Introdução á archeologia da peninsula Iberica
Part 10
Ha uns monumentos que, posto que em rigor não mereçam o nome de megalithos, estão comtudo tão naturalmente com elles relacionados, que ficaria incompleto este capitulo, se não dissessemos a seu respeito algumas palavras. São os _castros_ que na Galiza tambem chamam croas, contracção de _corôas_, pela sua fórma circular. O sr. D. José Villa-Amil y Castro descreveu sessenta e tres castros d’aquellas provincias. Em Portugal, particularmente nas provincias septemtrionaes, tambem se encontram alguns, mas até hoje não têem sido estudados.
[Illustração: Fig. 60
Fig. 61
Fig. 62
TUMULO DE EGUILAZ NA CHAPADA DE ALAVA[103].]
Aquelle escriptor define os castros nos termos seguintes: «O elemento caracteristico de um castro é a fortificação de um terreno, de fórma elliptica, e na extensão, termo medio, de uma fanga ou vinte e cinco areas. Essa fortificação consiste n’um fosso e n’um parapeito, ou em varias d’estas obras defensivas, aproveitando-se em certos casos as condições vantajosas do terreno (procuradas talvez de proposito), taes como a elevação e o escarpamento das vertentes; a maior separação possivel dos montes convisinhos, sem ter com elles outra ligação mais que um pequeno isthmo ou lingueta; e a proximidade de riachos para o abastecerem de agua e para difficultarem o accesso ao logar fortificado».
O auctor suppõe que os castros não eram unicamente fortificações, mas tambem povoações, o que prova pelos vestigios de casas n’alguns encontrados, e por varias referencias de documentos antigos. Finalmente das armas e instrumentos de pedra, de bronze e de ferro, dos fragmentos de lança deduziu que os castros da Galiza teriam a sua origem em tempos prehistoricos, mas que continuariam a servir de habitações e de fortificações durante a dominação romana, pelo espaço de mais ou menos seculos na idade media, e alguns em fim ainda no alvorecer da idade moderna. Prova tambem com documentos a conservação e habitação dos castros em tempos tão pouco remotos[104].
Viterbo não reporta além dos romanos a origem dos castros. Na opinião do auctor do Elucidario, _castrum_ sería um pequeno arraial para uma legião ou brigada. Alguns, accrescenta, se povoaram, e ficaram conservando a povoação, para ser defensavel, e servir mesmo de _atalaya_, _cidadella_ e _guarda_ ás campinas e logares chãos e abertos ás correrias dos inimigos.
J. da C. Neves e Carvalho observou pessoalmente os castros de Traz-os-Montes e definiu-os dizendo serem elevações circulares formadas de terra, e pela maior parte circumdadas de grossas lages, se o terreno as fornece, e n’outros de um pequeno vallado ou parapeito de terra, em toda a circumferencia. Estimou-os eguaes em tudo aos da Galiza, e adoptou a opinião expendida pelo auctor de uma historia d’esta provincia, que entendeu teriam servido de templos aos celtas[105]. Esta hypothese vogou por algum tempo em Hespanha. Mas as observações citadas de Villa-Amil y Castro deram em terra com este e outros velhos preconceitos.
Será talvez um monumento do mesmo genero a denominada _Cava de Viriato_ em Vizeu, com quanto não conserve já hoje a fórma caracteristica dos castros. Em 1461 tinha portas que se abriam e fechavam e dentro havia uma capella com a dedicação de S. Jorge. Em 1728 foi medida por ordem regia a _Cava de Viriato_ e achou-se que os muros ou aterros tinham tres _Lanças_ de altura e quarenta palmos de largura no cimo. O circuito dos muros era de tres mil e sessenta e cinco passos, e conservavam ainda quatro grandes vãos, d’onde tinham tirado a cantaria. Já ha muito que a parte oriental do circuito está arrazada, e aforado o terreno respectivo[106]. A parte restante, depois d’esta destruição e das cerceaduras dos possuidores das glebas contiguas, é ainda muito extensa, e está hoje coberta de arvores que asseguram a sua conservação. Na face que olha á cidade vê-se, em parte d’ella, um muro de pedra ensossa, que parece ter sido feito para sustentar d’esse lado o aterro.
