Introdução á archeologia da peninsula Iberica

Part 11

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Na Peninsula não têem explorado methodicamente os dolmens e os tumulos. Apenas consta de certos objectos n’alguns encontrados. O sr. D. Manuel de Gongora, por exemplo, achou em varios dolmens da provincia de Jaen ossos dispersos, armas de cobre, anneis do mesmo metal, fragmentos de louça e armas de silex. Este observador, entre outras leis, applicaveis aos dolmens que observou, estabeleceu as seguintes:

1.ª Entra-se n’estes monumentos por estreitas passagens feitas de grandes pedras, excepto nos de Dilar e nos de Gitanos.

2.ª Excepto os das _Majadas del conejo_, todos são quadrangulares.

3.ª Interiormente os dolmens estão lageados com grandes pedras.

4.ª Excepto um sómente, em que apparece uma peça de bronze, em nenhum se encontram armas ou objectos que não sejam de pedra ou de cobre.

5.ª Os cadaveres apparecem collocados em leitos horisontaes e com pequenas pedras em redor dos craneos[116].

Aos dolmens de Portugal não são applicaveis as leis 2.ª e 3.ª. As outras sómente depois de novos estudos se poderão verificar. O sr. Pereira da Costa encontrou machados de pedra nas antas de Alcogulo e n’outras[117]. N’uma de Niza appareceu a grande cabeça da lança de silex fig. 14. Na anta de Bellas encontraram-se facas e pontas de frechas de silex, contas de collares de schisto e de calcareo, o fragmento de osso esculpido com ornatos triangulares fig. 30, e uma machadinha de schisto similhantemente ornada, e do mesmo genero d’aquella que appareceu em Monte-Real, e a fig. 31 representa. N’uma anta de Pavia appareceram quatro machadinhas similhantes de schisto com os mesmos ornatos triangulares.

Na sepultura de Martim Affonso, perto de Muge, encontraram-se objectos do mesmo genero, e a notavel insignia de schisto que suppomos ser um baculo, fig. 33. D’este logar, importantissimo para o estudo da prehistoria em Portugal, nos deu o sr. Pereira da Costa as seguintes informações: «A sepultura de Martim Affonso não é, como á primeira vista parece, de sujeito assim chamado, mas um sitio que é conhecido por este nome, na propriedade do duque de Cadaval (residente em Paris). Esta sepultura era de tres lages compridas e duas estreitas nas extremidades, e tinha um capeamento de lages pequenas. Dentro continha ossos de um esqueleto, dos quaes só se aproveitaram alguns fragmentos de ossos longos, e o mais que V. viu no Museu. Esta propriedade do duque é nas margens da ribeira de Muge, e perto do Cabeço da Arruda, que tambem pertence ao mesmo duque».

Depois de fallar do baculo, em que não considera a fórma d’esta insignia, porém a do phallus, accrescenta: «Com esta peça, além dos ossos, havia nove facas de silex, uma cabeça de lança de silex, e varios vasos pequenos de barro».

Nos dolmens de Portugal não têem até hoje apparecido objectos de cobre ou de bronze; mas as explorações feitas são mui poucas ainda para se deduzir d’ellas uma lei geral. É possivel que os dolmens, onde se encontraram as insignias de schisto pertençam já á época do bronze, apesar de se não ter achado n’elles esta liga metallica. A sepultura de Martim Affonso, onde appareceu o baculo, prova-nos que o povo que usava taes insignias sabia construir sarcophagos para os cadaveres, o que denota certo grau de civilisação. Em quanto porém se não explorarem mais antas e mais methodicamente do que até hoje, não será possivel passar além d’esta conclusão, cuja importancia, ainda assim, não é pequena. As insignias de schisto são caracteristicas, e, só de per si, denunciarão o povo ou um dos povos constructores dos dolmens, logo que se encontrem n’outras partes. Infelizmente não consta que até hoje se tenham descoberto fóra de Portugal. Na Scandinavia têem apparecido umas enxadas de pau de veado com esboços mais rudes que os do Périgord, e que representam quadrupedes, corsas talvez. Ao lado d’estes esboços vêem-se traços rectilineos formando os desenhos triangulares das nossas placas de schisto. Se a esta circumstancia accrescentarmos que os dolmens mais similhantes ao maior numero e tambem aos mais imperfeitos de Portugal são os da Dinamarca, persuadir-nos-hemos de que ha toda a probabilidade de que gentes da mesma raça povoariam ou civilisariam nos tempos prehistoricos certas regiões da peninsula Iberica e da peninsula Scandinava.[118]

