Part 4
Na meza, a hespanhola palestrava baixinho, muito amavel, com o commissario de bordo,—americano de pés e mãos enormes, supinamente calvo e rubicundo. Abaixando-me eu, de uma feita, para levantar o guardanapo que cahira, pareceu-me entrever o sapatão do commissario idyllicamente pousado sobre uma das rechonchudas bases da hespanhola, sua vizinha. Não liguei importancia ao incidente, preoccupado de Lupe e outros assumptos.
Surprehendeu-me vivamente uma manhan o me chamar a gorda senhora para junto de si. Assumira um ar de confidencia; e foi pausada, com ademanes protectores, que assim me evangelisou:
—Não se póde negar que dom Alfonso é um guapo mancebo, bem educado e seguramente de excellente familia. Desculpe se offendo a sua modestia, mas possúo experiencia da vida e aquelles dotes logo se reconhecem. Dom Alfonso me inspira sympathia. Demais, costumo fazer bem sem olhar a quem. Por isso, espontanea e desinteressada, quero lhe prestar um serviço. Vou abrir-lhe os olhos... Mais tarde me agradecerá. Cuidado com a mexicana, dom Alfonso. Aquillo é gente mais traiçoeira que Judas. Está patente que as impudencias da joven desmiolada lhe transtornaram o coração. Não negue:—basta observar os olhos compridos que lhe lança, o modo immerecido como a acolhe, o açodamento com que a procura, desdenhando os mais. E ella o comprehendeu, a patifa, e vai usando das mil artimanhas do seu repertorio para o embahir. Colher proveitos positivos da ingenuidade alheia, eis o seu programma. Cautella, dom Alfonso. Nada de compromettimentos inuteis. Não dispenda tão fina cera com tão máo defunto. Agora, se pretende simplesmente divertir-se, o caso muda de figura. Está no seu direito e é proprio da feliz idade em que se acha. Mas, então, coragem, homem! Ponha á margem timidez e escrupulos injustificados. Não queira que, em vez de dom Alfonso (um bonito nome,—o de meu rei e senhor, a quem Deus guarde) o chamem de dom José, ridiculo não raro perante as mulheres. Nada de luxos n’uma praça aberta, onde entra quem quer. Trate-a como ella o merece. Caramba! Devia haver nos paquetes uma classe á parte para certa gente, afim de que damas immaculadas, como eu e Miss Jackson, não nos vissemos forçadas á convivencia de desgraçadas d’aquelle jaez. Parece que não acredita, dom Alfonso?... Noto-lhe geitos de protesto... Pois arrisque uma experiencia facillima... Passe, depois que apagarem as luzes, pelo camarote d’ella. Encontrará a porta entre-aberta. Penetre resoluto e abençoará as minhas caridosas indicações. Não será o primeiro, nem o ultimo. A cousa data de longe. Informe-se em S. Francisco...
E a castelhana deu-me familiar pancadinha no hombro, revirando as pupillas oleosas e arreganhando-se n’uma risada maligna.
Menos indignação que tristeza me produziram as insinuações de D. Maria Augusta. Repugnava-me admittir Lupe como a aventureira descripta. Sem embargo, as maneiras levianas d’ella, juntas ás informações de Mr. Randolph e ás que eu acabava de ouvir, projectavam-me no espirito sombras de duvida. E essa duvida me penalisava inexplicavelmente, como cruel desillusão.
Tentei a defeza de Lupe, negando sobretudo os sentimentos que a casquilha matronaça me attribuia. Mas falleciam-me elementos quanto á justificação d’aquella. Não havia ainda um mez que eu a conhecera, na promiscuidade de bordo. Onde buscar factos que rebatessem as accusações?...
Nem convinha patenteiar summo calor na advocacia, sob pena de corroborar as affirmativas concernentes ao estado de meu coração.
D. Maria Augusta abanava a cabeça, prazenteira, não se dignando contrariar meus argumentos tibios e confusos.
D’essa data em diante entrei a notar que o commandante, o commissario, os inglezes, o proprio engenheiro hollandez, Herr Pfeiffer, tão circumspecto e assiduamente entregue a calculos e leituras scientificas, derramavam sobre Lupe e sobre mim alternativos olhares carregados de malicia, gryphados, a revezes, de equivocos sorrisos.
D. Maria Augusta urdira, de certo, alguma calumniosa intriga.
Como reagir, esmagar a inverdade, impedir as inoffensivas, porem irritantes manifestações dos companheiros?...