NOTAS DE RODAPÉ:
[72] _Collecção dos documentos e memorias da Academia Real de Historia Portugueza, tomo_ XIV, conferencia de 30 de julho de 1733.
[73] _Megalitho_, do prefixo _mega_, grande, e de _lithos_, pedra. Esta palavra tem o inconveniente de ser tambem applicavel aos monumentos cyclopeos ou a quaesquer outros, feitos de pedras grandes.
[74] _Menhir_ de _men_, pedra, e de _hir_, longo. _Cromlech_, _kroumlech_ de _kroumm_, curva, e de _lech_, pedra sagrada. _Dolmen_ de _tolmen_, mesa de pedra.
[75] D. Ramon Barros Sivelo, _Antigüedades de Galicia_. Coruña 1875, pag. 73 e 74.
[76] _Semanario Pinturesco Español 1857. Nociones fisionómico-historicas de la arquitectura en España_, pag. 130.
[77] Pereira da Costa, _Dolmins ou antas de Portugal_. Lisboa 1868, pag. 91.
[78] _Os dolmens._ Lisboa 1876, pag. 10.
[79] _L’âge de bronze._ Pariz 1866.
[80] Idem, pag. 53 e 54.
[81] _L’âge de bronze._ Pariz 1866.
[82] Esta significação acha-se em Viterbo verb. _Fito._--Alguns documentos da collecção _Portugaliæ monumenta historica_ dão o verdadeiro sentido da expressão _Petra ficta_. Nos _Dipl. et Chart._ pag. 11, doc. 17... et inde per petras fictas que _ab antico pro termino fuerunt constitutas_.
«Estes marcos são designados de mui differentes modos nos documentos. Eis alguns:... per monte usque ad memorales in terminos de figaretum... petras fictas ubi dicet terminum... et de illa petra balestaria... petras fictiles... duas contesta qui dividet inter villa cova et laureda per areas antiquas et per petras sicilatas... petra fitada... petra ederata...
«Alguns marcos tinham signaes ou characteres... petra scripta ubi dicet terminum... Invenimus ibidem in petra caracterem Sancti Vicentii, et exinde in alia petra invenimus cruce... quousque ad barca qui sedet sculta in petra... quousque in terra tumeda qui fuit manum facta. Nota do sr. Gabriel Pereira no _Instituto_, tomo XXI, pag. 286.
[83] _Semanario Pinturesco Español_, tom. cit.
[84] _Semanario Pinturesco Español_, tom. cit.
[85] Rougemont, _L’âge de bronze_, pag. 56.
[86] Pereira da Costa, _Dolmins ou antas de Portugal_, pag. 91. Resta provar se as galerias e pedra citadas serão obras da arte ou da natureza.
[87] Os desenhos das antas do Crato e de Ancora vem na _Memoria_ de Pereira da Costa e no _Boletim da Real Associação dos Archeologos portuguezes_, num. 11.
[88] Sivelo, _Antigüedades de Galicia_.
[89] _Magasin Pittoresque_ 1864, pag. 80.
[90] Gabriel Pereira, _Antas dos arredores de Evora_.
[91] _Antigüedades prehistoricas de Andalucia._
[92] Do dolmen da Ronda, deu ha poucos dias uma bella gravura o periodico de Madrid _La Academia_.
[93] Em documentos antigos de Hespanha e de Portugal encontram-se os termos _mamóla_, _mamonela_, _mamula_, _colles_, _manufacti_, etc. Os primeiros nomes derivaram naturalmente da fórma dos _tumulos_, comparavel á do peito mulheril. É expressivo o nome de _Mamaltar_ que dão a certa mamunha, situada alguns kilometros ao norte das minas do Braçal, na Beira. Vej. Pereira da Costa, _Antas de Portugal_, pag. 89. N’alguns documentos, segundo diz Viterbo, tambem chamavam _arcas_ ás _mamunhas_ ou _mamôas_.
[94] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamôas de Galicia, Museo español de antigüedades_, tomo VII.
[95] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamôas de Galicia, Museo español de antigüedades_, tomo VII.
[96] F. M. Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades_, tomo VII.
[97] _Semanario Pinturesco español_, 1857. _Antigüedades prehistoricas de Andalucia_, pag. 90.
