Part 5
Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:--"Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"
Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe tranquillamente--_quem sabe!_"--e cahir desanimado no lethargo da duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito, opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.
A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe: --hypocrita!--porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas, que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração! --Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas, e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro, lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse aos que visse ao longe:--"não vos affasteis para aqui!"--Hypocritas são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas. Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que ella dá é inquietação e desesperança.
Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.
Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira. A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza. As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta, que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe de ser.
Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida, mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias. São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.
Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de todas as lembranças de Deus.
Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre as nevoas densas do duvidar de tudo.
O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas. Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo: nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença, lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro.
Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia: vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente: dizei-lhe:--"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade o mais eloquente dos homens!"--Dizei-lhe isto, e vereis esse engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia o vaso fragil que já não o podia conter.
Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal: outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças: o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e a regeneração da morte.
Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis, ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.
Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas, descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de saphyras em que se reclina a rainha da noite.
Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até se derramarem na terra.
Dae-me uma nota só dos canticos que eu então escutava; dar-vos-hei em troca toda a minha estupida e inutil sciencia!
Mas essa epocha da vida não voltará mais, porque não póde retroceder uma unica onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taça do mel esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere aquelle que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegará a hora de renascer para a poesia e para a certeza: será a da morte. A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que a espaços affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que nestes momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepusculo alguns raios transitorios de luz. A memoria é o instante de repouso, e a saudade o clarão suave que nos illumina.
Recordar-se--consolar-se.
* * * * *
I
A ALDEIA E O PRESBYTERIO.
Uma das cousas que nas recordações da juventude ainda espiram para mim poesia e saudade é a imagem de um velho prior d'aldeia que conheci na minha meninice. Hoje tão bondosos, tão alegres, tão veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu é que não sei conhecê-los. A auréola, que então rodeava as cans do sacerdote ancião, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia do mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outr'ora! Elle morreu já, por certo; mas vivo que fosse, eu não sentiria ao vê-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de confiança receiosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava. Parecia-me que estando ao pé delle estava mais perto de Deus, cujo valído, por assim dizer, era o padre prior. Não sabia o sacerdote essa lingua que eu cria falar-se no ceu, o latim, que então era para mim cousa mysteriosa e sancta? Não trajava ás vezes os trajos da côrte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em tres ou quatro antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas, depois da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurança, os tormentos do purgatorio, e os tractos intoleraveis do inferno, não juraria qualquer que elle já peregrinára largos annos além do sepulchro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas e tão solemnes terrores? Evidentemente o velho clerigo estava mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente, e, por me servir da linguagem politica, exercia em nome do céu uma delegação na terra; era uma especie de _missus dominicus_ da Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me escolhia para acolyto, para estafar a porção de latim do missal, que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio, sorriam-me as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento ás minhas pretenções infantis, como costumam sorrir ao requerente, a quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presença de omnipotente ministro.
Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro, e talvez barbarissima a sua prosodia: nas vestes sacerdotaes acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis como a igreja, por entre as transformações da moda e do luxo; nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau gosto do pobre pintor; e nas descripções das venturas e tormentos da outra vida descubriria unicamente uma incarnação grosseira em imagens materiaes das revelações profundas do espiritualismo christão. É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado, risonho, variegado, porque tudo transparecia através de um prisma de sete côres, da innocencia singela e credula da infancia; e hoje tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho e desbotado, passando através da atmosphera nevoenta e triste da sciencia e do orgulho. Então o velho parocho affigurava-se-me mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas, provavelmente só acharia para elle um bem modesto logar.
A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ella dilatava-se uma veiga, que ao longe, lá bastante ao longe, ía bater no mar. No alto da povoação ficava o presbyterio. Era a igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a bem presente) daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava, e a da restauração romana, que ainda se não comprehendia: era um desses templosinhos construidos nos fins do reinado de D. Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande numero resta ainda pelas parochias de Portugal, e que são mais um argumento de que os nobres conquistadores da India, donatarios das terras e padroeiros das igrejas, não voltavam do oriente com as mãos vazias. A devoção nesses tempos era um objecto de luxo: edificar uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote em S. Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapeu triangular.
A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares polystylos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente do mesmo estylo, estava já civilisada: uma porta rectangular substituíra a antiga. Esquadriadas estavam tambem as duas janellas do sobrado de differentes dimensões, e affastadas uma da outra; e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das vidraças. Não quero dizer com este elogio á morada do padre prior que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos progressos da civilisação. Pelo contrario. Estava mais alindada ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na fabrica, havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo o que era azulejo. As camaras municipaes das grandes cidades, os conegos das collegiadas e sés ainda não passaram do ochre; e uma pobre irmandade da aldeia já tinha ha vinte annos vencido a méta a que apenas hoje chegam o municipio e a cathedral.
