Part 4
Frequentava a côrte um gentilhomem, de nome Colepeper, que havia merecido favores amorosos a Catharina Howard, quando solteira. Colepeper, depois que Catharina fôra desposada por Henrique VIII, sentira, como sempre acontece, maior paixão por ella e, na côrte, mostrava-se melancolico para significar á rainha a sua saudade pelas felicidades do passado.
Catharina Howard trocava com elle olhares furtivos, mas brilhantes de esperança, scintillantes de promessas.
Animado por este estimulo, Colepeper resolveu-se a escrever á rainha, e um dia, dançando com ella, entregou-lhe uma carta, a que Catharina respondeu, decerto confirmando as promessas dos seus olhares. A resposta foi entregue a Colepeper pela rainha, tambem n'um sarau dançante em que bailaram emparceirados.
Henrique VIII foi uma victima da dança,—sempre que as rainhas dançavam.
Certo dia Catharina procurou sondar uma criada sua, Maria se chamava ella, dizendo-lhe:
—Se soubesse que não me denunciarias, confiava-te um segredo.
A criada respondeu:
—Guardarei segredo do que me disserdes, comtanto que não toque pelo rei.
Sangrava-se em saude, a criada, lembrando-se certamente de que a confidente de Anna Boleyn havia sido queimada.
A rainha disfarçou:
—Outro dia fallaremos n'isso. Mas não é coisa que toque pelo rei.
Passado tempo, Catharina tentou sondar outra criada:
—Joanna, desejo fazer-te bem e conseguir que el-rei te case honestamente.
E, juntando os factos ás palavras, deu-lhe alguns vestidos e joias.
Corridos dias, a rainha abriu-se confidencialmente com a criada.
Disse-lhe que amava Colepeper, que pensára mesmo em casar com elle antes do rei a requestar. E pediu-lhe que a auxiliasse para ter uma entrevista com Colepeper, visto que o rei ia sahir para Rionsirche.
A criada teve medo, recusou-se e foi denunciar a rainha ao arcebispo do Cantorbery. Mas parece que outra criada, menos timida, favorecêra os intentos de Catharina, porque depois se averiguou, como vamos vêr, que a rainha tivera effectivamente um _tête-à-tête_ com Colepeper.
O arcebispo soube mais por um individuo chamado Lascelles, cuja irmã havia estado ao serviço da velha duqueza de Norfolk, e lhe revelára segredos da vida de Catharina quando solteira, que dois officiaes da casa da duqueza, Derban e Mannoc, haviam sido admittidos no seu leito, sem que d'isso fizessem mysterio.
Julgou o arcebispo, depois de ter conferenciado com o conde de Hertford, e com o chanceller, que devia contar tudo ao rei, e fel-o com certo embaraço, como era natural. Henrique VIII mostrou-se incredulo, no primeiro momento, mas o arcebispo, desejando justificar-se, activou decerto novas investigações. Lascelles foi a Sussex fallar com sua irmã, a qual não só confirmou mas até ampliou as revelações anteriores. Mannoc e Derban, presos e interrogados pelo chanceller, disseram tudo o que podiam dizer. Revelaram pormenores escandalosos. Contaram que tres jovens criadas da duqueza de Norfolk conheciam o segredo da devassidão de Catharina, porque tinham algumas vezes passado a noite entre Catharina e os seus amantes.
Averiguou-se mais que a rainha realisára a entrevista com Colepeper, e, como era natural, suspeitou-se do facto de haver Catharina escolhido Derban, um dos antigos amantes, para seu criado.
Todos os depoimentos foram lidos ao rei que, apesar de estar habituado a estes lances, chorou.
Interrogada a rainha sobre as accusações que lhe eram feitas, negou-as a principio; mas quando lhe apresentaram todas as provas, confessou que effectivamente se havia conduzido mal antes do casamento, insistindo, porém, na declaração de que não tinha trahido o rei.
O parlamento, vingador das infelicidades conjugaes de Henrique VIII, tomou conhecimento do facto.
A rainha, a viscondessa de Rochford, cunhada de Anna Boleyn, sua inimiga, e confidente dos amores de Catharina, Colepeper, Derban, a duqueza de Norfolk, avó da rainha, lord William Howard, seu tio, a mulher de lord Howard, a condessa de Bridgewater, e mais nove pessoas, foram proscriptos.