Se os dolmens são contemporaneos das nuraghas, as excavações feitas n’estes monumentos devem dar resultados comparaveis áquelles que temos mencionado. Apesar das poucas explorações até hoje emprehendidas, sabe-se que nos talayots das Baleares[119] e nas nuraghas da Sardenha se tem encontrado objectos de cobre e de bronze. N’algumas d’esta ultima ilha têem apparecido facas de silex. Portanto a maior parte de taes construcções remontam á epoca do cobre ou do bronze; e algumas á epoca da pedra polida. Isto mesmo se confirma pelo apparelho. Umas, de pedras brutas, são anteriores provavelmente á invenção do cinzel; outras, de pedras afeiçoadas, manifestam já a acção de instrumentos de metal. Affirma o abbade Spano que algumas nuraghas são feitas na parte inferior de pedras brutas, e na parte superior de pedras apparelhadas, parecendo aquella da epoca da pedra polida, e esta da idade dos metaes. O apparelho irregular corresponde a uma camara inferior; o regular a uma camara superior que posteriormente sería accrescentada á primeira. Demais são frequentes estes casos de accrescentamentos e reparações das nuraghas primitivas em varias epocas[120]. Dos poucos estudos até hoje emprehendidos nos dolmens de Hespanha e de Portugal deduziremos os seguintes corollarios:

1.º Os dolmens da Peninsula, como outros da Europa, como as nuraghas da Sardenha, foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do bronze ou do cobre.

2.º Geralmente fallando, os dolmens de Portugal são mais imperfeitos que os da Andaluzia.

3.º É provavel que a antiga raça que na Scandinavia construia os dolmens e fabricava enchadas de ponta de veado fosse a mesma que na Iberia occidental construisse ou introduzisse o costume de construir os dolmens, e se servisse de insignias de schisto com ornatos triangulares.

Para que serviriam os dolmens ou com que fim os erigiriam? A opinião mais commum é que os dolmens serviriam para guardar as cinzas dos mortos. Assim se explica até mui naturalmente a origem de taes monumentos, considerando-os ou como um meio de supprir a falta das cavernas sepulchraes, ou como um aperfeiçoamento ou desenvolvimento do montão de pedras que primitivamente lançariam sobre o cadaver. Tambem não ha impossibilidade em crêr que o dolmen, erigido primeiro sobre o cadaver, no proprio logar da morte, fosse depois construido onde parecesse mais conveniente, e o cadaver transportado do sitio, em que jazera, para a sua nova morada.

Consideraram os dolmens, como sepulturas, por conterem muitos d’elles esqueletos inteiros ou ossos humanos dispersos. Na opinião de Rougemont, além d’esta especie que chama _dolmen-tumulo_, haveria o _dolmen-pia_ ou _tumulo-altar_ cuja mesa com regos e concavidades serviria para receber o sangue das victimas; o _dolmen-altar_ e o _dolmen-templo_[121]. Será difficil senão de todo impossivel reduzir sempre qualquer dolmen a alguma d’estas especies. O auctor da classificação entende que, para que um dolmen não seja considerado como sepultura, bastará que dentro n’elle não appareçam ossos humanos, ou, se apparecerem, que estejam desligados e dispersos. Mas a falta de ossos humanos debaixo do dolmen, ou acharem-se estes dispersos, como se fossem de victimas, não é motivo sufficiente para o reduzir a qualquer das duas ultimas especies, porque em todos os tempos a terra interior dos dolmens tem sido revolvida por animaes, e por homens a quem incita o desejo de encontrar thesouros escondidos. Nas antas de Portugal não consta que se tenham descoberto ossos. É provavel que, exploradas em maior numero e mais methodicamente, n’algumas se encontrem, como tem acontecido em Hespanha.