E eu me affligia atrozmente, sem razão já se vê, pois nenhum aleive importava, afinal de contas, devendo, ao contrario, lisongear-me a vaidade, o imaginarem elles ligações amorosas entre um rapaz solteiro na minha situação e uma bonita viajante, de pouco austéras apparencias.
Felizmente, perto estava o porto de Acapulco, onde Lupe desembarcaria.
Agitavam-me de sorte estes pensamentos, que não me permittiam dormir. Onze horas bateram n’um relogio proximo, abafadas pelo ruido da helice.
Iam apagar-se todas as luzes do _Colima_, á excepção das regulamentares, deixadas em determinados pontos.
Insensivelmente, ergui-me do beliche e sahi descalço, pé ante pé. Urgia-me verificar a verdade das asserções da hespanhola contra Miss Hedges. Na hypothese negativa, desforçaria a innocencia. Na affirmativa... oh materia humana quanto és exigente e vil...
Eu ignorava o numero exacto do camarote de Lupe. Sabia que se achava collocado no meio de um pequeno corredor, para ambos os lados do qual outros abriam, em linha.
Dirigia-me cauteloso para ahi, quando ouvi passos furtivos atraz de mim.
Mal restou-me tempo de me dissimular. Pesado vulto masculino enfiou pelo dito corredor, encostou-se no centro d’este a uma porta que promptamente cedeu, e sumio-se.
Correram dentro um ferrolho.
Approximei-me então, guiado pelo rangido. Na minha frente e nas minhas costas, frouxamente allumiadas por uma lampada do salão contiguo, estendiam-se duas séries de portas fechadas, perfeitamente iguaes. Pareceu-me, comtudo, que o vulto penetrara na de numero 19.
Seria a do beliche de Lupe?
Não se calcula a superexcitação que desassocegou-me o resto da noite. Desencontradas idéas fervilhavam-me dolorosamente no espirito.
No almoço da manhan seguinte, Lupe apresentou-se fresca e jovial, como nunca.
Esquadrinhei-lhe ancioso as feições, e, com intima alegria, averiguei que as embebia, sob a vivacidade costumeira, serena expressão virginal.
Mas as exterioridades illudem. Suspeita horrivel continuava a me torturar.
Subimos ao tombadilho após a refeição e trocamos banalidades sobre o tempo, a marcha do _Colima_, as nossas respectivas condições sanitarias.
Abruptamente perguntei-lhe:
—Qual o numero de seu camarim?
A moça fitou-me admiradissima, recuando ligeiramente, como prestes a repellir uma injuria.
—Que tem com isso!?...
—Perdôe-me a indiscreção, Lupe. As superstições de Miss Jackson principiaram a actuar em meu animo. Quero comprar no primeiro porto um bilhete de loteria com aquelle algarismo. Trar-me-ha felicidade.
—Ah! que fantasia!—murmurou rindo. Duas duzias menos dois, eis ahi.
—22?!... Quem occupa então o 19!
—Ao decimo-nono, fronteiro ao meu, cabe a honra de hospedar Sua Adiposidade a Senhora Dona Maria Augusta Gordó de Zorraquinos.
Pequena pausa. Em seguida, com estrondosa gargalhada:
—Mas para que diabo deseja assim informar-se arithmeticamente sobre o poleiro da pingue castelhana?! Ora essa! Será tambem com a intenção de alcançar a sorte grande? Ou premeditará acaso (e acertei... acertei...) fazer concurrencia ao commissario do navio?!...
E, com entonação galhofeiramente reprehensiva, no fundo da qual vibrava certa magoa:
—Oh! dom brazileiro! que cousa feia... que cousa feia... Nunca o supporia capaz de tanto. Leia um tratado de esthetica. Aquella posta de carne! Torne-se vegetaliano... Deixe-se d’isso, pelo amor de Deus!...
Mais tarde verifiquei que Lupe dormia no mesmo camarote que sua mãi. Em frente a esse, costumava permanecer aberto, depois de todos accommodados, o da hespanhola, que esperava o seu visinho de meza,—o rubro e alentado americano!
Noche triste.
X
Haviamos passado pelas ilhas Carmen e Margherita, parando no cabo de S. Lucas. Demoramo-nos um dia em Mazatlan, máo porto e regular cidade, sem nenhum caracteristico relevante. Costeamos Manzanilla. Mais 48 horas e ancorariamos em Acapulco, ponto terminal da viagem de Lupe.
