Historias de Reis e Principes

Part 17

Chapter 172,382 wordsPublic domain

Edgar Quinet sentiu pulsar na igreja de Belem a alma navegadora do Portugal manuelino. São profundamente verdadeiras as suas observaçoes. De feito, todos os caracteres da vida do mar alli estão, em Belem. Cabos de pedra que ligam os pilares uns aos outros; altos mastros de mesena que sustentam as ogivas, os florões, as abobadas: a igreja é o navio que vai largar para os ousados descobrimentos. No claustro ha já espalhadas com mão profusa as primicias dos continentes recentemente descobertos: pendurados nos baixos relevos, os côcos e os ananazes; os macacos do Ganges trepando baloiçados pelos cabos; os papagaios do Brazil esvoaçando festivamente em de redor da cruz; elephantes de marmore que conduzem em triumpho a urna funeraria do rei Manuel. Uma igreja maritima, finalmente, com tão raro primor descripta por Quinet, erguida no proprio local d'onde Vasco da Gama partira para ir descobrir a India.

***

No dia 8 de julho de 1497 ninguem trabalhára em Lisboa, apesar de ser um sabbado. Toda a gente corrêra a vêr partir as naus do ancoradouro do Rastello. Eram quatro os navios que compunham a esquadra: _S. Gabriel_, nau-almirante, _S. Raphael_, _Berrio_, e uma barca com mantimentos.

Vasco da Gama tinha ido de vespera, com os seus companheiros, fazer vigilia na ermida de Nossa Senhora de Belem, fundada pelo infante D. Henrique. Ahi commungou pela mão de alguns freires do convento de Thomar. O vento norte, que no estio costuma soprar em toda a costa da peninsula, era favoravel á navegação.

No sabbado, logo pela manhã, encheu-se de povo o caes do Rastello. A multidão, ávida de sensações, esperava anciosamente que os navegantes sahissem da ermida. Finalmente Vasco da Gama e os seus companheiros assomaram á porta, com cyrios na mão. Seguiam-se-lhe os freires e os sacerdotes que da cidade tinham ido expressamente para dizer missa. O povo, em massa, fechava o prestito, respondendo á ladainha que os padres cantavam.

Havia n'este espectaculo o que quer que fosse de vaga tristeza, aliás justificada. Uma numerosa tripolação ia affrontar os perigos do oceano, lançar-se nas incertezas de uma navegação aventurosa.

Chegados junto aos bateis Vasco da Gama e os seus companheiros, o vigario da ermida, com voz solemne, proferiu uma allocução piedosa, acabando por lançar a absolvição.

«No qual acto, escreve João de Barros, foi tanta a lagrima de todos, que n'este dia tomou aquella praia posse das muitas que n'ella se derramam na partida das armadas que cada anno vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir: de onde com razão lhe podêmos chamar praia de lagrimas para os que vão, e terra de prazer aos que vêm. E quando veio ao desfraldar das velas que os mareantes segundo seu uso deram aquelle alegre principio de caminho, dizendo boa viagem: todos que estavam promptos na vista d'elles, com uma piedosa humanidade dobraram estas lagrimas: e começaram de os encommendar a Deus, e lançar juizos sobre o que cada um sentia d'aquella partida!»

Eram oppostos os juizos e as vozes que commentavam a empreza. Muitas pessoas se mostravam contrarias a ella. De modo que o _velho da Praia do Rastello_ representa uma prosopopêa historica quando exclama pela bocca de Camões:

Oh gloria de mandar! Oh vã cobiça D'esta vaidade, a quem chamamos fama! Oh fraudento gosto que se atiça C'uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho, e que justiça Fazes no peito vão, que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldade n'elles experimentas!

***

Mas Deus protegêra a audacia dos portuguezes, os mares abriram passagem á frota de Vasco da Gama, e a India, descerrando de par em par as portas crystallinas dos seus golphos, desde Cambaya a Bengala, inclinava, rainha do Oriente, a fulva cabeça, radiante de auroras, ao dominio colonial do nauta do Occidente.