[98] F. M. Tubino, op. cit.
[99] Idem.
[100] Pereira da Costa, _Os dolmins ou antas de Portugal_, pag. 91.
[101] _Semanario pinturesco español_, 1857.
[102] _Ilustracion española y americana._
[103] 60 Alçado pela parte B do dolmen.--61 Secção do dolmen e parte do tumulo dado pelos pontos A a B da planta.--62 Planta do dolmen.
[104] Villa-Amil y Castro, _Los castros y mamoas de Galicia, Museu español de antigüedades_, tomo VII.
[105] _Archivo Pittoresco_, tomo V, pag. 84.
[106] Antonio de Oliveira Berardo, _Noticias historicas de Vizeu_. No _Liberal_. Vizeu 1857.
CAPITULO VII
PROBLEMAS
_Difficuldade de interpretar os vestigios das construcções prehistoricas.--Hypotheses de Bonstetten e de Bertrand ácerca dos dolmens.--Factos em contrario.--Leis da distribuição geographica dos dolmens.--Os dolmens e as construcções pelasgicas.--Têem a mesma antiguidade.--Objectos achados nos dolmens de Hespanha e de Portugal.--Insignias de schisto.--Sua ornamentação similhante á de objectos prehistoricos da Scandinavia.--Para que seriam os dolmens.--Porque não ha vestigios de cinzel na maior parte dos da epoca do bronze.--Antiguidade da epoca do bronze e do periodo da pedra polida em que principiaram a erigir os dolmens.--Foram introduzidos por um povo navegador.--A navegação já era praticada no Atlantico durante a epoca da pedra polida.--A civilisação dos dolmens e a civilisação pelasgica.--Signaes esculpidos em dolmens e em rochas.--Duas epocas da civilisação dos dolmens._
É complexo o problema dos dolmens. Em que tempo e por quem e para que fim seriam erigidos? Taes são as tres perguntas ou questões fundamentaes, a que não responde por ora a archeologia senão com simples conjecturas. Para melhor se comprehenderem as difficuldades com que luctam os archeologos n’este ponto, imagine-se um futuro remotissimo, um tempo em que chegassem a desapparecer todos os vestigios da civilisação europêa, excepto os templos pagãos da Grecia e da Italia e os templos christãos de todas as partes do mundo, tambem já em grande parte mutilados. A hypothese, com ser inverosimil, não deixará por isso de servir ao nosso intento. Algum futuro sabio, depois de meditar profundamente em tantos e tão admiraveis vestigios, diria:
«Houve um povo notavel pelo costume de construir grandes edificios de pedra. Parece ter vindo do norte e progredido depois pela Europa central e meridional, erigindo por toda a parte edificios magestosos, provas evidentes da sua alta civilisação. Este povo, solicitado por grandes forças expansivas, não podia caber no continente europeu. As mesmas construcções grandiosas provam ter povoado extensas regiões da America septemtrional e da America meridional. Encontram-se tambem similhantes vestigios nas costas orientaes e occidentaes da Africa, no Meio-dia da Asia, etc. N’alguns dos grandes edificios da Europa têem desenterrado ossadas humanas; serviam portanto de cemiterios, e não de templos, como alguns pretendem. Em muitos acham-se as paredes exterior e interiormente ornadas com estatuas, que de certo representariam os mortos, cujas ossadas continham. N’outros, porém, ainda não foi possivel descobrir nem ossos nem estatuas. Todos os esforços têem sahido baldados. Provavelmente viajantes curiosos ou collectores de antigualhas os exploraram nos tempos passados para, em beneficio dos museus, os despojar d’essas reliquias de uma civilisação remota. Sabe-se, pelos craneos encontrados nas sepulturas, que o povo constructor pertencia á raça caucasica. Parecerá talvez inadmissivel que um povo n’uma epoca de pequena duração, como sería a dos grandes edificios de pedra, se dilataria assim por todo o mundo; mas por mais extraordinario que o facto seja, deveremos curvar-nos á evidencia dos descobrimentos archeologicos. Na epoca dos grandes edificios de pedra, a Europa, Asia, Africa, America e Oceania eram povoadas pelo mesmo povo de raça caucasica!»
