que se deve o ser hoje a Academia de Bellas Artes, sen„o um modelo de escolas para o seu genero, pelo menos um estabelecimento que n„o nos envergonhar· quando mostrado a estrangeiros profissionaes.
E, doa a quem doer esta minha affirmaÁ„o, mas Thadeu Furtado vae fazer muita falta · nossa Academia.
Como professor foi sempre correctissimo, muito sabido no seu _mÈtier_, e a prova d'isso est·, em que, todos os nossos grandes pintores de ha sessenta annos para c·, foram todos seus discipulos e todos teem manifestado esta mesma opini„o.
N„o fui seu discipulo, mas fui seu amigo e È unicamente como tal que venho aqui depÙr tambem a minha eterna saudade, que È t„o grande, como foi a minha consideraÁ„o e a minha amisade.
E, para terminar esta minha sincera e triste despedida, consenti, meus senhores, que vos manifeste tambem aqui um grande desejo:--Como todos bem o deveis comprehender, uma divida tem a Academia a pagar ao seu respeitavel professor e ao seu incanÁavel secretario; e essa divida sÛ poder· ser paga perpetuando-lhe a memoria com um monumento digno d'elle. Grato me seria, portanto, saber que os alumnos da Academia de Bellas Artes, reunidos aos professores, lanÁaram m„o da ideia de que seja collocado o busto de Thadeu Furtado nos claustros da mesma Academia.
E, para realisar tal ideia, n„o ter„o mais do que fazer fundir em bronze um busto, que a familia do fallecido possue, feito, salvo erro, pelo brilhante estatuario Teixeira Lopes. E assim, como preito de homenagem ao professor morto, ficar· ligado ao seu nome o nome d'um professor vivo que È inegavelmente a primeira gloria da esculptura portugueza.--Disse.
12 MarÁo 1901.
[Figura: LenÁo em rendas--D. MARIA AUGUSTA BORDALLO PINHEIRO]
V
PINTORES PORTUENSES
ARTHUR LOUREIRO
Arthur Loureiro, esse grande artista que durante tantos annos viveu longe de nÛs, n'esse bello paiz, a Australia, e que uma vez c·, filho do Porto, amando o seu ninho com um amor especial de artista, apoz a sua primeira exposiÁ„o onde nos mostrou que era um delicado pintor de figura, com os seus retratos, e os seus typos admiravelmente executados, vae para bem perto do Porto, para Villa do Conde e cheio de vontade e repleto de _savoir faire_, lanÁa · tela lindos quadros que s„o como filigranas da arte pintural.
[Figura: Arthur Loureiro no seu atelier]
Antes porÈm de atacar o assumpto que nos obriga a tomar da penna e rabiscar estas linhas permittam-se-nos algumas phrases ligeiras de introito.
Ao entrarmos no atelier de Arthur Loureiro, decorado com uma distincta simplicidade, tem-se a suave impress„o que o artista que ali trabalha È um bom e um delicado. Confortavel e amigo, aquelle atelier sem pretenÁ„o a luxo, todo elle resuma elegancia e bom gosto. Sem estofos custosos, meros cobrejıes de farrapos, em tons escuros, biombos simples de couro lizo, moveis de linhas correctas desenhados por o proprio artista e executados sob a sua direcÁ„o, È d'um effeito soberbo! O indifferente, que ao acaso ali v·, tem com certeza a impress„o de que entrou na casa d'um amigo.
[Figura: Barra, Foz-Douro--ARTHUR LOUREIRO]
D'entre os moveis, que guarnecem o atelier, destaca-se um largo divan-estante com as costas pintadas a sepia, que nos d· a impress„o de uma pirogravura.
Mas n„o vamos occupar-nos do atelier, vamos unica e exclusivamente fazer uma resenha despretenciosa e sincera dos quadros expostos e do effeito que nos deu a visita · exposiÁ„o aberta agora ao publico.
Arthur Loureiro n„o È somente um pintor. … mais do que isso, È um esculptor consummado. O caixilho para espelho, o do quadro _Convalescente_, e um outro onde se ostenta o seu retrato aguarellado por Columbano, s„o bellos.
Mas, o que me encanta, o que me fascina, È o frontal para uma arca, onde se guardar· o enxoval d'um filho querido. Este frontal, desenhado e executado por Arthur Loureiro, È como que uma symphonia d'amor, sob o thema sublime do martyrio da maternidade.
