Part 6
Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular da atmosphera, as gelosias dos aposentos inferiores da residencia parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças christans, se esse illustre escriptor houvesse uma vez saboreado as filhós que ella compunha para celebrar o Carnaval;--e os seus bolos da Natividade--e a sua ôlha e o seu anho assado da Paschoa. Não!--Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitações, nunca hei-de affastar-vos impaciente quando vierdes, como creança travessa, baralhar-me um periodo de trabalhada prosa, ou aleijar-me com um verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos, que para vós esta fronte não saberá arrugar-se; esta bôca não terá esses monosyllabos duros e gelados com que se repellem importunações d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e palrae por uma hora, por um dia, por uma semana, que vos escutarei sempre sorrindo; e quando fôr ao sol posto, que os ouvidos da minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas as lentas badaladas das ave-marias, não como agora as ouço ás vezes no meio do ruído confuso, aspero, estridente do povoado, mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando pela veiga, espriguiçando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas da encosta ou pelo pinhal do cabeço, e indo morrer lá muito ao longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no tinir das esquillas de um rebanho de ovelhas, que se encaminham pára o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras, campestres, vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte immenso, e ter-me-heis despertado um affecto consolador, o qual valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos, que todas as esperanças do mundo.
Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo. Desde a existencia objectiva ou material deste mundo até a legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra retouçando pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe trazerem á praça os prós e os contras? Das definições possiveis do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os sinos têem tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão porque sobre tudo ha duas opiniões contradictorias. É que tudo tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a arvore que veceja no recosto septentrional da montanha, e açoute da que vegeta no pendor opposto: o norte é o supplicio da primeira, e grato para a segunda. N'isto está cifrada a historia das contradicções humanas.
Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de mosteiro solitario, são uma cousa poetica e sancta: os sinos, pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades de hoje, são uma cousa estupida e mesquinha. O sino é um instrumento accorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados. Assim como o orgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas de uma cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo modo o sino foi perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes sectarios occupados nos trabalhos campestres. Quando se associou o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi a religião serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da terra a acceitaram para si, então entrou elle nas cidades soberbas. Lá converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente. É mais um ruído intoleravel para ajunctar aos outros ruídos discordes que troam por essas ruas e praças. O sino, tornado cortesão e fidalgo, é semelhante ao orgão trazido para o aposento do baile, ou, o que vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas, vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admirações de parvos.
E com estas digressões esquecemo-nos do padre prior. Não importa. Deixa-lo ceiar em paz, e resar o breviario. Eram estas, entre outras, duas phases graves e sérias de todos os seus dias. Depois, emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava em um livro da pequena estante que lhe ficava á cabeceira, e lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto d'aquellas grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, até que o somno tranquillo de uma boa e san consciencia, apertando-lhe com os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos que só a alvorada vinha interromper, quando o perigo imminente de alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se alta noite, ao som do resmungar malsoffrido e, até certo ponto, impio da tia Jeronyma. No horisonte limpo e sereno destas duas vidas innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados um no outro íam peregrinando contentes para o sepulchro, havia um ponto negro e triste. O rendimento da parochia não consentia que o padre prior _possuisse_ essa especie de ilota _in sacris_, de servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias, as chuvas, as noitadas através das serras revertiam como a congrua e os benesses em beneficio, senão do corpo, ao menos da alma do reverendo prior.
A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos da parochia, jogava-os á risca todas as noites em tertulias um digno commendador não sei de que ordem. Ai, que a extincção dos dizimos foi a morte da religião!
* * * * *
II
NOITADAS PAROCHIAES.
