Part 5
«O meu parecer é que Bernardim, tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S. Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra, para Lisboa, senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya. Corre-me obrigação de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que sae, para o cummum dos leitores, é pedregulho.
«Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz elle:
Quando as fomes grandes foram, Que Alemtejo foi perdido, Da aldéa que chamam Torrão Foi este pastor fugido: Levava um pouco de gado, etc.
«E continúa:
Toda a terra foi perdida; No campo do Tejo só Achava o gado guarida. Vêr Alemtejo era um dó; E Jano para salvar O gado que lhe ficou, Foi esta terra buscar, etc.
«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão—naturalidade que todos os biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro—em Lisboa no anno das grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 9 de agosto de 1521, tinha sahido para Saboya.
«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou da morte de Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel, marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª, diz:
Agora hei vinte e um annos, E nunca inda até agora Me acorda de sentir damnos... etc.
«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do auctor da BIBLIOTHECA LUSITANA, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte. O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao cêrco de Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja a CHRONICA DE D. SEBASTIÃO, por D. Manuel de Menezes).»
Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do DICCIONARIO BIBLIOGRAPHICO, pag. 379, não acceitára como definitivos os reparos de Camillo Castello Branco e appellára para investigações ulteriores.
No 10.º vol. das NOITES DE INSOMNIA, Camillo Castello Branco voltou ao assumpto, dizendo:
«Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos, levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova, da ordem de Christo e capitão-mór das naus da India, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manuel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge.»
Camillo estuda em seguida a genealogia dos tres Bernardins, que andam fundidos no auctor da MENINA E MOÇA.
O snr. Theophilo Braga publicou em 1872 o volume dedicado, na sua HISTORIA LITTERARIA DE PORTUGAL, a Bernardim Ribeiro.
Ahi, procurando reconstruir a biographia do poeta pela interpretação critica das suas obras, sustenta que Bernardim Ribeiro viera do Torrão para Lisboa em 1496, quando tinha vinte e um annos (Ecloga 2.ª), o que permitte fixar a época do seu nascimento em 1475.
Parece ao snr. Theophilo Braga que já o poeta teria tido em 1496 o primeiro amor, inspirado por D. Maria Gonçalves Coresma, que casára com um viuvo do Alemtejo, chamado Alvaro Mendes Casco.
Suppõe que D. Maria Coresma seja a _Cruelsia_ da MENINA E MOÇA, abandonada pelo poeta, a quem _Aonia_ enfeitiçára com a sua belleza.
E explica por esta situação moral, em que Bernardim Ribeiro se encontrava, o vilancete que Boutlerweck publicou na sua HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA e que vem reproduzido na edição das obras do poeta, feita em 1852 pela _Bibliotheca portugueza_:
Não sou casado, senhora Pois inda que dei a mão Não casei o coração.
Antes que vos conhecesse Sem errar contra vós nada, Uma só mão fiz casada, Sem que mais n'isso mettesse. Dou-lhe que ella se perdesse, Solteiros os versos são, Os olhos, e o coração.
Dizem que o bom casamento Se ha de fazer por vontade, Eu a vós a liberdade Vos dei, e o pensamento.
N'isto não me achei contento Que se a outra dei a mão, Dei a vós o coração.
Como, senhora, vos vi, Sem palavras de presente Na alma vos recebi, Onde estareis para sempre. Não, dei palavra sómente, Não fiz mais que dar a mão, Guardai vós o coração.
Casei-me com meu cuidado E com vosso desejar, Senhora, não sou casado, Não m'o queiraes acuitar. Que servir-vos, e amar Me nasceu do coração Que tendes em vossa mão.
O casar não faz mudança Em meu antigo cuidado, Nem me negou esperança Do galardão esperado: Não ma engeiteis por casado, Que se a outra dei a mão, Dei a vós o coração.
Francamente, a interpretação que o sr. illustre escriptor Theophilo Braga deu a este vilancete, parece-nos forçada.
A affirmação do poeta, na hypothese de que o vilancete seja realmente seu, é tão categorica:
Não me engeiteis por casado, Que se a outra dei a mão, Dei a vós o coração
que não se acceita sem certa repugnancia a explicação de que elle se referia apenas ao galanteio que tivera com D. Maria Coresma, solteira ou casada, mas a quem, em todo caso, não havia _dado a mão_ de esposo.