Esta, á medida que proseguiamos, afigurava-se-me melancholica.
Na vespera da chegada, ao anoitecer, achei-a sósinha no tombadilho, recostada taciturna na _chaise-longue_.
Tomei assento igual, ao lado d’ella, como em a noite da partida, e perguntei solicito qual a causa do seu desusado pesar.
—Que quer, dom brazileiro?... sômos todos sujeitos a crises mais ou menos graves. Sabe a historia de Fernan Cortez, o legendario conquistador do Mexico. Alma de tão rija tempera, energia mais inflexivel difficilmente se hão de reproduzir na historia. Sublimes, epicas as suas façanhas; sobrehumanas as suas faculdades de resistencia e aggressão. Pois o proprio Cortez desanimou. Na noite fatal de 1 de Julho de 1520, expulso com os seus da capital revoltada, batido, fugindo, vendo mortos ou feridos os seus mais possantes camaradas, o heróe deixou-se cahir á beira da estrada, junto a um cypreste, que ainda hoje existe, e ahi abandonou-se á morte, duvidoso da sua estrella, renunciando ao porvir. A arvore funebre conserva o nome com que a tradicção a sagrou,—_cypreste da noite triste_, pois por _noche triste_ é conhecido aquelle episodio de nossos annaes. Quem não encontra na vida uma ou muitas _noches tristes_?... Hoje, dom brazileiro, é a minha.
—Mas Cortez levantou-se, reconstituio-se, venceu...
—Cortez era Cortez. E contava, demais, com um elemento decisivo de victoria.
—Qual?...
—Malitzin, ou Marina, a formosa india, filha do Cacique de Painallas, sem a qual talvez naufragasse o temerario emprehendimento do conquistador; Malitzin, a providencia do exercito de Cortez, a sua interprete, sentinella infatigavel, conselheira segura, embaixatriz eloquente e astuta, o principal instrumento da quéda de Montezuma; Malitzin, que Cortez amava e que adorava frenetica o estrangeiro Cortez...
Houve demorado silencio. Depois, —a voz carinhosa e meiga, qual até então nunca lhe ouvira, voz ungida de lagrimas represas,—Lupe continuou:
—Fique no Mexico, dom brazileiro. Desembarque amanhan em nossa companhia; consagre algum tempo ao estudo dos costumes e natureza do meu paiz. Não se arrependerá, asseguro. Não me disse que viaja para aprender?... Pois, permanecendo ali, aprenderá muito... Oh! infelizmente eu não sei descrever a minha patria como _usted_, dom brazileiro, descreveu a sua,—descripção que eu jámais esquecerei e me fez amar o Brazil a ponto de sonhar percorrel-o, á semelhança de quem perlustra scismando a região das chimeras e das maravilhas... Mas fique no Mexico e reconhecerá que a minha terra instiga tambem inspirações ao poeta, interesse ao sabio, indeleveis lembranças ao peregrino. Medrou, entre nós, em éras longinquas, estranha e magnifica civilisação. Vestigios de monumentos soberbos attestam ainda agora o seu esplendor. Sobre os palacios immensos dos velhos imperadores aztécas, desfraldavam-se largas bandeiras niveas, franjadas de ouro. Ouro, prata, pedrarias, thesouros estupendos era tudo no interior, onde dominavam pomposas etiquetas de metter inveja ás orientaes. E que arte divina no preparo das pedras ricas! Cortez apoderou-se de cinco enormes esmeraldas, cujo inaudito trabalho assombrou os artistas europeus de seu tempo. Representavam uma rosa, uma trombeta de caça, um peixe com olhos de diamante, uma campainha tendo por badalo uma perola, e uma taça, gravada de religiosos disticos. Aurea cadeia, espantosamente cinzelada, concatenava-as. A imperatriz Izabel, esposa de Carlos V, quiz possuir esse primor; e o monarcha propôz compral-o por fabuloza quantia. Mas Cortez brindou com elle sua noiva, D. Juana de Zunia, filha dos duques de Bejar. Mais tarde, levando a Argel as famosas esmeraldas, o conquistador naufragou e perdeu-as no lodo da praia.