Como Anna Boleyn, Catharina Howard subiu ao cadafalso, em Tower-hill.
A dois passos do garrote e do algoz, fallou ao povo.
Confessou o seu amor por Colepeper, e que a ambição de ser rainha a perdêra. Lamentou não ter casado com Colepeper, pesando-lhe que elle por sua causa morresse. Accrescentou que morria rainha, mas que preferiria morrer mulher do homem que tinha amado e que a amava.
Um idyllio sobre o cadafalso!
No outro dia foi decapitado Colepeper, que se limitou a pedir ao povo que rogasse a Deus por elle.
Tambem morreu decapitada a viscondessa de Rochford, com applauso do publico, que se lembrava de que fôra ella quem mais contribuira para a perda de Anna Boleyn.
Henrique VIII, afim de se precaver contra novos desastres conjugaes, levou o parlamento a votar uma lei em que a todos os cidadãos se impunha a obrigação de denunciarem secretamente ao rei quaesquer infidelidades da real consorte, e á real consorte o dever, sob pena de alta traição, de revelar ao rei as faltas que porventura houvesse commettido antes do casamento.
O povo inglez, vendo através d'esta lei o projecto de um novo casamento, desatou ás gargalhadas.
Ora Henrique VIII algumas vezes dizia rindo que ainda havia de cahir n'uma viuva. Chalaça do rei, porque a bem dizer a maior parte das suas mulheres não eram outra coisa. E não deixa de ser curiosa a coincidencia de que dois reis femeeiros, Henrique VIII e Luiz XIV, acabassem ambos por desposar uma viuva authentica, Henrique VIII Catharina Parr, viuva duplicada, de lord Nelvill e de lord Latimer; Luiz XIV a viuva Scarron.
Catharina Parr ia muitas vezes á côrte visitar a princeza Maria. O rei escolheu-a para sexta esposa, confiado em que, por ter já conhecido dois maridos, e contar trinta e seis annos, não prevaricaria extra-canonicamente no sexto mandamento como as outras.
O casamento fez-se um pouco á capucha. Sem embargo, Anna de Cleves assistiu e, longe de se mostrar pezarosa, gracejou sobre o caso.
—Que grande peso, disse ella, vai tomar Catharina Parr!
Anna de Cleves fizera um _calembour_, porque o rei estava descommunalmente obeso.
Posto de parte o _calembour_, a situação de Catharina Parr não era para invejar. Deviam passar-lhe pela imaginação os espectros das duas esposas decapitadas de Henrique VIII, tanto mais que, sendo Catharina partidaria de Luthero, os seus inimigos catholicos não deixariam de trabalhar para perdel-a.
E quasi o tiveram conseguido.
Henrique VIII, comquanto adversario do papa, zelava a orthodoxia dos dogmas. Succedêra que Catharina Parr fallára um dia com certa franqueza e favor a respeito da reforma, acabando por emittir o seu parecer ácerca da eucharistia.
Soube-o o rei e queixou-se a Gardiner de que a rainha tivesse a ousadia de pensar de maneira differente d'elle. Chegaram a formular-se officialmente artigos de accusação contra a rainha; e passou-se a respectiva ordem de prisão. Este documento cahiu, porém, da algibeira do chanceller, e foi encontrado por um partidario da rainha, o qual correu a mostrar-lh'o.
Catharina dirigiu-se immediatamente aos aposentos do rei, que, por ser esse o seu gosto, e para experimental-a, fallou de assumptos theologicos.
Catharina esquivou-se tenaz e artificiosamente a entrar na questão, dizendo:
—As mulheres estão sujeitas ao homem desde a origem do mundo. O homem foi creado á imagem de Deus, e a mulher á imagem do homem; é pois ao esposo que cumpre regular as opiniões da esposa. Mas, como quer que seja, o dever da mulher é adoptar cegamente os principios do marido. Quanto a mim, obriga-me um duplo dever, pois que tenho a felicidade de possuir um esposo que, por sua intelligencia e saber, póde illustrar não sómente a sua familia, mas até os mais eruditos espiritos de todas as nações.
O rei, muito lisongeado, respondeu:
—Por Santa Maria! sois mais sabia do que o doutor Kate, e estais mais no caso de dar que de receber lições!