A vida do velho prior passava na verdade dura e trabalhosa! Como todas as cousas deste mundo, o egoismo da tia Jeronyma não era acabado e completo, ou, para falarmos em estylo de philosophia fidalga, não era absoluto. O limitado e imperfeito é o signal que o Creador estampou na fronte do homem e na face da terra para nos recordar a todo o instante a nossa origem; é a barreira que elle alevantou diante d'este grande mysterio de energia e de audacia chamado a intelligencia. Sabedoria, força, paixões, affectos, tudo tem um horisonte commensuravel; horisonte para as virtudes como para a dor. O espirito mede e abrange o que ha mais vasto e profundo, os ermos, os mares, o coração humano; porque ao cabo d'isso tudo está o finito. Immensa, eterna, absoluta só ha uma idéa, que está fora do universo. Esta é a idéa de Deus.
Por isso, grande é somente Deus!
Mas dizia eu que o egoismo da tia Jeronyma era incompleto: digo mais; era incompletissimo. Quando o sacristão vinha alta noite quebrar o dormir risonho e variamente resonado do padre prior; quando á voz roufenha do ostiario aldeião, despertando o pastor para ir levar as consolações extremas á ovelha moribunda, e tira-la lá, porventura, dos dentes e garras do cão tinhoso, se ajunctava o trovejar ao longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraças progressivas das meias janellas, e o ramalhar da ventania nos dous platanos do adro, era sem duvida que o resmungar da tia Jeronyma, apparecendo da banda da sua pocilga com a candeia mortiça na mão e as roupinhas vermelhas do envez, tinha o que quer que fosse repugnante e vil. A boa da velha pensava, acaso, que a morte não seria tão descortez que negasse ao espirito do pobre moribundo o tempo necessario para poder, ao abandonar o corpo, subir como chammasinha tenue, e galgar para o céu sobre um raio do sol nascente? Póde ser que sim. Não seria, porém, antes, que ella preferisse o deixar frigir por alguns seculos nas caldeiras do purgatorio aquella pobre alma christan, largando a sua veste mortal sem os ultimos sacramentos, á necessidade de erguer-se por noite fria e tempestuosa para tomar nos hombros uma parte da cruz do ministerio parochial? Tambem isto póde ser. O que se passava no abysmo da sua consciencia cousa era que ella não revelava a ninguem; mas em todo o caso era um pensamento egoista.
Todavia é preciso confessar que com elle se misturava um sentimento puro e nobre: dizia-o esse cuidado pressuroso com que a tia Jeronyma trazia as botas de côr terrea, o berneo de saragoça, o capote de barregana, o chapeirão oleado, e a aguardente de ginjas, sem um copo da qual o prior não ousaria transpôr o limiar da porta, e investir com as furias da noite procellosa: diziam-n'o a attenção com que mirava se elle ía agasalhado, e as mil vezes repetidas ponderações hygienicas, que lhe fazia com admiravel volubilidade de lingua. A affeição da sancta velha mostrava-se em tudo isso viva e sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das voltas, e do perguntar e do responder, ía rareando e abatendo como o assobio do furacão pelo valle, perdia gradualmente a expressão de egoismo, e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento moral.
E o padre prior calado!--Calado enfiava as botas; envergava o gabinardo; cobria-se com o capote; punha o amplo sombreiro; enchia um copinho do excellente cordial que a boa da ama lhe havia posto diante; virava-o d'um golpe; fazia uma visagem fechando os olhos com força e estendendo os beiços; dava um estalído com a lingua no céu da bôca; exprimia o intimo conforto que n'elle gerára o ethereo licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena taça, cheia de novo, ao sacristão, que, mestre nos estylos de cortezia, se curvava formando com o corpo um angulo obtuso de noventa e cinco graus, despresadas as fracções, e arqueando o braço para levar o copo á bôca sequiosa, como se curva e arqueia um peralvilho de guedelhas sansimonianas e miolos de agua chilra, ao conduzir em sala de baile a deusa dos seus affectos de vinte e quatro horas ao meio do turbilhão doudo e (perdoe-se-nos a blasphemia) um tanto parvo das valsas e contradanças.