Terriveis, dom brazileiro, as divindades adoradas n’aquella civilisação. Do altar de Huitzilopochtli, deus da guerra, gottejava perenne o sangue dos holocaustos. Assignalava-se a coroação de cada soberano por sacrificios monstruosos. Sustentavam-se guerras sagradas com o intuito exclusivo de apanhar victimas. Nos alicerces dos templos, ladeiados de pyramides de craneos, punha-se uma mistura de ouro em pó, aljofres, plantas magicas e sangue humano. Quando nascia uma creança, o pai a apertava até que ella gemia de dôr, e então murmurava:—vieste ao mundo para soffrer; soffre, pois oh! meu filho!—E acreditavam na metempsychóse; marcavam a giz o caminho percorrido por um enterro, a fim de que a alma do defunto soubesse volver para se reencarnar em algum recemnascido; conjuravam os astros; liam a sorte, atravez fragmentos de crystal... Depois, viéram os hespanhóes, a _gente de razon_, a conquista, o aniquilamento dos indios. Os descendentes d’estes, porém, ainda hoje acreditam que o deus redemptor, Qualtzalcoath, dorme no fundo de uma caverna, á espera do despertar de sua raça. A monarchia aztéca soube expirar stoicamente. Rutilam, apoz ella, traços heroicos nos nossos annaes. Luctas homericas sustentamol-as contra a dominação estrangeira e as classes privilegiadas. Benemeritos da humanidade o cura Hidalgo e Morelos, iniciadores da nossa independencia. Agostinho Iturbide, outro heroe d’essa independencia, fizemol-o, em pouco mais de um anno, generalissimo, acclamamol-o dictador, cingimos-lhe a fronte do diadema imperial e o banimos e fuzilamos, como desleal á Patria. Novo imperador, imposto pela França, batida em Puebla, fuzilamol-o tambem. E foi uma epopeia de denodo e patriotismo, digna da America indomável, a campanha victoriosa de Juarez! Temos padecido, como nenhum outro povo, os horrores da olygarchia militar. O general Sant’Anna empolgou o poder seis vezes por meio de revoluções, governou vinte e tres annos quasi sempre dictatorialmente e adoptou o titulo de Alteza Serenissima. Os constantes sobresaltos e perigos em que vive a população tornaram-n’a intrepida, inaccessivel á fraqueza, idonea para inverosimeis ousadias, fanatica pela liberdade. Hospitaleira, além d’isso, doce, polida, apresentando typos de formosura esculptural. Mulheres da plebe, ajoelhadas nos templos, o busto immovel, o olhar fixo, o peito alto, dão a impressão cabalistica das esphynges egypcias. E que amorosas essas nossas mulheres, dom brazileiro!... Que destemidas, quando necessario! Maria Quintana, uma freira, combateu valorosamente na guerra da emancipação. Catalina Erazo,—a celebre _monja alferes_ que aos 19 annos fugio do convento e se disfarçou de homem, levando até aos 28 incrivel vida de aventuras, duellos e campanhas, conquistando no exercito por actos de bravura o posto que lhe motivou o apellido, merecendo do papa autorisação para usar vestuario masculino, e acabando christãmente, recolhida, ainda em plena mocidade, ao claustro d’onde se escapára,—Catalina Erazo, nasceu em Hespanha, mas educou-se e praticou no Mexico as suas façanhas lendarias. Accordes os historiadores em testemunharem a benefica influencia femenina nos fastos nacionaes. O general Prim casou-se com uma mexicana. Bazaine igualmente. Condemnado e envilecido pelos seus compatriotas, que o acoimavam de traidor, o infeliz defensor de Metz só encontrou allivio ao seu infortunio na dedicação inalteravel da valente esposa, graças á qual evadio-se da fortaleza de Sainte Marguerite, em Cannes, onde jazia encarcerado. O amor das mexicanas não o destróem o tempo e o espaço. Se confiam a alguem o coração, não o reclamam mais nunca. Demore-se em minha terra, dom brazileiro. Conhecerá ali as manifestações mais grandiosas da natureza, os volcões. Um d’elles, o Popocatepetl, arroja-se, cingido de neve, a uma excelsitude de cerca de seis mil metros. A erupção de outro, o Orizaba, durou vinte annos. De um terreno perfeitamente plano levantou-se terceiro, o Jorullo, no correr de uma só noite a mil e duzentos metros de altura, cercado de duas mil boccas que expellem fumo! N’uma só noite, ouça bem, ergueu-se n’uma planicie lisa esse formidavel volcão. Curiosissimo, não acha?! E ha sentimentos que brotam de analoga maneira em corações virgens... Oh! não siga para diante amanhã, dom brazileiro. Não parta, meu amigo. Que lhe custa sacrificar alguns dias? No Mexico descobrirá largos materiaes para seus estudos, dilatará os seus conhecimentos, retemperará a sua experiencia, enriquecerá su’alma de novas affeicções. E será abençoado, querido, feliz... _Pordioseros_ chamam-se em nossas cidades os mendigos, porque supplicam esmola, _por Dios_,—em nome de Deus. Considere em mim uma inditosa _pordiosera_, digna de dó e de todos repellida. Por piedade não parta amanhã; não me abandone; ampare-me, salve-me, soccorra-me, perdoe-me,—que eu não sei mais o que digo, nem o que sinto, nem o que vai ser de mim...