Lubbock, depois de examinar attentamente estatisticas de centenares de explorações de dolmens e tumulos, conclue não positiva, mas provavelmente que, na Europa occidental, a posição do cadaver assentado corresponde á epoca da pedra polida, a cremação á de bronze, e finalmente a posição horisontal, á de ferro[122]. Já vimos que na Andaluzia os cadaveres encontrados dentro nos dolmens estavam na posição horisontal, devendo ter sido submettidos á cremação, se fosse verdadeira a regra que se pretendeu estabelecer em Inglaterra.

Porque seriam a maior parte dos dolmens da epoca do bronze, feitos de pedras por afeiçoar e sem vestigios do emprego do cinzel? Não parecerá improvavel que o homem, possuidor já dos instrumentos de metal, prescindisse d’elles nas mais importantes das construcções, destinadas a proteger, a recommendar talvez á veneração da posteridade os restos mortaes dos seus maiores? Nota-se geralmente nas cousas de culto, ou relacionadas com o culto, uma decidida propensão da parte do homem para perpetuar os costumes antigos, ainda quando o progresso da civilisação, a mudança completa das condições sociaes os torne desnecessarios ou obsoletos. É commum encontrar nas sepulturas da epoca do bronze armas de pedra, e objectos de bronze nas da epoca do ferro. Os hebreus e os romanos, já em tempos historicos, serviam-se ainda das facas de silex em certas ceremonias. Mas ainda no genero das construcções megalithicas se demonstra esta mesma lei. Moisés descendo do monte Sinai, e transmittindo aos hebreus os preceitos attribuidos á Divindade, recommenda-lhes que, se levantarem algum altar, não seja de pedras lavradas, porque ficaria polluido aquelle que o cinzel tocasse[123]. Ora, assim como os hebreus, na idade dos metaes, não os empregavam n’aquelle tempo para edificar os seus altares, assim tambem quaesquer povos prehistoricos poderiam conservar por certo espaço de tempo o costume de não tocar as pedras dos dolmens com instrumentos de metal, continuando a construil-os, como as gerações da idade da pedra,--_more majorum_.

O altar de Moisés, sem degraus, feito de pedras por afeiçoar, não tocadas pelo cinzel, faz lembrar naturalmente o dolmen da epoca do bronze, sem vestigios de instrumentos metallicos. Mas a epoca da pedra polida e a epoca do bronze exprimem-nos apenas, como as epocas geologicas, phases successivas da evolução industrial. De modo nenhum nos dizem, por exemplo, ha quantos seculos se passaram esses factos prehistoricos. Depois, não tendo sido synchronicas as epocas prehistoricas entre os varios povos, pouco importa que n’uma ou n’outra região se tenha conseguido reduzil-as ás epocas historicas, ou antes tornal-as a todas comparaveis. Vejamos porém se, relativamente á Peninsula, haverá algum meio de chegar a determinar a antiguidade dos dolmens, ou ha que tempo terão passado a epoca da pedra polida e a do bronze. O problema não se póde resolver inteiramente; e, na parte em que admitte solução, é só por meio das construcções cyclopeas, de que já nos soccorremos com vantagem para a determinação das epocas prehistoricas, em que os dolmens foram erigidos.

Os povos pelasgicos, habitantes da Sardenha, e da Etruria associados aos libycos, invadiram, treze ou quatorze seculos antes de Christo, o Egypto, e não duvidaram acceitar batalha ao exercito do pharaó. Patentêa-se claramente que, sem terem chegado a certo grau de civilisação, não se abalançariam a tal empreza. Mas, tendo sido derrotados, deixaram entre os despojos, armas e outros objectos que melhor nos deixam avaliar esse grau de civilisação. Serviam-se de utensilios de bronze, prata e ouro[124]; e como por outra parte a destruição de Troia foi mil e duzentos annos antes de Christo, e entre os objectos encontrados por Schliemann não apparece tambem o ferro, concluiremos que os povos mediterraneos estavam por aquelle tempo na epoca do cobre ou do bronze. Ora, se as nuhragas foram construidas na epoca da pedra polida e na do cobre ou do bronze, os mais antigos dos dolmens, seriam erigidos na Peninsula antes d’aquella batalha, isto é anteriormente ao seculo XIII ou XIV. Convém notar que o facto referido de Moisés succedeu no seculo XVI antes de Christo. Eis aqui pois até que ponto actualmente se póde resolver o problema da antiguidade dos dolmens peninsulares; seriam anteriores os mais antigos á batalha dos povos mediterraneos com os egypcios no tempo de Ramsés II.