As lagrimas choradas na praia do Rastello, quando a frota levantava ferro, vieram-nos devolvidas em perolas arrancadas ao oceano Indico no golpho de Manaar e nas costas de Ceylão.

A melancolia que avassallava os espiritos, na hora em que Vasco da Gama partiu, transmudára-se, só com passar pelo chrysol da India, no oiro luminoso de Quiloa, que mestre Gil Vicente ou outro qualquer notavel artifice do seculo XVI arredondára n'um disco—a famosa custodia dos Jeronymos—, tão bello como o sol, tão resplendente como elle.

E depois de terem dobrado duas vezes o Cabo das Tormentas, depois de terem vencido Adamastor duas vezes, as galés d'el-rei subiam em triumpho a corrente do Tejo, á volta do Oriente, e toda a alma portugueza vibrava de alegria e de orgulho na impaciencia dos animos e na avidez dos olhos.

Lá vêm galés Tejo acima! lá vêm as galés d'el-rei!

***

Por vocação ou educação, por qualquer d'estes dois factos que constituem toda a orientação do espirito, el-rei D. Luiz fizera-se marinheiro, passára no oceano os annos desenfadados da vida, impregnára a sua alma d'essa antiga tradição maritima, que fôra o maior florão de gloria da dynastia d'Aviz.

Infante de Portugal, como D. Henrique, tinha o culto da navegação, a religião do mar. No convez do _Pedro Nunes_ ou da _Bartholomeu Dias_, recordaria por noites de luar, ao som das aguas, toda a nossa epopêa maritima, de que esses dois nomes, o do inventor do nonio e o do descobridor do Cabo, eram como duas estrophes gravadas nos marmores eternos da Historia. Rei, constrangido a viver em terra como um marinheiro aposentado, dessedentava saudades contemplando o Tejo do seu miradouro da Ajuda ou o Atlantico do alto da bateria de Cascaes.

E fôra Cascaes, uma pequena villa de marinheiros, Cascaes, a patria do aventuroso piloto Affonso Sanches, que recebêra o extremo alento d'esse bom rei que tanto vivêra profissional e espiritualmente da nossa gloria maritima. Fôra o mar que soluçára em torno do seu athaude o primeiro cantico funebre, fôra o mar que, marulhando nos muros da cidadella, viera receber o seu espirito para o restituir a Deus.

***

Antes de entrar definitivamente no sarcophago de S. Vicente de Fóra, este rei marinheiro devia, se podesse resuscitar, querer descançar alguns dias no templo dos Jeronymos,—esse bello navio de pedra, ancorado na gloriosa praia do Rastello, d'onde Vasco da Gama partira. Fizeram-lhe a vontade, adivinharam-lhe os desejos. Deram-lhe, por uma semana, a melhor companhia que podia lisonjear o seu espirito. Alli jazem, se a nossa fé nos não atraiçoa, as cinzas do proprio Vasco da Gama, o primeiro almirante do mar das Indias, e de Luiz de Camões, o Homero de toda a vasta epopêa maritima no seculo aureo de Portugal.

E na sua capella silenciosa e monumental alli jaz Alexandre Herculano, o ultimo grande historiador das glorias de Portugal, o ultimo varão forte d'essa extincta raça de chronistas, que principiou em Fernão Lopes e se continuou em Azurara, Pina, Castanheda, João de Barros e Goes.

Para um rei como D. Luiz I, que amou o seu paiz na tradição mais saliente dos fastos nacionaes, nada poderia completar melhor a sua physionomia historica de rei marinheiro, do que esta posthuma _étape_ de alguns dias, na igreja dos Jeronymos, em caminho do pantheon de S. Vicente.

Se o rei podesse acordar por momentos do somno da morte, adormeceria de novo dôcemente, demorando o olhar embevecido nos cabos de pedra que ligam os pilares uns aos outros, e nos altos mastros de mesena que sustentam as ogivas, os florões, as abobadas...