[Figura: Frontal d'uma arca (esculptura)--ARTHUR LOUREIRO]
Sem minudencias de descripÁ„o, sempre diremos que a bordadura que cerca a figura da m„e tendo no regaÁo o filhito querido, È feita com flores de martyrios em todas as suas evoluÁıes, desde o pequenino bot„o atÈ · flor completamente aberta e em todo o seu frescor. Flores, folhagem e figuras soberbamente executadas.
E agora, posto isto, entremos pela pintura dentro.
N„o somos do _mÈtier_, nem aspiramos a critico de arte; mero amador, vendo talvez um pouco bem, sentindo a dentro da alma qualquer coisa de meigo, por uma paisagem triste, e qualquer coisa de vibrante em frente d'um retalho da natureza, que o sol banha luxuriantemente.
Amando os quadros pela poesia que infundem, subjugado pela impress„o, que nos deixa qualquer cousa que nos agrada.
Eis o modo como vemos as obras d'arte, quer ellas sejam d'um novo, quer ellas sejam d'um mestre. E por isso a despreoccupaÁ„o do meu modo de escrever. Pondo em evidencia ·s vezes quadros d'um valor mediocre e deixando no escuro verdadeiras obras de arte. Que nos perdoem os artistas essas faltas e vamos · exposiÁ„o de Arthur Loureiro que foi o que aqui nos trouxe.
Fallarei d'esses quadros pintados em Villa do Conde, antes porÈm deve ter especial menÁ„o o largo quadro da nossa barra, pintado n'um pÙr de sol irisado, cheio de poesia, com tons d'ouro que se reflectem na agua superiormente. … um quadro este, de si bastante notavel para definir o artista.
E agora, que puz em evidencia o quadro que para mim se affigura mais notavel, vou dizer da minha impress„o dos outros quadros expostos.
Um grande ramo de lilaz, que parece espalhar no ambiente o seu perfume doce e meigo, est· feito com tanta frescura e tal graÁa, que nos tenta a cortar um pequenino ramo para a nossa botoeira.
As bellas rosas escuras, d'um avelludado meigo e fino, como que tentam na sua confecÁ„o a uma offerta gentil para a nossa namorada.
[Figura: O Passado--ARTHUR LOUREIRO]
S„o pedaÁos vivos de natureza, lanÁados · tela, com proficiencia e carinho.
Um c„osito _mops_ com o seu focinho birrento e negro e o seu pello amarellado d·-nos, a mim pelo menos (que eu sou doido por c„es), vontade de o ameigar, de o chamar carinhosamente e roubal-o ao artista. Collocado · entrada, talvez por acaso, È como que um fiel guarda d'aquelle encanto de atelier. Este quadro est· feito com cuidado, o que me d· a entender, que o artista segue a theoria d'um escriptor celebre que dizia:
--Quanto mais conheÁo os homens, mais amigo sou dos c„es.
Andam os nossos pintores delineando paisagens, por esse paiz em fÛra e nenhum, que me lembre, tinha ido pintar para Villa do Conde. Talvez porque julgassem n„o haver alli nada que pintar e Arthur Loureiro, que ha vinte annos estava fÛra do seu paiz, chegou e para socegar dos seus trabalhos escolares foi para essa linda praia descanÁar e que descanÁo o seu, voltou trazendo na sua bagagem deliciosas telas, formosissimas. Querer citar as melhores seria cital-as todas, eu porÈm notarei como primordial--_A Senhora da Guia_--depois, as _Azenhas_ e d'estas n„o sei se o que resplende de sol, se o outro, feito por uma manh„ triste de chuva.
[Figura: N„o voltar· mais--ARTHUR LOUREIRO]
A _Igreja matriz_, tambem o noto pelo bello do effeito. Como uma mancha retumbante, n'aquella suavidade de cÙr, os reposteiros da igreja fazem resaltar o quadro (ora aqui est· onde eu decerto dou raia, em ter recebido uma bella impress„o pelo vermelho que destaca do quadro, mas sou assim e n„o ha nada que me atrapalhe).
A _Paisagem geral de Villa do Conde_, com o seu convento e a sua cazaria branca È formosa.
_O Passado_, quadro cheio de poesia e de candura. Como um poema, de amor, de dÙr e de miseria aquella velha sentada · porta da igreja, onde talvez ella se baptisara, cas·ra e seria enterrado o seu companheiro de muitos annos, talvez um pescador, que ella hoje chora, pedindo esmola, na sua miseravel e angustiosa viuvez.