Catharina Parr declinou o elogio por immerecido, dizendo ao marido que o seu unico empenho era distrahil-o por alguns instantes dos seus grandes trabalhos e soffrimentos.
Henrique VIII replicou com alegria:
—É pois assim?! Bem está. D'aqui por diante seremos dois bons amigos.
No dia seguinte, o rei e a rainha, completamente reconciliados, conversavam no jardim quando o chanceller chegou acompanhado de quatro homens, para prender Catharina.
O rei obeso rebolou-se para elle, e desfechou-lhe epithetos injuriosos.
Quando o chanceller sahiu corrido, a rainha esforçou-se por tranquillisar o rei.
Henrique VIII disse-lhe:
—Pobre tontinha! Nem tu sabes o que deves a este homem!...
Não sabia a rainha outra coisa! Mas a sua astucia feminil e a experiencia de um terceiro casamento seguram-lhe a cabeça sobre os hombros.
Desde esse dia o chanceller ficou desprestigiado aos olhos do rei.
E Catharina redobrou de amabilidades para com seu marido, servindo-o á mesa, curando-lhe carinhosamente as feridas que elle tinha na perna esquerda e cantando-lhe trovas, para o adormecer, quando o rei, insomnioso, difficilmente rebolia na cama a sua incommoda rotundidade.
Conta Pliego que Henrique VIII, sentindo avisinhar-se a morte, no anno de 1547, se despedira ternamente da rainha, recommendando-a aos grandes do reino, e ordenando que lhe dessem sete mil libras, todas as suas joias e vestidos, se quizesse tornar a casar.
Accrescenta ingenuamente o chronista castelhano: E a boa rainha não pôde responder pelo muito que chorava.
A sinceridade d'essas lagrimas avalia-se pela fogosa paixão que Catharina Parr desentranhou pelo almirante Thomaz Seymour, que era amante de Isabel, filha do rei e de Anna Boleyn. O almirante desposou a rainha viuva, mas os ciumes de Isabel e a inveja que sua cunhada, a duqueza de Somerset, tinha da rainha atormentavam-n'o grandemente. Catharina Parr morreu envenenada, segundo se diz. Havia dado á luz uma creança que não vingou, sem que se soubesse ao certo se era filha do rei ou do almirante, tão pouco tempo depois da morte do rei casára ella com o almirante.
Catharina Parr, a respeito de casamentos, lia pela cartilha de Henrique VIII. A terra lhe seja leve, já que os maridos o não foram.
O almirante teve motivos para sentir a morte da esposa, porque lhe arrebatou o rendimento annual de sete mil libras. Como compensação, mancommunou-se com os piratas e ia feito nas extorsões que elles praticavam. Enriqueceu. Vendo-se rehabilitado, quiz casar com a princeza Izabel, sua amante, talvez para conseguir que fosse entregue aos seus cuidados o joven rei Eduardo VI, sendo que estava usufruindo esta honra seu irmão o duque de Somerset, condecorado com o titulo de protector. O irmão e a cunhada, para cortar-lhe o vôo das ambições, perderam o almirante, accusado de cumplice nas extorsões dos piratas. O proprio duque assignou a sentença de morte do irmão, que foi decapitado.
Henrique VIII deve ter-se encontrado no outro mundo com as suas seis mulheres, que, se lá se julga melhor, como eu creio, do que cá em baixo, hão de tel-o visto condemnado pela justiça eterna.
As atrocidades sanguinarias que commettêra contra os catholicos e a bagagem dos seus vicios far-lhe-iam decerto grande carga.
Elle mesmo, ao expirar, se accusou de não ter poupado algum homem na sua colera, nem alguma mulher nos seus desejos.
Mas, como quer que fosse, a igreja catholica, inspirando-se na misericordia christã, deve perdoar-lhe, tanto mais que Henrique VIII, que depois de velho não cria no Purgatorio, deixou muitas missas com medo d'elle.
Eu até me sentia disposto a rezar um Padre-Nosso por alma de Henrique VIII, se me não lembrasse de que alfim deve já lá em cima ter recebido alguma compensação de haver sido casado seis vezes, quasi sempre com maior peso do que o que canonicamente era justo.