O que, porém, escapou ao ochre e ao vermelhão dos mesarios do burgo foram dous seculares e formosos platanos que sombreavam o portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa tão furiosa pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas dignidades ecclesiasticas, admira que tenha esquecido estender o beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos das velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praças. Verdade é que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto é melhor: mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando com as lindezas e alegrias canonico-municipaes?
Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no todo com as suas sombras fechadas, e só pela volta da tarde, principalmente no outono, é que algumas resteas açafroadas do sol no poente se estiravam por debaixo delles, e lá íam bater frouxas no limiar da igreja pulído do contínuo perpassar, e na porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo começavam a alvejar os remendos brancos com que as revoluções converteram os áditos dos templos em pelourinhos eleitoraes.
Á entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada de preto, em cuja haste mãos devotas tinham atado um ramo de flores, e este ramo, no meio do qual havia um pé de perpetuas, era a imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do calvario, immutavel no meio dellas. As outras flores tinham-nas mirrado os ardores do estio: só restavam do morto ramilhete as immarcessiveis perpetuas.
Era n'um poial que servia de base á cruz, onde áquella hora do pôr do sol o padre prior vinha muitas vezes sentar-se; e alli estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões do mar, que lá em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas rochas, ora traçando attentamente na terra com a sua grande bengala de castão de marfim diversas figuras, se geometricas não o sei dizer, porque hoje não creio tanto na geometria do padre prior como então cria nas suas terriveis revelações do outro mundo tiradas do _Speculum Vitae_. O que, porém, eu sentia melhor do que hoje, sem então o saber explicar, era a suave e profunda poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do symbolo religioso, áquella luz moribunda da ultima hora do dia, em que uma curta saudade melancholica vem como percursora da noite pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse tempo, mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em quanto a bengala ía d'um para outro lado cruzando linhas tortuosas e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle tinha adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa congrua para enxugar lagrymas de viuvas e de orphãos; os conselhos paternaes dados á mocidade, salva assim por elle de largos dias de remorsos e amargura; os odios convertidos em perdão entre inimigos; as dissensões domesticas pacificadas pela conciliação do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos elle havia semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo que alvejavam caiadas na orla pallida dos campos até o altar do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma, n'esses momentos de extasi, em rica seára de esperanças, cujos fructos enthesourava no céu. Depois, a cruz hasteada juncto delle lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregára, dos sacrificios que fizera para verter algum balsamo de ventura nas chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas transviadas do pobre rebanho que lhe fôra confiado. A cruz negra no seu eloquente silencio contava-lhe sacrificios infinitamente mais arduos que os delle, feitos, não em proveito d'uma aldeia ou d'um povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via ás vezes deixar pender a fronte calva sobre o peito, e tomar-lhe o rosto uma expressão singular, inexplicavel nessa epocha para mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espirito a terrivel comparação das suas acções com as do Suppliciado do Calvario, ao qual tomára por modelo, e que jurára imitar. Muitas vezes espantava-me de que se conservasse assim engolfado em seus pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e na minha alegria da infancia, vendo-o tão triste e carrancudo, pensava comigo, que o padre prior se ía tornando com a idade tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos de meditação volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida, onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de obras virtuosas; mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, não os percebia senão como uma nuvemsinha escura e duvidosa através da luz immortal das virtudes e dos beneficios do Christo.
Ao tocar, porém, das ave-marias todas aquellas imaginações desconsoladas, se elle as tinha, como hoje creio, desappareciam por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se erguer, aquelle para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre ellas o seu chapéu de tres ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o padre prior murmurava em voz baixa aquella tão poetica oração do despedir do dia. Os trabalhadores, que, voltando das fadigas do campo, acontecia passarem por ahi nessa occasião, descobriam-se tambem, e encostando-se ao ancinho ou á enxada punham as mãos e resavam até que o reverendo, acabando os latinorios, que elles íam repetindo em vulgar, lhes dizia:--Boas noites, rapazes, vá a cobrir."--E os ganha-pães cobriam-se, respondendo:--Guarde-o Deus, padre prior:"--E partiam: e elle assentava-se outra vez a olhar para o poente, onde o sol, que se affundíra no mar, deixava entre si e a noite, precipitando-se após elle das alturas do céu, uma barra de vermelhidão e ouro, que se estirava para um e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho ás trevas. E alli estava scismando até que a tia Jeronyma alçava meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade á cozinha, e o chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque cumpre advertir que o padre prior não só respeitava á carga cerrada todas as tradições do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve ser comida sem sol, sem luz, e sem moscas, momento fugitivo do expirar do dia, que não consta deixasse jámais passar por alto a boa da tia Jeronyma.