Mas vamos fechar este artigo que vae j· longo de mais. Antes porÈm notaremos dous quadros, um que se intitula--_N„o voltar· mais_, e que È outro poema de dÙr. Junto d'uma bella arvore em flor, um redondendro, uma viuva e uma creanÁa olham o mar.
Esse mar gigantesco e barbaro que foi, decerto, quem subjugou para sempre o ente querido d'essas duas figuras insinuantemente bellas nas suas _silhouetes_.
_O Convalescente_ È um retrato primoroso do nosso amigo dr. Francisco Loureiro, irm„o do distincto artista.
… um trabalho feito com muito amor e muito saber. Flagrante de verdade e correctissimo de desenho. … um bello retrato.
Que me perdoe o artista esta prosa desenchabida e vulgar, mas, mais n„o pÛde dar a minha pena. No entanto ha-de ver o publico que eu n„o quiz fazer o rÈclame do pintor nem a apologia do homem, fiz unica e exclusivamente a resenha rapida e sincera do trabalho correcto d'um poeta lyrico da pintura que entre nÛs vem, se n„o, fazer uma revoluÁ„o na arte, dar no entanto a nota brilhante, do que deve ser o paisagista portuguez; pintar a nossa paisagem, sem tons exoticos de cÙr trazidos dos paizes estrangeiros. Porque Portugal com o seu ceu e os seus verdes n„o pÛde ser pintado com as cores das paisagens bret„s.
E mais nada.
Outubro 1902.
[Figura: Na Eira--LUCILIA ARANHA]
VI
ESCULPTORES PORTUENSES
FERNANDES DE S¡
Uma das manifestaÁıes mais vivas da arte È a esculptura. Esculpir em marmore ou em bronze a figura de um individuo, È, como que, deixal-o por toda a vastid„o dos seculos · admiraÁ„o, ao respeito ou · saudade dos seus concidad„os ou dos seus amigos. … a nota constantemente vibrante de uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura, È ella que, arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta philantropia, ou a saudosa recordaÁ„o d'um ente querido que a morte nos roubou.
E n„o È sÛ isso; empolgando o nosso espirito, d· a concepÁ„o perfeita d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando · dura e informe pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.
[Figura: Fernandes de S·]
A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso da patria, nos heroes que faz reviver, atÈ aos santos, que a religi„o faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas manifestaÁıes, È uma das mais difficeis, se n„o a mais difficil de todas as manifestaÁıes artisticas.
E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relaÁ„o aos pintores.
E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposiÁ„o de esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de S· abriu no seu gracioso _atelier_ da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.
Este moÁo esculptor, cujo nome n„o È j· uma esperanÁa, mas sim uma affirmaÁ„o segura, d·-nos, com a exposiÁ„o dos seus trabalhos feitos aqui e em Paris, a demonstraÁ„o mais definida e assente, de que È um d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.
[Figura: Desafio--FERNANDES de S¡]
N„o o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle È novo e tem uma vontade de ferro; ora estes dois bellos elementos, a mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber, d„o-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira grandeza, na sublime arte de Milo.
Fernandes de S·, a continuar assim, n„o ha-de ser notavel sÛ entre nÛs, ha-de sel-o tambem l· fÛra, no estrangeiro. E bom ser· que assim succeda, para que no mundo civilisado se faÁa a verdadeira justiÁa aos nossos artistas e se n„o pense que isto aqui È uma terra de selvagens.
Mas, deixemos estas divagaÁıes e entremos no assumpto que me proponho expÙr: Notar as obras que Fernandes de S· expıe, e isto ao de leve, como quem quer e n„o pÛde, por falta de elementos, embrenhar-se em philosophicos problemas d'arte.
Dezoito s„o os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual o mais bem executado.
[Figura: Camıes (estatua em marmore de Carrara)--FERNANDES de S¡]
Desde o largo trabalho--_Camıes_--atÈ · pequenina cabecita da galante--_BÈbÈ_--todos elles s„o soberbos e dignos de especial menÁ„o.
_Camıes_, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de Artilheria de Lisboa. ApÛs o naufragio, o grande epico portuguez salva, n'um heroico esforÁo, a sua espada e o seu poema--eis o assumpto representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada ancia, o corpo fidalgo de Camıes, sobre uma rocha, a m„o direita crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e o poema sobre o coraÁ„o, parece escorregar, resvalando na voragem da onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro ·quella molle de marmore. Sublime de concepÁ„o. Na figura elegante e adelgaÁada de Camıes ha linhas d'uma senhoril fidalguia.
Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro portuguez, o esculptor n„o perdeu uma minudencia, por mais pequena que fosse. Tudo estudado com perfeita seguranÁa, com verdadeira mestria, desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o mar, atÈ ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepÁıes sobre este thema, Fernandes de S· realisou--segundo o nosso modo de vÍr--uma obra genial.
_Rapto de Ganimedes_, È um grupo em gesso, que vÛs j· conheceis de quando esteve ahi exposto na ExposiÁ„o da Sociedade de Bellas-Artes, onde mereceu a segunda medalha, tendo j· adquirido a terceira medalha na exposiÁ„o de Paris de 1900.
_Beijo Materno_, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal. Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso _bÈbÈ_, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista do Estado. … um encanto.
_Vaga_. Este gesso È d'uma bella idealisaÁ„o. Uma formosa mulher, completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o coraÁ„o um baque e confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembr·mo-nos d'um, que nos pareceu a reproducÁ„o em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal intencionado, poderia dizer que JosÈ de Brito tinha ido alli beber a sua inspiraÁ„o e o modelo para o seu quadro _A Vaga_. NÛs n„o nos abalanÁamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque JosÈ de Brito È um grande pintor...
[Figura: Beijo materno (grupo em gesso)--FERNANDES de S¡]
_Dois bustos_, em marmore que s„o a reproducÁ„o exacta das pessoas que representam.
O _retrato do dr. Correia de Barros_, È um trabalho bem feito, cheio de verdade e de vida.
Ha tambem uma _CabeÁa de velha_, que È primorosa.
No _Pobre_ (bronze dourado) e no _Desafio_ (bronze) ha flagrancias de express„o, detalhes minuciosos de execuÁ„o, que revelam o cinzel subtil, consciencioso e correcto de quem os executou.
Ah! Mas, onde se revela o coraÁ„o delicado e a alma poetica do moÁo esculptor, È no grupo _Irm„s_. Que soberba obra! Com que carinho, com que amisade n„o foi executado aquelle gesso!
VÍ-se que o artista poz alli toda a sua alma de moÁo e de moÁo apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irm„s. Alli poz elle toda a sua alma lyrica, como no _Camıes_, poz toda a alma patriotica.
Ha tambem uma _CabeÁa de velha_ (bronze dourado), muito bem feita.
Notavel tambem um _Estudo em barro_, coberto com _patine_ verde que lhe d· um tom de novidade. O assumpto È uma cabeÁa de mulher do povo, com o seu lenÁo. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo quÍ de pena ou de saudade.
E tudo isto È lindo e tudo isto È bello, n„o esquecendo fallar nas cabecitas de creanÁas que l· vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo eu uma predilecÁ„o especial por creanÁas, comprazia-me todo em ser n'ellas que fallasse por ultimo.
S„o quatro estes trabalhos: _CabeÁa de creanÁa_, _BÈbÈ_, _Beija-flor_, _Estudo de creanÁa_.
Que encantadores! Com que amor elle n„o esculpiu no frio marmore aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanÁas, que s„o mesmo um primor!
Uma vez, n'uma exposiÁ„o que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia l· um _bÈbÈ_, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli sÛ, n„o me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.
Pois quando visitei a exposiÁ„o de Fernandes de S·, se l· me visse sÛ, posso affirmal-o, beijava todas essas creanÁas n'uma infinita alegria, porque as julgava vivas. S„o realmente uns delicados e subtis bustos, que me deslumbraram.
E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda manh„, ao atelier de Fernandes de S·, onde a luz forte do sol, coada atravez dos brancos transparentes, n'uma doÁura meiga, fazia resaltar os marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.
E permitta o moÁo esculptor, que t„o gentilmente nos recebeu, e com tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe digamos que o seu talento lhe d· direito a mais um pouco de orgulho, e n„o a querer deixar-se ficar na modestissima sombra dos que pouco valem. O seu nome e a sua obra, repito, n„o s„o uma esperanÁa, n„o; s„o uma affirmaÁ„o segura de que elle È um dos primeiros estatuarios portuguezes.
Outubro 1902.
[Figura: Busto (Antonio Cano)--FERNANDES de S¡]
VII
ExposiÁ„o da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa
CARTA A UM REDACTOR DO "CORREIO DA NOITE"