Chapter 1
*Nota de editor:* Devido ‡ quantidade de erros tipogr·ficos existentes neste texto, foram tomadas v·rias decisıes quanto ‡ vers„o final. Em caso de d˙vida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar· a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Jan. 2010)
NOTAS d'ARTE
[Figura: NOTAS D'ARTE]
PORTO TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor)
Travessa de Cedofeita, 54
1906
Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS
¡ SOCIEDADE de BELLAS ARTES
pelo que podem fazer em bem da Arte.
[Figura: (EsboÁo para um retrato)
VASCO FERREIRA]
NO LIMIAR
_O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico para a Escola de Bellas-Artes_:--A Arte È o reflexo dos costumes. _E, de facto, assim È. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do aperfeiÁoamento e da illustraÁ„o dos povos_.
_Assim, quanto mais illustrado fÙr o publico, tanto mais perspicaz, mais estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, È mesmo por isso que entre nÛs, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia fazem, na incessante lucta pela vida, os esforÁos mais lidimos e mais honrados para resolverem esse enorme e sublime_ desideratum:--_ser grande!_
[Figura: (1904) Caricatura do dr. M. Monterroso]
_Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, n„o o conseguem, porque para isso n„o s„o precisas sÛ a boa vontade e a persistencia no estudo. Alguma coisa mais lhes È necessaria, e essa, primacial:--ter talento!_
_Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, v„o gloriosamente para diante e s„o verdadeiramente grandes_.
* * * * *
_Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nÛs era uma especie de_ Arte mystica, _que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos_.
_Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e acanhadas normas, sem pensarem sequer que o_ fluido ether _que nos cerca e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisaÁıes vibrantissimas de luz e de cÙr, precisa de ser estudado e quiÁ· pintado_.
_Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o publico tambem n„o exigia mais, e a critica n„o se preoccupava absolutamente nada com isso_.
_Tanto_ elle _como_ ella _eram feitos por individuos, que ao visitar os museus e as exposiÁıes de pintura n„o tinham a intuiÁ„o nitida e verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestaÁ„o psycologica da vista_.
_Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, n„o para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface, acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso verde de Amarante_.
_E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuiÁ„o artistica, porque, l· fÛra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferenÁa, sem se manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composiÁıes de convenÁ„o e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspecÁ„o constante e immediata dos motivos a pintar.._.
* * * * *
_Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que comeÁavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados, saltam por sobre as barreiras das convenÁıes e correm pelos Campos da Arte, fÛra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica mais independente que auctoritariamente se impıe, cheia de raz„o, para que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficÁ„o_.
_E, È sob este refulgir de um novo sol, que orientado l· fÛra, com as mais modernas noÁıes d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc., etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim È o maior dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era para a pintura portugueza_.
_Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento, exuberantes de verdade, geniaes de execuÁ„o. Era um grande! Era um sublime artista!.._.
_Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido t„o sincera, t„o verdadeira e t„o lealmente_ roubar _· Natureza verdadeiros e flagrantes pedaÁos do seu grandioso_ Ser, _para t„o maravilhosamente os transplantar · tela_.
_Ao morrer porÈm Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente, a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores portuguezes_.
_E, de facto, È sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal brilha hoje mais fulgurante, podendo pÙr-se sem vergonha ao lado da Arte dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo_.
_Se n„o em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem temerem confrontos_.
_E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas n„o queiram, vae avanÁando intellectualmente um pouco na civilisaÁ„o moderna_.
_E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos_:--A Arte È o reflexo dos costumes.
Antonio de Lemos (Alvaro).
[Figura: CabeÁa de negra (Bronze)
DUQUEZA de PALMELLA]
NOTAS d'ARTE
1
Impressıes d'uma ExposiÁ„o
Ha muito tempo j·, deveria ter vindo dizer da bella impress„o que me causou a 1.^a ExposiÁ„o organisada pelo _Instituto de Estudos e Conferencias_, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde melhor), a sÛ hoje cumprir este dever.