Comtudo, entre os sabios do futuro algum haveria que, por se jactar de mais severo na critica, impugnasse uma d’estas conclusões, aceitando as outras. Esse tal argumentaria contra a direcção do caminho seguido pelo povo constructor, observando que, se os vestigios mais imperfeitos appareciam na Asia, era porque os architectos teriam por ahi começado, aperfeiçoando-se depois ao passo que se iriam dilatando pela Europa. Segundo esta ultima opinião, as obras mais antigas da architectura seriam portanto os templos das possessões asiaticas e africanas; depois seguir-se-hiam os templos de estylo romão e byzantino da Europa; depois os grandes templos ogivaes; depois os do renascimento; e por fim o Parthenon, o templo da Concordia e os outros restos grandiosos da architectura grega ou romana.
Hoje, á falta de noticias positivas para a historia dos dolmens, não faltarão archeologos que raciocinem da mesma sorte, e cheguem a conclusões similhantes. Taes opiniões não convirá recebel-as senão com as duvidas que inspiram as hypotheses infundadas. Infelizmente poucas deixarão de o ser em assumpto de tamanha obscuridade.
Vista á primeira face a distribuição geographica dos dolmens, occorreu naturalmente a idêa de que um povo emigrante, constructor d’esses monumentos, percorreria do sul para o norte ou _vice versa_ as regiões onde se encontram. Na opinião do sr. Bonstetten, a Criméa sería o centro d’onde teria partido o povo dos dolmens, seguindo duas vias differentes; uma para a Italia e Corsega, outra para o norte, pela Silesia, até ás margens do Baltico. D’aqui uma causa desconhecida obrigaria os constructores dos dolmens a emigrarem para o poente dirigindo-se para a Normandia occidental e para a Bretanha, d’onde passariam á Inglaterra, pelas ilhas Jersey e Guernesey, e á Irlanda, pela ilha de Anglesey.
A parte restante do povo, que teria ficado no continente, só mais tarde se atreveria a invadir a Gallia, marchando para o sul. Chegado ao Gironda, abandonaria rapidamente as costas do mar, fugiria das areias incultas da Gascunha, e, tomando uma direcção contraria ao curso do Dordonha, atravessaria a França obliquamente e chegaria ao golpho de Lyão. Não lhe serviriam de barreira os Pyreneus; atravessal-os-hia, e, seguindo a vertente meridional d’estas montanhas, occuparia Portugal, desceria mais ao sul e atravessaria obliquamente a Hespanha pelas provincias de Cordova, Granada e Malaga; passaria o mar, espalhar-se-hia pelo litoral da Africa septemtrional, e pararia finalmente na antiga Cyrenaica, nas fronteiras do Egypto.
O sr. Bonstetten, fazendo partir o povo dos dolmens da Criméa, não julga ser esta a sua patria, porém alguma região da Asia, d’onde, pelos desfiladeiros do Caucaso, passaria á Europa, preludiando assim as posteriores emigrações de celtas, godos, hunos e vandalos[107].
O sr. Bertrand suppõe tambem ter vindo da Asia o povo dos dolmens, que sería de uma raça rebelde a toda a transformação e a toda a absorpção pelas raças superiores. Repellida das regiões centraes d’aquelle continente para o norte, seguiria as margens do Baltico demorar-se-hia na Dinamarca; d’aqui de novo repellida, subiria até ás Orcadas; depois, descendo pelo canal que separa a Irlanda da Inglaterra, chegaria, de estação em estação, primeiro á Gallia, depois a Portugal e finalmente á Africa, onde os restos de tal gente se extinguiriam, destruidos pela força de outra raça mais civilisada[108].
Contra a opinião de Bertrand protestam os objectos de pedra, barro ou metal, encontrados nos dolmens, por onde se prova que as gentes constructoras d’estes monumentos não eram refractarias á civilisação. E, admittido este facto, a sua consequencia necessaria, será que taes gentes, obedecendo á lei do progresso, deixariam provas de mais avançada civilisação nos paizes que ultimamente occupassem. Ora os archeologos concordam em que não sómente a architectura megalithica é mais perfeita no norte do que no sul, mas, tambem mais bem acabados e de mais preço os objectos achados nos dolmens septemtrionaes; e que portanto, se houvesse de se attribuirem os dolmens a um povo emigrante, este povo deveria ter seguido do sul para o norte e não do norte para o sul, como Bonstetten e Bertrand suppozeram[109]. Por outra parte, quem se der ao trabalho de marcar n’um mappa as regiões dos dolmens, reconhecerá que algumas de taes regiões ficam inteiramente separadas por grandes distancias, como as da Criméa e as da Palestina.