III
D. BEATRIZ DE PORTUGAL
I
Todos nós fomos litterariamente educados com a MENINA E MOÇA, de Bernardim Ribeiro, o mavioso livro das saudades. Temos de cór, pelo menos, as primeiras palavras d'esse livro galante e cavalheiresco: «Menina e moça me leváram de casa de meu pai para longes terras...» Todos nós nos costumámos a vêr na MENINA E MOÇA, de Bernardim, a infanta D. Beatriz de Portugal, filha do rei D. Manuel.
Diogo Barbosa Machado, na BIBLIOTHECA LUSITANA, deu curso á lenda, assignalando a fonte onde a bebêra. E digo _fonte_ para não desaproveitar um _calembour_, por isso que se trata da _Fuente de Aganipe_, de Faria e Sousa.
Por sua parte diz Barbosa Machado:
«Arrebatado de impulsos amorosos (Bernardino ou Bernardim Ribeyro) passava muitas noites entre a espessura e solidão dos bosques, explicando junto á corrente das aguas, com suspiros e lagrimas, a vehemencia de paixão tão violenta que o obrigou a emprehender impossiveis dedicando os seus affectos á infanta D. Beatriz, filha do serenissimo rei D. Manuel, como elegantemente o contou Manuel de Faria e Sousa...»
Costa e Silva, no ENSAIO BIOGRAPHICO-CRITICO, reproduziu a lenda d'esses suppostos amores do poeta, desventurosos por desiguaes. Conta-nos o seu desespero quando o rei de Portugal concedeu a mão da infanta ao duque de Saboya; o seu ermar solitario pela serra de Cintra, bradando ás penhas e entalhando no tronco das arvores o nome de Beatriz; finalmente, a partida do trovador para Saboya, sob o disfarce de peregrino, e o seu furtivo encontro em Saboya com D. Beatriz:
«Chegando alli depois dos trabalhos e perigos de tão longa jornada, indagou qual era a igreja onde a duqueza costumava ouvir missa, e esperando-a na porta, lhe pediu esmola quando passou. A duqueza, que logo o conheceu, apesar da differença do traje e do transtorno que as maguas e saudades haviam feito em suas feições, parou, e, dando-lhe esmola, lhe disse baixo em portuguez:
—Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»
Segundo a versão de Costa e Silva, Bernardim Ribeiro, recolhendo á patria, e voltando á serra de Cintra, ahi _terminou em breve os seus dias_.
Era natural, como aconteceu, que esta antiga lenda tão profundamente sentimental se impozesse á imaginação dos escriptores portuguezes que floresceram ao tempo de fazer-se entre nós a evolução romantica.
De facto, Garrett, no canto nono do CAMÕES, ensancha-a com felicidade na descripção de Cintra:
Tradição é que nomeado vate, D'alta beldade mysterioso amante, Entre as fragas erguêra a mansão triste, Onde cevou de tristes pensamentos O coração cortado de saudades. _Saudade_ pelas pedras entalhada Se lia em caracteres bem distinctos; E o nome de _Beatrix_, tambem gravado Na silice do monte, lhe responde, Como echo das endeixas namoradas Do cantor da soidão.
Garrett não podia esquecer o poetico episodio da partida de Bernardim Ribeiro para Italia:
Subito um dia, de bordão na dextra, Na opa de peregrino disfarçado Desce os montes da Lua, e mais erguidas Serras demanda; em romaria aos Alpes Parte, a levar o coração votado A quem talvez, na purpura, suspira Pelos andrajos do mendigo amante. Vel-o-ha, o objecto de suspiros tantos, De saudade tão longa, da romage Devota, mas só vêl-o, e adeus eterno, E para sempre adeus!... Crueis lhe vedam Mais que esse adeus. Voltou á patria, e morre.
Na respectiva nota da primeira edição do CAMÕES, Garrett dá como factos assentes o isolamento de Bernardim Ribeiro na serra de Cintra e a sua ida de peregrino aos Alpes. Na segunda edição, porém, revela duvidas a respeito dos derradeiros dias do poeta, dizendo que «eram a parte menos decifrada e decifravel do _enigma_ de sua vida» e desculpando-se com ter seguido no texto do poema a tradição mais vulgar.