Fui vÍr a exposiÁ„o sete vezes, e de cada vez que l· ia, novos encantos encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o resultado mais brilhante que podia desejar-se.
Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas atÈ aos mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram dignamente, n„o obstante um _critico d'arte_ ter dito, em um semanario d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras _chromolythographias_. Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos artisticos e criterio de tal critico. Saber· elle o que s„o chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de vÍr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua est· t„o alta?...
[Figura: JosÈ Malhoa]
Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os dous bustos e o medalh„o em marmore.
Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros s„o obra de Fernandes de S·, pensionista do Estado, que em Paris completa a educaÁ„o artistica do seu muito talento. A cabecita de creanÁa, em marmore, È um encanto, aquella boquita admiravel de bÈbÈ pedia milhares de beijos...
[Figura: JosÈ de Brito]
O medalh„o de Joaquim GonÁalves È uma bella copia de um primoroso trabalho do grande mestre Soares dos Reis.
Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dÙa a quem doer, os dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da CÙr. Eram um assombro os seus quadros.
O _Gozando os rendimentos_, estudado com cuidado e traÁado largamente, empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta impress„o forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu burguesismo.
[Figura: Que grande calamidade--JOS… MALHOA]
No _Que grande calamidade_, as figuras trabalhadas com um rigor de verdadeiro mestre, s„o flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeÁas das figuras e o rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes ellas ficariam.
E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre t„o primorosos trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me prenderam a attenÁ„o.
Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. … inegavelmente um grande desenhista. As suas _Impressıes de Espinho_, s„o bellas e tanto, que uma foi adquirida pelo Instituto por indicaÁ„o do jury competente. _A Azenha_, um encanto, _CabeÁa de estudo_, um primor.
[Figura: Chrysantemos--ANTONIO COSTA
Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Ent„o os _Pensamentos_? Esse, era uma delicia.
Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, n„o desmereceu a sua grande fama e, os _Chrysantemos_ e _Na vindima_, deram-me a prova evidente da sua muita aptid„o para este genero de pintura.
[Figura: Candido da Cunha]
Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu _Ultimos raios de sol_, que j· conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com os seus--_Mar calmo_, _Martyr_ e _Barcos de pesca_, merecem hoje, como sempre, os nossos elogios.
Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ·s suas paisagens um tom de verdade admiravel. O _Macieiras em flor_, em especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer.
JosÈ de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas; todos os seus quadros s„o bons, mas para mim superior a todos È o _Mulher do novello_, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta, flagrantissima de verdade na express„o do rosto. Na _Infancia de Diana_, bello estudo do n˙, alguma coisa me desagradou · vista, especialmente um c„o que se via nos ultimos planos...
Jo„o Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros _Retalhos_, _Lar_.
[Figura: Jo„o Augusto Ribeiro]
D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de forÁa de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as suas aptidıes artisticas.
Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposiÁ„o o seu logar definido e assente ao lado dos bons artistas. _Um caminho encharcado_, _Manh„ d'Abril_, _Margens do LeÁa_, e todos os demais s„o feitos com alma de verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execuÁ„o, o _Retrato de minha M„e_, que È um trabalho notavel.
[Figura: Retrato de minha m„e--TORQUATO PINHEIRO]
D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores, especialmente o _Pelargonios_, que senti n„o tivesse preÁo para ser adquirido.
Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, n„o me demorarei na enumeraÁ„o dos seus trabalhos, porque isso iria ainda muito longe e os meus leitores, decerto, se atÈ aqui chegaram, j· bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica.
II
PINTORES PORTUENSES
JULIO COSTA
Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa, pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo insignificantemente pequeno para fallar d'este artista. Mas, antepondo a esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o encargo, e, tal como posso, desempenhar esta miss„o.
[Figura: Julio Costa]
Ser· um artigo despretencioso, sem preoccupaÁ„o do estylo ou requinte de forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor illustre de quem me vou occupar.
N„o conheÁo escolas, n„o discuto artistas, n„o cito nomes estrangeiros, nem rebusco particularidades de _metier_.
Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente, indiscretamente, a impress„o que os quadros me deixam. Nada mais. E hoje, ao traÁar estas linhas a respeito de Julio Costa, n„o venho, acreditem, fazer a apreciaÁ„o, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome j· aureolado pela critica consciente, o laurel amigo da minha admiraÁ„o.
E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio Costa.
* * * * *
Portuguez de nascimento e condiÁ„o, alma que se espande na mais suave de todas as alegrias--a familia--Julio Costa vem, de ha tempos para c·, vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus discipulos e para os seus trabalhos.
… um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo · primeira vista.
… lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito, tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe atire. Nunca deixa de chalacear, a n„o ser quando tem algum dos seus doente. Ent„o, sim, ent„o abate-se todo na dÙr d'aquelle que soffre e deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente.
… uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto È bom, e d'ahi a uncÁ„o deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero.
[Figura: Conselheiro Jo„o Franco--JULIO COSTA]
Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemoraÁıes aos homens notaveis do nosso paiz.
O retrato È inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente trata e que mais em evidencia o tem collocado.
O retrato de El-Rei pintado para o sal„o do Tribunal da RelaÁ„o, os retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, Jo„o Ramos, Dr. Eduardo Pimenta, Conselheiro Campos Henques, Conselheiro Jo„o Franco, e muitos outros, s„o affirmaÁıes publicas do que digo.
O primeiro, È largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas cÙres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo sal„o do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito.
O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em posiÁ„o natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis factos da nossa historia.
[Figura: Oliveira Martins--JULIO COSTA]
E todos os outros, todos, s„o verdadeiras obras primas.
N„o esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro Jo„o Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova orientaÁ„o, a marcha dos negocios publicos.
D'esse retrato j· eu disse, quando tive occasi„o de o ver pela primeira vez, o seguinte:
´… grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do snr. Conselheiro Jo„o Franco.
´Absorve por completo a nossa attenÁ„o. Est· executado n'um correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de cÙres, n'um flagrante de pose e de semelhanÁa. Ao retrato do Conselheiro Jo„o Franco sÛ lhe falta fallar para ser o proprio.
´Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal È a perspectiva que Julio Costa lhe deu; ·s vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha um n„o sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que os labios se v„o descerrar para fallar.
´E as roupas, que delicada feitura, que _nuances_ de verdade! Na facha que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de _moirÈ_.
´O retrato em quest„o n„o È simplesmente um retrato; È mais do que isso:--È um quadroª.
* * * * *
Todos estes seus trabalhos nos encantam e deslumbram, porque Julio Costa sabe apanhar tudo quanto vÍ em volta de si. Sabe ver, que È o essencial. D'ahi o colher a express„o da Impress„o. Mas a Impress„o escolhida, n„o da natureza selvagem, mas sim da natureza civilizada e culta.
Julio Costa È um civilizado! … um delicado! … um _raffinÈ_ (desculpem o francez).
E È esse effeito de _raffinerie_ e essa predilecÁ„o pela impress„o escolhida que elle transporta aos seus retratos.
Elle conhece bem o indefinivel e delicado interesse que se desprende das linhas d'um rosto.
Elle sabe que nada È t„o impressionante, para nÛs que contemplamos os quadros, como essas figuras immoveis e mortas... mas que est„o vivas!...
E os seus retratados vivem nos seus retratos.
Em uma palavra, Julio Costa n„o pinta _um retrato_ do seu modelo... pinta _o retrato_.
Cada uma das nossas sensaÁıes, das nossas emoÁıes, dos nossos sentimentos, cada um dos nossos desejos, das nossas esperanÁas, dos nossos pensamentos secretos altera constantemente a nossa physionomia.