Em regiões tambem muito afastadas, como a Bretanha e o Jutland apparecem n’uns dolmens sómente objectos de pedra polida, n’outros encontram-se instrumentos de pedra e de bronze. Parece portanto que os povos constructores dos dolmens passariam synchronicamente, e em logares muito distantes, de uma a outra phase industrial pelas influencias civilisadoras de povos mais avançados. Têem notado tambem nos dolmens das diversas localidades certas differenças especificas que se oppõem a que se reputem construidos por um só povo. Em fim, a mais concludente de todas as provas da diversidade dos povos que erigiram os dolmens está na variedade de restos humanos achados em taes monumentos. Na opinião do sr. Quatrefages não póde haver duvidas a este respeito. Nos dolmens da Dinamarca, por exemplo, apparecem dois typos humanos misturados, nos de Lozère outros dois, e d’estes quatros typos não ha dois que se assimilhem[110].
Alguns dos mais auctorisados archeologos modernos, taes como Desor, Worsaœ, Vogt, Quatrefages, Broca e Mortillet, rejeitam absolutamente a idêa da existencia de um só povo constructor dos dolmens. Preferem antes acreditar que varios povos e varias raças, que se não sabem especificar ou denominar, erigiriam os megalithos pelas regiões onde se encontram, estribando esta asserção n’alguns dos factos anteriormente citados contra as hypotheses de Bonstetten e de Bertrand. Julgam mais que o costume de construir os dolmens se propagaria do sul para o norte, em direcção contraria áquella que faziam seguir ao povo emigrante.
Não tem sido notada na distribuição geographica dos dolmens uma circumstancia que se nos afigura importantissima; e vem a ser o encontrarem-se quasi sempre nas regiões proximas do mar. Começando pelo sul deparam-se-nos primeiramente os da costa septemtrional da Africa, na Argelia e na Cyrenaica, juncto das fronteiras do Egypto, todos no litoral do Mediterraneo. Depois os de Sinai e da Arabia nas costas do Mar Vermelho, os da Palestina, proximos do Mediterraneo. Em frente da costa septemtrional da Africa, para áquem do Estreito, os de Hespanha e Portugal, occupando por uma parte a Andaluzia, no litoral do Mediterraneo; por outra parte o litoral portuguez e a Galiza, banhados pelo Atlantico; e finalmente as costas meridionaes do golpho de Biscaia. Na França a região dos dolmens está tambem em similhantes condições maritimas. Defrontam com o Mediterraneo, como os da Andaluzia, apparecem do outro lado do golpho da Biscaia nas margens do Gironda; vêem-se em fim e em maior numero na Bretanha e na Normandia, nas costas da Mancha. Observa-se a mesma lei nos da Inglaterra e da Irlanda. Os da Europa septemtrional occupam regiões banhadas pelo mar do Norte ou pelo mar Baltico, ou pouco distantes das suas aguas. Com razão pois advertiu Bertrand abundarem os dolmens pelas regiões occidentaes e faltarem nas regiões orientaes da Europa. Mas este facto não é senão a consequencia da posição relativa d’aquellas regiões, das quaes as do occidente ficam á parte do mar e as do oriente mais ou menos distantes[111].
Outra lei da distribuição geographica dos dolmens vem a ser a incompatibilidade d’estes monumentos com os cyclopeos. «As construcções cyclopeas e os dolmens, diz Rougemont, excluem-se reciprocamente ao sul de Caucaso, dos Alpes e dos Pyreneus. A Perêa e o Caucaso, as duas patrias dos dolmens não têem muros feitos de pedras irregulares. A Aramêa, aonde referimos o berço da architectura cyclopea, não tem dolmens»[112].