No AUTO DE GIL VICENTE, representado com grande applauso no theatro da rua dos Condes, Bernardim Ribeiro inspira uma dupla paixão a Paula Vicente, filha de Gil Vicente, e á infanta D. Beatriz. A dedicação de Paula pela infanta vai até o ponto de sacrificar o seu proprio coração á paixão que a infanta nutre pelo trovador. Todo o entrecho d'esta peça inicial do moderno theatro portuguez é fornecido por um auto de Gil Vicente, de que a seu tempo nos occuparemos. O casamento da infanta realisa-se, e ella parte para Italia a bordo do galeão «Santa Catharina». Bernardim conseguiu ir a bordo dizer o ultimo adeus á infanta; mas el-rei D. Manuel chega pouco depois para se despedir da filha. Bernardim encontra-se n'uma situação desesperada, receiando comprometter a infanta e Paula Vicente. Prefere morrer a desacredital-as: precipita-se no Tejo.
O lance é de effeito para um final d'acto, que de mais a mais é o ultimo. E a responsabilidade historica de Garrett salva-se de algum modo, porque Bernardim Ribeiro póde não ter perecido no Tejo. Isto mesmo diz Garrett em nota á segunda edição do CAMÕES: «... Bernardim Ribeiro lança-se ao mar, no AUTO DE GIL VICENTE, mas nenhum _nuncius_, nenhum _koros_ veio fóra, como na comedia ou tragedia antiga, dizer ao publico: «Bernardim Ribeiro afogou-se com effeito; _nunc plaudite_.»
Ora em uma das annotações com que o AUTO DE GIL VICENTE sahiu impresso, escreveu Garrett:
«Em a nota E, ao canto nono do poema CAMÕES, no 1.º vol. d'esta collecção, pag. 275, se promette illustrar o ponto d'estes amores de Bernardim Ribeiro e da sua romanesca vida. Mas não me atrevo por ora a cumprir tal promessa. Aqui atirei com elle ao mar, porque me era preciso: e o publico disse que era bem atirado. É o que me importa. Se elle foi ou não a Saboya depois, como eu já cuidei averiguado, se andou doido pela serra de Cintra, tambem me não atrevo a certificar.—O que parece mais certo é que _não morreu de paixão_, porque depois foi feito commendador da ordem de Christo, e governador de S. Jorge da Mina, onde talvez morresse de alguma carneirada: materialissimo e mui prosaico fim de tão romantica, saudosa e poetica vida.
«Aprendei aqui, ó Beatrizes d'este mundo!»
No terceiro volume do ROMANCEIRO encorporou Garrett dois romances extrahidos da MENINA E MOÇA, de Bernardim Ribeiro: A AMA, AVALOR; e o soláo CUIDADO E DESEJO, que se encontra entre as eclogas do poeta, appensas á edição da MENINA E MOÇA, feita em 1852 pela empreza da _Bibliotheca portugueza_ (Lisboa).
Todas estas tres composições são precedidas de pequenos prefacios elucidativos.
Fica pois bem accentuada a grande influencia que a tradição poetica dos amores de Bernardim Ribeiro exerceu no espirito delicado e na imaginação romantica de Garrett. O caso, em verdade, não era para menos. Cintra, a formosissima Cintra, como tablado; como actores, uma princeza e um trovador. E depois ainda a corrente tradicional dos costumes trovadorescos: «não estava tão longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem enfado e acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores.»