A cada minuto, a cada segundo, qualquer de nÛs se transforma, e deixamos de ser ent„o semelhantes a nÛs mesmos. Mas, Julio Costa sabe discernir n'essas fugitivas transformaÁıes aquelle _momento_, que È sempre da nossa figura, sabe fixar na mobilidade imperceptivel das linhas d'uma physionomia o seu aspecto caracteristico. Sabe reunir n'um gesto a multiplicidade das nossas attitudes.
E È por isso que Julio Costa, ao pintar o retrato, tem uma grande preponderancia sobre outros artistas.
Demais a mais elle possue o que falta a muitos outros, uma bella correcÁ„o no desenho.
Que o desenho n„o È sÛ como muita gente pensa o esqueleto da pintura.
N„o, o desenho È uma parte integral d'ella, o desenho È a propria pintura.
J· um celebre pintor francez, cujo nome n„o recordo agora, dizia dos seus desenhos--_A cÙr dos meus desenhos_... como se o desenho n„o fora unicamente uma apresentaÁ„o do claro escuro.
Mas È que a pintura sem um bom desenho, onde se definam os tons e meios tons, onde se delineem as distancias e as perspectivas, seria uma coisa chata, sem vida, sem relevo.
O Soler architecto, esse bello rapaz cheio de talento que a Morte avidamente nos levou ha um bom par d'annos, dizia-me uma tarde em que me fazia uma prelecÁ„o sobre as vantagens do desenho:--´Olhe, se vocÍ quizer um bom quadro desenhe-o primeiro em todas as suas minudencias, com todos os seus effeitos de perspectiva, com todos os seus claro-escuros e, depois, a esmo, cubra isso com as tintas d'uma paleta e ter· um bom quadro. Olhe que n'isto de pintura o desenho È tudoª.
E de facto assim È: para se poder pintar bem o que È preciso primeiro È saber desenhar. E Julio Costa sabe desenhar. D'ahi o elle dar aos seus trabalhos uma corecÁ„o distincta.
Mas, Julio Costa n„o È sÛ notavel no retrato. Julio Costa È-o tambem em outros generos de pintura. No assumpto religioso deu este artista provas indiscutiveis das suas aptidıes.
O _Calvario_, que elle pintou para a egreja do Bomfim, È o melhor attestado do seu _savoir faire_. D'essa obra prima, que veiu abrir uma polemica entre um critico da _Palavra_ e o conego Alves Mendes, dizia este ultimo no seu opusculo--_A crucificaÁ„o de Jesus:--Outros quadros de egual natureza adoecem de monotonia e languidez. Este n„o. … tal a firmeza do desenho, tal a riqueza das tintas, tal e tanta a genial inspiraÁ„o artistica, que a gente admira irresistivelmente e applaude enthusiasticamente esta magistral pintura de Julio Costa_.
[Figura: O Calvario--JULIO COSTA]
Que melhor e mais auctorisada opini„o que a d'este _pintor_ da oraÁ„o, este artista genial da palavra, que desenha com o seu verbo inexgotavel os mais fulgurantes e mais flagrantes quadros? Como consagraÁ„o a um artista n„o as tenho visto melhores nem mais perfeitas.
Quando Julio Costa se entretem a fazer o quadro de genero, tambem, n'esses momentos, n„o deixa o seu nome em m· posiÁ„o. Ahi, como nos outros trabalhos, elle sabe dar aos seus typos e aos seus assumptos o quer que seja de suggestivo, de impressionante.
N„o È cousa simples enumerar a sua obra, porque ella n„o È uma insignificancia.
No entretanto, como È do meu desejo levar o mais longe possivel a resenha dos seus trabalhos, ahi vae o titulo d'alguns d'elles, que mais se notabilisaram nas exposiÁıes onde teem apparecido.