Depois duas palavras magicas saíam da bôca do reverendo pastor:--"Até logo!"--O seu effeito era instantaneo: o sacristão, pegando n'uma lanterna, com as chaves da igreja na mão encaminhava-se para o adro seguido do padre prior: a tia Jeronyma fechava a porta após elles; e o tentador, como se estivesse esperando por esse momento, travava-lhe novamente do espirito, e o resmoninhar da impaciencia recomeçava em breve, acompanhado do ranger do linho na roca, e do espirrar da candeia a espaços, e do respiro asthmatico do nedio gato do presbyterio, que, enroscado na lareira, abria de quando em quando os olhos amortecidos, e cerrava-os logo com philosophica indifferença, emquanto a tia Jeronyma esperava por seu velho amo, e se lhe apertava o coração sentindo o temporal que passava lá fóra, e lembrando-se de que o enfermo poderia ter guardado para hora mais decente e commoda a agonia do passamento.
E pela serra fóra, caminho de casal remoto, vae o velho prior: adiante o sacristão com a lanterna e a ambula da extrema-unção, e elle atrás com o ciborio. As poças de agua reflectem essa debil claridade que as alumia, e fazem um continuo plach, plach, debaixo dos pés dos dous caminhantes, cujo passo apressam as cordas de chuva batida pelos furacões do sudoeste. Os pinheiros balouçando-se gemem tristemente, e os enxurros, estrepitando pelos corregos, tiram com o pinhal uma toada soturna.
No céu profundamente negro não apparece uma estrella: na terra ao longe, bem ao longe, não se descortina uma luz. A natureza debate-se comsigo mesma: tudo dorme, entretanto, nos casaes e na aldeia, salvo o velho parocho e a familia daquelle que em trances mortaes espera o representante do Christo, que lhe traz as derradeiras consolações e esperanças. Entre a philantropia humana e as agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a tempestade ergueram uma barreira quasi insuperavel: esta barreira desapparece, porém, diante da caridade que a todos nos ensina o Evangelho, e que ao parocho impõem como dever imprescriptivel a sua missão sacerdotal e o seu caracter de pae dos pobres e affligidos.
A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas alpestres exposto ás inclemencias de noite invernosa, talvez em aposento bem resguardado, no fim de ceia brilhante, entre as taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e voluptuarias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum famoso espirito forte cirzia remendos das paginas soporiferas d'Holbach ou de Diderot, e dissertava profundamente sobre a mandriice, egoismo e cubiça do clero, ou carpia a superstição do povo, que, para ser completamente feliz de nada mais precisa do que de abandonar as crenças do christianismo e de amaldiçoar as esperanças de Deus, o conforto unico da sua vida de miseria, de trabalho e de amargura. E naturalmente os neophitos daquella triste philosophia extasiavam-se em redor do sabio philantropo, que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos, e de grossa sciencia, só lamentava a ignorancia daquelles a quem muitas vezes faltava então, falta hoje, e faltará de futuro um bocado de pão negro para matar a fome; extasiavam-se alli diante da sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, emquanto a virtude do velho clerigo, exercitada nos desvios dos montes e no silencio da noite, não tinha por testemunhas senão um céu humido e cerrado, e o vulto impetuoso e bramidor da ventania; mas que, em vez das lisonjarias de parvos, tinha para o applaudir a voz sincera, consoladora e sancta da propria consciencia.
Havia, porém, no fim de tudo, uma differença entre o homem do evangelho e o da falsa sciencia. Era o systema das compensações. O padre prior, depois de cumprir com o seu dever, voltava ao presbyterio tranquillamente: tirava o capote alagado, despia o gabinardo felpudo, sacudia a uma distancia razoavel as ponderosas botas, e enfiando-se entre os grosseiros lençoes, atava o fio do somno no ponto em que o deixára; e emballado brandamente por sonhos apraziveis, só acordava sol nado e alto, ao bradar da tia Jeronyma, e ao cheiro da açorda fumegante; almoço que, como tudo o que era consagrado pelos seculos e pela tradição, elle profundamente respeitava.
E o nosso philosopho? O nosso philosopho, recolhendo-se alta noite, ía todo o caminho provando a si mesmo que não ha diabos no mundo, nem almas, nem talvez Deus; mas sentindo arripiarem-se-lhe os cabellos ao vêr dançar a phosphorescencia d'algum marnel, rezando o credo em cruz ao passar por algum cemiterio, benzendo-se ao ouvir piar algum mocho. E depois de se deitar e adormecer sonhava.... Em quê? Nas combinações infinitas da materia eterna de que deve, _segundo as boas doutrinas_, ter rebentado o universo? Não! Sonhava com as penas do inferno; e ao acordar pela manhan com defluxo, pedia confissão e sacramentos.
Já lá vão vinte annos! Bom tempo era esse, ao menos para mim, que ainda nem sabia da existencia do animal chamado philosopho, classificavel entre os _rodentia_, pelo medroso e damninho. Em vinte annos que voltas tem dado o mundo! Aquella especie vae-se acabando de todo. Auctores de comedias apressae-vos! Antes que se perca o typo, levae o incredulo ostentoso á scena. Dae-nos algumas noites de rir doudo e inextinguivel.
Os dias do padre prior corriam assim placidamente para o seu viver intimo, posto que o duro mister de parocho lhe entenebrecesse muitas vezes os horisontes da vida material. E que importava, se todos na aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam como a summa bondade, e o que não era menos, como a summa intelligencia da parochia? Até o barbeiro, o proprio barbeiro, homem entendido e grave em materias de eloquencia sagrada, não constava houvesse jámais torcido o nariz ás praticas e sermões do padre prior, que elle, com a mão sobre a consciencia, punha acima dos melhores de frei Timotheo, um fradalhão arrabido, cousa brava em gritarias ao divino, que por via de regra se incumbia das domingas de quaresma naquella freguezia e nas circumvizinhas com acceitação e applauso universal do auditorio, mas cuja fama era offuscada pelos periodos singelos do velho sacerdote, repassados de uncção, e daquella eloquencia de missionario, que, apesar de rude, lá vae fazer vibrar o coração do povo, afinado pela crença viva, como a harmonia que se tira das cordas de dous instrumentos accordes.
Agora por isso, o que será feito de frei Timotheo?! Era naquelle tempo um frade guapo e alentado! O que será feito delle? Se ainda vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital; venderam-lhe o convento, o seu tonel de Diogenes; prohibiram-lhe o capuz e as sandalias, o seu direito inauferivel de andar trajado como lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para o mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao capuz e ás sandalias. Bom passaporte para frei Timotheo transitar pela valla plebea do cemiterio nos braços morbidos e suavissimos da fome! Foi um progresso de civilisação, que se completou pelo lado moral com o augmento das loterias, das casas de cambio, e das traducções de novellas e dramas francezes. Bemaventurada a tão esperta nação que assim comprehende o progresso!
Duas cousas, porém, mais que as práticas e sermões, serviam para engrandecer e glorificar o padre prior, não só diante dos homens, mas tambem diante de Deus. Era a primeira o incansavel zêlo com que se applicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concordia domestica, a prégar o trabalho, a guerrear a embriaguez, e sobretudo a sanctificar pelo casamento as affeições illicitas: era a segunda o fervor modesto e o innocente luxo com que procurava celebrar as festas religiosas, principalmente a de S. Pantaleão, orago da freguezia, e de quem tanto os aldeiões como o velho presbytero criam affincadamente possuir o metacarpo da mão direita, o qual devia ser de outro sancto, ou não-sancto, se acreditarmos (eu cá pela minha parte acredito) os parochianos da sé do Porto, que se gabam de ter debaixo de chave S. Pantaleão _in totum_, sem lhe faltar dedo de pé nem de mão, quanto mais um metacarpo inteiro.