Estaría porém a navegação tão adiantada na epoca da pedra polida que um povo, precursor dos phenicios, podesse dilatar-se do sul ao norte pelas costas occidentaes da Europa? Dois factos responderão a essa pergunta. Ha alguns annos desenterrou-se da vasa de um paúl irlandez um barco prehistorico, feito de um tronco de carvalho, excavado a fogo e pedra. No fundo tinha uma lamina de cortiça, indicio certo de que o barco teria ido da Iberia ou do meio-dia da França para a Irlanda, se não fosse de mais longe[125]. Entre as conchas fosseis achadas na Laugerie Basse ha algumas que sómente da ilha de Wight poderiam ter vindo. Ora, na epoca do rangifer já não havia communicação por terra entre a França e a Inglaterra[126]. Consequentemente n’esses tempos remotos, anteriores á epoca dos dolmens, já se praticava a navegação no Atlantico.

Demais, para explicar a colonisação ou civilisação das regiões litoraes da Europa por um certo povo mais civilisado, não ha necessidade nenhuma de admittir que este ultimo effeituasse longas derrotas. Custa a crêr que um povo, sabendo apenas fazer barcos de troncos de arvores, abertos a fogo e pedra, chegasse, por exemplo, desde o estreito de Gibraltar até á Irlanda ou á Scandinavia. Porém se lhe suppozermos nas costas occidentaes da Europa ou nas ilhas mais proximas as estações intermedias necessarias, a difficuldade ficará consideravelmente attenuada.

Mais de espaço veremos adiante como, em tempos anteriores á historia, duas civilisações penetraram na Peninsula, uma pelo Mediterraneo, caracterisada pelas construcções pelasgicas, outra pelo Atlantico, representada pelos dolmens. É provavel que os homens, que na epoca da pedra polida construiram os mais antigos d’estes ultimos monumentos, fossem da mesma raça d’aquelles que, na mesma epoca, na Scandinavia, construiram dolmens similhantes. Que milhares de annos terão deccorrido depois d’estes acontecimentos, ninguem o saberá dizer. O mais que se póde affirmar é que, doze ou treze seculos antes de Christo, já os povos mediterraneos estariam na epoca do bronze, e portanto muito para áquem da epoca da pedra polida, em que seriam construidos os mais antigos dos dolmens.

Ha poucos annos que os archeologos tem dirigido a attenção para os signaes esculpidos em certos dolmens. Por isso não se deduziram ainda da interpretação d’esses signaes as consequencias importantissimas que promettem. Tractaremos de todos em geral, porque até hoje tambem não foram ainda comparados de modo que se possam classificar. Aos signaes dos dolmens ajuntam-se naturalmente os das rochas e os de certas armas de bronze. Todos analogos, parecem vestigios que da mesma epoca, ou de epocas prehistoricas pouco distantes, ficariam por varias regiões tanto do Velho como do Novo Mundo.

«Na Inglaterra septemtrional e na Escocia, diz Lubbock, estes signaes consistem ordinariamente em depressões concavas ou espiraes, ou em circulos completos ou incompletos, concentricos, de cujo centro commum parte um traço que corta a todas as circumferencias e se prolonga ainda para fóra d’ellas. Estes signaes acham-se perto das _oppidas_ e fortificações antigas, da mesma sorte que nos menhires e nas pedras dos dolmens e dos cromlechs...»

«Acharam-se esculpturas similhantes na Irlanda. Além d’isso n’este paiz, nos grandes tumulos, proximos de Boyne, vêem-se os vestigios de uma ornamentação mais completa. Por exemplo, a grande pedra á entrada de New-Grange está coberta de espiraes duplas, e as pedras da camara central estão tambem ornadas de circulos, espiraes e outros desenhos. Um dos mais notaveis é aquelle que parece representar uma folha de feto, á similhança de outros da Bretanha e do supposto templo de Hagar Kem, na ilha de Malta...»