[Figura: A Ti Anna--JULIO COSTA]
Em primeiro logar colloco eu o _No Vago_, uma pastoral de cÙr, como lhe chamou Oliveira Alvarenga. Era uma larga tela que resumia um delicado poema d'amor. Em plena primavera, sob a luz do lindo sol, uma moÁoila trigueira e forte, de seios proeminentes, encostada a um pedaÁo de terreno alto e florido, sonha n'um vago presentimento triste. Ia para os trabalhos do campo, levava a sua foice, o seu cesto vindimeiro, o seu chapeu de palha; marc·ra ao namorado uma entrevista, na esperanÁa d'um doce idyllio, mas o tempo passa, o namorado n„o vem, e ella, na sobrexcitaÁ„o do seu amor e do seu ciume, vae desfolhando malmequeres que ora lhe dizem _sim_, ora lhe dizem _n„o_, e, por ultimo, como que adormece n'uma febre d'amor, olhos semi-cerrados, com o pensamento esvoaÁando no _vago_... Eis o quadro, que figura l· fora, em Berlim, para onde foi vendido.
N„o esquecerei a _Romeira_, uma fresca rapariga que, em descantes alegres, parte para a romaria.
E uma _CabeÁa de estudo_, que appareceu na exposiÁ„o de Arte de 1894, uma linda cabeÁa de rapariga de olhos vivos, labios de coral e com o seu lenÁo de xadrez multicor, que È um encanto!
O _retrato do Quinsinho Souto Mayor_, È um estudo de creanÁa finamente trabalhado com o seu vestidinho de velludo, onde assenta uma romeira de renda, t„o bellamente pintada, que dava a perfeita illus„o de que eram rendas que alli estavam collocadas sobre a tela.
O _Vencido_, que È um bom trabalho tambem, consiste em um rapazito que, apÛs uma refrega com outros, sae com um braÁo deslocado; que suavidade de cÙr, que tristeza nos olhos humidos!
O _retrato da Ti Anna_, essa velhita encarquilhada que, no fundo do seu casebre, junto da lareira, vai fiando a loira estriga a pensar no tempo lindo que passou, quando era rapariga e cantava ao desafio nas esfolhadas e nas espadeladas, È soberbo. Hoje, a pobre velha canta as tristes canÁıes com que embala os netos, e fia o linho com que veste os filhos, que outras, que s„o novas, v„o espadelando a rir e a cantar. E tudo isto se traduz n'aquelle quadro, e todo este romance se vÍ alli representado n'uma sentida impress„o e n'uma ideal concepÁ„o.
O _Costume dos arredores do Porto_, È tambem um lindo quadro--uma cabecita de rapariga do campo cheia de vida e de frescura.
E a _Mimalha_ e a _Varanda dos Mangericos_ e mil outros trabalhos d'elle?...
Ah! mas vae muito longo este artigo e o leitor n„o tem obrigaÁ„o nenhuma de estar infinitamente a ler-me; por isso, ponto.
Julio Costa È para mim um pintor que sabe muito da sua arte, digam l· o que disserem, e se, dentro da sua modestia, n„o gostar do que eu agora digo d'elle que me perdoe porque eu sÛ sei dizer o que penso, e isso muito rudemente ainda.
III
PINTORES PORTUENSES
ANTONIO CARNEIRO JUNIOR
Conhecendo Carneiro Junior ha muito, por ter tido j· occasi„o de apreciar os seus trabalhos em outras exposiÁıes, corri, apressadamente, incumbido por a redacÁ„o da _Vida Moderna_, a vÍr a nova exposiÁ„o dos seus ultimos trabalhos, com o grande interesse de conhecer o progresso e o desenvolvimento artistico d'este bello cultor da arte da pintura.
[Figura: Antonio Carneiro Junior]
E, francamente o confesso, as minhas espectativas confirmaram-se. Carneiro Junior, que era um dos novos que mais promettia, obteve, com o seu estudo no estrangeiro, a verdadeira comprehens„o da arte de pintar, affirmando-o desde j· com os magnificos trabalhos expostos no atrio da Misericordia.
Pintando em todos os generos, como elle mais se avigora, e mais demonstra o seu talento È, a meu vÍr, como pintor de figuras.
A paisagem e a marinha n„o s„o o genero que mais o tentam, o que n„o quer dizer que n„o tenha paisagens adoraveis e marinhas deliciosas.