Este ponto julgamol-o ainda escurentado de grandes duvidas.
Mas, como quer que seja, o snr. Theophilo Braga, occupando-se dos segundos amores do poeta com a _Aonia_ da MENINA E MOÇA, suppõe que _Aonia_ é o anagramma de Joanna, e que esta dama é D. Joanna de Vilhena, prima d'el-rei D. Manuel, e filha de D. Alvaro de Portugal, a qual viera para a côrte no tempo do casamento da princeza D. Izabel (Beliza) com o principe D. Affonso em 1491.
D. Joanna de Vilhena casou em 2 de fevereiro de 1516 com D. Francisco de Portugal, primeiro conde de Vimioso, um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia de Rezende.
Este casamento é a _catastrophe_ que ensombra a vida do poeta. Na MENINA E MOÇA, _Bimnarder_, anagramma de Bernardim, sabendo do casamento de _Aonia_ «se foi, e não no viram mais.»
Francisco Antonio Varnhagem, que morreu visconde de Porto Seguro, publicou um livro, que precedeu o do snr. Theophilo Braga, pois que este escriptor a elle se refere desfavoravelmente (pag. 107), e que se intitula DA LITTERATURA DOS LIVROS DE CAVALLARIA (Vienna, 1872).
Varnhagem, que se dedicou muito ao estudo da nossa historia litteraria, interpretou do seguinte modo os anagrammas da MENINA E MOÇA:
_Aonia_ por Joanna. _Arima_ por Maria. _Avalor_ por Alvaro. _Beliza_ por Izabel. _Boslia_ por Lisboa. _Cruelsia_ por Lucrecia. _Donanfer_ por Fernando. _Enis_ por Ines. _Fartesia_ por Tiséfara (?) _Godivo_ por Dioguo. _Jenao_ por Joane. _Lamberteu_ por Bartelmeu. _Loribaina_ por Briolanja. _Narbindel_ por Bernaldin. _Olania_ por Anjola (?) _Bomabisa_ por Ambrosia. _Tasbião_ por Bastião. _Zicelia_ por Cezilia. _Lamentor_, modificação de _Lamendor_, por Manuel.
O snr. Theophilo Braga interpreta _Bimnarder_ como outro anagramma de Bernardim, e _Olania_ por Oriana. Eis os pontos de divergencia entre as duas interpretações.
Varnhagem commenta:
«Seja como fôr: o certo é que, decifrados os anagrammas, apparece Bimnarder apaixonado de certa Joanna, irmã de Izabel, mulher de _Lamentor_. Ora, se admittirmos que este fosse el-rei D. Manuel, resultariam os amores de Bernardim, não com a filha d'este rei, mas sim com sua cunhada D. Joanna, a mãi de Carlos V, mulher de Filippe o _Bello_, e filha (como a rainha D. Izabel sua irmã) dos reis catholicos Izabel e Fernando. Em tal caso o mesmo Filippe corresponderia ao _Fileno e Orphileno_ (marido da Aonia da novella), etc.»
Não acha natural Varnhagem que Bernardim Ribeiro se apaixonasse por D. Beatriz, que nascêra em 1504 e a cantasse, quando ella era menina de menos de doze annos, no CANCIONEIRO de Rezende, que sahiu impresso em 1516.
Mas a verdade é que na MENINA E MOÇA se diz: que «a senhora Aonia ainda então era donzella d'antre treze ou quatorze annos» e que _menina e moça_ a levaram de casa de seu pai para longes terras.
Entende tambem o snr. Theophilo Braga que os dizeres com que abre a MENINA E MOÇA não se podem referir á infanta D. Beatriz, que contava dezesete annos, quando foi levada para Saboya.
Como se vê, a opinião dominante nos ultimos quinze annos é contraria á lenda dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz.