E poz-se a soluçar, a face occulta nas mãos.
Quedei acabrunhado diante de explosão tão inesperada. Não me occorria uma só palavra em resposta. Que significava aquillo? Algum accesso hysterico?...
Simplesmente absurdo o que ella me propunha. Como interromper a minha viagem, esquecer a familia, descer e deter-me n’um obscuro porto, alheio do meu itinerario, em zona diametralmente opposta á do Brazil, e isso unicamente para satisfazer o subitaneo capricho de uma quasi desconhecida, sobre cuja reputação tantas ambiguidades pairavam?!
Se eu a attendesse, quantas complicações e contrariedades não poderiam derivar d’esse passo irreflectido?!...
Decorreram alguns minutos penosissimos. Lupe sempre a soluçar.
Mas, vendo que eu nada dizia, levantou-se altiva, passando dedos convulsos pela fronte, como quem expelle incommoda visão.
E deixou-me só, em face do eterno mysterio do firmamento e do mar.
O berço de Lupe
XI
Acapulco. Semi-circular a bahia, alastrada de ilhotas de pedra. Casas abarracadas de modesta apparencia bordam as praias razas. Morros graniticos, em amphitheatro, no fundo, erriçados de mesquinha vegetação.
Estreitos navios de cabotagem ancorados aqui e ali. Calor abafadiço. Silencio de inactividade e de tedio embebendo o ambiente. Ar de pobreza e de atrazo nas canôas que se acercam do _Colima_.
N’um dos rochedos que emergem das agoas, no centro da enseada e em face da povoação, acocoram-se alguns homens, totalmente nús. Escondem o rosto, quando passa por perto d’elles uma canôa; e a gente d’esta prorompe então em assobios e surriadas.
São vagabundos e ebrios da cidade,—soubemol-o logo,—que a autoridade local condemna áquelle original castigo: permanecerem despidos, durante horas, no pelourinho oceanico, expostos á irrisão dos bateleiros. Ai do que tentasse fugir, nadando! Pagaria carissimo a sua rebeldia contra o systhema penal acapulcano.
Entraramos ao amanhecer e esperavamos a visita aduaneira e a hygienica para ir á terra.
Muito pallida Lupe, mas affectando jovialidade. Ennumerava, com abundancia de gestos, aos circumstantes os edificios de Acapulco.
—Eis acolá a cathedral, mais adiante o mercado, e, do lado opposto, o castello de San Diego, celebre na quadra colonial.
Percebia-se que a insignificancia do seu torrão natal a humilhava um pouco.
A sua reduzida bagagem amontoava-se, prompta para o transporte, junto ao portaló. Ella e a mãi promptas tambem:—enluvadas, de chapéu. Causou-me pena observar que uma das luvas da moça estava rasgada e gasta nas pontas dos dedos; e a faceira procurava attentamente dissimulal-o.
Mas largo escaler se approxima, arvorando o pavilhão mexicano:— verde, contendo poderosa aguia de azas espalmadas que segura no bico uma serpente.
—É da alfandega,—murmura-se.
De pé, na prôa da embarcação, alguem faz acenos animados para o _Colima_.
Mrs. Hedges e a filha parecem reconhecer o autor de taes acenos.
Mal o escaler atracou, um individuo sóbe os degráos ás carreiras e se precipita, aos abraços e beijos, sobre as mexicanas.
Era o irmão de Mrs. Hedges, o tio de Lupe, para a casa de quem ellas iam. Simples guarda-fiscal, ou cousa que o valha,—o sustentaculo unico das recem-vindas.