«Todas estas esculpturas antigas da Gran-Bretanha, menos a folha de feto, são apenas simples figuras geometricas. Acham-se as mesmas figuras em Bretanha; aqui porém são muitas vezes acompanhadas da representação de machados de pedra com ou sem cabo»[127].

Na provincia das Asturias, em Cangas de Onis, subjacente a uma ermida, ha um dolmen, cuja primeira pedra lateral direita, na face interior, contém gravados signaes que fazem lembrar as pinturas da pelle de certos selvagens[128]. Esta mesma analogia se notara já com relação ás esculpturas de outros dolmens, taes como aquelle do districto de Finisterre na França, descripto recentemente pelo sr. Chatellier[129].

Os mais notaveis e os menos antigos d’estes monumentos são as esculpturas das rochas de Kivik. Representam, na opinião de Nilsson, um combate, depois do qual os vencedores offerecem sacrificios a Baal, cuja pyramide se ergue entre dois grandes machados de bronze[130]. Por esta circumstancia se determina com exactidão a epoca em que foram abertas as esculpturas de Kivik.

N’outras esculpturas de rochas da Norwega predominam as representações de barcos, similhantes áquelles que adornam os cabos de navalhas de bronze achadas na Dinamarca[131]. Nos mesmos monumentos da Norwega vêem-se grupos de pontos á maneira de constellações; o que torna estas esculpturas comparaveis ás da rocha de Carnés de Vimianzo na Galiza[132]. A analogia d’estes ultimos signaes com as constellações é ainda maior, porque os pequenos circulos que representam as estrellas estão involvidos em figuras lineares, formadas por circulos concentricos ou por outras curvas. Alguns d’aquelles circulos concentricos fazem lembrar rodas de carros. Na mesma provincia se conhecem outros signaes similhantes na rocha de Ginzo em Limia[133]. E n’um tumulo, descoberto em 1874 a dois kilometros da aldêa de Melon, termo judicial de Rivadabia, encontraram-se pedras interiores cobertas de signaes gravados e coloridos com tinta roxa e negra[134].

Poderia duvidar-se do facto, e suppõr-se que os observadores teriam sido illudidos por algum oxydo de ferro que tingisse de roxo e negro as pedras do tumulo. Mas o sr. Gongora, sem saber d’este, cita outros casos similhantes. Na Andaluzia observou muitos signaes pintados com tinta rubra bituminosa em certos nichos abertos artificialmente na rocha, na serra de Quintana, a uma legua da villa de Fuencaliente. Na distancia de um quarto de legua d’este sitio, n’um logar chamado Batanera, encontrou o mesmo observador outros signaes similhantes pintados com tinta vermelha na face de um penhasco artificialmente cortado. Apesar da rudeza dos traços, reconhece-se n’alguns d’esses signaes a representação do sol, da lua, da figura humana, de arvores, de béstas, do coração e finalmente de barcos[135]. Por estes ultimos e pela fórma linear dos traços, os hieroglyphos da Andaluzia relacionam-se naturalmente com os das rochas da Norwega, já citados, e portanto com as esculpturas de alguns instrumentos de bronze da Dinamarca, tambem já mencionados.

Mas, cousa notavel! explorações recentes têem patenteado no Novo Mexico outros vestigios analogos, que fazem presuppôr a existencia de uma antiga civilisação, procedente da Asia Menor, e que nas epocas prehistoricas se dilataria por muitas das regiões litoraes da Europa e da America: «De taes inscripções, ornamentações e mais esculpturas apparecem tambem muitos specimens por varias partes da America. E é muito para notar o que a este respeito se lê no _Boletim official dos Estados-Unidos_:--_of geological and geographic survey of territories_ (março 1876), onde, se encontram curiosas noticias das explorações feitas no Novo-Mexico, especialmente pelas proximidades do Colorado; e os desenhos de antigas ruinas de _cliff-houses_, que fazem lembrar as habitações kushitas das montanhas da Georgia. Tambem ali se podem vêr os debuxos de hieroglyphos, ou inscripções gravadas em varias pedras e em nichos (como se encontram pela Asia-menor), d’essas habitações das rochas; que se assimilham a outras inscripções achadas n’algumas cavernas da Andaluzia»[136].