O snr. Theophilo Braga explica a formação da lenda pelo supposto facto de ter o poeta amado uma dama altamente collocada na côrte, parenta de el-rei D. Manuel, D. Joanna de Vilhena; pela prohibição, no _Index_ de 1581, da novella MENINA E MOÇA, o que lançou suspeitas sobre o conteúdo da novella; e pela coincidencia de Bernardim Ribeiro ter sahido de Portugal quando a infanta, em 1521, partiu para Saboya.
A lenda, recolhida no seculo XVI por Faria e Sousa, resuscitára com o romantismo pela reviviscencia das lendas nacionaes.
Acha o snr. Theophilo Braga que a idade do poeta e da infanta, em 1521, eram incompativeis entre si e a tresloucada paixão que a lenda attribuia a um homem de quarenta e seis annos por uma donzellinha de dezesete. Acha outrosim que a ingenita altivez do caracter de D. Beatriz não lhe permittiria descer até acceitar o galanteio de um trovador, de mais a mais amadurecido em annos.
No amor não ha incompatibilidades possiveis. Na historia de Portugal abundam estes desacertos de idade e de condição em assumptos amorosos.
A nós não nos repugna o facto de Bernardim Ribeiro, um poeta, se ter apaixonado por uma dama da côrte, que todavia, como diremos, não suppomos fosse a infanta, não obstante a desproporção das idades.
Mas, se D. Beatriz foi a inspiradora da paixão do poeta, o que podêmos provar com documentos historicos é que ella o esqueceu em Saboya, se algum dia o amou ou se soube que foi amada por elle.
Não é natural que D. Beatriz, tão magoada como o codice publicado por Herculano nol-a pinta, se absorvesse tão profundamente, e tão estranha ao seu proprio passado, nos deveres de esposa e princeza, como realmente acontecêra em Saboya, e como vamos mostrar.
É verdade que a lenda romantica conta que a duqueza de Saboya, reconhecendo o poeta no disfarce de mendigo á porta de um templo, lhe disséra, dando-lhe esmola:—«Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»
Mas tão empenhada a vamos encontrar nos negocios politicos e domesticos da côrte de Saboya, tão despreoccupada de recordações amorosas, tão adaptada moralmente ao meio em que se encontrava, que estamos convencido de que, se Bernardim Ribeiro a amou, não foi correspondido ou só ephemeramente o foi, o que não seria natural n'uma princeza educada nos serões galantes do Paço da Ribeira, sabendo-se amada por um poeta, e vivendo sacrificada na companhia de um marido, que não era poeta, e cujo desgracioso feitio as chronicas memoram.
Se, como quer o snr. Theophilo Braga, a _Aonia_ da MENINA E MOÇA é D. Joanna de Vilhena, primeira condessa de Vimioso, a _Condessa Santa_, completo foi o seu esquecimento do amor que inspirára ao poeta.
«Emquanto viveu o conde, escreve o padre Francisco da Fonseca na EVORA GLORIOSA, o imitou, e acompanhou em todas as obras virtuosas, attendendo cuidadosamente á educação de seus filhos, e ao prudente governo da sua familia, e casa, que debaixo da sua direcção era convento com apparencias de palacio. Era inimicissima do ocio, e por isso assim ella, como todas as suas criadas, se occupavam continuamente nos exercicios proprios do seu estado, umas cosiam, outras fiavam, outras faziam rendas ou fios para curar os necessitados. O mesmo usava com as senhoras, que a vinham visitar, dando a cada uma d'ellas algum trabalhinho, com que se entreter; e entretanto, ou lhe lia algum capitulo dos documentos, que o conde tinha composto, e lhe contava algum exemplo, ou historia santa, com que adoçar o trabalho; o que fazia com tanta graça, que assim sua irmã D. Brites, duqueza de Coimbra e Aveiro, com todas as mais senhoras continuavam e frequentavam com gosto a escóla de D. Joanna. Morto o conde, se deu totalmente a Deus, e, abraçando a terceira ordem de Santo Agostinho, fez uma vida verdadeiramente de santa. Remendava por suas proprias mãos os habitos dos frades, e lhes fazia o comer, quando estavam enfermos, amando-os e consolando-os a todos, como se fossem seus filhos: o mesmo praticava com as religiosas de Santa Catharina, e porque viu as lagrimas e suspiros da pobreza eborense por causa da falta que lhe fazia a morte de seu querido esposo, tomou muito a sua conta enxugar-lhe as lagrimas com opportuno remedio: escolheu para capellães e esmoleres a dous sacerdotes exemplares, em cuja companhia ia todos os dias visitar os enfermos da sua parochia: seguiam-n'a dous escravos, carregados de tudo aquillo de que podiam necessitar os enfermos, e ella por si mesma lhe repartia todos os mimos e os regalos: com estas, e outras muitas santas obras, continuou a nossa condessa a sua exemplarissima vida até os 24 de julho de 1559 em que Deus a chamou para a gloria.»