XV

RAINHA E VIUVA

(Outubro de 1889)

Só faltava no vosso diadema, Que na côrte offuscou pompas e galas, Uma joia, uma bella e fina gemma, Das perolas irmã, e das opalas.

Era a lagrima santa, muda e calma, Que encerra em sua esphera crystallina Toda a magua que vai minando uma alma... A lagrima,—essa perola divina.

Rainha que choraes, e em regio manto Vos sentis mais viuva que princeza, Vosso vulto é maior! que o vosso pranto Engrandece, na dôr, vossa grandeza.

FIM

ERRATAS PRINCIPAES

Pag. 80, onde se lê—Francamente, a interpretação que o sr. illustre escriptor Theophilo Braga, etc.—deve lêr-se—Francamente, a interpretação que o illustre escriptor snr. Theophilo Braga, etc.

Pag. 125, linha 6, onde se lê—murabuths—, deve lêr-se—marabuths.

Como explanação ás ultimas linhas da pag. 131 e ás primeiras da pag. 132, importa accentuar que, embora a CATASTROPHE DE PORTUGAL se refira aos amores d'el-rei D. Affonso VI com _uma mulher publicamente exposta_ (Pag. 111 e 112), essa mulher só nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA apparece nomeada pela alcunha de—_Calcanhares_.

Pag. 189, linha 7, onde se lê—Et la frouchette de Camus—, deve lêr-se—Et la fourchette de Camus.

Pag. 206, linha 6, onde se lê—de Montmoreney—, deve lêr-se—de Montmorency.

Notas.

[1] Documento que encontrámos na Torre do Tombo, gaveta 25, maço 1.º, n.º 47, de fol. 184 a 187.

[2] Existente na Torre do Tombo, cella M, maço 1:104, fol. 381.

[3] Torre do Tombo, cella M, maço 1:163, fol. 495.

[4] Na HISTORIA DO INFANTE D. LUIZ, recentemente publicada pelo snr. José Ramos Coelho (1889) vem indicadas, de pag. 148 a 150, as razões que motivaram a discordia entre D. Luiza de Gusmão e D. Duarte de Bragança.

[5] O cadaver da rainha foi em 1666 transferido da igreja do Grillo para a de Corpus Christi; em 1691 foi mudado, dentro d'esta igreja, de um lugar para outro; em 1713 trasladaram-no da igreja de Corpus Christi para a do Grillo. Duas jornadas e tres mudanças. No principio d'este anno (1889) fez a terceira Jornada, do Grillo para S. Vicente.

[6] RECORDAÇÕES DE PORTUGAL.

[7] «Entre os pittorescos arrabaldes da cidade destaca-se pela sua melancolica belleza o sitio de Chapultepec. Na cumiada de uma collina de pequena elevação, a cinco ou seis kilometros distante da cidade, levantava-se n'outros tempos uma especie de castello. Era o lugar de recreio dos reis astecas, e do alto dos muros avistavam a sua grande cidade, e todo o valle em que ella assenta. Em torno d'este castello, pelas vertentes da collina, e n'uma grande extensão da planura, quasi occultava esta pittoresca vivenda uma floresta mui densa de elevados e corpulentos cedros (_cupressus distica_), que já n'essa época representavam muitos seculos. O antigo castello desappareceu, e em seu lugar se levantou com grande dispendio em 1785 um novo palacio, que tem servido de residencia de verão aos vice-reis e presidentes, de escóla militar e de observatorio astronomico.» Estas impressões de viagem foram colhidas por um portuguez, o snr. visconde de S. Januario, na sua missão diplomatica ás republicas da America do Sul (1878-1879).