Estes factos, sendo como dizem, estabelecem relações de similhança, talvez de communidade de origem, entre os povos da Asia Menor e aquelles que, na epoca do cobre ou do bronze, povoaram algumas partes da America septemtrional, e das peninsulas Iberica e Scandinava. Concernentemente aos iberos, tinha-se já notado certas analogias da linguagem entre os vasconços, os alghonquinos e os georgiamos que faziam presuppôr a mesma origem commum. As menos antigas de taes esculpturas, que vem a ser as de Kivik, poderão attribuir-se aos phenicios. Mas estes monumentos são muito superiores a todos os outros pela perfeição do desenho. Pertencem incontestavelmente a uma civilisação tambem muito superior. Os outros parece corresponderem antes a uma civilisação mais rude, de uma epoca anterior, talvez da epoca do cobre e dos dolmens menos imperfeitos da peninsula Iberica.

Os factos ultimamente referidos levam-nos a conjecturar que, nas epocas prehistoricas, duas civilisações differentes se succederam nas mesmas regiões da Peninsula, ambas antinomicas com a civilisação pelasgica, ambas trazidas por navegadores do Atlantico: a da pedra polida que se dilatou pelas costas occidentaes da Europa, deixando até na Scandinavia vestigios similhantes áquelles que se observam na peninsula Iberica. A segunda sería a dos menhires e das pedras balouçantes e talvez do bronze.

Á primeira d’estas civilisações attribuiremos os dolmens mais rudes de Portugal, as insignias de schisto os fragmentos de osso similhantemente lavrados; á segunda os dolmens mais perfeitos como são os da Andaluzia e de Cangas de Onis; as pedras esculpidas da Galiza e da Andaluzia; os menhires e os trilithos da Galiza; o tumulo de Antequera; a galeria de Castilleja de Gusman, e por ventura outras que dizem existir em pequenas distancias de Guimarães; os menhires e as pedras balouçantes d’estas mesmas ou de outras regiões; e finalmente objectos prehistoricos de bronze, achados nas regiões occidentaes da peninsula Iberica.

Os monumentos menos rudes e menos antigos da segunda civilisação, os menhires e os trilithos, feitos de pedras faceadas e sotopostas, como os da Galiza, pela fórma, pela disposição e afeiçoado dos materiaes, devem ser contemporaneos do celebre monumento de Stone-Henge na planicie de Salisbury na Inglaterra. Este monumento attribue-o Lubbock ao ultimo periodo da epoca do bronze, por se terem encontrado nos tumulos circumstantes restos de cadaveres submettidos á cremação. Ora, como esta pratica era commum na epoca do bronze, a ella reporta o auctor o monumento, e ao ultimo periodo da mesma epoca, por ser feito de pedras grosseiramente afeiçoadas[137]. Este ou outro lavor da pedra não importa de modo necessario o emprego do cinzel de ferro. Os mexicanos ignoravam o fabrico e usos d’este metal; todavia das mais duras das pedras faziam instrumentos de toda a casta, esculpiam até bustos de basalto[138]. Os egypcios exploraram tambem algumas pedreiras de granito com instrumentos de bronze.

NOTAS DE RODAPÉ:

[107] Bonstetten, _Sur les dolmens_.

[108] Bertrand, _Les monuments primitifs de la Gaule_.

[109] Este argumento da maior perfeição dos megalithos e das armas e instrumentos prehistoricos das regiões septemtrionaes não tem força probativa. Porquanto, prolongando-se por mais tempo n’estas regiões que nas meridionaes as epocas prehistoricas, não é para estranhar que os processos industriaes chegassem a mais alto grau de perfeição.

[110] Mortillet, Na sessão de 22 de agosto de 1874 da Secção de Anthropologia, _Revue des cours scientifiques_ 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, pag. 99 et 200.