A dama que inspirára a paixão de Bernardim Ribeiro tinha os olhos verdes.
No capitulo XXI da MENINA E MOÇA encontra-se o romance
Pensando-vos estou filha
que Garrett reproduziu no terceiro volume do ROMANCEIRO com o titulo de _A Ama_.
N'esse cantar, á maneira de solau, como o classifica Garrett, encontra-se a seguinte allusão:
Mas não póde ser, senhora, Para mal nenhum nascerdes, Com esse riso gracioso Que tendes sob _olhos verdes_.
Entre as eclogas de Bernardim Ribeiro encontra-se outro romance, que Almeida Garrett tambem reproduziu com o titulo de _Cuidado e desejo_, e ahi depara-se-nos uma outra referencia á côr dos olhos da sua dama:
Seus _olhos verdes rasgados_ De lagrimas carregados, etc.
Conhecemos dois retratos da infanta D. Beatriz de Portugal, duqueza de Saboya.
Um foi publicado no periodico litterario UNIVERSO PITTORESCO. O artigo que o acompanha tem a assignatura do fallecido escriptor S. J. Ribeiro de Sá.
O artigo nada adianta, mas o retrato é copia do que se encontra em Turim na galeria dos retratos dos duques e duquezas de Saboya. Enviou-o para Portugal o snr. Miguel Martins Dantas, hoje ministro de Portugal em Londres, e então addido á legação de Sua Magestade Fidelissima em Turim.
O snr. Dantas fez acompanhar a copia d'esse retrato, que deve considerar-se authentico, das seguintes indicações:
«Rosto claro, _olhos castanhos escuros_, cabellos castanhos claro, bonet de velludo preto adornado de pedraria, e uma pluma branca; no pescoço um adresse de pedras roxas engastadas em oiro, acabando com uma perola. Uma especie de lenço, ao que parece de cambraia, com muito feitio occupa o espaço do decote—em roda uma bordadura de ouro. O vestido é de fazenda (não velludo) côr de castanha, atirando para roxo, com tufos brancos nas mangas, rematados com pedras roxas tambem engastadas em ouro, punhos brancos de renda, collar de perolas acabando com tres pedras iguaes ás outras: desde a cintura até ao chão ha um cordão formado de pedras azuladas engastadas em ouro.»
Pela descripção d'este retrato, existente na galeria de Turim, e que para todos os effeitos, repetimos, se deve considerar authentico, sabemos que os olhos da infanta D. Beatriz não eram _verdes_, como os que descreve Bernardim Ribeiro, mas _castanhos escuros_.
D'aqui, pois, se póde tirar um novo argumento para reforçar a opinião, aliás hoje dominante, de que não foi a infanta D. Beatriz a mulher amada pelo poeta das saudades.
Do outro retrato só ha pouco tempo tivemos conhecimento.
No leilão da livraria do fallecido visconde de Juromenha compramos, unicamente attrahidos pela indicação do respectivo catalogo, um livro intitulado—NOTIZIE STORICHE INTORNO ALLA VITA ED AI TEMPI DI BEATRICE DI PORTOGALLO DUCHESSA DI SAVOIA, CON DOCUMENTI PER IL BARONE GAUDENZIO CLARETTA, MEMBRO DELLA R. DEPUTAZIONE SOVRA GLI STUDI DI STORIA PATRIA—Torino, 1863, tipografia Eredi Botta, Palazzo Carignano.
Não tinhamos a menor noticia d'este livro, que versava um dos mais interessantes assumptos da historia de Portugal, não obstante haver sido publicado em 1863.