Mas que grotesco typo o sujeito! Genuino caboclo, compridas guedelhas duras, pellos asperos esparsos pela face icterica, bocca descomedida, fortificada de dentes negros, confinando com superabundantes orelhas. Traja calças brancas aniladas e tão empastadas de gomma que sussurram quando elle se mexe, camisa frondosa de fólhos, gravata de retroz roxo fluctuante e uma ensebadissima fardeta, viuva da mór parte dos botões amarellos, deixando a descoberto as nadegas, onde a roupa se lhe enfuna em balão. Cobre-o no cocuruto do craneo diminuto bonet, emulo da jaqueta em oleosidades.
Via-se que o homem, em honra ás parentas, se esmerara na _toilette_.
O que, porém, enleia a attenção desde logo na sua figura é uma espada recurva e ferrugenta, que elle traz pendente da cintura.
Contrasta de modo a arma esdruxula com a vestimenta do cavalheiro que ninguem o olha sem vontade de rir.
E elle masca fumo, Santo Deus! N’um minuto, o soalho brunido do convez mosqueia-se de escarros escuros e fetidos, que o commissario de bordo manda limpar com ostentosa repugnancia.
E Lupe, tão elegante, tão habituada aos refinamentos do luxo, tão afeita á intimidade de todas as selecções, tão educada e satyrica, vai sahir com aquillo, morar com aquillo! Coitada!
D. Maria Augusta Gordó de Zorraquinos ri-se á socapa, contente e vingada. Miss Jackson examina o funccionario mexicano como uma raridade zoologica.
O engenheiro hollandez, Herr Pfeiffer, traça-lhe disfarçadamente a lapis a caricatura no livro de notas. O judeu, os mais passageiros e os officiaes trocam a meia voz ponderações chistosas.
Lupe, todavia, não trahe constrangimento. Com ares de altivo desafio, apresenta-o aos assistentes:
—Meu tio, a cuja bondade devemos o não ficar ao desamparo.
Elle aperta as mãos rudemente, resmungando palavras inintelligiveis e rindo muito.
São horas de partir. Lupe e a mãi comprimentam, proferindo trivialidades agradecidas sobre a boa companhia que encontraram na viagem.
A moça estende-me frouxamente os dedos, sem me encarar.
Descem a escada. O tio pega nas malas e as suspende aos hombros, como um carregador. Mas a espada o embaraça. Enfia-se-lhe, por entre as pernas, ameaçando derribal-o.
Eil-o que pára, desafivéla o cinturão, mette o chanfalho debaixo do braço e acompanha as damas, vergado ao peso dos volumes, deixando após si um rasto de cuspo.
O adeus
XII
A despedida indifferente de Lupe premia-me o coração. Agitava-me imperiosa necessidade de a ver ainda, de lhe dizer algumas palavras amistosas no momento de nos separarmos seguramente para sempre.
O _Colima_ só levantaria ferro á tardinha. Todos os passageiros desembarcaram.
Ninguem que viaje resiste ao prazer de pisar terra firme, beber agua fresca e variar de comida, após demorada travessia maritima.
Assás mofino Acapulcho! Ruas irregulares, desprovidas de calçamento, atulhadas de areia quente que tolhe e molesta os pés; raros transeuntes, caboclos na maioria; escassos recursos; predios somnolentos; atmosphera carregada de mórnas exhalações humidas; logarejo, em summa, antipathico e retrogrado, onde a gente sente-se indisposta e anciosa de se ir embora com maxima presteza.
Eu gyrava a esmo, em busca da moradia de Lupe. Ignorando o nome do tio, não me era facil descobril-a.
—Ah! já sei,—respondeu-me afinal um taverneiro. É a casa onde chegaram hoje duas fidalgas dos Estados Unidos. Espere que lhe vou mostrar o caminho.
Levou-me a acanhada rua de bairro remoto. Em face de uma vivenda baixa, caiada de amarello, agrupavam-se garotos, olhando curiosos para o interior. Occorria dentro alguma novidade.
—É alli,—ensinou o guia, apontando.
Agradeci e acerquei-me da porta designada.
Lupe e a mãi,—eis a novidade que desafiava o interesse dos ociosos. A moça falava, na sala que abria para a rua, a varias mulheres, entre as quaes algumas, como as pretas minas da Bahia, o collo e os braços nús, vestidas de simples camisas de renda decotadas e saias de babados, com muita roda.