[8] Já depois de escripto este artigo, que foi suggerido pelo livro de madame Carette, appareceu no GIL BLAS (de 25 de setembro de 1889) a cópia de um relatorio que o general Escobedo dirigiu ao general Porphirio Diaz, presidente da republica do Mexico, e que primeiro fôra estampado no NOVO MUNDO, jornal officioso do governo mexicano em Paris. O coronel Lopez, que ficára reduzido a viver do producto de uma casa de banhos que estabelecêra no Mexico, soffrêra durante vinte annos a accusação de traidor, que geralmente lhe era feita, e que sua propria esposa acreditou, porque, quando elle voltou ao Mexico, depois do fuzilamento de Maximiliano, ella esperára-o á janella, com um filho pequeno nos braços e, vendo-o chegar, gritára: «Tu és um traidor e eu não quero que esta creança seja o filho de um traidor». Dizendo isto, deixou cahir o filho á rua. Lopez tragára em silencio todas estas affrontas e injustiças, e só se resolveu a fallar, a pedir um testemunho rehabilitador ao general Escobedo, vinte annos depois! Escobedo respondeu officialmente com o relatorio, no qual declara que o coronel Lopez o procurara a 14 de maio de 1867 para lhe dizer que Maximiliano pedia que o deixassem embarcar, devidamente escoltado, no porto de Tuxpam ou Vera-Cruz, sob palavra de que jámais voltaria ao Mexico. Seria pois para occultar este acto do imperador, que Miguel Lopez teria guardado segredo. Lopez abonou a sua declaração com este bilhete, que Maximiliano lhe escrevêra, e cuja authenticidade o general Escobedo reconheceu: «Mon cher colonel Lopez. Nous vous recommandons de garder un profond silence au sujet de la commission dont nous vous avons chargé près du général Escobedo, car si ce secret était divulgué, notre honneur serait entaché. Votre très affectionné, _Maximilien_.»

Custa a acreditar que o coronel Lopez atravessasse silencioso vinte annos de descredito, mas, se assim foi, o seu nome está rehabilitado. E a fraqueza do imperador, na situação desesperada em que se achava collocado, não excede os limites da comprehensão humana, posto diminua ao perfil historico de Maximiliano o cunho da heroicidade, que o engrandecia na desgraça.

[9] Esta hypothese, que aventamos humoristicamente, tomou maior vulto no nosso espirito desde que, procedendo a averiguações, soubemos que só na peninsula iberica se diz que _o menino veio de França. Hay venido de Francia_, diz-se em Hespanha, e esta communidade de locução explica-se satisfatoriamente n'este caso, como em muitos outros modismos, adagios e gnomas, pelas relações frequentes, que sempre houve, entre os dois paizes da peninsula. Mas já nos Açores, que communicam menos facilmente com Portugal do que a Hespanha, comquanto sejam territorio portuguez, se não emprega a mesma locução. Na Terceira diz-se que _o menino veio do Pico_. Mostra isto, talvez, que os Açores não receberam a impressão do facto historico occorrido em Lisboa com a mesma insistencia e intensidade com que a recebeu a Hespanha, por ser nossa visinha, paredes meias.

As variantes de expressão, que vamos reproduzir, tendem a demonstrar que a locução portugueza proveio de um facto privativo a Portugal.

Em França diz-se que o menino nasceu nas couves, _qu'il est né dans les choux_; e até em algumas participações de nascimento se vê representada uma creança emergindo d'entre folhas de couve.

Em Italia a expressão é outra: que a mamã comprou um menino:—_che la mammá ha comperato un bambino_. Em Inglaterra a locução tem o mesmo sentido que na Italia: _to buy a baby_.

Na Allemanha ha uma phrase, que corresponde a uma lenda. A phrase é esta: _Der Storch bringt die Kinder aus dem Milchbrunnen_. (A cegonha traz os meninos do poço de leite). A lenda conta que as creanças jazem n'um poço, chamado—das creanças—, o qual é muito fundo. Se os meninos querem uma irmãsinha ou um irmãosinho, pedem á cegonha que os vá tirar do poço com o seu comprido bico, o que ella faz de noute, mettendo-os pela janella da casa, onde as respectivas mamãs os vão buscar.

End of Project Gutenberg's Historias de Reis e Principes, by Alberto Pimentel