E como temos por indispensavel estudar a historia portugueza, para apural-a com segurança, pelo confronto do que escreveram os nossos historiadores com os dos paizes que comnosco tiveram relações politicas em determinadas épocas, fossem essas relações devidas a um casamento, a um tratado, a uma guerra ou a qualquer outra causa—systema este em que principalmente baseamos o nosso estudo historico ácerca da Excellente Senhora, _Rainha sem reino_,—procuramos a todo o custo obter esse livro, para nós desconhecido, cujo titulo nos aguçára a curiosidade e o interesse de possuil-o.
Mal diriamos n'essa occasião que, tambem pela venda de um espolio, adquiririamos pouco depois outro livro do mesmo author ácerca de uma época não menos notavel da historia portugueza.
O barão Gaudenzio Claretta dá n'aquelle seu livro noticia de duas medalhas que o duque de Saboya Carlos III mandára cunhar para perpetuar a memoria de sua esposa.
Uma d'ellas tem de um lado a effigie de D. Beatriz com a legenda: _Beatrix dux Sabavdie_ e do outro os escudos de Saboya e Portugal com esta inscripção; _Lvsitaniæ regis filia an svæ æt. 36_.
A segunda medalha, que se encontra reproduzida no ante-rosto do livro, representa a duqueza de Saboya, ricamente vestida, com a legenda: _Beatrix decvs Portvgallie ducissa Sabavdie_.
Um argumento salta desde já aos bicos da penna.
Se Carlos III tivesse menospresado sua mulher pela revelação do segredo dos seus amores com um cavalleiro portuguez, como Herculano deprehende do codice por elle publicado no PANORAMA, não haveria decerto manifestado pela morte da duqueza um tão profundo sentimento como aquelle que se traduz pelo facto de haver mandado cunhar não apenas uma só medalha commemorativa—mas duas.
A effigie de D. Beatriz, gravada na segunda medalha, é claro que nada póde aproveitar para tirarmos a limpo a côr dos seus olhos. Mas a este respeito basta o testemunho fidedigno, a que já nos referimos, do snr. Miguel Martins Dantas. Em todo caso, a medalha é muito interessante, pois que reproduz, e devemos suppôr que com fidelidade official, as feições da infanta portugueza e a sua _toilette_.
A medalha representa-a com um toucado de pedras preciosas, que lhe circumdam os cabellos apartados ao meio e cahidos em madeixas sobre os hombros. Vestido de decote escanteado. Um pequeno cabeção de recortes com tres voltas de pedraria. Collar pendente. A meio do peito uma cruz suspensa da orla do decote.
As feições do retrato enviado pelo snr. Dantas ajustam-se inteiramente ás da effigie que a medalha representa: Nariz comprido, bocca pequena e grossa, testa alta, sobrancelhas pouco espessas e arqueadas, pescoço alto e bem lançado, estatura erecta, porte gentil.
III
Vamos porém á historia do casamento da infanta D. Beatriz de Portugal com Carlos III, duque de Saboya.
São conhecidos os pormenores da viagem da infanta pelo opusculo de Garcia de Rezende, que anda nas suas obras, intitulado HIDA DA INFANTE D. BEATRIZ PERA SABOYA; e pelo capitulo LXX, quarta parte, da CHRONICA DE D. MANUEL, por Damião de Goes.
Já tivemos tambem occasião de referir-nos ao auto de Gil Vicente que tem por assumpto a viagem de D. Beatriz.
No tomo II das PROVAS DA HISTORIA GENEALOGICA encontra-se a pag. 439 o _Contrato do casamento_, e a pag. 445 a longa enumeração dos objectos que constituiam o opulento enxoval da infanta.
Até aqui o que conhecemos dos livros portuguezes.
Agora passemos a soccorrer-nos da MEMORIA do barão Gaudenzio Claretta, a fim de a divulgarmos em Portugal, por ser realmente muito pouco conhecida entre nós.
O casamento realisou-se no 1.º de outubro de 1521, na igreja dos dominicanos de Niza, lançando a benção nupcial o bispo de Vercelli, Bonifacio Ferrero, que mais tarde se tornou conhecido pelo nome de cardeal de Ivrea.