Na peninsula Iberica já vimos como esta lei se verifica, pois que nas regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha não consta haver dolmens. Vimos tambem como n’uma região, onde os dois systemas se encontraram parece ter-se operado entre elles uma singular fusão, se não é pura casualidade o que se observa na _Cueva de la Pastora_ em Castilleja de Guzman, a oeste de Sevilha, na Andaluzia[113].
Da lei da correspondencia dos dolmens ás terras litoraes ou pouco distantes dos mares, deduz-se que a origem do costume de erigil-os se ha de buscar n’algum ou n’alguns povos já em certo grau de civilisação, os quaes percorrendo os mares da Europa, transmittiriam esse mesmo e outros costumes aos povos com quem estivessem em contacto, e que passariam assim da phase, caracterisada pela habitação das cavernas, áquella que se distingue pela construcção dos dolmens. Similhantemente, nos seculos XV e XVI, os portuguezes e os hespanhoes alçaram cruzes e erigiram templos pelos vastos litoraes e pelas ilhas da Africa, Asia, America e Oceania, convertendo os indigenas ao christianismo, e transmittindo-lhes aquelle mesmo costume, caracteristico da civilisação que representavam. Devemos porém acreditar que este ou outro movimento civilisador dos tempos prehistoricos acharia de certo menos resistencia, por ser menor a differença entre o estado dos povos civilisados e o dos povos civilisadores.
Da lei da incompatibilidade dos dolmens com as construcções cyclopeas deduz-se que estes dois generos de monumentos representam duas civilisações prehistoricas tambem incompativeis; e que, portanto, seriam contemporaneos os povos constructores dos primeiros e aquelles que erigiram as segundas. Ora, como abundam os monumentos cyclopeos nas Baleares[114] na Sardenha e na peninsula Italica, e como as costas orientaes da peninsula Iberica defrontam com aquellas ilhas e peninsula, concluiremos que até a essa parte da Hespanha se extenderia a influencia da civilisação pelasgica, e que esta mesma civilisação repugnaria o costume de construir os dolmens e os demais que a este andariam associados.
Na Peninsula a cintura megalithica extende-se desde o golpho da Biscaia, no logar onde as vagas do Atlantico se debatem contra as vertentes escarpadas dos Pyreneus, até ao golpho de Almeria, onde as ultimas ramificações da Serra Nevada se escondem nas aguas menos agitadas do Mediterraneo. Toda a costa oriental desde o cabo de Gata até ao cabo de Créus, comprehendendo quasi seis graus de latitude, não tem dolmens, ou pelo menos não se tem até hoje dito que os haja nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Por onde se vê que as construcções pelasgicas sómente correspondem ás regiões banhadas pelo Mediterraneo, e os dolmens ao litoral do Atlantico e ao do Mediterraneo mais proximo do Estreito de Gibraltar, que serve para communicar os dois mares.
Com a civilisação portanto com que se hão de relacionar os dolmens da Scandinavia, das ilhas Britannicas, das costas septemtrionaes e occidentaes da França, com essa mesma civilisação se devem relacionar tambem os dolmens das regiões septemtrionaes, occidentaes e meridionaes da peninsula Iberica. Ignorando-se o povo que introduziu o costume de construir os dolmens, e a epoca de tal introducção, posta a lei da antinomia dos monumentos megalithicos e dos pelasgicos, seguir-se-ha, como consequencia necessaria, o terem sido todos contemporaneos. Vejamos até aonde poderemos chegar, tentando resolver com estes dados o problema da antiguidade dos dolmens. Os objectos encontrados dentro nos dolmens, armas, instrumentos, ornatos, em muitos são sómente de pedra polida, n’outros de pedra polida e de cobre ou de bronze, n’outros sómente de cobre ou de bronze, n’outros em fim, de alguma das especies mencionadas e de ferro[115]. N’alguns, têem apparecido objectos de ouro, posto que o fabrico d’este metal devesse preceder o do ferro e até o do cobre, como se provou na caverna de Albuñol da Andaluzia. Encontram-se tambem commumente vasos de barro inteiros ou partidos, toscos e sem ornatos, ou adornados com riscos ou impressões digitaes ou unciaes. A disposição dos riscos é irregular nos mais imperfeitos, regular ou symetrica nos menos imperfeitos. Estes achados provam, em geral, que os dolmens foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do bronze; e alguns mais raros na epoca do ferro.