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III
UMA ESCORREGADELA.
A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me lembra uma velha viuva, a senhora Perpetua Rosa (Deus lhe fale na alma!) que morava ao cabo do logar n'uma barraquinha á beira do rio muito caiada, com seu rodapé de vermelhão, e sombreada por cinco ou seis choupos que nasciam da agua. Tinha ella (a velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não havia mais dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de quatro annos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doudos por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na casa da brincadeira[1], a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar este mundo e o outro, mirando da sua rotula o que se passava á entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio, notava que, apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam após ella com muita mais furia e pressa do que pela manhan haviam corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes d'isso já a boa da velha tinha reparado no modo por que elles se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente uns dos outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pôr dos barretes á banda, nos olhares que mutuamente se lançavam, no pegarem em seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de competencia, sem dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes a robustez do proprio braço. D'isto tudo tirava a tia Jeronyma agouro de muita pancadaria,--"por amor daquella delambida--dizia a ama do prior em suas caridosas murmurações--que anda toda arrebicada por baralhotas, em quanto a pobre da mãe moureja todo o sancto dia ao sol e á neve naquelle rio, para ganhar um bocado de pão sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!"
E o mais é que a tia Jeronyma não se enganava nas suas previsões. Chegou vespera de Reis: houve á noite brincadeira ou baile extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se viola, dançou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu a esperar entre os lençoes os sanctos _Reis magnos_, designação popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora na Epiphania.
Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos tres sanctos personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior uma daquellas noitadas que suscitavam a colera da tia Jeronyma, e de que já acima fiz honrosa e especifica menção.
O Manuel da Ventosa era filho unico d'um moleiro ricaço, chamado Bartholomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Satanáses. Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de caír em graça á Bernardina. Amoricos d'aqui, amoricos d'acolá, janella na cara a um, respostas tortas a outro, segredar e rir de vizinhas, raivas de desprezados: somma total--zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era o enlevo de todos os corações.
Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrificio; os desprezos cresceram com a vingança. O que começára por passatempo converteu-se em paixão violenta: um fogo íntimo devorava a alma de Bernardina, e desbotava-lhe as faces, d'antes tão frescas e rosadas como as de um seraphim da peanha da Senhora da Conceição, obra de esculptor insigne. No Manuel da Ventosa, isso não falemos: quando melhorou da _doença_ andava entre parvo e abstracto: attribuia-o o licenciado dos sitios a depressão cerebral produzida por alguma ripada nas vertebras; mas, se existia depressão de cerebro, outra era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia jurava e tresjurava que o moço moleiro tinha a espinhela caída. Historias. Eu, apesar de ser então uma creança, sabia bem onde batia o ponto; por isso nunca fui para ahi.
Por encurtar razões: os dous amavam-se como loucos. As pessoas desinteressadas achavam-nos um par completo; e com bom fundamento: o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, unico herdeiro de ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da aldeia, ás quaes, conforme a direito, incumbia pôr ao soalheiro a vida privada de cada uma, no capitulo da honra nunca se tinham atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpetua Rosa. Podia a senhora Perpetua Rosa gabar-se dessa! E de feito, muitas vezes, mettida no rio até os joelhos, em discussões acaloradas com as suas illustres amigas, as outras lavadeiras pelo circulo de Lisboa, a ouvi empraza-las para que formulassem precisamente certas interpellações infundadas, rejeitando com desprezo alguns remoques bernardos relativos a Bernardina, e appellando para a opinião do paiz representada pelos seus orgãos, as beatas do soalheiro.
Mas se os dous se amavam com tanto extremo, e eram feitos e talhados para puxarem o mesmo carro matrimonial, porque não íam pedir ao padre prior o _conjungo vos_? Ahi é que certo animal torcia certa parte do corpo, que eu e o leitor sabemos. Por não terem pedido esclarecimentos sobre o facto é que as lavadeiras faziam declamações vagas.