Realisaram-se pomposos festejos publicos, primando entre elles, pelo seu luzimento, o torneio celebrado junto á porta Marina, no qual cavalleiros hespanhoes, portuguezes e italianos quebraram lanças em honra dos augustos esposos.
O codice citado por Herculano conta que a infanta, tendo chegado a Villa Franca pela uma hora da tarde do dia de S. Miguel (29 de setembro), não queria sahir da nau, o que fizera a instancias do duque de Saboya.
D'ahi inferiu Herculano que a a «má vontade com que ella desembarcou mostra que este casamento não lhe era demasiadamente grato.»
Vejamos porém o que diz o texto da MEMORIA de Claretta:
«Seguendo ora il racconto del Revelli, narra questo storico che il giorno 29 verso _le tre ore di notte_ sbarcó la principessa a Villafranca, dove di comandamento del Duca eransi portati per riceverla e complimentarla Lodovico dei Malingri, Gioanni d'Orliè, il vescovo Geronimo d'Arsagis, Onorato Cays ed i consoli seguiti dai primi gentiluomini del paese. L'ora era già avanzata, _ma pur volle l'infante Beatrice_ la sera medesima recarsi a Nizza traversando il colle di Montalban al chiaror di molte faci, ed assisa su di una sedia soppannata di velluto e d'armellino, sostenuta da quattro gentiluomini portoghesi. Giunta la comitiva ai molini di Riquieri le acclamazioni più vive degli astanti annunziarono l'incontro del Duca, il quale era giunto quella sera all'abbazia di San Ponzio e non aveva voluto far l'ingresso nella città prima che fosse arrivata la sposa.»
Vão grifadas as expressões que contrariam a versão do codice publicado por Herculano.
Como vimos, Claretta apoia-se na narração de Revelli, e não podêmos suppôr que Claretta occultasse a verdade, por isso que elle a patenteia com inteira franqueza em varios lances da sua MEMORIA, especialmente, como veremos, quando se refere á decadencia da côrte de Carlos III.
O condado de Niza offereceu á duqueza, como brinde de casamento, a somma de cinco mil florins.
Pier Leone di Cavaglià, conego de Santa Maria della Scala de Milão, recitou uma oração e um epithalamio, de que existe um exemplar na bibliotheca real, sendo o opusculo que contém as duas peças litterarias muito raro na Italia. _Oggidi assai raro_, diz em parenthesis Claretta.
A oração é em latim. Claretta dá alguns extractos, e commenta-os. Por exemplo:
«... habes uxorem pulcherimam (_ei gli dice_) venustissimamque ut cernere est virtutis lacte et cura ut scimus nutritam (_e questo era vero_) fæcundam ut optamus.»
Claretta publíca na integra o epithalamio, tambem latino, que foi recitado pela menina Veronica Leone, de quatro annos de idade apenas—_giovinetta di quattro anni_.
N'esse epithalamio são grandemente exaltadas a belleza e castidade da infanta D. Beatriz.
Claretta ainda cita outras congratulações poeticas que por essa occasião foram publicadas.
A tres de outubro fizeram os duques de Saboya a sua entrada solemne na cidade de Niza pela porta _Pairoliera_.
Segundo Revelli, cerca de tres mil portuguezes, ricamente vestidos, tomaram parte no cortejo. Mas outros muitos, não menos ricamente vestidos, assistiram como espectadores ao desfilar do prestito.
Agora vem algumas linhas de Claretta, que reproduzimos no texto para que n'ellas sobresaia a impressão profunda, conservada pela tradição, que causára em Niza o apparato que os portuguezes exhibiram n'esse acto:
«Soggiunge il citato storico (Revelli) che i Portoghesi sommarono a ben cinque mila, e che fu cosa ammirabile il vedere tanti ornamenti d'oro, gemme, selle de cavalli com briglie, staffe, speroni e cose simili tutte formate di lame e piastre di puro oro, uccelli ed animali peregrini, quantità incredibile de aromi di specie diversa, in una parola, tutto che di prezioso dall' Africa e dalle Indie, con l'occasione dell' navigazioni alle più remote parti, era stato apportato al re di Portogallo.»