Alexandre Herculano, no 3.º volume do PANORAMA, escreveu um artigo a respeito dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz. Acha escuro este problema historico, mas acceita a lenda. Lamenta que Garcia de Rezende, que tão curiosas informações nos legou sobre a partida da infanta para Saboya, se abstivesse, talvez por considerações palacianas, de tocar o assumpto. Cita Damião de Goes para mostrar que o casamento fôra mal recebido dos portuguezes, que não reconheciam no duque de Saboya qualidades nem de nascimento nem de posição para tomar por mulher uma filha do rei D. Manuel. E não lhe parece que estas razões fossem as unicas que imperaram no animo dos portuguezes para desestimar o casamento. Copía, em reforço da sua opinião, um codice da primeira metade do seculo XVI, existente na bibliotheca real, da qual transcreve os seguintes periodos com relação á viagem da infanta:
«... e a um domingo, dia de S. Miguel, de setembro do anno de 521, chegaram a Villa-Franca de Niça, porto do duque de Saboya, a uma hora depois do meio-dia; e assi das náus como da villa se fez grão festa d'artilharia. E o duque mandou pedir á infante, que não dormisse na nau; e ella se escusou de sair por aquella noite; e vendo o duque sua escusa, foi lá em pessoa com alguns gentishomens, e lhe pediu que com toda maneira saisse: ella o fez por conselho do conde, contra sua vontade, e de todos, e saiu com tochas; onde achou doze facas guarnecidas, para si, e para as damas, e alguns chibaos para os fidalgos, porque d'alli a Niça, onde era a povoação, pelo rio acima, era meia legua; e ahi foram ter. E a duqueza de Nemuns (_Nemours_) irman do duque, e mãe d'el-rei de França, que ahi estava, saiu fóra ao terreiro das casas, onde o duque pousava, a receber; e ahi se fizeram grandes ceremonias e cortezias. E alli foi com a infante para dentro, e assi a rainha por hospeda aquella noite. Ao outro dia pela manhã foram ouvir missa a um mosteiro de S. Domingos, pegado com as casas; e um cardeal, que ahi era, disse missa, e os benzeu...
«O duque é homem pequeno de corpo, e alvo; de rosto comprido, e fêo de tudo: tem um hombro mais alto que o outro, e é um pouco azumbado, e as pernas delgadas, e muito prudente. A este casamento, eram vindos um cardeal e tres bispos, e um marquez, e tres condes, e logo se tornaram. Em Niça estiveram oito dias, nos quaes alguns justaram, e o duque deu banquete aos portuguezes: e a cabo dos oito dias partiu com a infante para Piamonte: e á partida a infante se achou só em uma faca, com dous moços d'estribeira; e como ia de cá acostumada de andar d'outra maneira, achava-se corrida, e não soube que fazer, senão tornar-se ás lagrimas, porque a mór parte dos portuguezes eram já embarcados para se tornar. E alguns outros que por a servir aqui se iam acompanhar, não o consentiram, que assi lhes era ordenado do duque: e ao passar de uma ponte, uns cem alabardeiros lhes pozeram as alabardas nos peitos, e não consentiram que passassem ávante. As damas iam em chibaos d'aluguer, com varas nas mãos, sem nenhuma companhia d'homem, caindo a cada passo por seguir a infante pranteando e chorando sua orfandade, e a pouca honra e gasalhado que dos saboianos recebiam; e dizendo d'elle muitas pragas, e a pouca virtude e honra com que os tratava.»
D'estas passagens do codice tira Alexandre Herculano as conclusões que fazem ao seu proposito. Ainda explica a repugnancia da infanta em desembarcar por estar informada da figura despicienda do duque; mas para explicar a dureza com que Carlos de Saboya trata D. Beatriz, poucos dias depois de casada, sendo certo que empregára grandes esforços para obter a sua mão, recorre Alexandre Herculano á conjectura de que «a noticia dos amores da infanta com um cavalleiro portuguez teria chegado aos ouvidos do senhor Vallaison (Claudio) que revelaria a seu amo, depois das nupcias, o terrivel segredo que levára de Portugal, e porventura o receio de que entre os que na viagem a acompanharam existisse o seu rival, e de que alguma das damas o favorecesse.»
O quadro da desamoravel lua de mel, que a infanta D. Beatriz, segundo o author do manuscripto, tivera em Saboya, não obstante a tradicional formosura da infanta, contrastaria asperamente com as alegrias com que os esponsaes foram celebrados na côrte de Portugal, onde Gil Vicente fez representar a tragicomedia das CÔRTES DE JUPITER, um dos autos que, a nosso vêr, melhor caracterisam a funcção truanesca que Gil Vicente desempenhava no paço, pelas allusões pessoaes a personagens importantes que elle irrisoriamente converte em peixes,—baleia, raia do alto, çafio, etc.
Veremos porém até que ponto, graças a um auxilio poderoso, lograremos esmiuçar a verdade.
II
Em 1867 publicava Camillo Castello Branco o livro intitulado COUSAS LEVES E PEZADAS, e ahi, em nota á pagina 17, escrevia o seguinte: